domingo, 22 de outubro de 2017

Madonna del Lume 

Domingo, San Francisco. Saio sem roteiro para descobrir a cidade que é estrela de tantos filmes famosos e amada por quase todos que a conhecem. Assim, o som de uma banda musical pode nos levar para uma festa que celebra a participação de imigrantes sicilianos na formação da sociedade de San Francisco. Trata-se da festa da Madonna del Lume, protetora dos pescadores e marítimos em geral, e que tem origem em Porticello (Palermo, Sicilia).
Em 1935, as famílias dos pescadores sicilianos de San Francisco organizaram uma associação (Madonna del Lume Society) junto à paróquia de S. Pedro e S. Paulo em North Beach tanto para preservar essa herança cultural como homenagear a santa. A festa anual acontece na primeira semana de outubro, quando é eleita uma rainha entre as jovens da comunidade que desfila num cortejo precedido por uma banda, bandeiras, membros da paróquia. A imagem da Madona encerra o séquito.
Tudo muito diferente das procissões do meu tempo de criança em Santos, em que os participantes levavam expressões graves, usavam roupas escuras e falavam baixinho. Neste acompanhamento, todos estão alegres, descontraídos, usam roupas coloridas. Eles saem da igreja, passam pela Washington Square e seguem em direção ao Fisherman’s Wharf. No sábado, eles promovem uma procissão de barcos, que termina com uma cerimônia sob a ponte Golden Gate.

Eu vou para Chinatown. 




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O MUNDO DE TÁXI
Se na Europa o viajante tem o conforto dos trens conectados a linhas de metrô para ir ou sair de aeroportos, nos Estados Unidos, a situação é diferente. Felizmente, os norte-americanos inventaram o shuttle, serviço de transporte bem mais barato do que táxi (geralmente vans), e que deixa o passageiro no hotel. Entretanto, em alguns lugares o serviço é disponível em horários que não são adequados (às 6 horas, às 13h etc.) e o jeito é usar táxi ou similares. Não se esqueça de que a praxe nos Estados Unidos é pagar a corrida e acrescentar de 15 a 20% de gorjeta.
Esse momento pode ser desfrutado como uma parte bem interessante do passeio seja qual for a cidade. Desta vez peguei vários táxis (algo incomum nos roteiros europeus) e me vi sendo conduzida por motoristas de diferentes nacionalidades e todos muito satisfeitos com a nova vida que encontraram nos Estados Unidos, embora o trabalho seja exaustivo. O segredo é a oportunidade, que encontram nesse país feito de imigrantes. Assim, conheci um chinês, um vietnamita, um camaronês, um iraquiano, um indiano e um armênio.
O chinês mostrou-se o mais nervoso de todos e resmungou muito com os percalços do trânsito (muito bom por sinal) em Honolulu. O vietnamita falou com saudade das belezas do Vietnã. Nenhum ressentimento com o passado trágico entre o país de nascimento e o adotivo. O indiano surpreendeu-se quando elogiei o cinema da Índia. O iraquiano, quando soube que ia de San Francisco para Las Vegas de avião, me aconselhou a economizar dinheiro, usando o shuttle que servia os hotéis da região. O camaronês acha Las Vegas uma fantasia no meio do deserto, comentou a derrota da seleção nacional para o Brasil em 2014 e ainda estava estarrecido com a chacina que matara 59 pessoas no início da semana.
Um deles quando soube que eu era do Brasil suspirou nostálgico pela Xuxa. Xuxa? Foi-se o tempo em que falavam de Pelé ou de Reinaldo, mas Xuxa? Céus!
O armênio? Este não era de falar muito. Trânsito livre até o aeroporto, onde encontramos um imenso congestionamento para chegarmos ao terminal da empresa aérea que me traria de volta a São Paulo. Foi só então que perguntou para onde eu ia e pude perguntar a nacionalidade dele.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O MAGO
Ele chegou ao hotel às 6h30 a bordo de um yellow cab. Um senhor negro, talvez 50 anos. Dei a direção, ele disse OK e partimos. Acho que a conversa começou quando ele percebeu que eu estava admirando o nascer do sol em Los Angeles. “Belo dia”, comentou e, então, a jornada que prometia ser enfadonha tornou-se inesquecível. Perguntou de onde eu era e, como todos ao saberem da minha procedência, exclamou: “Hum, Brazil!”. Fico curiosa para saber o que querem dizer, mas temo a resposta. Em seguida quis saber da situação econômica do país. Disse que não era muito boa, mas o problema maior eram os políticos e emendei comentando que também não entendia como os Estados Unidos elegeram Donald Trump. O “homem” é louco e foi uma estupidez a eleição dele, uma pessoa despreparada. Elogiou Obama e demonstrou confiança na volta dele à presidência, já que é jovem.
Perguntei se ele era da Califórnia. Não, de uma pequena cidade do Texas. Gosta de Los Angeles, mas pretende voltar para a terra natal quando se aposentar, porque lá todos se conhecem e se cumprimentam nas ruas, vão à mesma igreja, às festas com boa música e ótima comida. Eu observei que em New Orleans as pessoas também se cumprimentam quando passam umas pelas outras. Ele se entusiasmou: “Ah! Conhece New Orleans! Lugar maravilhoso! Ótima música, ótima comida!”
Caímos num congestionamento matinal mesmo numa hight way. Volta a elogiar a vida na cidade pequena e diz que o problema das pessoas resume-se a três coisas – SGU, iniciais em inglês de pressa, ganância e coisas desnecessárias. Ele diz que é preciso repensar o estilo de vida, que deve ser simples para se usufruir melhor da existência. E para se viver melhor são essenciais disciplina, paixão e tolerância. Quando peguei a caneta para anotar, ele se surpreendeu: “Vai escrever o que eu disse?” Ele parecia satisfeito.
Ele morou em muitas cidades e se entusiasma quando descobre que meu destino é San Francisco. Adora a cidade, relembra a canção de Tony Bennet – cantor que ele aprecia e, de repente, me diz que também canta e para provar solta a voz no melhor estilo de Bennet. Vegas? Vai sempre por lá visitar o irmão. “A senhora sabe aproveitar a aposentadoria. Quero fazer o mesmo quando me aposentar.” E ele sonha, imitando os sotaques de cada lugar... Quer ir à Itália (“buon giorno”), França (“bon jour”), à Espanha (“buenos dias”) e então quer saber o que tem de bonito no Brasil. Sinuca de bico – mas cito a Floresta Amazônica e, naturalmente, Rio de Janeiro. Ah! Ele se entusiasma para valer (“mulheres muito bonitas”), mas é nesse momento que ele me surpreende e me conquista definitivamente ao cantar “Garota de Ipanema”.

