quinta-feira, 30 de junho de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO
Se você está pensando que estas são anedotas “picantes”, como se costumava dizer antigamente, esqueça. As aves destas histórias são carolas, monarquistas e patriotas. Com a descoberta da América e o desbravamento do Brasil, o debate na Europa girava em torno da identificação destas plagas como inferno ou paraíso.  Evidentemente, havia muitas divergências. As narrativas sobre os hábitos antropofágicos (entre outros) dos silvícolas brasileiros não ajudavam em nada os defensores da tese de paraíso.
  • ·        No meio desse debate, o padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1724) lançou em 1685 o livro A arte de criar bem os filhos na idade da puerícia. Em suas críticas, dizia que a nobreza portuguesa não ensinava aos filhos os preceitos cristãos “assimilados pelos filhos dos bárbaros do Brasil, por diligência dos padres missionários” e até pela fauna tupiniquim. O jesuíta lisboeta narra a existência por aqui de dois papagaios – um repetia “o credo de todo, sem errar” e outro “dizia a oração da Ave Maria”. E sem medo de se enveredar pelo exagero o educador diz que “em ocasião de perigo” quando uma das aves caiu nas garras de um gavião, ”foi a fé que lhe serviu de defesa”.
  • ·        No século XVIII, após ter governado a Bahia, o marquês do Lavradio, D. Luís de Almeida Portugal e Mascarenhas, mudou para o Rio de Janeiro onde assumiu o posto de vice-rei. O marquês tinha paixão pela Bahia e não gostou nem um pouco da mudança. Em sua correspondência ele diz que, ao saber de um papagaio que vivia repetindo vivas à Bahia, mandou comprá-lo imediatamente, instalando a ave em seu quarto junto à cama.  (Cartas do Rio de Janeiro, MARQUÊS DO LAVRADIO, Editora SESC/RJ, de 1978.)
  • ·        No fim da guerra da Tríplice Aliança, sob o bombardeio brasileiro, a população de Assunção (Paraguai) deixou a cidade, levando seus cães. Milhares de gatos famintos espalharam-se pelas ruas, devorando o que encontravam.  O chefe da legação norte-americana em Assunção, Ministro Washburn, conseguiu salvar da fome dos felinos nove papagaios, acomodando as aves em um grande poleiro e alimentando-os com pedaços de mandioca. Tudo ia muito bem até que um dos papagaios abriu o bico e gritou em bom português: Viva D. Pedro II. O ministro levou um susto, pois não era nada diplomático mostrar simpatias pelo Brasil naquelas circunstâncias. O papagaio, entretanto, repetiu o brado patriótico alto e bom som. A reação do ministro foi rápida. “Torça-lhe o pescoço imediatamente”, ordenou ao seu secretário, Mr. Meinke. O fato foi testemunhado pelo boticário inglês George Frederick Masterman e está em seu livro Siete años de aventuras en El Paraguay. Ele só não diz se Mr. Meinke cumpriu as ordens do chefe.

 



