domingo, 4 de setembro de 2016

NAS SELVAS DO BRASIL
“Nas densas florestas tropicais do Rio de Janeiro, em outubro passado – primavera tropical – ouvi o canto de muitos pássaros que não pude identificar. O mais bonito de todos, porém, foi o de um sabiá da mata, de cor escura, que vivia próximo do chão, num tronco de madeira, mas que cantava no alto da ramada. À grande distância poder-se-ia ouvir a nota ressoante, demorada, musical, como de um sino, e de repassada ternura, que ele emitia no intervalo do canto. Pensei a princípio que tais notas fossem o próprio canto, porém, quando me aproximei, verifiquei que eram apenas fermatas, emitidas no intervalo de uma cantiga prolongada, de grande melodia. Nunca ouvi outra que me impressionasse tanto.”
A opinião é do naturalista, explorador, escritor, soldado e político Theodore Roosevelt (1858-1919) que participou da “Expedição Científica Roosevelt-Rondon”, entre o final de 1913 e início de 1914. Quando terminou seu segundo mandato presidencial, Theodore Roosevelt recebeu convites para conferências no Brasil, Uruguai, Chile e Argentina. O lado naturalista dele despertou e o ex-presidente norte-americano aceitou os convites, mas decidiu aproveitar a oportunidade para uma excursão científica pelo interior do continente, subindo o rio Paraguai em direção ao vale do Amazonas.
Theodore Roosevelt entrou em contato com a direção do Museu de História Natural de Nova York para saber se havia interesse da instituição em designar alguns naturalistas para estudar e recolher exemplares da fauna da região ainda pouco conhecida que ele pretendia percorrer. A proposta da excursão foi aprovada. O grupo que partiu dos Estados Unidos era formado pelo padre Zaham, os naturalistas George K. Cherrie e Leo E. Miller, um explorador ártico Antonio Fiala (difícil entender o seu papel nos trópicos) e o secretário particular Frank Harper, além de Jacob Sigg, soldado reformado na função de enfermeiro e cozinheiro. Kemit Roosevelt, filho do ex-presidente, juntou-se aos excursionistas no Brasil, onde já trabalhava na construção de pontes.
           No Rio de Janeiro, Lauro Müller, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, propôs que o objetivo da viagem se ampliasse e tivesse um caráter de exploração zoo-geográfica da quase desconhecida região do Oeste de Mato Grosso. Roosevelt aceitou e o grupo recebeu o reforço do então Coronel Cândido Rondon (1865-1958) e de outros auxiliares.
Theodore Roosevelt fez um relatório minucioso da expedição, com informações sobre o sertão brasileiro, a fauna e a flora, os usos e costumes dos índios parecis e nhambiquaras e da população que vivia praticamente isolada naquelas paragens. A narrativa, que foi publicada na forma de livro, nunca é cansativa. Ela revela também muito do que era o naturalista norte-americano, graças às observações pessoais que faz o tempo todo. Não esconde a admiração que sente por Rondon e seu trabalho ao longo de “quarenta e quatro anos explorando o planalto do Oeste brasileiro, como pioneiro do telégrafo e das estradas de ferro”. Ressalta sempre o trabalho pacificador de Rondon – o que não é pouco quando se trata do adepto da política do big stick – e o respeito que ele inspira aos índios.  
Em matéria de culinária, ele prova de tudo e aprecia as carnes mais exóticas; entretanto, se desmancha mesmo em elogios para a canja de galinha. Esporte? Descreve o entusiasmo dos índios para um jogo a que ele dá o nome de headball, pois a única regra do jogo é que “a bola não pode ser tocada com as mãos nem pés ou qualquer outra parte do corpo, a não ser a cabeça”.  
O relato do reconhecimento do rio da Dúvida (atualmente Teodoro), com 1500 quilômetros de extensão, é eletrizante tal os percalços que o grupo enfrenta na floresta. Foram 48 dias isolados na mata cheia de surpresas.
          A expedição geográfica (que começou em Assunção, no Paraguai, em 9 de dezembro de 1913 e terminou em maio de 1914 em Manaus) foi um sucesso e para conferir basta ler “Nas Selvas do Brasil”, de Theodore Roosevelt, publicado pela Edusp/Itatiaia em 1976. 
(Publicado em 15/8/2014.)

Sabiás alvoroçados: temporada de cantoria.


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