Nem precisa dizer que foi a melhor viagem de táxi que fiz na vida – e já fiz muitas! Quando chegamos ao meu destino, ele me deu várias dicas de San Francisco e desejou boa viagem. Agradeci e fiz questão de saber o nome dele. Joel, disse modestamente. Espero que Joel tenha uma ótima aposentadoria, volte para a cidade natal, frequente muitas festas e viaje bastante. Aliás, ele foi o único taxista norte-americano que encontrei nas minhas duas estadas naquele país. Não senti o tempo passar nem me preocupei com o valor da corrida. Valeu cada centavo de dólar. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


ESTRANHO ENCONTRO


        Terry Allen (1943) assina a escultura do executivo que não consegue tirar a cabeça do escritório e o poeta Philip Levine (1928-2015) escreveu o poema "Corporate Head" que completa a obra, que fica no prédio no Ernst & Young Plaza, 725 S. Figueroa Street, Los Angeles. 

Foto: Hilda Prado Araújo, 19/10/17.
They said
I had a head
for business.
They said
to get a head
I have to lose
my head.
They said
Be concrete
& I became
concrete.
They  said,
go, my son,
multiply,
divide, conquer.
I did my best.

domingo, 15 de outubro de 2017

DIA DO PROFESSOR

            Dona Branca foi minha primeira professora (Escola Portuguesa/Santos). Foram tantos os mestres ao longo da vida escolar que seria impossível, depois de tantos anos, lembrar-me de todos – e todos tiveram importância na minha formação de um modo ou de outro. Minha homenagem Zina de Castro Bicudo (Geografia), Lígia Fava Fonseca (Português e Latim), Ana Maria Luisa (Francês), Itagiba (Filosofia), Monsenhor Manuel Pestana (Cultura Religiosa) e José de Sá Porto (Cultura Brasileira).

Excerto do poema de Álvaro de Campos

“Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!”

Tela de Almeida Júnior (1850-1899): Pinacoteca do Estado de São Paulo.

sábado, 14 de outubro de 2017

REPRESA HOOVER E O GRAND CANYON

De repente vejo a Represa Hoover, construída entre 1931 e 1936, entre os estados de Nevada e Arizona. Aliás, vejo um pequeno pedaço porque desde 11 de setembro de 2001 é área de segurança.  Foi o maior projeto do governo dos Estados Unidos e teve dupla finalidade: controlar o regime do rio Colorado, que no final de seu percurso corta uma região desértica, e dar emprego aos americanos afetados pela Grande Depressão. O Colorado é um dos principais rios do sudeste dos Estados Unidos, nasce nas montanhas Rochosas, percorre 2.330 km, banha sete estados americanos e dois mexicanos. Há evidências de que foi ocupado pelo homem há oito mil anos; mas os europeus só o encontraram no século XVI.
 
 Quando a construção do reservatório foi autorizada, um contingente de 10 a 20 mil trabalhadores mudou para Nevada, onde o governo criou um acampamento. Quando a obra começou as companhias envolvidas construíram Boulder City, próxima a Las Vegas. Aliás, Boulder City é a única cidade de Nevada em que o jogo é proibido. Outro lugar destinado aos trabalhadores foi Williamsville –que os operários chamavam de Ragtown. Em julho de 1934 havia 5.251 pessoas trabalhando na obra. Durante todo o período de construção registraram-se 112 mortes associadas à represa.
A represa fica no caminho para o Grand Canyon, um desfiladeiro esculpido pelo rio Colorado e afluentes ao longo de dois bilhões de anos. Foi encontrado pelo explorador espanhol García Lopes de Cárdenas em 1540 e, pelo que se sabe, a expedição de John Wesley Powell foi a primeira a vencer as corredeiras do Colorado no Grand Canyon, considerado uma das sete maravilhas naturais do mundo (a baía da Guanabara é uma delas) desde 1991.

 O desfiladeiro tem 443 km de extensão e em alguns pontos 29 km de largura; faz parte do Parque Nacional do Grand Canyon, criado em 1919, e é uma das primeiras áreas protegidas dos Estados Unidos. O presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) foi um dos seus defensores:
 "O Grand Canyon me enche de admiração, está além de comparação, além da descrição, absolutamente sem paralelo no vasto mundo... Deixe esta grande maravilha da natureza permanecer como agora é e não faça nada para estragar a sua grandeza, sublimidade e beleza. Você não pode melhorá-la... Mas o que você pode fazer é mantê-la para os seus filhos, filhos de seus filhos e todos os que virão depois de você, como a grande visão que cada americano deve ver”.
Realmente, uma visão única de grandeza aliada à beleza.  
Arizona, 5 de outubro de 2017. 


