quinta-feira, 25 de maio de 2017

O MANJAR PROIBIDO

Já imaginou um manjar branco tão delicioso a ponto de um rei proibir que se divulgasse a receita? Conto de fada? Não. O fato verdadeiro aconteceu em Portugal em pleno século XVI. D. Sebastião, “considerando-o suntuoso e acima da economia fidalga e popular”, proibiu-o através de uma pragmática (qualquer lei diferente do direito) em 28 de abril de 1570.
Deveria ser a delícia das delícias e fiquei muito tempo tentando descobrir a receita desse doce e até tentada a ir para a cozinha materializar essa maravilha e ter a felicidade de provar tal iguaria. Encontrei, finalmente, a receita na obra de mestre Luis da Câmara Cascudo, que o coloca entre os quatro doces históricos na etnografia lusitana.
Mas como diz o poeta santista a “felicidade sempre está onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”. A verdade é que logo no inicio da receita, a magia da história se evaporara no cozimento da galinha, ingrediente principal do manjar. Doce que leva galinha? Nem pensar! Confesso que não gosto muito de galinha, mas li até o fim e descobri que prefiro o doce à moda do Porto, onde o pessoal substitui a galinha por amêndoas. A outra opção (para os dias em que não se comia carne) é trocar a penosa por peixe.
          A proibição real, entretanto, não impediu que o manjar branco se tornasse doce dos conventos ricos e chegasse ao Brasil por meio dos religiosos, já que o padre Cristóvão de Gouvêa o provou em 1583 na Bahia. 
          Se alguém estiver interessado em fazer o manjar branco, aí vai a receita que está na obra de Cascudo, transcrita do livro O doce nunca amargou, de Emanuel Ribeiro, publicado em Coimbra em 1928. Nos dias atuais o manjar branco é até acessível ao bolso popular.
         
               “Coze-se uma galinha e, depois de bem cozida, tira-se para um prato onde se deixa arrefecer; estando fria extrai-se-lhe toda a carne do peito sem a pele, e esta carne desfia-se a mão o mais completamente possível.
             Feito isso, em um tacho bem limpo deita-se um litro de leite e no leite, a carne desfiada da galinha. Mexe-se bem para a mistura ficar perfeita e, depois, reúne-se-lhe um quilo de açúcar refinado e 320 gramas de farinha de arroz.
            Mexe-se bem e leva-se ao lume onde se põe a cozer. Enquanto vai cozendo, deita-se no tacho, pouco a pouco, um litro de leite, onde se dissolveu meio quilo de açúcar refinado.
            Assim que tudo estiver cozido, o que se conhece quando, metendo no preparado a ponta da faca, esta despegar lisa, deita-se-lhe uma pouca de água-flor, dá-se-lhe uma mexedela, e tira-se do fogo, deitando-se o doce em pequenos pires ou em uma travessa grande, para, depois de frio, se cortar em pedaços.”

O manjar branco deu origem ao manjar real, o sucesso do século XVIII, e que é um pouco mais complicado de fazer. Recomendo também o uso de um dicionário para entender as recomendações do cozinheiro português e evitar que tudo desande enquanto se traduz a receita.

“Depene-se uma galinha em água quente, limpe-se, e lave-se, e ponha-se a cozer em água com pouco sal. Em estando quase cozida, passe-se o caldo pelo peneiro, tire-se-lhe a gordura, deitem-lhe de molho o miolo de dois vinténs de pão; em estando bem ensopado, esprema-se por um pano lavado, deite-se em um grol em que esteja já um arrátel (459 g) de amêndoas doces bem pisadas, e pisando tudo outra vez, passe-se depois pelo peneiro, desfiando-lhe o peito da galinha; deite-se depois tudo em quatro arráteis de açúcar em ponto de espadana, chegue-se a lume brando, e mexendo-se sempre com uma colher, até se incorporar em consistência conveniente, deite-se em pratos, ou em covilhetes e sirva-se neles quando parecer.”


(Publicado no site anterior em janeiro de 2010.)

