sábado, 24 de junho de 2017

S. JOÃO: SEM FOGUEIRA E SEM BALÃO.

O carioca Lamartine Babo (1904-1963) nunca se casou, mas parece que tentou. Pelo menos é o que diz nesta música que todos nós conhecemos muito bem.
  
Isso é lá com Santo Antônio

Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio.
São João disse que não!
São João disse que não!
Tela da paulista Djanira da Motta e Silva (1914-1979).
Isto é lá com Santo Antônio!
Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio.
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com Santo Antônio!

Implorei a São João
Desse ao menos um cartão,
Que eu levava a Santo Antônio.
São João ficou zangado.
São João só dá cartão
Com direito a batizado.
Implorei a São João
Desse ao menos um cartão,
Que eu levava a Santo Antônio.
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio!

São João não me atendendo,
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso.
Disse o velho num sorriso:
"Minha gente, eu sou chaveiro,
Nunca fui casamenteiro!"
São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso.
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio!



quinta-feira, 22 de junho de 2017

RUA DO COMÉRCIO

No passeio pela Rua do Comércio (Santos, SP), surgem várias perguntas. Quem seria esse singelo José Ricardo? Trata-se do santista José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada (1787-1846), sobrinho do Patriarca José Bonifácio; formou-se em Ciências Jurídicas pela Universidade de Coimbra e combateu as forças napoleônicas em Portugal. Ao retornar ao Brasil, atuou como juiz em várias regiões do país. Trabalhou arduamente pela independência do Brasil e foi deputado geral por São Paulo na primeira legislatura (1826 a 1829). Morreu no Rio de Janeiro, onde foi sepultado.
Conde D’Eu
A próxima pergunta é fácil. Qualquer criança que frequentou escola sabe (ou deveria saber) quem foi o Conde D’Eu. Nem é preciso saber o nome dele completo que é um exagero: Louis Philippe Marie Ferdinand Gaston (1842-1922). Luís Filipe era sobrinho do rei da França e renunciou aos direitos sucessórios para casar-se com a princesa Isabel em 1864. Os seus feitos estão relacionados à participação do Brasil na Guerra do Paraguai e os historiadores, para variar, têm interpretações diversas sobre a atuação dele nesse evento.  
Manuel Joaquim Ferreira Neto, o Comendador Neto, é o menos ilustre dos homenageados. Foi comerciante bem sucedido, filantropo e vereador contra vontade. Explica-se. Ele era suplente quando em 1865 foi convocado para assumir o cargo. Ele se recusou, informando que estava mudando para Campinas e em seguida faria uma viagem para a Europa. O presidente da Câmara, Inácio Wallace da Gama Cochrane (1836-1912), informou-o de que ele não tinha direito à licença porque não era vereador efetivo. O comendador, enfim, assumiu o posto e exerceu a vereança em 1866, 1867 e 1888. Ele era o proprietário do prédio do Largo Marques de Monte Alegre, onde no início do século XX por alguns anos funcionaram a Câmara e a Prefeitura de Santos. Incendiados, restaurados, sediam desde 2014 o Museu Pelé. 

Quando será que os ilustres vereadores tão ligeiros para fazer homenagens irão fazer seu trabalho adequadamente? Placa de rua apenas com o nome de uma pessoa ou data não significa nada. É preciso dar alguma indicação para que o cidadão se oriente e aprenda a história do município e se lembre de quem fez diferença. Rua Fulano de Tal. Fulano de Tal, médico (sambista, dentista, professor, operário etc.) e data de nascimento e morte. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Quando Está Frio no Tempo do Frio
Neve é um exagero por aqui, mas a paisagem é muito bonita.
Quando está frio no tempo do frio
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa 