sexta-feira, 13 de outubro de 2017


 A CAMINHO DA FAMA
       Chega-se a Hollywood de metrô. Para a fama o caminho é mais longo e muitas vezes sem saída. Quando se desembarca na Estação Hollywood Vine, encontra-se o cenário pronto: o ambiente inclui um palco de cada lado, duas câmeras prontas para entrar em ação e rolos de filmes forrando as paredes. Tudo muito criativo. Ao sair já se pisa na calçada da fama que cobre toda extensão do Hollywood Boulevard. Dez passos e a brincadeira torna-se maçante. Difícil achar seu astro predileto. É preciso ser muito fanático para sair procurando. E assim você caminha distraída sobre uma constelação de estrelas quase tão extensa quanto a Via Láctea.
Há cerca de vinte anos um grupo de empresários e moradores de Hollywood tem se dedicado à revitalização da região. Pelas calçadas do bulevar uma multidão se acotovela enquanto os veículos com turistas passam de um lado para o outro. Meu destino: Museu de Hollywood. Um caminho repleto de lugares marcantes da história do cinema norte-americano. Como o Teatro Egípcio construído em 1922 por Sid Grauman, um showman, e Charles E. Toberman, empresário ligado aos negócios imobiliários. Fez tanto sucesso que em 1926 Grauman investiu na construção do Teatro Chinês, inaugurado em 1927. Famoso por seu pátio com assinatura e a impressão de mãos de grandes astros de Hollywood. Carmen Miranda está lá. É bom saber que ela não foi esquecida. Há até a Carmen Miranda Square.
Enfim, o Hollywood Museum! Ele funciona no prédio que pertenceu a Maksymilian Faktorowicz (1872-1938), um imigrante polonês que chegou a Nova York com a família em 1904, quando adotou o nome de Max Factor. Em 1908 se estabeleceu em Los Angeles, com uma barbearia e usou sua experiência europeia em cosméticos primeiro para atender às necessidades de atores e depois ampliou para o show business. Entre seus clientes destacavam-se Pola Negri, Gloria Swanson, Mary Pickford, Claudette Colbert, Jean Harlow, Joan Creawford, Lucille Ball e Marilyn Monroe, frequentadoras do salão que ficava próximo do Hollywood Boulevard.


Nem é preciso dizer que fez um grande sucesso. Max Factor com suas pesquisas e desenvolvimento de produtos revolucionou o conceito de maquiagem. Max Factor tornou-se uma das maiores marcas no mundo dos cosméticos. Em 1991 a empresa foi adquirida pela Procter & Gamble que, há alguns anos, deixou de comercializar a marca nos Estados Unidos.
O Museu de Hollywoodocupa a casa que ele mandou construir em 1928. O arquiteto S. Charles Lee assinou o projeto. O edifício art-déco só ficou pronto em 1935.
Na recepção, uma senhora com ares de Gloria Swanson (“Deuses vencidos”) vende os ingressos e explica o roteiro a ser seguido. A visita é um passeio pela história do cinema e da televisão, através de objetos, roupas, manequins, fotos e filmes. São dez mil itens. Duas estrelas se destacam: Jean Harlow e Marylin Monroe – ambas são obra de Max Factor. Uma joia inestimável: o maravilhoso carro de Jean Harlow.
Várias salas reproduzem os ambientes em que as estrelas eram maquiadas ou simplesmente descansavam. Os equipamentos usados para torná-las deusas nas telas são também uma oportunidade para descobrir o quanto a indústria de cosméticos evoluiu.
Roupas usadas por artistas de ontem e de hoje nas telas ou em cerimônias do Oscar também se espalham pelos três pavimentos do museu. Numa vitrine reluzem os sapatinhos vermelhos de Dorothy – personagem de Judy Garland no filme O Mágico de Oz. No porão, reúnem-se os heróis e vilões dos filmes de suspense e terror, inclusive “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme.

        O Museu fica em 1660 N Highland Ave, Hollywood. Funciona das 10 às 17 horas. Fotos em cor: HPPA, setembro 2017. 
Foto internet: J. Harlow e o carro que se encontra no Museu.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CIDADE DOS ANJOS
Meu interesse por Los Angeles é nenhum, mas a rota para o Havaí é obrigatoriamente por lá e pensei no que poderia me interessar. A cidade foi fundada em 4 de setembro de 1781 com o nome de Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Angeles del Río de Porciúncula, sob o reinado de Carlos III (1716-1788) da Espanha e o governador da colônia era Felipe de Neve. O México conquistou a independência em 1821. Aos poucos o lugar foi atraindo os Estados Unidos e não demorou a ocorrer a guerra ente os dois países (1846-1848) e que terminou com um tratado que garantiu aos americanos a Califórnia e Los Angeles. A Califórnia foi incorporada à União em 1857.
Com quase três milhões e oitocentos mil habitantes, Los Angeles é a segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos depois de Nova York. É sem dúvida um importante polo cultural. Um passeio por downtown, pela praia de Santa Monica, Hollywood (por que não?)... Para quem não dirige é importante saber que o sistema de transporte público é muito bom. A passagem de ônibus custa USD 1,75 (preferenciais pagam USD 0,75), mas a máquina não dá troco, portanto, o ideal é comprar o cartão e abastecer com créditos. A boa notícia é que no metrô, o equipamento dá troco. O valor da passagem é o mesmo.
        
Que tal começar pelo início? Sobrou pouca coisa do Pueblo original que nos dias atuais se estende por Olvera Street, perto da praça dominada pela Pacific Station (Amtrack e metrô). Num sábado à tarde, o clima é de festa e pode-se facilmente pensar que se está em algum lugarejo do México – feira, comida, música e muitos imigrantes saudosos de suas origens, além de descendentes que mantém as raízes, se misturam pelo “pueblo” que também atrai turistas. No início de outubro já podia se observar os preparativos para a celebração do dia dos mortos. Na praça, as atividades giram em torno do coreto muito bem conservado e o entorno tem algumas casas históricas. A mais antiga é a Villa Adobe, onde funciona um museu.


