domingo, 20 de agosto de 2017

FOTOGRAFIA

Com atraso, o registro do Dia Internacional da fotografia, que marca a invenção do aparelho criado por Louis Daguerre (1787-1851), com base nas pesquisas do francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833). O daguerreótipo antecedeu as câmeras fotográficas. Em 19 de agosto de 1839, a Academia Francesa de Ciências anunciou a invenção do equipamento; entretanto, a busca pelo registro de imagens é muito antiga, mas o responsável por uma das primeiras fotografias duradouras foi Niépce, pois até 1793 as imagens conseguidas desapareciam rapidamente. Ao lado a primeira foto de Niépce. 
      
  En 23 de agosto celebram-se os 51 anos da primeira foto da  Terra tirada por uma sonda  da NASA a partir da Lua.     

A bola de gude azul (Blue Marble). Foto da Terra tirada pela 
tripulação  da  Apollo 17 em 7 de dezembro de 1972. 

Sérgio Jorge: Prêmio ESSO de Fotojornalismo (1960) com o "Homem da Carrocinha".

sábado, 19 de agosto de 2017

SÁBADO COM SHAKESPEARE 
(1564-1616)

"Oh! nunca o sol verá esse amanhã!... Teu rosto, meu barão, é um livro em que os homens podem ler estranhas coisas... Para enganar o mundo é preciso ser semelhante ao mundo." (Lady Macbeth, ato primeiro, cena V da peça MACBETH, c. 1606.)

Lady Macbeth, óleo sobre tela do belga 
Charles Soubre (18211895).  

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O CENTENÁRIO DA VILA ZÉLIA
São Paulo, no início do século XX, não era um mar de rosas tanto para os industriais quanto para os trabalhadores. Os primeiros porque viam seus lucros ameaçados pela própria falta de responsabilidade social e os segundos porque enfrentavam jornadas de trabalho de 12 horas ou mais, péssimas condições de trabalho e baixos salários, que impediam o acesso de trabalhadores a moradias dignas. As greves, tratadas como caso de polícia por patrões e autoridades, começaram a se multiplicar.
Nesse cenário, destaca-se o carioca Jorge Street (1863-1939). Como médico Jorge Street costumava não cobrar dos pobres porque não podiam pagá-lo nem dos ricos porque eram seus amigos. Quando herdou do pai as ações da tecelagem de juta “São João”, trocou o estetoscópio pelos teares e logo depois (1904) também mudava do Rio porque percebeu que era em São Paulo que se encontravam as melhores oportunidades para os negócios: São Paulo era o principal produtor de café e a juta, o material utilizado na confecção de sacaria (até hoje). Nesse ano, ampliou os negócios, comprando do conde Álvares Penteado a tecelagem de juta “Santana” no Brás, por 13 mil contos de réis. Os resultados não poderiam ser melhores e quatro anos depois fechou a fábrica do Rio, transferindo o equipamento para São Paulo, onde investiu também em uma tecelagem de algodão e de uma fábrica no bairro do Belenzinho.
Jorge Street tornou-se um dos mais importantes industriais do Brasil e se destacou também ao defender a criação dos sindicatos: “À medida que os sindicatos se tornam mais fortes e mais ricos vão compreendendo que podem tratar pacificamente com os capitalistas as condições de trabalho assalariado, sem socorrer-se do recurso extremo da greve. [...] longe de nos opormos a essa marcha, devemos colaborar e facilitar o progresso.” Uma visão romântica da questão, mas fundamental na época. Durante a greve de 1917 reconheceu a União dos Operários em Fábricas de Tecido para horror dos patrões.
O fato é que Street preocupava-se com a situação dos trabalhadores. Diariamente, percorria as fábricas. Muitas vezes visitava trabalhadores em casa e o que via nessas ocasiões o desolava. Decidiu então construir a Vila Maria Zélia, no Belém. O prof. Jacques Marcovitch (FEA/USP) afirma que “nenhuma vila operária (brasileira) pode se comparar à Maria Zélia na qualidade do projeto arquitetônico das casas e dos prédios de uso comum”.
O arquiteto francês Paul Pedraurrieux, contratado por Street, criou uma pequena cidade de padrão europeu do início do século passado. Com seis ruas principais e duas transversais que se estendiam num terreno murado até o rio Tietê, na vila foram construídas 198 casas térreas, pintadas de amarelo. Como Street queria: “Morada sã, com bastante sol e luz, e os cômodos de acordo com as necessidades das famílias operárias comuns”.  As portas e janelas eram de madeira maciça - pintadas de cor marrom. O assoalho era de pinho de riga. As moradias menores tinham um quarto, sala, cozinha e banheiro (74,75m²) e as maiores dispunham de três ou quatro quartos (110,40 m²).  O aluguel variava entre 20$000 e 30$000 mil réis.
Se precisassem ir ao centro de São Paulo, bastava tomar o bonde Vila Maria – Largo da Concórdia; porém, os moradores dispunham de vários serviços na própria vila: creche, jardim da infância, duas escolas (a dos meninos e das meninas), consultórios médicos e odontológicos, farmácia, armazém, açougue e restaurante; mais igreja, teatro, salão de baile, quadras esportivas e um campo de futebol. A creche gratuita possuía seis dormitórios com capacidade para 15 leitos cada um. Cada salão, que era cuidado por duas funcionárias, tinha dois pequenos banheiros com água quente e fria.
Em 2015, visitei a Vila Maria Zélia ou o que restou dela. Na Rua dos Prazeres só há tristeza pelo descaso com que é tratado nosso patrimônio histórico. Quando conseguiram o tombamento da vila, ela praticamente perdera as características originais. A área encolheu. A creche desapareceu, cedendo espaço para outros empreendimentos. Os prédios principais estão caindo aos pedaços e, como pertencem ao INSS, é questão de tempo que se desfaçam em poeira. Apenas a Igreja mantém-se, aparentemente, em boas condições. Na praça acolhedora, uma antiga moradora descansa com seu cão. Ela estudou na escola das meninas, mais tarde casou e deixou a vila para onde voltou há cerca de 40 anos, quando o lugar já estava deteriorado pela incúria geral. Ela também lamenta o que aconteceu com lugar. Dizem que produtores de novelas e filmes têm usado o espaço para cenário de suas histórias de época. Difícil imaginar como conseguem porque eu só vi as ruínas de um legado.

