domingo, 28 de agosto de 2016

ERA UMA VEZ...

O Liceu Feminino Santista foi a primeira escola secundária feminina de Santos. A instituição foi criada em 5 de agosto de 1902 graças à iniciativa da educadora Eunice Caldas. Os estatutos foram aprovados em Assembleia Geral da Associação Feminina Santista realizada em 7 de junho de 1903. Antes de inaugurar o prédio próprio, na Rua da Constituição, 321, o Liceu Feminino funcionou nas instalações do Grupo Escolar Auxiliadora da Instrução e da Sociedade União Operária. O poeta Vicente de Carvalho escreveu a letra para o hino oficial da escola – “Hino às Mães”. Com o encerramento da Associação em 1977, o patrimônio foi transferido para a Mitra Diocesana, que entregou à Sociedade Visconde de São Leopoldo a direção e manutenção do colégio, agora com a denominação de Liceu Santista.
O Liceu era uma extensão da minha casa: educação e moral rígidas. Um muro de quase 5 metros protegia as meninas – especialmente dos meninos do Colégio Santista. Eu me interessava pelos garotos, mas jamais a ponto de escalar as paredes para ver uma carinha bonita. Preferia mesmo ir para casa, fazer os deveres enquanto ouvia rádio e depois ler na rede da área, comendo maçã verde.
Entrei no Liceu Feminino Santista em 1957 para fazer o 5º ano. Era uma espécie de preparatório para o Ginásio (no meu caso pura perda de tempo). A diretora do curso primário era Dona Zina de Castro Bicudo, uma senhora de cabelos brancos e voz suave que jamais se alterava. A primeira providência foi me encaminhar para um curso de religião para fazer a primeira comunhão, que se realizou alguns meses depois na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, bem em frente do colégio.
Devidamente catequizada e preparada para o ginásio, comecei a primeira série em 1958, apogeu das irmãs Brites e Delta de Azevedo – respectivamente diretora e secretária do Liceu. A única semelhança entre Dona Zina e Dona Brites eram os cabelos brancos – que a primeira usava em um coque e a segunda, esvoaçantes. Dona Brites estava sempre de preto e quando ficava nervosa – o que ocorria frequentemente – ela arrumava o cós da saia com as mãos.   
Na porta de acesso ao prédio, ela observava as suas ovelhinhas para ver se todas estavam limpas, com uniforme completo e – especialmente – se usavam combinação, como mandava o figurino e a decência. O posto de Cérbero era dividido com Dona Delta cujo corpo, com o passar dos anos, curiosamente começava a combinar com o nome dela. As cores preferidas eram o preto, branco e cinza – como os cabelos, que ela usava preso. Não me lembro de tê-la visto sorrindo.
E assim nos anos seguintes tive como mestres: Anne Marie Louise (Francês e Matemática), Ligia Fava Fonseca (Latim e Português), e Arina (Desenho), Maria de Lourdes Delgado (Desenho e Artes), Dona Zulmira (Português), Dona Laurentina (História), Dona Olga Melchert (Geografia), Rosinha Viegas e Rosa Lima (Educação Física), Dona Terezinha (Inglês), Dona Clélia (Matemática), Dr. Nicanor Ortiz (Português), Oraida do Amaral (Música), Maestro José Vetro (Música) e Vital (Ciências) e alguns poucos de que me esqueci completamente, mas que devem ter contribuído de alguma forma para minorar minha ignorância.

Dona Ligia Fava Fonseca era minha professora preferida. A de que menos gostava, Anne Marie Louise. Dona de olhos azuis perfurantes ensinava francês muito bem, mas fez da matemática algo torturante, especialmente pelo humor irônico com que feria aqueles que não entendiam suas aulas. Dona Zulmira lecionava Português e costumava dizer que seus olhos batiam no erro e a gente acreditava direitinho. Dona Clélia era a professora mais bonita do Liceu. Explorava sua semelhança com a Sofia Loren usando roupas que realçavam as formas arredondadas como a coleção de banlon (malha de fio sintético) que desfilava nos dias frios.


Fachada do Liceu. Foto provavelmente dos anos 1950.

Desfile de Sete de Setembro. Anos 1960,

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