        Portanto, não se engane com as placas em downtown que indicam o Centro Histórico nas imediações da Spring Street. Ali, é outra história. Na Spring, belos prédios mostram uma arquitetura simples e elegante do século passado. No final, encontra-se o Central Market com várias opções de comida – desde hambúrguer até comida vegetariana e mexicana; salsichas alemãs e pasta. Servem bebida alcoólica. Numa das entradas, um ótimo sanduiche de filé com um molho especial e chope. Entretanto, para quem frequenta o Mercado da Cantareira em São Paulo, o de Los Angeles é de uma pobreza franciscana, especialmente, em variedade de frutas e legumes!
        Downtown passa por um processo de recuperação. Há por exemplo, uma área dedicada à venda de diamantes e joias em geral. As vitrines faíscam.
         O Performing Arts Center of Los Angeles County merece uma visita e os programas culturais são de alta qualidade. Ali encontram-se o Walt Disney Concert Hall, Dorothy Chandler Pavilion (1964), Ahmanson Theater (completando 50 anos de atividade) que recebem cerca de dois milhões de pessoas anualmente. 

Sem dúvida o que chama atenção é a arquitetura do Walt Disney Concert Hall, um babado que acho de grande mau gosto. Foram necessários 16 anos e USD 274 milhões para construir Walt Disney Concert Hall, obra do arquiteto canadense Frank Gehry. A casa de espetáculos foi ideia de Lillian Marie Bounds Disney (1899-1997) para homenagear o marido, falecido em 1966. Ela iniciou a campanha com a doação de USD 50 milhões. De todo jeito vale conferir. A obra causou problemas para os vizinhos e teve que ser ajustada. Há quem ame. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017





Por melhor que seja a viagem ou a aventura, 
“There is no place like home”, como já disse 
Dorothy (Judy Garland, 1922-1969) em 
“O Mágico de Oz” (1939).



segunda-feira, 18 de setembro de 2017



FÉRIAS DA COMPANHIA.
Até 10 de outubro.


PRIMAVERA DE MUSEUS

Um bom programa para o início da nova estação: o diretor cultural do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, Edson Santana do Carmo, fará palestra sobre "A História que os livros não contam". Será dia 21 às 16 horas. Endereço: Rua Frei Gaspar, 280, Centro, São Vicente (SP). 




domingo, 17 de setembro de 2017



Santos, 16 de setembro de 2017. Foi um dia muito especial. Reunião dos ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS (1967-1987) no Petit Verdot, a adega gourmet de José Rodrigues, grande jornalista que comandou durante anos a sucursal do Estadão em Santos. Muito bom reencontrar dois pioneiros – Flávio Ribas GAZETINHA e Itamar Miranda para contar histórias do início do jornal há 50 anos. E haja história. 



           Já vou dizendo que não sou saudosista, mas as lembranças são importantes para se ter parâmetros para o presente e para o futuro, para definirmos o que mudar ou o que manter em nossa vida. Hoje faz 30 anos que o jornal CIDADE DE SANTOS fechou e quis escrever alguma coisa no blog sobre o diário. A memória, entretanto, costuma pregar peças e mistura muitas vezes fatos e cria outros que nos surpreendem de forma assustadora ao percebermos que não foi bem assim que as coisas se sucederam. Então, se alguém discordar do que escrevi, não foi por querer, mas talvez um truque da memória. Devo confessar que nos últimos anos enjoei do jornalismo, como marinheiro de Mishima que enjoou do mar, mas de forma alguma me arrependo da escolha que fiz e a experiência no jornal CIDADE DE SANTOS foi fundamental na minha vida pessoal e profissional. Muitos colegas daquelas duas décadas já se despediram e entre eles minha homenagem especial a João Sampaio, Argemiro de Paula, Eduardo Leite, Roberto Peres e Reinaldo Sassi – grandes amigos, profissionais e mentores.Enfim, tudo tem o seu tempo e o do nosso querido diário passou. (Publicado no Facebook, 15 de setembro de 2017.)

HOMENAGEM 

Rubens Fortes ERRE é uma personalidade única na história do jornal. Assinava A TOCA, uma coluna com críticas bem humoradas dos fatos políticos e esportivos do momento. Ia à redação no final da tarde e seu bom humor, sua inteligência ágil sempre surpreendiam até os mais escolados com as peripécias que o tornaram famoso no CIDADE DE SANTOS. Continua afiado como sempre. Uma das vítimas foi Fernando Allende – repórter, cronista social e de automobilismo.  Mantinha em sua mesa um arquivo pessoal guardado a sete chaves. Numa folga, Allende fez uma limpeza geral e quando foi embora a lixeira estava repleta de material velho, inclusive um livro de patologias médicas ilustrado. ERRE recolheu parte dos rejeitos. “Depois, quando ele deixava a gaveta aberta, pastas, relises, livretos voltavam para a gaveta, discretamente” – conta o brincalhão, que observava as reações da vítima. “Dava para perceber quando achava a velharia, olhava, olhava... Sabe quando a pessoa tem a sensação estranha, pô, já não tinha jogado isso fora? Aí rasgava bem rasgado o material que teimava em sair do lixo e descartava. Algumas vezes, guardava de novo, carinhosamente!”. Allende percebeu a brincadeira, quando o office-boy lhe entregou o tal livro de patologias médicas. O que o garoto não esperava foi o palavrão... HELOISA COIMBRA, repórter novata, foi quem conseguiu enfrentar ERRE com muito garbo. Numa festa de fim de ano em que sorteou como amigo secreto o ilustre colunista, deu-lhe um presente inspirado. Teve o trabalho de recortar várias edições da TOCA e colar numa longa tira, formando um rolo de papel higiênico. ERRE jura que guarda até hoje para casos de emergência. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


Santos, 15 de setembro de 1987/2017.