FONTE: Revista Nossa História.
HISTÓRIAS DE PAPAGAIO
Se você está pensando que estas são anedotas “picantes”, como se costumava dizer antigamente, esqueça. As aves destas histórias são carolas, monarquistas e patriotas. Com a descoberta da América e o desbravamento do Brasil, o debate na Europa girava em torno da identificação destas plagas como inferno ou paraíso.  Evidentemente, havia muitas divergências. As narrativas sobre os hábitos antropofágicos (entre outros) dos silvícolas brasileiros não ajudavam em nada os defensores da tese de paraíso.
  • ·        No meio desse debate, o padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1724) lançou em 1685 o livro A arte de criar bem os filhos na idade da puerícia. Em suas críticas, dizia que a nobreza portuguesa não ensinava aos filhos os preceitos cristãos “assimilados pelos filhos dos bárbaros do Brasil, por diligência dos padres missionários” e até pela fauna tupiniquim. O jesuíta lisboeta narra a existência por aqui de dois papagaios – um repetia “o credo de todo, sem errar” e outro “dizia a oração da Ave Maria”. E sem medo de se enveredar pelo exagero o educador diz que “em ocasião de perigo” quando uma das aves caiu nas garras de um gavião, ”foi a fé que lhe serviu de defesa”.
  • ·        No século XVIII, após ter governado a Bahia, o marquês do Lavradio, D. Luís de Almeida Portugal e Mascarenhas, mudou para o Rio de Janeiro onde assumiu o posto de vice-rei. O marquês tinha paixão pela Bahia e não gostou nem um pouco da mudança. Em sua correspondência ele diz que, ao saber de um papagaio que vivia repetindo vivas à Bahia, mandou comprá-lo imediatamente, instalando a ave em seu quarto junto à cama.  (Cartas do Rio de Janeiro, MARQUÊS DO LAVRADIO, Editora SESC/RJ, de 1978.)
  • ·        No fim da guerra da Tríplice Aliança, sob o bombardeio brasileiro, a população de Assunção (Paraguai) deixou a cidade, levando seus cães. Milhares de gatos famintos espalharam-se pelas ruas, devorando o que encontravam.  O chefe da legação norte-americana em Assunção, Ministro Washburn, conseguiu salvar da fome dos felinos nove papagaios, acomodando as aves em um grande poleiro e alimentando-os com pedaços de mandioca. Tudo ia muito bem até que um dos papagaios abriu o bico e gritou em bom português: Viva D. Pedro II. O ministro levou um susto, pois não era nada diplomático mostrar simpatias pelo Brasil naquelas circunstâncias. O papagaio, entretanto, repetiu o brado patriótico alto e bom som. A reação do ministro foi rápida. “Torça-lhe o pescoço imediatamente”, ordenou ao seu secretário, Mr. Meinke. O fato foi testemunhado pelo boticário inglês George Frederick Masterman e está em seu livro Siete años de aventuras en El Paraguay. Ele só não diz se Mr. Meinke cumpriu as ordens do chefe.

 



FONTE: Revista Nossa História.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

POLÍTICA DE PESO

Corria o ano da graça de 1958. Ela vivia feliz no Rio de Janeiro e nunca desconfiou que fosse envolvida em uma grande trama política. Embora tivesse um nome muito feio – na verdade correspondia ao seu aspecto físico que não a ajudava nada–, seu endereço era na Quinta da Boa Vista, bairro digno da realeza. Certamente, não era supersticiosa, mas seu destino começou a mudar (ela também) no dia 13 de fevereiro. Mal sabia que logo se tornaria uma celebridade internacional.
            Quando o Zoológico do Rio de Janeiro concordou em enviar Cacareco para o zoo paulistano, que ia ser inaugurado em 16 de março, reacendeu-se a velha rixa entre cariocas e paulistas. Aqueles descobriram que amavam Cacareco (que eles nem sabiam que era uma fêmea) e estes caíram de amores pelos encantos do “animalzinho” cuja permanência na pauliceia foi se estendendo com o apoio da imprensa.
E assim Cacareco acabou se envolvendo em uma trama política sem precedentes no ano seguinte, durante o processo eleitoral para a renovação da Câmara de São Paulo.  As eleições caíram como luva para a vingança dos descontentes moradores de um bairro que teve negado pelo Supremo Tribunal o pedido de emancipação política do município de São Paulo; os paulistanos, em geral, também não gostaram do perfil de nenhum dos 540 candidatos a vereador. Estava pronto o cenário ideal para o lançamento da candidatura do rinoceronte a vereador da Capital por um grupo de jornalistas paulistanos liderados por Itaboraí Martins.
 O jornalista Neil Ferreira (O Cruzeiro, de 24.10.1959) contou em uma reportagem quCacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido político definido - sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo - enfim, com sua candidatura lançada sòmente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida.”
Cacareco era filha de Britador e Terezinha. Não há registro da data de nascimento, que foi provavelmente final da década de 1940, no Rio de Janeiro. Ela teve uma irmã mais nova, a Pata Choca. A jovem pesava 900 kg e, na época, era solteira – uma coisa não estava relacionada à outra, necessariamente.
O currículo ressalta seu estilo playboy (playgirl seria mais correto) de vida e conta que ela esperava encontrar o seu príncipe encantado – um rinoceronte africano negro macho, “talvez uma Cacareca” (?). O material preparado pelo cabo eleitoral de Cacareco era bem atual: hobby: comer e dormir; lazer e esporte: não fazer nada; qualidades: carisma e simpatia (sic). Defeitos? Mudez e pouca visão. (Aqui, se esqueceram de dizer que era analfabeta.) Sonho: a África.
O rinoceronte pertencia ao PC – sigla de Partido Cacareco e o slogan da campanha era simplesmente Cacareco para Vereador. O bicho mobilizou São Paulo (para alegria dos cariocas) de tal forma, que mereceu até editorial de O Estado de S. Paulo. Às vésperas das eleições, os dirigentes políticos acharam melhor devolvê-la para o Zoológico do Rio para evitar comoções maiores.  Assim, Cacareco partiu às pressas para a Capital Federal, no dia 1.10.1959 e uma multidão foi se despedir do rinoceronte. (Sábio De Gaulle.)
Apesar da ausência, no dia 4 de outubro, a população mostrou sua desilusão com os políticos, votando em peso (hum!) em Cacareco. O rinoceronte recebeu quase 100 mil votos, que na época seriam suficientes para eleger pelo menos seis vereadores, segundo Antonio Costella, autor do livro Cacareco, o Vereador (Editora Mantiqueira). Cacareco, que teve uma carreira política sensacional e fugaz, morreu pouco tempo depois com dez anos, quando a idade média de vida de um animal livre é de meio século. Provavelmente, desgosto com o cenário político nacional.