Castelo de Villandry, Tours, França, 23 de maio, 2012. Foto: HPPA.



terça-feira, 23 de maio de 2017

MMDC
           No dia 23 de maio de 1932 recrudesceram as tensões políticas entre São Paulo e o governo federal, especificamente contra a ditadura estabelecida por Getúlio Vargas em 1930 e exigia uma constituição para reger o Brasil. No confronto que ocorreu na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República na Capital, morreram Euclides Miragaia e Antônio de Camargo Andrade; os manifestantes se apossaram de um bonde e se dirigiram para a Rua Barão de Itapetininga e foram recebidos a tiros. Mário Martins de Almeida morreu e vários foram feridas.  Foram quatro horas de batalha e mais um manifestante morto: Dráusio Marcondes de Souza, um garoto de 14 anos. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo tornaram-se MMDC – sigla que nomeou a sociedade secreta criada no dia 24 para organizar a guerra paulista por uma Constituição e que eclodiu em 9 de julho. 
“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre."
Versos de Antônio Benedicto Machado Florence, mas também atribuídos a Guilherme de Almeida.

O movimento nunca foi separatista.

Obelisco de São Paulo: Mausoléu aos Heróis de 32. Projeto do escultor Galileo Ugo Emendabili (1898-1974), executado pelo engenheiro alemão Urich Edler. O Obelisco tem 70 metros de altura. Inauguração: 9 de julho de 1955. A entrada está voltada para a Avenida Vinte e Três de Maio, perto da Praça Ibraim Nobre (1888-1970), o tribuno do Movimento Constitucionalista.

domingo, 21 de maio de 2017


A QUARTA ARTE
(Minhas esculturas preferidas)


Ao entrar no Museu do Louvre pela primeira vez perdi o fôlego ao vê-la no alto das escadas simplesmente flutuando. E quando voltei em outras ocasiões a sensação se renovou. A beleza da Vitória da Samotrácia é indescritível. O artista grego desconhecido a esculpiu, provavelmente, para a comemoração de uma vitória naval por volta de 190 a. C. A escultura foi descoberta em 1863 por Charles Champoiseau (1830-1909), arqueólogo e cônsul francês que a enviou para Paris. Anos mais tarde Champoiseau encontrou a proa da embarcação. O conjunto tem 5m57 de altura. Só para concluir: Samotrácia é uma ilha grega de 178 m² situada no mar Egeu.








Beleza provocante. Sensibilidade à flor da pele. O que se pode dizer da obra-prima de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) “Êxtase de Santa Teresa”? A escultura que representa o momento em que o anjo trespassa Santa Tereza d’Ávila (1515-1582) com a seta do amor divino, se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. A obra foi realizada entre 1647 e 1652. (Foto: Wikipedia.)





Davi é perfeito. Não há como descrevê-lo. Michelangelo (1475-1564) concluiu a obra em 1504 para decorar a fachada de Santa Maria del Fiore em Florença (Itália), mas por problemas técnicos, a escultura foi colocada na Piazza della Signoria em frente ao Palazzo Vecchio de onde foi removida em 1857 para o interior da Galleria Dell’Accademia. Na praça foi colocada uma réplica da obra. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017


O GAROTO

Família amiga há muitos anos. Quando a filha entrou na adolescência, nasceu o garoto, agora companhia do pai, eletricista de primeira. Quando algum esperto nativo decidiu mudar o padrão das tomadas, ele veio ao apartamento fazer a troca e trouxe o filho. Não sou fã de crianças. Leo tem olhos cinza, cabelo encaracolado e não sofre de inibição. Sentiu-se em casa e começou a ajudar o pai, mas logo se entediou e começou a sessão de perguntas. Na sala da TV, quis saber se eu dormia ali; depois observou a janela, mais alta do que ele, e quis saber se podia ver a piscina. Informei que o prédio não tinha esse equipamento e a janela dava para a rua. Quis sentar-se. Coloquei-o na poltrona. Quantos anos você tem? Mostrou cinco dedos, mas o pai que trabalhava nas tomadas, o corrigiu. Ainda não tinha cinco. Perguntei por perguntar, pois já sabia a resposta, se ele estava na escola. E para minha surpresa disse que não. Então quis saber se eu tinha pai e levou uma bronca do pai dele que achou a pergunta impertinente. Não ficou sem resposta, mas Leo não é de se contentar com facilidade. Olhou em torno e quis saber por que o calendário estava em março. Era fevereiro. Como explicar que os primeiros 28 dias de março coincidem com os de fevereiro (exceto nos anos bissextos)? Sai pela tangente. Você sabe ler? Disse que não estava na escola... E ele explica muito sério que não está na escola porque está de férias. Quando estão saindo, lembro-me de uma cadernetinha colorida nova esquecida numa gaveta. Vou buscar e dou a ele. Leo fica deslumbrado com ela, sorri e pergunta se tenho outra. Fico um pouco decepcionada, mas logo percebo que a segunda seria para a irmã ou para a mãe. Fiquei devendo, mas foi embora feliz com a lembrança inesperada. 