OBITUÁRIO DE UM JORNAL

Sempre que um jornal encerra suas atividades quem perde mais são os cidadãos – muito mais que os funcionários – porque os jornais são indispensáveis para a circulação de informação na sociedade. Há 30 anos, depois de fazer parte da vida da Baixada Santista por 20 anos, circulava pela última vez o jornal CIDADE DE SANTOS, propriedade do grupo FOLHA DA MANHÃ.
Um discreto anúncio na primeira página informava aos leitores a decisão do grupo FOLHA:
“Com a edição de hoje CIDADE DE SANTOS interrompe sua circulação. Os assinantes recebem com este exemplar uma carta pessoal sobre o ressarcimento do valor do saldo de sua assinatura. CIDADE DE SANTOS agradece aos seus leitores e anunciantes a atenção que sempre lhe foi dispensada. Aos nossos funcionários, o nosso agradecimento e a certeza de que todos os seus direitos trabalhistas serão inteiramente atendidos. A Direção.”
A reportagem de última página tinha um título ambíguo: “Esta cidade está abandonada. É o fim.” 

A decisão causou a dispensa de 120 funcionários entre os quais 64 jornalistas. O dia 14 de setembro foi bem estranho. Com um gosto amargo. Todos sabiam que preparavam a última edição do jornal e que o ponto final colocado na matéria tinha um significado mais profundo. Depois dele só haveria o silêncio das máquinas de escrever, das prensas, dos carros de distribuição e, sim, até do leitor que não teria mais como dar sua opinião (boa ou má) sobre o que lia.        
O dia 15 parecia normal. Todos compareceram como se fosse mais um dia de trabalho como tantos outros; contudo entre uma lágrima e outra, um sorriso tristonho, restava apenas esvaziar gavetas, reler recortes... Alguns desceram para o Alvorada, outros para o Paulista chorar as mágoas e tomar cerveja mais cedo. O que fazer? Sim, o que fazer? Uns poucos tinham 20 anos de casa, outros eram novatos e a maioria percorrera boa parte da história do jornal. Aquele foi um dia dedicado às recordações do que se havia feito e às avaliações sobre como o jornal contribuíra para a cidade. O vazio que deixaria...
Evidentemente, havia todo um lado sentimental construído no cotidiano da redação, das viaturas ou das reportagens. Construiu-se um folclore em torno de algumas pessoas e de lugares específicos da sobreloja do número 26 da Rua do Comércio, onde pontificou a Praça da Paz Universal – que em algumas ocasiões lembrava mais Berlim em 1945, mas em vez de bombas choviam caralhos – que me perdoem os mais sensíveis.
O arquivo, único local do jornal aberto ao público, era especial. Ali reinava Eduardo Leite e uma turma da pesada – Erasmo Luna, Marcílio Araújo e Júlio César. Eduardo tinha um dom especial – paciência num ambiente em que o estresse era o padrão. Havia pelo menos dois motivos que, em geral, levavam os jornalistas até lá: pesquisa e um papo com Edu. Apreciador de música erudita e bom cinema, dono de um humor refinado, ele tinha uma rotina que incluía a leitura de uns oito jornais, selecionava o material para o uso da redação e escrevia uma coluna de efemérides. O atendimento dos jornalistas e do público era feito pelos arquivistas. Era também no arquivo que o pessoal ia resolver seus problemas, acertar as diferenças e até namorar. Edu tudo via e nada via. Eduardo Leite foi um dos “pais fundadores”.

Mais adiante estava o Departamento Fotográfico – nome pomposo para um reduto estritamente masculino em que reinou por muitos anos Francisco Rubio PACO com seu inseparável charuto; mais tarde assumiu o pupilo Itamar Miranda, outra lenda do jornalismo fotográfico de Santos. No final do corredor, abriam-se as portas para a Redação com o “Aquário” dominando o salão, que também dava guarida à Secretaria
O jornal CIDADE DE SANTOS era democrático no sentido verdadeiro da palavra. Ali estavam representadas todas as tendências políticas, esportivas e religiosas, que conviveram sem rancores. Antônio Ággio Jr., em seu depoimento para Rubens Fortes ERRE há cinco anos, lembra que “Nunca pedimos atestado ideológico a ninguém. Nenhum colega jamais precisou dar explicação de atos e pensamentos pessoais, embora Santos fosse centro político-ideológico nevrálgico aos olhos da Revolução. Aliás, a militância de vários deles era notória, mas nada tinha a ver com suas obrigações profissionais, cumpridas religiosamente. Nenhum foi preso ou coagido por quem quer que seja, pelo menos enquanto Freddi e eu dirigimos o jornal, mesmo sob a plena vigência do famigerado Ato Institucional (AI-5) de triste memória”.


E que eu saiba em nenhuma ocasião as convicções ideológicas pessoais foram postas em questão. Costuma-se dizer que éramos uma família, mas que ninguém se iluda. Como em toda família houve brigas e desentendimentos; mágoas e ressentimentos, mas no frigir dos ovos havia um consenso sobre a importância da informação e do leitor porque a notícia estava acima de tudo. 
Enquanto em muitas empresas a cúpula incentiva atividades sociais para melhorar o relacionamento dos funcionários, na Rua do Comércio, as pessoas se encarregavam de organizar festas, viagens e passeios embora o esporte preferido fosse a derrubada de garrafas de cerveja pela cidade. Elaine Saboya criou um clube do livro e nos apresentou ao Clube de Cinema de São Vicente.
Da minha parte lembro-me de quatro históricas viagens ao Rio de Janeiro – uma das quais começou com um acidente de carro na Via Dutra que não impediu o trio a bordo de prosseguir para a Cidade Maravilhosa e terminar com muitas histórias para relembrar, não é, Zé? Havia as festas de aniversário do jornal (uma delas teve algumas cadeiradas) e de fim de ano. Houve uma época em que São João foi incluído no calendário, mas não vingou talvez por causa do vocabulário pouco convencional de alguns participantes.
Não faltaram paixões, romances, casamentos e até algumas separações. Ao todo foram cerca de catorze casamentos.