terça-feira, 20 de junho de 2017

RUA SANTO ANTÔNIO

A Rua do Comércio é uma das mais antigas da cidade de Santos (SP), fundada em 1546 junto ao Outeiro de Santa Catarina. A ocupação da vila ocorreu, lentamente, se espraiando para Oeste no início. Ao longo desses anos, ela teve quatro nomes. O primeiro foi Rua de São Francisco por causa do convento que se erguia próximo ao mar. Era essa a denominação em 1765. Parece que em 1822 ela já era conhecida como Rua de Santo Antônio, mas em 1899 passou a se denominar Rua Quintino Bocaiuva. A população, contudo, continuou a chamá-la pelo antigo nome até que a Câmara, na sessão de 13 de janeiro de 1919, aprovou uma homenagem à Associação Comercial de Santos, desbancou o santo casamenteiro e a denominou Rua do Comércio. A oficialização, entretanto, só aconteceu em 1921.
            Ela é pequena e estreita. Começa numa praça e termina num largo. Tem como transversais as ruas XV de Novembro, Conde D’Eu, Gonçalves Dias, José Ricardo e a Comendador Neto. Nem é preciso dizer que é cheia de história e de histórias. A praça é a Rui Barbosa (antiga Praça do Rosário) e o largo, Marquês de Monte Alegre, onde se destacam a Igreja de Santo Antonio do Valongo (século XVII) e a antiga Estação Ferroviária da São Paulo Railway. Com a inauguração da Estação Ferroviária em 1867, a região foi tomada pelos exportadores, tornando-se o centro mercantil mais importante da cidade, com todos os tipos de estabelecimentos comerciais. Ela era a rua do café.
Hoje um passeio por ela mostra o belo prédio onde funciona o Camiseiro, uma construção de 1927, bem conservada. Do lado oposto o centenário Café Paulista, ponto de encontro de políticos, jornalistas, exportadores e corretores de café. Ali, sabia-se de tudo. E de todos. Os destaques da quadra são os edifícios Pedro dos Santos e Barão de Carvalhaes, que ficam frente à frente na esquina com a Rua XV de Novembro. O edifício Pedro dos Santos foi inaugurado na primeira década do século XX. Infelizmente, uma parte foi demolida e o terreno virou estacionamento.
Em 1939, quando se comemorava o centenário da elevação de Santos à categoria de cidade, a Sul América Capitalização (SULACAP) anunciou a construção de um moderno edifício com fachadas para as ruas do Comércio, Conde D’Eu e XV de Novembro. A SULACAP, fundada em 1929, foi a primeira empresa de capitalização do Brasil e a terceira do mundo.  Para a realização da obra, foram necessárias várias demolições – entre os quais o prédio da Repartição de Saneamento, abrindo a Rua Conde D’Eu até a Rua do Comércio.
Na segunda quadra, há uma simpática mistura de prédios antigos e modernos. Alguns restaurados, outros deteriorados. O destaque é o belo edifício de tijolos vermelhos da empresa Hamburg Sud. Na esquina da Rua José Ricardo, outro prédio histórico bem conservado e que abriga a Delegacia da Receita Federal. A estrela da quadra, entretanto, é a Casa Azulejada em estilo neoclássico. O comendador português Manoel Joaquim Ferreira Neto encomendou o imóvel para usa-lo como residência e armazém; entretanto, alguns historiadores acreditam que serviu apenas de moradia. Os azulejos da fachada teriam sido colocados após a morte do comendador pelo sócio dele, Luis Guimarães.
Com a revitalização do centro histórico (lenta, mas contínua), ressurgiu um velho e amado personagem da cidade: o bonde. Ele trilha com galhardia várias vezes por dia a rua de paralelepípedos para delícia dos saudosistas e espanto dos mais jovens. (Foto: Novo Milênio, acervo Waldir Rueda.) 

R. do Comércio: placa indica local do futuro prédio da SULACAP*.

domingo, 18 de junho de 2017

 HISTÓRIAS DO BRASIL

O noticiário nacional nos entristece e, frequentemente, nos provoca suspiros enquanto imaginamos como tudo isso começou... Lamartine Babo (1904-1963) fez um esboço da construção da nacionalidade para o Carnaval de 1934. Na marchinha “História do Brasil”, ele atribui a Cabral a invenção do Brasil no dia 21 de abril dois meses depois do Carnaval.  Se você está pronto para apontar erros, esqueça. É carnaval e nada é oficial. É a festa da desconstrução; de Momo, personificação do sarcasmo e da crítica. Assim, Cabral não descobriu, inventou o Brasil e, portanto, por que não em 21 de abril?
O compositor carioca junta os personagens do romance de José de Alencar (1829-1877), Ceci e o índio Peri, transpostos para a ópera “O Guarani” por Carlos Gomes (1836-1896), tempera tudo com feijoada numa referência à contribuição do negro para a cultura brasileira, sem deixar de mencionar a questão da escravatura.


Enfim, Lamartine salta para 1933 e afirma que tudo mudou. “Passou-se o tempo da vovó/ Quem manda é a Severa/ E o cavalo Mossoró”. Severa? Pois é. Severa foi a mascote da Portuguesa de Desportos desde 1920 até 1994. A imagem da portuguesinha em trajes típicos teria sido inspirada na vedete portuguesa Dina Teresa (1902-1984), que protagonizou o filme “A Severa”, baseado na obra de Júlio Dantas e com direção de Leitão de Barros em 1931. Dina Teresa visitou o Brasil em 1933.