Ilustração: "Pipas", obra de Cândido Portinari (1903-1962).  

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O PENSADOR
        
Há tempo para tudo, diz um antigo livro. Agora estávamos em tempo de pensar. Para quem não está acostumado, pensar significa “submeter (algo) ao processo de raciocínio lógico; ter atividade psíquica consciente e organizada; exercer a capacidade de julgamento, dedução ou concepção; refletir sobre, ponderar, pesar” (Dicionário Houaiss).
          E nesses tempos em que vivemos, vale a pena refletir sobre o “Sermão do bom ladrão” proferido pelo padre Antônio Vieira (1608-1697) na Igreja da Misericórdia de Lisboa há 362 anos, na presença de D. João IV, ministros e cortesãos. Vieira é um dos grandes mestres da língua portuguesa; dono de um estilo rebuscado, ele foi um brilhante pregador. Segue um excerto do sermão:


SERMÃO DO BOM LADRÃO” 
(...) O que eu posso acrescentar pela experiência que tenho é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também da parte de aquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato nem Despautério.
Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, e, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente – que é o seu tempo colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.(...)

Para ler o texto integral:

quarta-feira, 17 de maio de 2017

TARDE COM POESIA
de 
Fernando Pessoa.

         O PAPAGAIO do paço             
Não falava – assobiava.
  Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.


Ilustração:Retrato de Madame de Chateaurenard, do francês Joseph Andre Cellony (1696-1746).

segunda-feira, 15 de maio de 2017

AS GAROTAS DO ALCEU
Alceu Penna (1915-1980) foi um dos grandes ilustradores brasileiros. Começou na revista O CRUZEIRO (1928-1975) em 1933 e em 1938 passou a assinar a seção “As Garotas”, que se tornou não só uma referência de moda e estilo, mas de comportamento feminino. Um sucesso que se prolongou por 28 anos. As Garotas do Alceu eram muito elegantes e divertidas – os textos bem-humorados eram assinados por alguns nomes importantes da revista, como Vao Gogo (Millôr Fernandes) e A. Ladino (?). Alceu de Paula Penna, entretanto, foi mais que um ilustrador, destacou-se como figurinista, contribuindo com criações para os espetáculos dos cassinos cariocas. Graças a uma parceria entre O Cruzeiro e a Rhodia, tornou-se o responsável pela criação dos figurinos de apresentação das coleções anuais da marca até 1975.
Saudade das Garotas. 

domingo, 14 de maio de 2017

HOMENAGENS

O poeta santista Vicente Augusto de Carvalho (1866-1924) lecionou no Liceu Feminino Santista, fundado em 1902. Ele é o autor da letra do hino da escola, que foi musicado por Oscar Augusto Ferreira (1881-1921). O “Hino às Mães” foi publicado no livro “Versos da Mocidade”, em 1909. Frequentei o Liceu de 1959 a 1962.

Hino às Mães

Maria Luíza de Araújo, em 1950, a bordo do MAUÁ.
Salve Mães! Sede benditas
Como sois amadas!
Nós amamos e bendizemos
Como aprendemos de vós!

