quinta-feira, 28 de julho de 2016

POMBOS-CORREIOS

O marechal Montgomery (Bernard Law Montgomery, 1º visconde Montgomery de Alamein, 1887-1976) conta em suas memórias que, em 1916, durante a batalha do Somme (I Guerra), o comandante de uma divisão precisava receber informações atualizadas da brigada que ia liderar o ataque. Concluiu-se que a forma mais eficiente e segura seria empregar um pombo-correio. Um soldado foi encarregado de transportar a ave e soltá-la assim que um oficial colocasse a mensagem na perna dela. O ataque ocorreu. O comandante aguardava notícias ansiosamente; todos procuravam localizar no céu o pombo-correio. Nada. Por fim o pombo apareceu. O comandante abriu o comunicado e pôde ler: “Estou completamente saturado de carregar esta maldita ave através da França”. 
Ave elegante, de plumagem discreta, o pombo tem uma participação ativa na história da humanidade e não apenas sujando monumentos. Faz parte do mito do dilúvio e da Arca de Noé. O patriarca bíblico teve certeza de que as águas haviam baixado depois que o pombo, que ele havia soltado, voltou com uma folha de oliveira. Era o sinal de que a cólera divina havia cessado e a tranquilidade retornara à natureza.
Há milhares de anos descobriu-se a sua principal característica: voltar sempre para o lugar em que vive. A partir de então os pombos começaram a ser criados e treinados para servir como correio. É importante saber que o pombo-correio nunca leva, só traz mensagens.
Atualmente, um pombo-correio (resultado de cruzamentos de espécies belgas e inglesas no século XIX) pode percorrer até 1.000 km em um dia e atingir velocidade superior a 90 km por hora. Para conseguir esses resultados as aves são alimentadas, criadas e treinadas cuidadosamente; todas são identificadas assim como seus proprietários, membros de clubes de columbofilia. O pombo torna-se um verdadeiro atleta. A atividade é bastante praticada em Portugal, Bélgica, Holanda, Alemanha e Brasil.
O símbolo da paz acabou envolvido nas guerras ao longo dos séculos. Nos tempos modernos trinta receberam medalhas por terem ajudado a salvar vidas de civis e militares durante os conflitos. O pombo britânico Cher Ami foi agraciado com a Croix de Guerre na I Guerra Mundial.
Em 1943 foi instituída a PDSA Dickin Medal, medalha em reconhecimento aos serviços relevantes prestados por um animal durante o conflito mundial. Maria Dickin foi fundadora da PDSA, instituição veterinária beneficente. A medalha de bronze tem duas inscrições: “Por Bravura” e “Nós também servimos”. O pombo-correio Winkie foi o primeiro animal a receber a honraria, sendo condecorado em 2 de dezembro de 1943. Ele destacou-se por “entregar uma mensagem em circunstâncias de dificuldades excepcionais e contribuir com o resgate de uma tripulação enquanto servia a RAF (Real Força Aérea) em fevereiro de 1942”.
Em 18 de outubro de 1943, os americanos preparavam o bombardeio de uma vila italiana para impedir que fosse tomada por alemães; estes, entretanto, já haviam abandonado o local, que estava ocupado por ingleses. Quando tentaram se comunicar com os americanos para cancelar o bombardeio, nenhum equipamento funcionou e então os ingleses mandaram GI Joe (USA43SC6390,) com uma mensagem. O pombo-correio voou 30 quilômetros em apenas 20 minutos, chegando a tempo para evitar o ataque à vila, salvando da morte por fogo-amigo um mil soldados ingleses. Ele recebeu a medalha Dickin PDSA. Quando se aposentou, GI Joe foi viver no Zoológico de Detroit (EUA), onde morreu com 18 anos.
Carro de transporte dos pombos-correios.
O exército americano durante a II Guerra levou uma unidade de pombos-correios para a Normandia. O herói, entretanto, foi o britânico Paddy: ele conseguiu levar em menos tempo para a Inglaterra mensagens codificadas sobre os avanços das tropas Aliadas após o Desembarque. Paddy partiu por último no dia 12 de junho de 1944, voou 515 quilômetros em 4h50 e chegou primeiro. Mereceu a medalha Dickin. Quando terminou o serviço militar, ele foi devolvido ao proprietário, capitão Andrew Hughes. Paddy morreu em 1954 com a idade de 11 anos.
Nem todos conseguiram. Em 2012 na cidade de Blethingley (Inglaterra), durante a limpeza da lareira um casal descobriu uma pequena capsula vermelha com uma mensagem codificada junto com os ossos de um pombo-correio. O texto destinava-se ao posto XO2 e contém 27 códigos, cada um composto por cinco letras ou números.
Os especialistas acreditam que a ave foi enviada pelas Forças Aliadas, após o Desembarque na França em junho de 1944. A mensagem, provavelmente, refere-se a informações sobre o progresso das operações. De acordo com a notícia publicada pela BBC em 2012, a mensagem secreta levada pelo pombo-correio há mais de meio século foi encaminhada a uma base de comunicação em Cheltenham para estudo dos analistas.



Foto: Hilda Araújo. Museu da II Guerra, New Orleans (EUA), 2013.


(Memórias do Marechal Montgomery. São Paulo: IBRASA, 1960).        

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