(Maria Zélia era o nome da filha de Street, que morreu muito jovem. O destino da Vila: em 1924 foi vendida para a família Scarpa e passou a se chamar Vila Scarpa; em 1929 por causa de dívida passou para o grupo Guinle que lhe devolveu o nome antigo; em 1931, a fábrica foi desativada e a vila, que era particular, passou para o governo federal, que a usou como presídio durante o Estado Novo. Fotos: Hilda Araújo. )




Publicado originalmente em 11 de agosto de 2015.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CURSOS JURÍDICOS: 190 ANOS.
No dia 11 de agosto de 1827, criavam-se os Cursos Jurídicos no Brasil, nas cidades de São Paulo e em Olinda (Pernambuco). Até aquela data os advogados brasileiros formavam-se em Portugal, mas com a Independência era natural que se instalasse aqui, finalmente, um curso jurídico. O deputado José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopoldo, foi quem levou a ideia à Assembleia Constituinte em 1823 e, após muitos debates sobre currículo e corpo docente, levantou-se a questão da localização.
A capital do Império, Rio de Janeiro, era a escolha lógica, mas os deputados reivindicavam a honra para outras cidades. São Paulo, por exemplo, enfrentou objeções bizarras, como a levantada pelo deputado Silva Lisboa: "Sempre, em todas as nações, se falou melhor o idioma nacional nas cortes. Nas províncias há dialetos, com os seus particulares defeitos. É reconhecido que o dialeto de S. Paulo é o mais notável. A mocidade do Brasil, fazendo ali os seus estudos, contrairia pronúncia muito desagradável". No entanto, as ponderações do deputado Luís José de Carvalho e Mello, Visconde de Cachoeira foram consideradas pelos constituintes: "A cidade de S. Paulo é muito próxima ao porto de Santos, tem baratos viveres, tem clima saudável e moderado e é muito abastecida de gêneros de primeira necessidade, e os habitantes das Províncias do sul, e do interior de Minas, podem ali dirigir os seus jovens filhos com comodidade. (§) O estabelecimento da outra em Olinda apresenta semelhantes circunstâncias, e é a situação apropriada para ali virem os estudantes das Províncias do Norte".
Olinda, por sua vez, tinha a seu favor desde o início o Seminário, criado pelo Bispo Azeredo Coutinho, em 1789, que se destacava pela excelência do ensino.
          Mas o projeto de lei sancionado em 1823 teve fim trágico com a dissolução da Assembleia Constituinte por D. Pedro I, que outorgou em seguida a Constituição em 25 de março de 1824. Mas os esforços não foram em vão, pois em 1826 o deputado Lúcio Soares Teixeira de Gouveia propôs a revisão do projeto de lei do Visconde de São Leopoldo, reacendendo as discussões sobre localização, entretanto, prevaleceu a ideia de Francisco de Paulo Souza e Mello e, no dia 11 de agosto de 1827, foi assinada a lei criando os cursos jurídicos em Olinda e São Paulo.
          O curso jurídico foi instalado em São Paulo em 1º de março de 1828 no convento de São Francisco – havia apenas cinco frades na cidade e estavam no Recolhimento da Luz. A escolha do diretor recaiu sobre José Arouche de Toledo Rendon (1756-1836), militar e político, formado em Ciências Jurídicas em Coimbra. A festa de inauguração foi relatada pelo jornal O Farol Paulistano, propriedade do futuro Regente José da Costa Carvalho, depois Marquês de Monte Alegre: “A sala destinada para aula, que mede 90 palmos de cumprimento, estava apinhada de gente, até muitas das principais senhoras desta cidade, tendo sido convidadas, assistiram esse ato brilhantíssimo”. O professor português José Maria de Avelar Brotero (1798-1873), que causou muito dor de cabeça a Arouche, fez um discurso, depois todos foram à igreja para um Te Deum e em seguida foram convidados para os comes e bebes “doces e refrescos, que para isso estavam preparados numa esplêndida mesa”.
          A academia mudou a vida da cidade de São Paulo, que era um vilarejo pacato e sem graça. Foi uma mudança econômica e cultural conduzida pelos jovens e suas estudantadas. A primeira turma do curso jurídico tinha 33 alunos matriculados e apenas dez eram paulistanos; os demais eram das províncias do Rio, Bahia e Minas. Nos primeiros 25 anos, formaram-se na Academia 138 paulistas, 181 cariocas ou fluminenses, 100 mineiros, 56 baianos, 48 gaúchos, 11 maranhenses e nove mato-grossenses.  
Ao longo desses 189 anos de funcionamento, estudantes e egressos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco participaram dos principais movimentos políticos da História do Brasil – como o Abolicionista, o Republicano e pelas Diretas-Já. Nove presidentes da República saíram do Largo de São Francisco, além de vários governadores e prefeitos não apenas de São Paulo.  