Nossa ternura infinita,
Vossa infinita afeição,
Caíram em nossas almas
Como a semente no chão!

Mães! Que as nossas tensas almas
Da vida ao primeiro alvor,
Abristes e borrifastes

Das orvalhadas do Amor!

sábado, 13 de maio de 2017

PORQUE HOJE É SÁBADO...
(E amanhã dia das mães...)
        
           O novaiorquino Norman Rockwell (1894-1978) foi o principal ilustrador da revista semanal norte-americana “The Saturday Evening Post”, que circulou entre 1894-1978. Criou cerca de 300 capas ao longo de quatro décadas. Nestas duas capas ele retrata as mães entre a estafa e o enlevo que os pimpolhos lhes proporcionam. 




sexta-feira, 12 de maio de 2017

A BOLSA, OS ÓCULOS E O SOFÁ.
(E uma xícara de chá)
O que não falta na TV são seriados policiais. As histórias são quase sempre as mesmas – uma delegacia, uma equipe, um crime, as pistas e, enfim, a prisão do criminoso. O desafio dos produtores é encontrar variações em torno do mesmo tema. Alguns conseguem introduzindo algumas pequenas coisas que amenizam a violência ou a falta de talento de alguns atores.

CSI Miami (2002-2012) é a pior das três séries sobre cientistas forenses. Todas as esquisitices ficam por conta de David Caruso (1961), um canastrão de primeira, cheio de maneirismos, porém, o destaque fica com os óculos escuros que ele tira e põe o tempo todo. Product placement, naturalmente. Da trilogia, a melhor, em minha opinião, é CSI New York, que reúne ótimas histórias.


Ela carrega a bolsa para todos os lugares a que vai e tudo o que cai nela desaparece – especialmente os óculos de perto. Trata-se da personagem Brenda Leigh, interpretada pela atriz Kyra Sedgwick (1965) na série The Closer (2005-2012).  Brenda Leigh é infantil e mimada na vida pessoal, mas transforma-se numa profissional determinada e encrenqueira quando entra na delegacia que comanda. A personagem, quase quarentona, ainda tem medo do pai, mas enfrenta bandidos horripilantes e se movimenta de uma sala para outra sempre com a bolsa preta pendurada no ombro e, naturalmente, a leva a todas as cenas de crime. No último episódio da série a bolsa tem uma participação especial. The Closer é um drama policial com momentos de bom humor.



The Mentalist (O mentalista) é uma série que usou com inteligência os chavões dos dramas policiais, incluindo um romance à moda antiga. Patrick Jane (Simon Baker, 49) é o mentalista que ajuda (mas arruma muitas encrencas) a polícia nas investigações usando seu poder de observação do comportamento humano para encontrar os culpados dos crimes. É um charlatão recuperado graças a um drama pessoal e busca uma vingança. Como não é policial, tem regalias: na delegacia passa a maior parte do tempo deitado num sofá ou preparando chá na copa, mas não hesita em preparar a bebida na casa dos suspeitos ou das vítimas. A série teve sete temporadas (2008-2015), mas continua sendo exibida nos canais por assinatura.

Linda Hunt (1945), inesquecível no papel de Billy Kwan, o fotógrafo anão, interpretação lhe valeu o Oscar de atriz coadjuvante no filme australiano “O ano em que vivemos perigosamente”, dirigido por Peter Weir (1982). Encontra-se em plena forma como se pode ver na série NSCI Los Angeles em que rouba todas as cenas. Invariavelmente, o personagem dela (Hetty) está saboreando uma xícara de chá e não perde oportunidade de elogiar a bebida e falar dos segredos do seu preparo para os eventuais visitantes que aparecem em sua sala.  