(Publicado no antigo em 29 de março de 2009 – 50 anos da história.)


POLÍTICA DE PESO

Corria o ano da graça de 1958. Ela vivia feliz no Rio de Janeiro e nunca desconfiou que fosse envolvida em uma grande trama política. Embora tivesse um nome muito feio – na verdade correspondia ao seu aspecto físico que não a ajudava nada–, seu endereço era na Quinta da Boa Vista, bairro digno da realeza. Certamente, não era supersticiosa, mas seu destino começou a mudar (ela também) no dia 13 de fevereiro. Mal sabia que logo se tornaria uma celebridade internacional.
            Quando o Zoológico do Rio de Janeiro concordou em enviar Cacareco para o zoo paulistano, que ia ser inaugurado em 16 de março, reacendeu-se a velha rixa entre cariocas e paulistas. Aqueles descobriram que amavam Cacareco (que eles nem sabiam que era uma fêmea) e estes caíram de amores pelos encantos do “animalzinho” cuja permanência na pauliceia foi se estendendo com o apoio da imprensa.
E assim Cacareco acabou se envolvendo em uma trama política sem precedentes no ano seguinte, durante o processo eleitoral para a renovação da Câmara de São Paulo.  As eleições caíram como luva para a vingança dos descontentes moradores de um bairro que teve negado pelo Supremo Tribunal o pedido de emancipação política do município de São Paulo; os paulistanos, em geral, também não gostaram do perfil de nenhum dos 540 candidatos a vereador. Estava pronto o cenário ideal para o lançamento da candidatura do rinoceronte a vereador da Capital por um grupo de jornalistas paulistanos liderados por Itaboraí Martins.
 O jornalista Neil Ferreira (O Cruzeiro, de 24.10.1959) contou em uma reportagem quCacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido político definido - sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo - enfim, com sua candidatura lançada sòmente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida.”
Cacareco era filha de Britador e Terezinha. Não há registro da data de nascimento, que foi provavelmente final da década de 1940, no Rio de Janeiro. Ela teve uma irmã mais nova, a Pata Choca. A jovem pesava 900 kg e, na época, era solteira – uma coisa não estava relacionada à outra, necessariamente.
O currículo ressalta seu estilo playboy (playgirl seria mais correto) de vida e conta que ela esperava encontrar o seu príncipe encantado – um rinoceronte africano negro macho, “talvez uma Cacareca” (?). O material preparado pelo cabo eleitoral de Cacareco era bem atual: hobby: comer e dormir; lazer e esporte: não fazer nada; qualidades: carisma e simpatia (sic). Defeitos? Mudez e pouca visão. (Aqui, se esqueceram de dizer que era analfabeta.) Sonho: a África.
O rinoceronte pertencia ao PC – sigla de Partido Cacareco e o slogan da campanha era simplesmente Cacareco para Vereador. O bicho mobilizou São Paulo (para alegria dos cariocas) de tal forma, que mereceu até editorial de O Estado de S. Paulo. Às vésperas das eleições, os dirigentes políticos acharam melhor devolvê-la para o Zoológico do Rio para evitar comoções maiores.  Assim, Cacareco partiu às pressas para a Capital Federal, no dia 1.10.1959 e uma multidão foi se despedir do rinoceronte. (Sábio De Gaulle.)
Apesar da ausência, no dia 4 de outubro, a população mostrou sua desilusão com os políticos, votando em peso (hum!) em Cacareco. O rinoceronte recebeu quase 100 mil votos, que na época seriam suficientes para eleger pelo menos seis vereadores, segundo Antonio Costella, autor do livro Cacareco, o Vereador (Editora Mantiqueira). Cacareco, que teve uma carreira política sensacional e fugaz, morreu pouco tempo depois com dez anos, quando a idade média de vida de um animal livre é de meio século. Provavelmente, desgosto com o cenário político nacional.