          A instalação do curso em Olinda ocorreu em 15 de maio de 1828 e a primeira turma formou-se em 1832. 
Largo de São Francisco e Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Os amantes salvos dos puritanos pelos estudantes de Direito.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

PEDAÇOS DE SÃO PAULO

Minhas visitas ao Bom Retiro começam pela Praça Coronel Fernandes Prestes (Estação Tiradentes do Metrô), que é muito bonita. Logo em frente à saída da estação vê-se o prédio da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (FATEC). Um espaço histórico: naquele endereço morou o Marquês de Três Rios, Joaquim Egídio de Sousa Aranha (1821-1893), cujo solar foi adaptado em 1894 para acolher a Escola Politécnica, mas foi bombardeado durante a Revolução de 1924 e demolido em 1929, dando lugar alguns anos depois ao prédio atual.

Arborizada, fechada ao trânsito de veículos, a Praça é o endereço do Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo que fica em frente ao edifício Ramos de Azevedo, construído em 1920, e, desde 2000, sede do Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís”. Entre os dois prédios, há dois monumentos: a estátua do coronel Fernando Prestes de Albuquerque (1855-1937), republicano e pai de Júlio Prestes (1842-1946), o presidente eleito derrubado por Vargas em 1930, e um memorial da participação da Força Pública (atual Polícia Militar) na Revolução de 1932. O que pouca gente sabe é que ali há um pequeno e belo jardim com um laguinho habitado por carpas coloridas. Ontem, o jardineiro cuidava das plantas, rodeado de passarinhos, enquanto pombos se divertiam num banho matinal, indiferentes aos peixes. 


 

domingo, 6 de agosto de 2017

TRÊS LOIRAS INESQUECÍVEIS

Os homens, realmente, preferem as loiras? Não importa qual seja a preferência mundial, o fato é que, no século passado, um punhado de atrizes louras (falsas ou verdadeiras) incendiaram as telas do cinema norte-americano. Uma das mais famosas foi Mae West (1893-1980), que se notabilizou também pelas frases maliciosas (para a época) tanto em roteiros de cinema e textos teatrais e como em entrevistas. O sucesso só aconteceu em 1932, quando ela estava com 39 anos! Era baixinha (1m56) e gordinha, mas nada disso impediu que ela se tornasse o maior sucesso de Hollywood. Ou melhor, uma lenda sexual. Lenda porque na vida privada era recatada. As fantasias sexuais que alimentava o público eram baseadas numa aparência falsa: o busto e os quadris de 110 cm eram à base de enchimentos. O jornalista Ruy Castro conta, na biografia da atriz, que o segundo filme  dela (“Uma loira para três”) salvou a Paramount Pictures da falência e no terceiro (“Uma dama do outro mundo”), o furacão Mae West escreveu o roteiro, escalou o galã e dirigiu o diretor nas sequências em que aparecia. Deixou o cinema aos 50 anos, mas continuou trabalhando até que em 1970 participou de “Homem e mulher até certo ponto”, com Raquel Welch, Farrah Fawcett e John Houston. 
Jean Harlow (1901-1936) foi outra loira que fez a cabeça das audiências mundo afora. Começou no cinema em 1930 (“Anjos do Inferno”), mas o sucesso só começou em 1932, quando filmou “Terra das Paixões”, dirigido por Victor Fleming. Logo, tornou-se uma estrela reconhecida mundialmente; entretanto, na vida pessoal não teve tanta sorte: teve escarlatina na adolescência, casou-se cedo com um empresário, mas logo divorciou-se. O segundo casamento, em 1932, não se consumou porque o marido, Paul Bern (1889-1932), produtor da MGM, era impotente e se suicidou dois meses depois. O terceiro casamento em 1933 também não deu certo e a atriz se divorciou oito meses depois. Em 1937, Jean Harlow adoeceu durante as filmagens de “Saratoga” e faleceu dias depois vítima de nefrite aguda. Apesar da morte prematura, Jean Harlow fez cerca de 40 filmes e ainda escreveu um livro (“Today is tonight) que só foi publicado em 1965.
        A terceira bombshell blond norte-americana é Norma Jean (1926-1962), que, aliás, era morena. Para quem não lembra ou não sabe, trata-se de Marilyn Monroe. Cresceu em lares adotivos e orfanatos; casou-se aos 16 anos e aos vinte já estava divorciada. Durante a II Guerra Mundial trabalhava em uma fábrica, quando conheceu um fotógrafo, se tornou modelo e logo conseguiu pequenos papeis em filmes até que no inicio da década de 1950 alcançou o estrelato. Se nas telas os personagens de Marylin sempre (ou quase) encontravam o príncipe encantado, na vida real a beleza e a sensualidade não lhe garantiram felicidade. Casou-se com Joe Dimaggio (1914-1999) e depois com Arthur Miller (1915-2005) – o primeiro, uma lenda do basebol, e o segundo, premiado dramaturgo. Morreu aos 36 anos, quando era amante do presidente John Kennedy (1917-1963), vítima de uma overdose de barbitúricos – um assunto que não se esgota. Gosto de me lembrar dela em “Quanto mais quente melhor”, “Bus stop”, “Os desajustados” ou “O Pecado mora ao lado”.
Um fato curioso é que a carreira destas três louras durou uma década, mas elas prosseguem bem vivas na memória dos fãs de cinema. 