terça-feira, 9 de maio de 2017

MANUAL DO PENINHA

Bem na época em que se discute a qualidade do jornalismo que se pratica mundo afora, não é que aparece nas bancas de jornal o MANUAL DO PENINHA? Relançamento da publicação de 1973 (Editora Abril), que guardo porque, apesar de destinado ao público infantil, é muito bem feito. Naturalmente, o mundo mudou bastante e as novas tecnologias deram um dinamismo extraordinário ao jornalismo, embora os grandes meios de comunicação ainda não lidem bem com as novidades. Na capa, o repórter atrapalhado carrega um jurássico gravador... Na contracapa, imaginem, ele usa outra ferramenta que já faz parte de museu: a máquina de escrever. Não comprei a nova edição, mas com certeza as inovações do final do século XX e início do XXI devem fazer parte da publicação.
Na edição DE 1973, há um capítulo intitulado “O JORNAL DO FUTURO”, onde o redator já previa algumas das importantes mudanças que hoje são corriqueiras e ao alcance de qualquer pessoa que tenha um PC, TABLET ou outra geringonça eletrônica. “Uma tarefa do jornalismo que ainda consome muito tempo é a complementação da notícia, a pesquisa, a consulta aos arquivos. No futuro, os arquivos serão eletrônicos. Todos os dados de uma biblioteca estarão armazenados ‘na memória’ de possantes computadores. Se, por exemplo, um redator quiser escrever sobre o último campeonato mundial de futebol vencido pelo Brasil, ele só terá que pedir ao computador – falando ou por escrito – o que deseja saber. Segundos depois, os dados serão impressos ou então projetados numa televisão de circuito fechado. E ele logo saberá tudo sobre o assunto.“
Naqueles longínquos anos do século passado, o redator citava o caderno de jornalismo do JORNAL DO BRASIL, do Rio de Janeiro, que ironizava a situação: “no futuro um cérebro eletrônico poderá editar um jornal ou uma revista. O único problema do diretor será ao sair da redação no fim do expediente diário, chamar um contínuo e dizer: ‘Por favor, Percival, não se esqueça de colocar óleo no redator-chefe’”.  Em 2010 o JORNAL DO BRASIL, fundado em 1891, não diria que passou desta para melhor, mas mudou para o mundo digital...
O artigo termina acalmando os candidatos a repórter daquela época: “por mais aperfeiçoadas que sejam, as máquinas não poderão fazer tudo no jornalismo e haverá sempre a necessidade da ‘cuca’  de um bom jornalista para colher, escrever e analisar os fatos. A não ser, é claro, que algum Professor Pardal invente um jornalista eletrônico'”.

 

O personagem Peninha (Disney), um pato atrapalhado e distraído, foi criado em 1964 e apareceu pela primeira vez na Itália. Entre as muitas coisas que ele tenta ser na vida é repórter do jornal A Patada cujo dono é o Tio Patinhas.




Manual do Peninha: R$ 39,90. 







quarta-feira, 3 de maio de 2017

PLANETA DAS GALINHAS
       A população da Terra já ultrapassou os sete bilhões de pessoas e chegamos a tal número graças à agropecuária, a atividade mais antiga da humanidade. Quando o homem domesticou as plantas e os animais há mais de dez mil anos, conseguiu prolongar a vida da espécie e criar condições para construir um mundo novo cheio de ferramentas, signos e valores. Se esse mundo é bom ou mau, não vem ao caso.
O homem espalhou-se pelo planeta levando em sua jornada porcos, ovelhas, galinhas entre outros animais que foi domesticando, aprimorando a criação e ao longo dos séculos inventando tecnologias para comercialização das carnes de forma que pudesse atender um número de consumidores cada vez maior. Se isso deu certo? Alguns números atuais bastam: em 2016 contabilizavam-se no mundo um bilhão de ovelhas, um bilhão de porcos e mais de um bilhão de cabeças de gado.  O que surpreende mesmo é a quantidade de galinhas: 25 bilhões! O que representa mais de três aves para cada ser humano do planeta.
A galinha (Gallus gallus domesticus) tem origem asiática. Já era domesticada na China em 1.400 a.C. A ave é uma das fontes mais baratas de proteína; ela é onívora (come sementes e pequenos invertebrados) e a criação é simples, o que explica o fato de que na África 90% das casas têm galinheiros. Uma galinha selvagem vive em torno de 7 a 12 anos; quanto às domesticadas, depende da fome do dono, mas no caso dos frigoríficos, elas vivem bem pouco.

