segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A ARTE DE PAGAR SUAS DÍVIDAS
E satisfazer seus credores sem desembolsar um tostão. Ah! Quem não quer essa receita? Foi por isso que o barão de Empésé resolveu resenhar a biografia de seu tio, que viveu “de fato como um homem que tem 50 mil libras de renda, se bem que nunca tivesse possuído de direito nem um tostão”, e publicar o sistema que o parente criara e testara ao longo de sua existência. O último pedido do tio aos 222 credores reunidos a seu pedido para a devida explicação para o não pagamento das dívidas foi de que não deixassem de comprar a obra que lhes serviria de guia para os futuros negócios.
Claro que nada disso é verdade. “A arte de pagar suas dívidas e satisfazer seus credores sem desembolsar um tostão” é uma obra satírica escrita, presumivelmente, por Émile Marco de Saint-Hilaire (1796-1887), e editada por Honoré Balzac que, desconfia-se, pode ter sido autor ou coautor da obra.
O sistema criado pelo tio espertalhão não passa de um manual para a prática de estelionato a partir da conquista da confiança do credor. Dois exemplos. Ele aconselha que se compre sempre de fornecedores ricos porque têm tudo de excelente qualidade e porque, se eles têm demais e o senhor não tem o bastante, “é um favor que se lhes presta, e ao senhor também, o de procurar restabelecer o equilíbrio e ninguém tem mais interesse nisso do que o senhor”. O cínico tio diz que o prejuízo será coberto pela clientela pagante que virá atraída pelo que viu o tratante consumir.
O espertalhão aconselha até mesmo na escolha do bairro para morar em Paris (século XIX), levando em conta a visita dos credores – quanto mais longe deles, melhor; na escolha, devem ser levados em conta os porteiros que, segundo ele, exercem um grande poder sobre o destino dos devedores (dizendo que estamos em casa quando não estamos ou que não estamos, quando estamos).
O tio também aconselha que é melhor dever 100 mil francos a uma só pessoa do que dever mil francos a mil pessoas. E para terminar, um dos aforismos do cavalheiro: “Fazer dívidas com pessoas que não têm o bastante é aumentar a desordem, é multiplicar os infortúnios; dever para pessoas que têm demais é, ao contrário, compensar as misérias e tender para o restabelecimento do equilíbrio social”.
      Um livro divertido e crítico. Uma leitura ótima uma semana de expectativas, mas lembrem-se que o sistema foi “criado” no século XIX e a sociedade, a economia e as leis mudaram muito desde então; portanto, o ideal é não usar o manual para se dar bem.

A arte de pagar suas dívidas e satisfazer seus credores sem desembolsar um tostão, de Émile Marco de Saint-Hilaire. São Paulo, Editora UNESP, 2011. O prefácio da edição brasileira é da professora Norma Wimmer (UNESP). R$ 36.00.

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