sábado, 5 de agosto de 2017

ARTE DE ENVELHECER

Sempre que tenho compromissos na Cidade Universitária vou mais cedo, tomo café na FEA e depois faço hora na livraria Visconde de Cairu, pequena, mas simpática. E foi lá que vi o livrinho que folhei distraída até que li o texto do Freud sobre mulheres idosas e que me deixou furiosa. Fui consultar o preço que era bom e ainda ganhei um descontão, tipo, leve-o, por favor. 
Para que eu quero um livro sobre “Como envelhecer”, se já estou bem avançada nessa fase da vida? Acomodada na poltrona preferida, acho a leitura agradável. Afinal, Anne Karpf é jornalista e socióloga da saúde (nem sabia que essa profissão existia). Como ela explica logo no início, o livro “se desenvolve a partir da crença de que precisamos nos libertar das ideias predeterminadas de como uma pessoa mais velha, ou mesmo mais jovem, deve parecer, soar ou viver”.
Com os avanços científicos e tecnológicos do século XX, a expectativa de vida do homo sapiens aumentou e o conceito de velhice mudou. A Organização Mundial de Saúde prevê que em 2050 haverá dois bilhões de idosos no mundo e em 2020 pela primeira vez na história o número de pessoas com mais de 60 anos será maior que o de crianças até cinco anos e 80% dessas pessoas viverão em países de baixa e média renda*.
A autora mostra como esses números são usados para disseminar o medo da velhice por meio de uma “linguagem apocalíptica” ao se referir à “bomba relógio demográfica” ou ao “tsunami grisalho”. “Não corremos mais o risco de invasão de marcianos, mas de pessoas velhas” – escreve Anne Karpf que segue analisando o impacto econômico (real) dessa mudança de uma forma mais pontual do que a media costuma fazer, mostrando que o envelhecimento da população não implica em um fardo insuportável para as sociedades industrializadas. Ela cita o economista Phil Mullan que diz que o debate sobre os “custos financeiros dos mais velhos tem sido deliberadamente exagerado, em parte, para tirar a responsabilidade do Estado pelo seu suporte financeiro e jogá-la sobre entidades privadas e até mesmo sobre outros indivíduos mais velhos”.
  Numa sociedade em que cada vez mais se valoriza o novo e a aparência, cresce o medo do envelhecimento e surge, triunfante, o que a autora chama de “mercado anti-idade”. Com um potencial de consumo global de U$ 10 trilhões em 2020, o público sênior (acima de 60 anos) deve ganhar cada vez mais relevância no varejo. Mas os cuidados para evitar o envelhecimento, entretanto, começam muito mais cedo, na faixa dos trinta anos ou até menos, o que amplia a clientela da indústria anti-idade.
          Interessante que os difusores de medo desse futuro mundo de idosos se esquecem de que farão parte dele.
A autora reuniu uma coletânea de citações de escritores, músicos, médicos, sociólogos entre outros, mostrando diversas visões do envelhecimento.
Que tal começar com Norma Desmond, personagem de Gloria Swanson (1899-1893) no clássico Crepúsculo dos Deuses, filme de 1950, dirigido por Billy Wilder (1906-2002)? “Não há nada de trágico em ter 50 anos. A não ser que você esteja tentando ter 25.”
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832): “A idade nos pega de surpresa.” Filósofo alemão.
Simone de Beauvoir (1908-1986): “Um dia acordei e havia uma mulher de 70 anos na minha cama”. Escritora francesa.
Rabino Zalman Schachter-Shalomi (1924-2014): “Morte não é um erro cósmico” e, explica Anne Karpf, “se nos esforçarmos para integrá-la à nossa compreensão de vida desde a mais tenra idade, isso pode paradoxalmente reduzir o medo do envelhecimento”.
Nora Ephrom (1941): “Ah, o pescoço. Existem pescoços de galinha. Existem pescoços de peru. Existem pescoços de elefante. Existem pescoços com pelancas. Existem pescoços esqueléticos e pescoços gordos, pescoços flácidos, pescoços encarquilhados, pescoços com faixas, pescoços enrugados, pescoços fibrosos, pescoços moces, pescoços cheios de manchas... Para conhecer a idade de uma árvore é necessário cortá-la, mas isso não seria necessário se ela tivesse um pescoço.” (Escritora e roteirista norte-americana.)
Molly Andrews: “Por todo ciclo da vida, mudança e continuidade tecem uma teia intrincada. Conforme encontramos novos desafios, físicos e psicológicos, com os quais a vida no confronta, nós mudamos, mesmo permanecendo os mesmos. Nesse aspecto, a velhice não é diferente dos outros estágios da vida. As mudanças são muitas e são reais: negá-las, como alguns fazem em uma tentativa de combater o preconceito, é tolice.” (Professora de ciências sociais,  University of East London).
Peregrine Worsthorne (1923): Para mim é difícil escrever sobre a velhice porque não me sinto velho. Eu simplesmente me sinto eu. Talvez eu seja anormal, monstruosamente excêntrico nesse aspecto, já que também tenho de admitir que não consigo me lembrar de me sentir jovem ou na meia idade. Consigo me lembra dos tipos esperanças, preocupações e medos que eu sentia em diferentes períodos da minha vida, mas para mim foi a mesma coisa ter aquelas preocupações, esperanças e me dos.  E é a ininterrupta continuidade da minha autoconsciência que torna as mudanças relativamente insignificantes. (Jornalista inglês)
Enfim, a mensagem que ela passa é de que “envelhecer, em cada estágio da vida, pode ser altamente enriquecedor”. (Ilustrações: Rainha Elizabeth II, 91 anos, e o ator Robert Redford, 80.