Se alguém acha que galinha é pouco inteligente, engana-se. Um estudo sobre os galináceos, realizado pelas cientistas comportamentais Lori Marino e Christina M. Colvin, indicou que “as capacidades cognitivas e emocionais das aves lhes permitiriam perceber tanto quanto crianças pequenas, primatas ou certos pássaros geralmente considerados muito mais inteligentes”, segundo reportagem da DeutscheWelle, de janeiro deste ano, divulgada pelo UOL Notícias.  

terça-feira, 2 de maio de 2017



A COBRA VAI FUMAR
           Hoje é o Dia Nacional do Ex-Combatente, uma data que homenageia os integrantes da Marinha, Exército e Força Aérea que participaram da Força Expedicionária Brasileira (FEB) enviada à Itália na II Guerra Mundial (1939-1945). Uma justa homenagem aos 25.334 participantes da Campanha da Itália entre os quais 67 mulheres, as enfermeiras.
“Levaste na tua sacola
As cores claras da aurora
Levaste no teu bornal
As  cores quentes do sol
Levaste no teu fuzil
A fúlgida flor de anil
Da bandeira do Brasil
Para o mundo libertar (...)”
(“O Canto do Pracinha Só”, de Oswald de Andrade.)
          O Brasil declarou guerra à Itália e à Alemanha em agosto de 1942 e decretou em seguida a mobilização, mas a convocação só aconteceu em 1943, com a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). A FEB foi fruto dos entendimentos entre Vargas e Roosevelt e não teve apoio dos militares brasileiros que se identificavam com o fascismo. Foi feito o estritamente necessário para cumprir o acordo entre o presidente norte-americano e o ditador brasileiro e desde o início ficou patente o desinteresse pelos convocados. A demora em decidir sobre o embarque tornou-se piada – a população dizia que “era mais fácil uma cobra fumar do que a FEB lutar”. Os soldados não perderam o brio e, já no embarque, transformaram o bordão no grito de guerra. Os aviadores preferiram ir à guerra com o brado "Senta a pua!"
          Enfim, o 1º Escalão da FEB – composto por 5.075 homens, incluindo quatro generais e 1.535 oficiais – embarcou sob o comando do coronel João Segadas Viana, no navio-transporte americano General Mann, que partiu do Rio de Janeiro no dia 2 de julho, chegando a Nápoles catorze dias depois. Em meados de setembro, o 1º Escalão teve seu batismo de fogo ao lado dos americanos. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, os 2º e 3º Escalões da FEB embarcavam para a Itália, no navio transporte americano General Meighs (5.239 soldados) e no General Mann (5.075 homens). As duas embarcações zarparam, no dia 22 de setembro. No dia 23 de novembro, o General Meighs transportou mais 4.691 praças e 285 oficiais do 4º Escalão da FEB, sob o comando do Coronel Travassos. Foram ainda transportados por via aérea, 44 médicos e 67 enfermeiras, totalizando 25.334 participantes da Campanha da Itália.
“Vou teus irmãos convocar
João, pracinha do Norte
Pedro, pracinha do Sul
Antonio, de Mato Grosso
Ricardo, da Paraíba
Francisco, do Ceará
Negro do cais da Bahia
Mineiro do Sabará (...)”
(“O Canto do Pracinha Só”, de Oswald de Andrade.)
          Em oito meses e 19 dias de luta, a FEB perdeu 443 homens entre soldados e oficiais e cerca de três mil foram feridos em batalha. As forças brasileiras fizeram 20.573 prisioneiros – entre eles dois generais, o alemão Otto Fretter e o italiano Mario Carlonio. Os historiadores ressaltam a participação da FEB nas batalhas de Monte Castelo, Castelnuovo-Soprasasso, Montese (a mais sangrenta) e Fornovo di Taro (três meses de luta em pleno inverno europeu).

          



Um pouco do cotidiano da cidade de Santos (SP), no período da II Guerra Mundial, encontra-se no meu livro:
Disponível na Livraria Nobel, Shopping Parque Balneário, Santos, e no site http://www.comunnicar.com.br/