(Publicado no antigo em 29 de março de 2009 – 50 anos da história.)


segunda-feira, 27 de junho de 2016

MÁQUINAS DE ESCREVER
A moça estava sentada ao meu lado escrevendo uma mensagem por um aparelhinho minúsculo. Os dois polegares movem-se loucamente. Ela está alheia ao barulho do trem, do movimento dos passageiros em torno e à voz impessoal que avisa a próxima estação.
Essa jovem munida de IPOD me faz refletir sobre várias coisas. A primeira: o fantástico salto tecnológico das ultimas décadas que tenho o privilégio de testemunhar. A evolução das velhas máquinas de escrever mecânicas, pesadas e barulhentas para o sistema elétrico – mais suave e discreto; depois foram desbancadas pelos computadores pessoais até estas maravilhas que cabem na palma da mão. E bastam os dois polegares para operá-la. Os jovens da minha geração faziam curso de datilografia para enfrentar adequadamente o mercado de trabalho. Não bastava escrever corretamente, era preciso ser veloz e conhecer o teclado (Qwerty) de cor.
Por incrível que pareça, o processo de seleção nas empresas em geral incluía um temível teste de datilografia. Um anúncio, publicado em A Tribuna de Santos, da primeira metade do século passado, incluía o desenho de uma mulher com os olhos vendados, datilografando em uma Remington. A marca da máquina dava nome á escola que funcionava na Praça Mauá, 42 e por onde, certamente, milhares de santistas passaram em busca de um certificado de datilografia, que ajudasse na hora de procurar um emprego.
A escola ficava nos altos do Bar Chic (quem falhasse nos testes sempre podia descer para esquecer seus males) e o responsável era o professor Moreira Júnior. Nos anos de 1970 (até hoje) ouvi sempre as pessoas se gabando de que conseguiam datilografar não sei quantas palavras por minuto.

Se aquela garota tiver alguma dúvida pode fazer, no mesmo aparelho, uma ligação para tirar as dúvidas ou entrar na web para pesquisar o assunto em algum site específico. Sem contar que a geringonça tira fotos profissionais, que podem ser enviadas na hora junto com a mensagem. Não sei o que ela escrevia (algo irrelevante ou extremamente importante?), mas naquele banco do metrô a caminho de algum lugar ela se sentia no seu escritório particular.  


sexta-feira, 24 de junho de 2016

SÃO JOÃO


        Os balões e fogueiras desapareceram para segurança de todos, embora, infelizmente, ainda façam fogueiras de nossas florestas. A música de Lamartine Babo e Mário Reis, felizmente, continua muito gostosa. 


Chegou a hora da fogueira!
É noite de São João...
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão...
Pensando na cabocla a noite inteira
Também fica uma fogueira
Dentro do meu coração...