Como diz o poeta “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. (Fernando Pessoa)

BASTIDORES

“Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar”... (Chico Buarque)

Ao abrir o jornal todas as manhãs o leitor se informa do que ocorre no mundo, sente-se feliz ou não, às vezes expressa seus sentimentos em Cartas à Redação; alguns preferem telefonar, mas a maioria simplesmente joga o jornal no lixo ou guarda para alguma função menos nobre. O que o leitor ignora são as dificuldades que o jornalista enfrenta para conseguir a informação ou fazer reportagens. Bem, isso no tempo em que o profissional saía em campo para fazer o trabalho que hoje se faz quase sempre por telefone. E até por e-mail.
Quando os ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS se reúnem, há sempre uma infinidade de histórias contadas e recontadas, que podem até enjoar os mais jovens, porém, sempre trazem boas lembranças aos envolvidos, direta ou indiretamente. Selecionei apenas algumas que mostram o espírito da equipe do famoso periódico.

FLAVIO RIBAS é mais conhecido por GAZETINHA, apelido que recebeu porque era correspondente em Santos da Gazeta Mercantil (1920-2009). Formado em Direito, foi para o jornalismo a convite de amigos e se tornou um daqueles profissionais que cavam notícia e cultivam fontes. Foi também chefe de reportagem, período em que às 18 horas, quando as máquinas de escrever estavam a mil por hora e uma nuvem de fumaça pairava sobre a redação, costumava tirar o relógio da parede e passar entre as mesas “incentivando” a moçada: “olha a hora, olha a hora”.  ,

ZEZÉ GONÇALVES – profissional de primeira linha, querida e respeitada entre os colegas. A grande paixão: Chico Buarque. Podia reclamar, mas nunca deixou de cumprir as missões que lhe eram atribuídas. O melhor exemplo de profissional que vai além dos limites: recebeu a pauta para cobrir um campeonato de xadrez e o fato de desconhecer o jogo não a intimidou, só a incentivou. O resultado foi tão satisfatório, que ganhou uma coluna de xadrez que se tornou popular. Os enxadristas a adoravam e a convidaram para participar de um campeonato. Declinou do convite com garbo sem que nenhum deles desconfiasse que ela não jogava. Esse é o verdadeiro espírito do jornalismo – escrever bem sobre tudo, mesmo que não domine a matéria.


JOSÉ ALBERTO PEREIRA SHEIK cobriu sindicato, porto e comércio exterior. Foi convidado pelo comandante Waldir da Costa Freitas para ir ao Polo Sul com a equipe do navio oceanográfico Professor Besnard do Instituto Oceanográfico da USP. O editor aprovou a viagem na companhia do fotógrafo Itamar Miranda. Tudo pronto, quando na véspera o editor deixou o cargo e o substituto cancelou a expedição, apesar de todas as argumentações apresentadas não apenas pela dupla. Resultado: motim a bordo do CIDADE DE SANTOS. Inconformados, os dois embarcaram para a Antártica. Foram demitidos. Aliás, a demissão se deu via rádio, em pleno Atlântico Sul, quando Pereira foi passar a primeira matéria. Na hora, decepção e tristeza; mas, cá entre nós, quantos jornalistas têm no currículo uma demissão via rádio em pleno Atlântico?

HILDA PRADO ARAÚJO  Plantão de sábado à noite (talvez 1975). Fui à assembleia do Sindicato de Trabalhadores em Pedreiras cuja sede era em um sobrado da Avenida São Francisco, perto da Rua D. Pedro II. Quando o comércio fechava, a prostituição corria solta em toda a região. O carro do jornal me deixou no local e subi até o auditório repleto de trabalhadores. Enquanto buscava um lugar para me acomodar, ouço o secretário gritar lá da mesa: “Dona, queira se retirar. Isso aqui é uma casa de respeito. Saia já.” Todos se viraram para ver quem era a ousada “trabalhadora da noite” que invadira a reunião. Nem me abalei; identifiquei-me, observei o constrangimento da diretoria e sentei antes mesmo de ouvir o pedido de desculpas, renovado mais tarde quando conversávamos sobre as decisões da assembleia. Foi inusitado e bem engraçado. 

HILDA, AGORA VAI! – Não lembro em que ano aconteceu – talvez 1976. O jornal preparava uma edição especial de Carnaval e lá fui eu entrevistar a diretoria do Bloco Agora Vai – que saía no sábado anterior à festança nacional. Marquei entrevista com o presidente em uma noite de ensaio para conversar com os foliões – era um bloco masculino. Eles se reuniam em um sobrado da Rua Senador Feijó, na Vila Matias. O segurança não me deixou entrar. Expliquei que tinha entrevista com o diretor, mas ele não se impressionou com o fato. O cronista social (Emanuel Leon) que estava no carro veio ver o que acontecia e se dispôs a subir para falar com o diretor sem que o segurança se opusesse. Quando voltou, disse que eu estava autorizada a entrar. As escadas terminavam no canto do salão imenso onde os foliões me recepcionaram com uma vaia fantástica. Parei surpresa e chocada porque não via nenhum motivo para aquela falta de educação. Uma porta se abriu e o diretor pediu silêncio; explicou que eu era jornalista e estava lá para escrever sobre o bloco. Depois de se desculpar, informou-me que mulheres eram proibidas nos ensaios. O AGORA VAI!  se tornara um bloco gay.

