terça-feira, 6 de setembro de 2016

         HISTÓRIA E TURISMO
          Durante uma viagem a Plymouth (Massachusetts) o jornalista norte-americano Tony Horwitz ficou surpreso com o nível de ignorância das pessoas sobre fatos históricos do próprio país. Plymouth foi o local onde o navio Mayflower aportou em 1620 e os peregrinos desembarcaram. Conversando com um guarda florestal, ele descobriu que muitas pessoas se surpreendem com a data, pois acham que os peregrinos chegaram à América em 1492 com Colombo. Apesar da réplica do navio inglês existente na baía, costumam perguntar se foi ali que as caravelas Santa Maria, Pinta e Niña aportaram.
         Horwitz estudou em escolas particulares, cursou uma universidade cara e especializou-se em História, como ele mesmo conta, entretanto, seus conhecimentos não iam muito além do básico. A descoberta motivou uma pesquisa sobre a ocupação da América que, na verdade, começou muito antes da chegada de Colombo, por volta do ano 1 000 da nossa era. “Como seria explorar esse Novo Mundo, não apenas em livros, mas em campo?” – perguntou-se Horwitz em determinado momento. Assim, ele iniciou uma jornada em busca da história dos primeiros europeus que desembarcaram neste outro lado do mundo até o desembarque dos peregrinos em Plymouth.
         O resultado dessa aventura está no livro “Uma longa e estranha viagem: rotas dos exploradores norte-americanos.” O livro é ótimo e divertido. O jornalista mescla as dificuldades da pesquisa que começou na Terra Nova, Canadá, onde procurou vestígios dos navegadores groenlandeses, com fatos históricos que ele vai alinhavando à medida que os separa das lendas.
         A versão americana da saga dos vikings refere-se a Leif Eiriksson (nada a ver com o ator de “Chaparral”, antigo mas nem tanto) e a versão groenlandesa trata de Bjarni Herjólfsson. O primeiro iniciou uma plantação de uvas e o outro com certeza não gostou da paisagem local; porém, é certo que eles foram os descobridores do Novo Mundo, pois em 1960 foi encontrado um sitio arqueológico com vestígios de uma aldeia viking em L’ Anse aux Meadows, na Terra Nova. A UNESCO reconhece o local como patrimônio da humanidade desde 1978.
A descrição que o jornalista faz da trilha dos vikings não incentiva viagens turísticas tanto pela paisagem inóspita quanto pela “simpatia” dos moradores locais; entretanto, as entrevistas, os fatos que ele recupera e as experiências pessoais – algumas desastradas, como a sauna índia em Conne River, povoado ao sul da ilha – tornam o livro muito agradável.
Quando terminou a pesquisa sobre os vikings, Horwitz iniciou um estudo sobre Colombo e sua herança antes de percorrer a rota do navegador genovês pela América Central. O jornalista encontrou 1.500 títulos relacionados a Cristóvão Colombo em várias línguas (agora deve haver bem mais); cerca de quarenta cidades, vilas e condados e duas capitais estaduais nos Estados Unidos (onde, aliás, ele nunca pisou) têm o seu nome, sem contar o Distrito de Columbia.
A nova jornada de Horwitz começou pela Hispaniola (Ilha Espanhola), hoje dividida entre Haiti e República Dominicana porque ninguém sabe em qual das setecentas ilhas das Bahamas Colombo desembarcou em 1492. O jornalista descartou Cuba por causa da dificuldade para uma excursão decidida com pouca antecedência e pelo fato de Colombo só ter passado ao largo da costa cubana. Como foi em Hispaniola que o navegador estabeleceu o primeiro posto avançado europeu na América (que ainda não tinha esse nome, claro), o jornalista comprou sua passagem para San Domingo. Continua.

Gravura de Theodore de Bry (séc.XVI/XVII).
Uma longa e estranha viagem: rota dos exploradores norte-americanosRio de Janeiro: Rocco, 2010. (A Voyage Long and Strange: rediscovering the New World) 

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