Quando eu era pequenino
De pé no chão
Eu cortava papel fino
Pra fazer balão...
E o balão ia subindo
Para o azul da imensidão...

Hoje em dia o meu destino
Não vive em paz
O balão de papel fino
Já não sobe mais...
O balão da ilusão...
Levou pedra e foi ao chão...


Tela é de Anita Malfatti.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A BIBLIOTECA DE SANTANA

Uma biblioteca no meio de um parque que fica em um centro urbano bem movimentado e onde uma ou outra chaminé espeta o céu, lembrando os primórdios da industrialização de São Paulo. Trata-se da Biblioteca São Paulo, localizada no Parque da Juventude, bem na saída da estação do metrô Carandiru. Em seis anos e meio de existência teve dois milhões de visitantes. A maioria constituída por usuários de internet cujo acesso é gratuito. Ela dispõe de 30 mil títulos e o forte é literatura. Quem não quiser levar livros emprestados, pode ler no terraço que se abre para o Parque da Juventude criado para ameninar tristes lembranças. (O conceito de que aquilo que não se vê, não perturba a consciência parece funcionar para muitos.) Enfim, a região ganhou dois ótimos espaços que unem lazer e cultura. Para frequentar a Biblioteca São Paulo basta levar RG ou CNH, comprovante de residência, sorrir para a câmera e a carteirinha do leitor está pronta. Boa leitura.



domingo, 19 de junho de 2016

NOSTALGIA

Na Biblioteca Mário de Andrade, achei um livro sobre o hiperespaço escrito pelo físico norte-americano Michio Kaku, um dos pioneiros da teoria das supercordas. Embora haja passagens obscuras para mim – que não tenho a mais remota lembrança das aulas de física, o livro é maravilhoso. Só para deixar vocês com água na boca, vejam o que ele conclui:

 “(...) uma das mais profundas experiências que um cientista pode ter (...) é se dar conta de que somos filhos das estrelas, e de que nossas mentes são capazes de compreender as leis universais a que elas obedecem. Os átomos dentro de nossos corpos foram forjados na bigorna do nucleossíntese dentro de uma estrela em explosão eras antes do nascimento do sistema solar. (...) Somos literalmente feitos de poeira de estrelas. Agora esses átomos, por sua vez, fundiram-se em seres inteligentes, capazes de compreender as leis universais que governam esse evento.” Michio Kaku, “Hiperespaço” (Rocco, 2000)
            
        Assim, é pura nostalgia o que sentimos quando nos encantamos ao olhar o céu noturno com milhões de luzes piscando para nós.  
           
"Céu Estrelado sobre o rio Rohne",- Vincent van Gogh.
OUVIR ESTRELAS

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!"E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas. 
Olavo Bilac (1865-1918)

domingo, 12 de junho de 2016

O IDÍLIO E OS PURITANOS
Em 1920, o Centro Acadêmico Onze de Agosto (Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) se mobilizou para homenagear o poeta Olavo Bilac (1865-1918) com um monumento. Depois de levantarem fundos com bailes, festas e doações privadas, os estudantes encomendaram a obra ao artista sueco William Zagid (1884-1952). A prefeitura definiu o final da Avenida Paulista (atual complexo viário Dr. Arnaldo) para colocação do monumento, inaugurado durante os festejos do centenário da Independência do Brasil. Lá estavam as figuras do poeta, do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), de uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e  de um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).
          Não demorou a se iniciar uma polêmica. A população se rebelou contra a obra: uns diziam que ela atrapalhava o trânsito, outros que era feia demais e havia aqueles puritanos de plantão que consideravam escandalosa a representação do Idílio. Em 1936 a prefeitura desmontou o monumento por causa de obras viárias e espalhou os grupos pela cidade; os apaixonados, entretanto, foram mantidos em um depósito de onde foram resgatados, imaginem, por ninguém menos do que o prefeito Jânio Quadros (1917-1992), que apreciava a obra. E lá foram os dois eternos enamorados para o bairro do Cambuci. Desta vez foi um morador indignado que se rebelou contra o casal: escreveu uma carta para todos os jornais paulistanos dizendo que o monumento era um “ataque à inocência de sua filha”. Adivinhem. Novamente o casal foi para o depósito da prefeitura.
Mais uma década de recolhimento até que o prefeito Faria Lima (1909-1969) resolveu colocar o casal no jardim do túnel Nove de Julho; porém, logo ficou demonstrado que aquele não era o jardim do paraíso. Foi a vez de um vereador se insurgir contra a escultura: alegava que era “obra do demônio”.
Cansados de tanta tolice e antes que as autoridades a recolhessem ao depósito, os estudantes (que haviam pago pelo monumento) resgataram a escultura e a levaram para a frente da Faculdade, no Largo de São Francisco, onde os enamorados encontraram, enfim, um endereço fixo.
         A população paulistana agradece. 
(Foto: Hilda Araújo.)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