CACHORRADA  Recebi a pauta para uma matéria sobre a apresentação da Banda dos Fuzileiros Navais em algum lugar da cidade. O problema é que o jornal do dia já trazia uma reportagem completa sobre a banda: entrevista com o maestro, músicos; tratou do repertório e do roteiro de apresentações.  A mim coube ir ao local, certificar-me que o espetáculo acontecera, fora um sucesso ou não e que ninguém morrera no decorrer do evento. Para isso poderiam ter escalado um foca – pensei com meus botões. Cheguei, vi e ouvi. Um ótimo espetáculo, um sucesso enorme, mas pouca coisa para escrever que já não estivesse na edição do dia. Até que percebi um membro estranho entre os militares, bem comportado e tratado com muito respeito, digamos, até com carinho. Fui lá tomar satisfações com o comandante sobre aquela presença inusitada. Tratava-se do PASEP, o cachorro de estimação da Banda que aparecera um dia no quartel (Ilha das Cobras) e fora adotado imediatamente, com direito ao rancho e lugar garantido nas viagens. Só não tinha direito a soldo. Assim, PASEP salvou meu dia e fiz uma matéria que escapou da mesmice; entretanto, um amigo ex-fuzileiro não me perdoa até hoje; mas a vida é sempre assim, um dia é da banda e outro, do cão. É bom que se diga que a Banda dos Fuzileiros Navais é excelente; em 2009, apresentou-se em Paris nas comemorações doo Ano França-Brasil e em 2011, no Festival de Edimburgo, Escócia.

ESTRANHO VÍCIO Diagramadora, ela até hoje não suporta a história ouvir falar da história. A página de Variedades já estava fechada (pronta) quando o editor chegou com uma matéria com foto. “Tinha que entrar” porque era sobre uma homenagem ao jornal e o prêmio fora entregue a ele. Corre-corre para refazer tudo, substituindo a matéria com foto de um filme que ia estrear naquela semana, enquanto o motorista aguardava para levar o material para São Paulo. No dia seguinte, o resultado até poderia ter agradado, caso ela não tivesse se esquecido de trocar a legenda e, assim, sob a foto do garboso editor segurando o troféu lia-se: O estranho vício da Sra. Wardt (1971) – referente à foto do filme. Suspensão para a amiga. 

ADALBERTO MARQUES, repórter fotográfico, chegou entusiasmado à redação porque descobrira que índios do Litoral Norte de São Paulo realizavam uma festa tradicional em segredo (quase). Em português claro: festa pagã. Durante dias ele tentou convencer o editor a cobrir o evento. João Sampaio não gostava de dizer não e saiu pela tangente: se achar um repórter disposto a passar o réveillon no mato... Foi assim que Adalberto, eu e João Gonçalves (motorista) deixamos Santos na véspera de Ano Novo em direção à Ubatuba para a tal festa. Nem precisa dizer que ninguém na região sabia do que se tratava. Afinal, ela era secreta. Não voltamos de mãos vazias. Outra matéria com uma resistente comunidade indígena justificou nossa viagem.

ANTONIO AGGIO JR. – “Uma das visitas ao CIDADE, que mais emocionaram Lenine, Freddi e a mim foi a de Edgard Frederico Leuenroth (1881-1968) em 1968. Figura mítica, autor da primeira greve operária registrada no Brasil nos idos de 1917 e fundador dos únicos jornais anarquistas que aqui já existiram, nós o considerávamos a expressão máxima do libertário nestas plagas. Aos nossos olhos, ele, sim, era o paradigma do idealismo, pois não lutava para substituir uma ditadura por outra mais feroz e sanguinária. Mesmo enfermo, viajou de São Paulo a Santos para dar um abraço que nos levou às lágrimas. Deve ter sido de despedida, pois Leuenroth não demorou a falecer.” (Depoimento ao ERRE em 2012)




Portas fechadas. O Arquivo do jornal, onde o público podia ler os jornais da semana.  (Foto: mais de 2017.)

PAUTEIROS E PAUTAS

 Repórter vive de pautas de pautas que ele recebe, cria ou que outros sugerem, inclusive o público (leitor, ouvinte e telespectador). Evidentemente, grandes matérias podem simplesmente cair no colo dele.
Assim, o dia do repórter pode ser bom ou mau de acordo com a pauta. Quando comecei no jornal CIDADE DE SANTOS (1967), eu era brindada quase todos os dias com pautas sobre casas de benemerência. Mas logo passei a repórter especial, com missões mais importantes, inclusive uma coluna sobre os bairros da cidade que dava grande visibilidade ao jornal. Subi morros, frequentei favelas, ouvi queixas e reivindicações de todos os tipos da população desafortunada. Recebi pautas de todos os tipos. Entrevistei políticos, artistas, atletas, intelectuais e, principalmente, gente anônima que me deu muito mais prazer do que “celebridades”.
Havia aquelas pautas fatídicas que saltavam da gaveta quando o calendário marcava 1º de Janeiro, Dia das Mães, Finados e Natal.  (O primeiro bebê do ano, a mãe do ano, limpeza dos cemitérios e os velhinhos dos asilos.)
Minha primeira cobertura de enchente foi no Vale do Ribeira, onde a chuva intensa provocara deslizamentos e o fechamento da “rodovia da banana”. Estávamos eu e Mário Taddei, o repórter fotográfico, em uma F-100 que não conseguia chegar ao local em que os motoristas se encontravam atolados. Foi a primeira e única vez em que hesitei, mas só até ouvir Mário resmungar que o jeito era ir andando. Então tirei as sandálias e, com nojo, mergulhei os pés na lama. Depois disso cobri inúmeras enchentes na Zona Noroeste de Santos e em Cubatão – com água na cintura em plena Avenida Nove de Abril ou na Vila Parisi, à margem da rodovia Piaçaguera – Guarujá, acompanhando bombeiros ou o pessoal da Defesa Civil. Ercília Feitosa, grande repórter e amiga, foi parceira dessas matérias aquáticas. O que me aborrecia mais era ouvir as declarações de autoridades sobre a situação que se repetia sempre. Algumas vezes, no final do dia, os socorristas ofereciam um copinho de cachaça para espantar o frio e esquecer as roupas encharcadas. (Acho que foi um bom remédio porque nunca tive sequelas por causa daquelas águas contaminadas.)

