domingo, 12 de junho de 2016

O IDÍLIO E OS PURITANOS
Em 1920, o Centro Acadêmico Onze de Agosto (Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) se mobilizou para homenagear o poeta Olavo Bilac (1865-1918) com um monumento. Depois de levantarem fundos com bailes, festas e doações privadas, os estudantes encomendaram a obra ao artista sueco William Zagid (1884-1952). A prefeitura definiu o final da Avenida Paulista (atual complexo viário Dr. Arnaldo) para colocação do monumento, inaugurado durante os festejos do centenário da Independência do Brasil. Lá estavam as figuras do poeta, do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), de uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e  de um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).
          Não demorou a se iniciar uma polêmica. A população se rebelou contra a obra: uns diziam que ela atrapalhava o trânsito, outros que era feia demais e havia aqueles puritanos de plantão que consideravam escandalosa a representação do Idílio. Em 1936 a prefeitura desmontou o monumento por causa de obras viárias e espalhou os grupos pela cidade; os apaixonados, entretanto, foram mantidos em um depósito de onde foram resgatados, imaginem, por ninguém menos do que o prefeito Jânio Quadros (1917-1992), que apreciava a obra. E lá foram os dois eternos enamorados para o bairro do Cambuci. Desta vez foi um morador indignado que se rebelou contra o casal: escreveu uma carta para todos os jornais paulistanos dizendo que o monumento era um “ataque à inocência de sua filha”. Adivinhem. Novamente o casal foi para o depósito da prefeitura.
Mais uma década de recolhimento até que o prefeito Faria Lima (1909-1969) resolveu colocar o casal no jardim do túnel Nove de Julho; porém, logo ficou demonstrado que aquele não era o jardim do paraíso. Foi a vez de um vereador se insurgir contra a escultura: alegava que era “obra do demônio”.
Cansados de tanta tolice e antes que as autoridades a recolhessem ao depósito, os estudantes (que haviam pago pelo monumento) resgataram a escultura e a levaram para a frente da Faculdade, no Largo de São Francisco, onde os enamorados encontraram, enfim, um endereço fixo.
         A população paulistana agradece. 
(Foto: Hilda Araújo.)

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