 






sexta-feira, 4 de agosto de 2017

QUAIS SÃO AS NOVAS?

 
Bancas de jornal me fascinam. Enquanto espero o ônibus leio as manchetes dos jornais do dia, das revistas da semana ou simplesmente me diverto com a diversidade das publicações que sugerem receitas deliciosas e prometem rápida perda de peso – você escolhe. Há também aquelas que tratam personagens de novela como seres reais. Ridículo. Caetano Veloso, no século passado, já perguntava “quem lê tanta notícia?”. Todo mês compro uma revista de Sudoko com duzentos jogos e recebo quinzenalmente o jornal do bairro, mas raramente leio. Quando viajo para o exterior, depois de algum tempo quero notícias de casa, o que é difícil; mas às vezes é muito complicado. (Foto acima: quiosque parisiense, 2010.)
Banca de jornal em Fez, Marrocos, 2010.
Fotos: Hilda Prado Araújo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

          PASSEIOS PAULISTANOS

Segunda-feira, dia reservado para uma visita à Dona Maria Marcolina Monteiro de Barros, uma senhora de tradicional família paulistana que se tornou uma referência popular quando a rua que a homenageia se tornou centro comercial importante da Subprefeitura da Mooca, composta pelos distritos do Belém, Brás, Mooca, Pari e Tatuapé. A denominação da rua aconteceu há mais de cem anos. Compras boas e baratas, dizem, acontecem na Rua Maria Marcolina.
          Entre uma espiada e outra em vitrines que se repetem, desperta a curiosidade dos menos interessados em gastança, o Cavalheiro que emprestou seu nome a outra rua. Trata-se de Joaquim Carlos Augusto Cavalheiro, que foi um empreiteiro de obras, segundo o lacônico portal da Prefeitura de São Paulo, e que por esse e outros motivos teve seu nome dado ao logradouro também em 1916.  
          Foi na Mooca que Rafael Paes de Barros, filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguape, construiu o Clube Paulista de Corridas de Cavalo, primeiro hipódromo da cidade, inaugurado em 1876 em pleno Império. Em 25 de janeiro de 1941, o clube cedeu lugar ao Hipódromo Paulistano em Cidade Jardim, às margens do rio Pinheiros. Daqueles tempos restaram apenas os prédios onde funcionavam as cocheiras e a Rua Hipódromo cujo nome foi oficializado em 1916.
          A Mooca, entretanto é muito mais que um centro de compras. Foi reduto dos imigrantes italianos, que atraíram outras colônias para lá; tornou-se um polo industrial e cultural – lá funcionaram os Cines Teatro Moderno, Santo Antônio, Aliança, Imperial, o Icaraí (Ouro Verde) e o Patriarca. Em 1924 o conde Rodolfo Crespi (1874-1939), dono do cotonifício Crespi, fundou um clube de futebol para os funcionários da fábrica: o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, que originou o Clube Atlético Juventus (Rua Javari, 117).
          Outra instituição do bairro foi a Companhia Antártica Paulista (AMBEV), que foi criada no final do século XIX, cuja sede na Avenida Presidente Wilson, 307 foi construída no início do século passado.
          Na Mooca foi construída a Hospedaria dos Imigrantes em 1897, local de recepção dos imigrantes recém-chegados, que funcionou até 1978, quando teve as atividades encerradas. Atualmente, abriga o Museu da Imigração do Estado de São Paulo (Rua Visconde de Paranaíba, 1316).

          Enfim, a Mooca é um mundo (não só de compras) a se descobrir. 
(Fotos:HPA.)



domingo, 30 de julho de 2017

MENINOS, ASSOEM O NARIZ!