ZOOLÓGICO – Os animais tiveram um papel interessante na história do jornal, que era a menina dos olhos de Carlos Caldeira Filho. Caldeira tinha outra paixão: cães pastores alemães. Muitas vezes as chefias tinham que atender requisições de veículo da empresa para levar os pastores para algum concurso canino. As notícias que esperassem. E, claro, um repórter era destacado para cobrir o evento. O diretor do jornal adorava curiós e, pasmem, coberturas especiais para os concursos de cantoria das aves. 
No arquivo, Eduardo Leite e companhia viviam às voltas com pombos que arrulhavam e faziam ninhos junto à janela, o que obrigava a manter os vidros fechados. Na redação a situação era diferente. Havia uma população clandestina que se movimentava à noite, quando as luzes se apagavam, deixando vestígios de sua passagem quando novo dia clareava. Eram os ratos, figuras típicas de casarões antigos. Certo dia (contam-me), um líder sindical da região, conhecido pela falta de caráter, foi ao jornal e, no momento em que ele entrava, um roedor (ignorando as regras sobre tráfego diurno) atravessou o salão calmamente. O repórter gaiato não deixou por menos e foi avisando “Rato na redação!”. A bem da verdade eram dois.  

Enfim, vivemos grandes emoções, como disse uma vez um compositor que não muda de penteado há 50 anos.  
GALERIA 

Francisco Rubio PACO, Flávio Ribas, Laudo Natel, Ricardo Schiavetto,
 José Escandon e Blandy.
Carnaval (s/d)- "camarote" da imprensa santista.

Prefeito Oswaldo Justo se exibindo para o nosso editor.





Momento de grandes decisões. 

Confraternização na praia do Gonzaga.

domingo, 10 de setembro de 2017

O BAILE COR-DE-R0SA
Viúvo, D. Pedro I continuava suas conquistas de alcova. Mais uma vez acharam que a solução seria casamento. Felisberto Caldeira Brant, marquês de Barbacena, foi encarregado de encontrar uma esposa para o Imperador. O imperador entregou-lhe três cheques em branco contra os Rothchilds para encontrar uma noiva que “por seu nascimento, formosura, virtudes e instrução venha a fazer a minha felicidade e a do Império”. Se o marquês não conseguisse alguém com as quatro qualidades, ele admitia “alguma diminuição na primeira e na quarta, contanto que a segunda e a terceira sejam constantes” – escreve Paulo Setúbal.
Barbacena gastou a soma de três mil contos de réis! Para se ter uma ideia dessa quantia, na época, comprava-se a melhor casa da Rua do Ouvidor por um conto de réis, segundo Setúbal. Apesar de o Imperador aprovar as contas do marquês, mais tarde esses gastos foram usados para promover a desgraça de Barbacena junto a D. Pedro I.
         As circunstâncias obscuras da morte de D. Leopoldina não ajudaram muito a tarefa. Após receber várias negativas às pretensões do imperador, indicaram ao marquês a sobrinha do Rei da Baviera, D. Amélia Eugênia Napoleona de Leuchtemberg (1812-1873), neta de Josefina de Beauharnais, a mulher de Napoleão Bonaparte. Dizem as más línguas que estava longe de ser o melhor partido para um príncipe, mas foi o melhor que a diplomacia nativa conseguiu.
Finalmente, no dia 16 de outubro de 1829, desembarcou no Rio de Janeiro, a segunda esposa de D. Pedro I. Dois dias depois os salões do Paço de São Cristóvão abriram-se para o “baile cor-de-rosa”. Paulo Setúbal conta (no mesmo livro) que “foi o mais rutilante, o mais famoso da época”.

“D. Amélia, ao chegar ao Rio de Janeiro, trouxera um soberbo vestido cor-de-rosa. Era a cor da sua paixão. E a corte por gentileza, ofereceu à Imperatriz um baile cor-de-rosa. O próprio D. Pedro, por uma galanteria principesca, criara nesse dia a “Ordem da Rosa” cujo lema era Amor e Fidelidade. (A amante Domitila de Castro fora banida da corte assim que o casamento fora acertado.)
Nem é preciso dizer que todos os tecidos cor-de-rosa desapareceram da cidade. “Na Rua do Ouvidor, em frente ao Wallenstein, grandes caleches envidraçadas. Nas oficinas da casa elegante, entre modistas que alinhavam e chuleiam, vai um formigante entra e sai de damas fidalgas.”
Quando os imperadores entram no salão, “a corte inteira vibra. É uma apoteose. Mas aquilo dura um instante. D. Pedro, sem tardar, faz um gesto ao mestre-sala. A música rompe. É a quadrilha! Os pares agitam-se para a velha, a clássica, a queridíssima quadrilha. Tudo a postos! D. Pedro e D. Amélia vão dançar. Os marqueses de Barbacena têm a honra de ser os vis-à-vis dos soberanos. E o mestre-sala, quando as filas cor-de-rosa se estendem ao comprido do salão, grita com entono:
- Atténcion!
Há um relâmpago de silêncio. E o mestre-sala, alto e solene:
- En avant, tous!”
E o baile começou.

O casal teve apenas uma filha: Maria Amélia do Brasil, que nasceu em Paris em 1831.