LIBERDADE
Quinta-feira gelada em São Paulo. Um dia perfeito para caminhadas despreocupadas. Paulistanos e turistas movimentavam as ruas do bairro da Liberdade. Na saída do metrô, a Praça da Liberdade é um ótimo lugar para aproveitar o sol anêmico; depois de observar as ofertas das barracas da feira, uma esticada até a loja da Rua dos Estudantes, que oferece maravilhosos produtos de porcelana japonesa entre outras coisas. Uma festa para os olhos. Depois pode se bisbilhotar na loja da esquina com a Rua Galvão Bueno, onde há de tudo que você não precisa, mas coisas bem interessantes.
Uma senhora me pergunta se eu sei que igreja é aquela na ponta da Praça. O nome é lúgubre, mas é a única lembrança local dos tempos coloniais: Santa Cruz das Almas dos Enforcados. (A curiosa não gosta do nome.) Para quem não sabe era ali nas redondezas que se executavam por enforcamento os criminosos. Em 23 de julho de 1821 as autoridades da cidade receberam uma ordem régia para levantar uma forca no lugar mais público desta cidade e vizinho do Cemitério da Glória, complementando a instalação da Junta de Justiça no ano anterior.  A Igreja mantém a capela dos Aflitos (1774), que ficava no meio do cemitério e foi vendido pela Mitra e loteado para residências.
Enquanto caminho pela Rua Galvão Bueno, lembro-me de que há algum tempo este é mais um bairro oriental do que propriamente japonês, pois os coreanos e chineses se misturam aos japoneses que ainda permanecem nesta parte da cidade. É mais uma região turística, com uma grande oferta de restaurantes e produtos típicos do Oriente. Há lojas especializadas em cosméticos (já vi uma fila enorme de jovens para entrar em uma delas).
          Agora, é a vez da Avenida Liberdade. Há várias casas antigas bem conservadas, embora tenham uso comercial. Ali fica a Casa de Portugal, fundada em 1935 por portugueses e brasileiros. O projeto do prédio é do Arquiteto Ricardo Severo, sócio de Ramos de Azevedo. A inauguração ocorreu no quarto centenário de São Paulo. Mais adiante outra igreja. A Catedral Metodista de São Paulo, de linhas sóbrias.
Enfim, o Largo da Pólvora – outro lugar histórico da cidade. Ali funcionava um paiol de pólvora até 1832, que as autoridades da cidade mandaram demolir em 1832, mas a população passou a chamar o lugar de largo da pólvora. O nome, entretanto, só foi oficializado em 1978 pelo prefeito Olavo Setubal. Atualmente, o jardim japonês foi criado por ocasião dos setenta anos da imigração japonesa e encontra-se abandonado.

Próxima parada: Estação São Joaquim do Metrô.

quarta-feira, 1 de junho de 2016


ORAÇÃO DA ÁRVORE

        Parque da Juventude, abril, 2016. HPA

Tu que passas e ergues para mim o teu braço,
Antes que me faças mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno;
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de agosto;
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa,
A tábua da tua mesa, a cama em que tu descansas
E o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira o teu berço e o aconchego do teu caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas, olha-me e não me faças mal.

Poeta português Alberto da Veiga Simões (1888-1954).

SEMANA DO MEIO AMBIENTE.

Observação: Vale a pena prestar atenção à bela peça publicitária da Unilever "Adeus, Floresta", na TV.