Não há nada mais irritante e desagradável do que alguém ao seu lado com congestão nasal e sem lenço para assoar o nariz convenientemente. Penso com meus botões que não se fazem mães como antigamente. Lenço era parte obrigatória da bolsa das mulheres e do bolso dos homens. Cheguei até a pensar que, com o advento dos lenços de papel tão práticos, os de algodão tivessem desaparecido; entretanto, eles continuam à venda nas boas casas do ramo (?) e ainda têm uma fiel clientela.
Se você não se importa com a situação, deveria. Afinal, os resfriados ou gripados desprovidos de lenço costumam limpar o nariz na manga da camisa, nas costas ou palmas das mãos e você poderá ser uma das próximas pessoas a encontrá-lo e ser saudado com um forte aperto de mão! Li há muitos anos uma crônica de um chinês que achava muito anti-higiênico da parte dos ocidentais o uso do lenço porque, após se livrarem das portarias do nariz, as guardavam no bolso. Oh! Céus!
Gregos e romanos na antiguidade costumavam usar lenços da mesma forma como usamos; na Inglaterra, o rei Ricardo II (1367-1400) usava um para enxugar a testa ou limpar o nariz - um costume que os europeus adotaram no século XVI, quando passaram a carregar o lenço no bolso para essas emergências.
Anúncio com Jean Harlow (1911-1937).
Em 1914, houve falta de algodão nos Estados Unidos e a empresa Kimberly-Clark investiu em um substituto para o lenço, desenvolvendo um produto macio e absorvente a partir da celulose de polpa de madeira com uma pequena quantidade de algodão. O cellucotton (como foi denominado) foi adotado durante a I Guerra Mundial como filtro para máscaras de gás e em hospitais norte-americanos. Em 1924, a empresa criou o lenço descartável para remoção de cremes e maquilagem, mas não teve muito sucesso. Em 1926, o produto foi lançado no mercado canadense como opção higiênica aos lenços de pano e acabou fazendo sucesso mundial – atualmente está presente em 130 países.
Enfim, não importa a marca do lenço de papel ou de pano. Importa assoar o nariz. É mais higiênico e saudável para todos. E você não correrá o risco de espantar pretendentes com ruídos desagradáveis para dizer o mínimo.



sábado, 29 de julho de 2017

SÁBADO COM POESIA

A poesia é de Hilda Hilst (1932-2004) e a bela foto é do amigo e jornalista Luiz Novaes.



Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.


domingo, 23 de julho de 2017

ARTE E LOUCURA

O psiquiatra paraibano Osório Thaumaturgo Cesar (1895-1979) iniciou a luta pela humanização do tratamento dos alienados e introduziu a arte como recurso terapêutico em psiquiatria no Brasil. Viveu um período na Europa, onde foi discípulo de Carl Jung. Estabeleceu-se em São Paulo, no início dos anos de 1931 casou-se com Tarsila do Amaral (uma união que durou pouco) e trabalhou por no Hospital Psiquiátrico do Juquery (Franco da Rocha) até 1965, quando se aposentou. Ali fundou a Escola Livre de Artes Plásticas cujas exposições, mais de 50, atraíram atenção de intelectuais como Sérgio Milliet e Flavio de Carvalho. A Escola foi desativada em 1970. Entre seus vários livros, destaca-se Misticismo e Loucura, premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1948. Osório Cesar doou parte da sua coleção para o Museu de Arte de São Paulo, que realizou três exposições das obras, sendo a última em 2015.  
Os trabalhos produzidos na Escola foram reunidos, na década de 1980, pela professora de arte Maria Heloísa Corrêa de Toledo Ferraz (ECA/USP), responsável pela organização do Museu Osório Cesar, inaugurado em 1985 em um dos pavilhões do complexo do Juquery (Franco da Rocha).
No momento, é possível conhecer algumas obras dos internos – quase todos anônimos – do Sanatório Pinel (Pirituba) e do Manicômio Judiciário do Juquery – reunidas na mostra promovida pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, aberta à visitação de segunda à sexta-feira das 9 às 16h30.  
Se o título da exposição não é dos melhores (Mais que humanos – Arte no Juquery), o conteúdo é muito valioso sob vários aspectos. Além das pinturas e esculturas, que expressam o sofrimento e as angústias dos pacientes, é possível ler os prontuários de dezoito internos do Pinel. Esses documentos revelam a história dessas pessoas, o motivo do encaminhamento para internação e a avaliação médica ao ingressar na instituição, onde frequentemente eram abandonadas pela família.
Ao percorrer a exposição chama atenção a poesia de Stela do Patrocínio (1941-1997), internada por 35 anos na Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro).

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo

   
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO: Rua Voluntários da Pátria, 596. Atrás da Estação Tietê do Metrô. Entrada gratuita.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUINTA-FEIRA COM ARTE




“Almoço dos remadores” – óleo sobre tela de Pierre-Auguste Renoir, que retrata um grupo de amigos almoçando no terraço do Restaurant Fournaise, em Chatou, a oeste de Paris, às margens do Sena. A obra data de 1880-1881 e pertence a Phillips Collection, Washington D. C. (USA). 

sábado, 15 de julho de 2017

SÃO PAULO E OS FRANCESES
  
São Paulo vista do mirante do Banespa, 2011. Foto: Hilda Prado Araújo.

Blaise Cendrars (1887-1961), escritor.
São Paulo
Adoro esta cidade
São Paulo é conforme meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Nem antigo nem moderno
Contam apenas esse apetite furioso essa confiança absoluta esse otimismo essa audácia esse trabalho esse labor essa especulação que fazem construir dez casas por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos norte sul egípcio ianque cubista
Sem outra preocupação além de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração
Todos os países
Todos os povos
Amo isso
As duas três velhas casas portuguesas que restam são azulejos azuis*

Claude Lévi-Strauss (1908-2009): etnólogo.
“[...] São Paulo nunca me pareceu feia: era uma cidade selvagem, como o são todas as cidades americanas, com exceção talvez de Washington, dc, nem selvagem nem domesticada, essa aí, mas antes cativa e morrendo de tédio na gaiola estrelada de avenidas dentro da qual Lenfant a encarcerou”. (Tristes Trópicos, 1955.)

Albert Camus (1913-1960), escritor.
“São Paulo e a noite que cai rapidamente, enquanto os letreiros luminosos se acendem um por um no topo dos arranha-céus espessos, enquanto das palmeiras-reais que se elevam entre os edifícios chega um canto ininterrupto, vindo dos milhares de pássaros que saúdam o fim do dia, encobrindo as buzinas graves que anunciam a volta dos homens de negócios. [...] A cidade de São Paulo, cidade estranha, Oran desmedida.” (Diário de Viagem, 1978.) Oran é um porto mediterrâneo argelino. Camus viajou pelo Brasil em 1949.

François Laplantine (1943) é antropólogo.
“Em São Paulo, tudo anda mais depressa e tudo é maior. [...] o excesso paulistano constitui ao mesmo tempo uma ruptura e uma continuidade em relação à obra dos primeiros conquistadores portugueses. Eles buscavam o Novo Mundo; os paulistanos o constroem com sua sensibilidade, que, para nós, pouco tem a ver coma delicadeza das rendas, mas opera dentro do gigantismo. Os franceses têm muita dificuldade para entender esse país que tem a dimensão de um continente e essa cidade que tem a dimensão de um país.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

Claude Olievenstein (1933-2008), psiquiatra.
“São Paulo já está alhures, em outros lugares, sob outras formas. São Paulo não é Nova York, mas, como Nova York, é a manhã de Paris, o hoje é já amanhã.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

 Praça João Mendes, 2011. Foto: Hilda P. Araújo.

          *Tradução: Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com.br. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DE ESTRASBURGO A MARSELHA

A beleza e a força da Marselhesa são indiscutíveis. (Há quem a considere sangrenta, mas não se fazem revoluções com meiguice.) Que ninguém se engane com o nome do hino francês. A Marselhesa não teve origem em Marselha, porto mediterrâneo, mas em Estrasburgo, no leste da França. O autor é Claude-Josephe Rouget de Lisle (1760-1836), um engenheiro militar nascido em Franche Comté que, nas horas vagas, compunha canções vendidas em Paris com sucesso.
          No auge da Revolução, a França declarou guerra à Áustria no dia 20 de abril de 1791, iniciando “a cruzada pela liberdade universal”, como dizia um dos líderes dos girondinos. Cinco dias depois, enquanto a guarnição de Estrasburgo preparava-se para partir para a guerra, nobres (sim), políticos e militares locais reuniram-se em um jantar regado a brindes e discursos belicosos. Nesse clima de entusiasmo alguém perguntou a de Lisle se ele não poderia compor uma canção que servisse de marcha patriótica para os soldados que partiam.
Lisle foi para casa e trabalhou durante toda a noite na composição do Chant de Guerre pour l’Armée du Rhin e pela manhã mostrou a obra ao barão Dietrich, prefeito da cidade, que a apresentou publicamente três dias depois. O compositor conseguiu um resultado brilhante, usando em seus versos invocações familiares, bélicas e patrióticas, que a música acompanha em nuances que variam do suave ao grandioso.
A música só se tornou um sucesso absoluto no ano seguinte, quando 500 voluntários marcharam de Marselha a Paris para defender a Revolução, cantando a canção de Lisle, que ficou desde então conhecida como ”la Marseillaise”, transformada em hino nacional em 1795. Entretanto, a marcha não escapou das artimanhas políticas e perdeu e reconquistou o status de hino várias vezes.
A Marselhesa, Arco do Triunfo, Paris, 8/05/2012.
Os revolucionários marselheses partiram da sede do Clube dos Jacobinos, que se tornou recentemente o Memorial da Marselhesa. A Rua Thubaneau, em Belsunce, em Marselha, está longe de ser um lugar agradável atualmente e o projeto faz parte da recuperação do bairro. O Memorial é dividido em várias salas, aonde diversos dispositivos multimídia permitem que o visitante faça uma viagem histórica, que culmina com a apresentação da canção revolucionária. Bela e arrepiante (assisti em 2012).
Rouget de Lisle salvou-se da guilhotina, no período do Terror, graças à composição. Mais tarde, quando Napoleão assumiu o poder, baniu o hino que só voltou a ser a reconhecido na Revolução de 1830 e até foi reorquestrado por Hector Berlioz. Napoleão III também aboliu a Marselhesa, que em 1879 voltou a ser reconhecida como o hino nacional francês.  
(Foto: H.P.P. Araújo.)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BRASIL FRANCÊS

França e Brasil têm uma história regada a batalhas e amores, consolidada por laços culturais. Antes que Pedro Álvares Cabral desembarcasse aqui, os franceses já frequentavam estas terras tropicais para extrair bateladas de pau-brasil. Enquanto espanhóis e portugueses, no século XVI, se dedicavam ao processo “civilizatório” dos nativos a partir da cristianização, os franceses (e os holandeses) se empenhavam em planos mais refinados.
Villegaignon,  Mural de Oswaldo Carvalho,
 Palácio de São Joaquim (RJ).
O primeiro começou a ser implantado em 1555, com a fundação da França Antártica na baía de Guanabara, onde desembarcaram André Thevet (1534-1611) e Nicolas Durant de Villegagnon (1510-1571). Uma demonstração do bom gosto francês. Thevet escreveu a “História de uma viagem feita à terra do Brasil”, que se tornou um sucesso editorial – em cem anos teve sete edições em francês e algumas em latim. Os tupinambás caíram de amores pelo charme francês. E os franceses, pelas nativas. Belas e liberais. Afinal, ao contrário dos portugueses que os escravizavam, os franceses os tratavam bem e logo formaram uma aliança que rendeu muitos embates para os lusitanos. 
O segundo plano foi a implantação em 1612 da França Equinocial, no Maranhão, e que resultou na fundação da cidade São Luís. A expedição francesa foi comandada por Daniel de La Touche. Mais uma vez a aventura rendeu boa literatura: os padres capuchinhos Claude d’Abeville e Yves d’Evreux escreveram dois livros importantes – o primeiro, “História dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas” e o segundo, “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614”.
É difícil imaginar que o Brasil deve muito a Napoleão Bonaparte (1769-1821). Quando as tropas francesas ameaçaram a soberania portuguesa, o príncipe João reuniu a corte e parte da real biblioteca portuguesa e, numa moderna arca de Noé, mudou de Lisboa para Salvador; porém, logo mudou para o Rio de Janeiro. Na solidão dos trópicos, ele se tornou rei: D. João VI. Com a queda de Napoleão, restabeleceram-se as relações comerciais com a França e por que não convidar um punhado de ilustres franceses para abrilhantar a corte?
Debret:
O grupo que desembarcou no Rio em março de 1816 era mais poderoso do que o encabeçado por Thevet e Villegagnon – vinha para conquistar corações e mentes. A missão francesa, organizada e chefiada por Joachim Lebreton (1760-1819), era composta pelos pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay e o filho Félix, ainda aprendiz; arquiteto Auguste Montigny e seus assessores Charles Lavasseur e Louis Ueier; escultor Auguste-Marie Taunay; músico Sigismund Neukomm; gravador Charles-Simon Pradier; mecânico François Ovide; ferreiro Jean-Baptiste Leve; serralheiro Nicolas Magliori Enout. Vieram também dois peleteiros – Pelite e Fabre; dois carpinteiros – Louis-Jean Roy e o filho Hypollite. Alguns meses depois vieram o escultor Marc Ferrez e o gravador Zéphyrin Ferrez. O resultado da missão francesa foi bastante positivo e teve reflexos na formação dos artistas brasileiros mais importantes dos anos que se seguiram.
No século XX, nova leva de franceses invadiria o Brasil, mais precisamente São Paulo. Em 1906 o governo paulista fez um acordo com a França para a reformulação da Força Pública, o que deu origem à Missão Militar Francesa de Instrução da Força Pública, comandada pelo coronel Paulo Balagny. O militar ministrou o primeiro curso de armeiro do estado, foi responsável pela introdução oficial no Brasil do boxe, esgrima e ginástica sueca. A missão atuou entre 1906 e 19014 e 1919 e 1924.
São Paulo perdeu a guerra Constitucionalista em 1932, mas venceu politicamente quando Vargas cedeu e indicou para presidência do estado Armando de Salles Oliveira que investiu na criação da Universidade de São Paulo (USP) porque, na percepção do grupo constitucionalista do qual ele fazia parte, o desenvolvimento seria alcançado por meio da educação. “De São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas, e, sim, 'uma revolução intelectual e científica', suscetível de mudar as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”, nas palavras de Sérgio Milliet (1898-1966). Assim, o governo paulista não investiu em projeto privado, mas público e, portanto, democrático.  A USP foi fundada em 1934.
Como desenvolver essa universidade? Mais uma vez a inspiração foi a França de onde vieram o etnógrafo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), o historiador Fernand Braudel (1902-1995) e o sociólogo Roger Bastide (1898-1974), responsáveis pela formação de grandes pesquisadores, professores e intelectuais brasileiros. A USP, atualmente, é a mais importante universidade do país.
Mas foi em meados do século passado que um francês alto e narigudo deixou os brasileiros bem aborrecidos. Tudo começou em 1961, quando barcos pesqueiros franceses invadiram águas territoriais brasileiras em busca de lagostas, gerando um incidente internacional. Franceses e brasileiros indignados. Os dois países mobilizaram suas forças navais, o presidente Charles de Gaulle (1890-1970) empinou o nariz e decretou que “o Brasil não é um país sério”. E logo apareceu “A Marcha da Lagosta”, uma paródia do hino francês:

Larga esta lagosta
Deixa de areia
Senão vai dar coisa feia
Faço uma proposta pra você (pour quoi?)
Faço um acordo de irmão
Traga uma francesa pra mim
E leve tudo, leve até o camarão.

Outra paródia:

Você pensa que lagosta é peixe?
Lagosta não é peixe, não!
Peixe é bicho que nada,
Crustáceo não nada, não!
Pode faltar tudo ao brasileiro:
Arroz, feijão e pão.
Mas a lagosta é nossa,
De Gaulle não bota a mão.
Pode mandar vaso de guerra,
Disto até acho graça:
Por causa da lagosta,
Até eu vou sentar praça.

A imprensa tratou de criar a famosa guerra da lagosta, que na verdade nunca houve.
Et vive la France! E viva o Brasil!

 Semana francesa.