O cavalo Mossoró, por sua vez, tornou-se a paixão nacional ao vencer o primeiro Grande Prêmio Brasil, realizado em 6 de agosto de 1933, no Hipódromo Brasileiro (hoje Hipódromo da Gávea), no Distrito Federal. Mossoró era um tordilho puro sangue inglês, propriedade de Frederico Lundgren, fundador das Casas Pernambucanas. A vitória do cavalo pernambucano tornou-se um acontecimento nacional – ele venceu outras competições importantes naquele ano.
Tudo mudou?


HISTÓRIA DO BRASIL
Lamartine Babo

Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral!
Foi seu Cabral!

No dia vinte e um de abril
Dois meses depois do carnaval

Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som...
Ao som do Guarani!

Do Guarani ao guaraná
Surgiu a feijoada
E mais tarde o Paraty 

Depois
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô

De lá...
Pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda é a Severa
E o cavalo Mossoró


segunda-feira, 12 de junho de 2017

AOS AMANTES
Para marcar a data (comercial) nada como o soneto de Luis de Camões e a obra de Auguste Rodin (O Beijo).

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

domingo, 11 de junho de 2017

VIAGEM NO TEMPO

O dia dos namorados pode ser uma boa ocasião para se lembrar de personagens que povoaram a imaginação da turma que nasceu no século passado (e ainda sobrevive, claro!).

Mandrake, por exemplo, foi um personagem criado por Lee Falk (1911-1937) em 1934. O desenhista foi Phil Davis (1906-1964), que conheceu pessoalmente o verdadeiro Leon Mandraque. Chamava-se Leon Giglio (1911-1993) e era ítalo-americano. Começou muito jovem e ficou famoso como mágico, ventríloquo, mentalista e ilusionista. Apresentava em teatros canadenses nos anos de 1920 usando uma cartola, capa, bengala e um fino bigodinho. O personagem de Lee Falk namora a princesa Narda e a primeira esposa de Leon Giglio chamava-se Narda. O mágico da ficção mora em um castelo no alto de um morro em Xanadu de onde sai para combater o crime com a ajuda de Lothar – um príncipe africano. A princesa Narda é proveniente da Europa Oriental. Onde é Xanadu? Talvez Shangdu, na China, citada por Marco Polo.  

Lee Falk foi o criador de outro casal famoso no mundo das histórias em quadrinhos: Fantasma e Diana Palmer. As tiras começaram a ser publicadas em 1936. Tudo começa em 1536, quando piratas mataram o pai do marinheiro britânico Christopher Walker. Inconformado, Walker jura vingança e, depois de cumprir a promessa, resolve combater o mal, criando um legado que passa de geração a geração, o que confere ao personagem uma espécie de imortalidade. Fantasma vive na caverna do Crânio em Bangalla, um país africano fictício; tem um lobo chamado Capeto, um cavalo que atende por Herói. Nos tempos em que lia a revista o Fantasma namorava Diana Palmer, mas depois casaram o “espírito que anda” e eles têm dois filhos. Phil Davis também foi o autor do desenho original que trouxe duas características importantes ao personagem: a roupa justa e a máscara que não revela os olhos.
   


    Super-homem é uma criação de Jerry Siegel e Joe Shuster e apareceu pela primeira vez em 1938. Foi um grande sucesso. O danado do extraterrestre, nascido no planeta Krypton, conquistou logo o planeta terra. Nem é preciso contar a saga de Clark Kent e sua vida dupla. Quando não sai voando para combater o crime e as injustiças nas suas roupas colantes, ele é um tímido jornalista do Planeta Diário, apaixonado pela dinâmica colega Lois Lane, repórter.
      











sábado, 10 de junho de 2017

DIA DE CAMÕES
Luis de Camões, considerado um dos maiores poetas de Portugal e do Ocidente, morreu no dia 10 de junho de 1580 em Lisboa. A data marca também o Dia de Portugal e das comunidades portuguesas. Camões narra a epopeia portuguesa que ampliou o mundo, se lançando “por mares nunca dantes navegados”.



Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
 Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
 Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas [...]. (“Os Lusíadas”,1572.)


O Português é a língua oficial de oito países, além de Portugal. Cerca de 250 milhões de pessoas se expressam nesse idioma – só no Brasil, são 207 milhões. O Português é a língua oficial também em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

MÊS DE FESTANÇAS

As festas juninas pipocam pelo país. Muitas lojas oferecem chapéus de palha, roupas coloridas, cheias de fitas e rendinhas. Nos supermercados, não faltam balcões com produtos típicos da época: canjica, paçoca de amendoim, pamonha, doces de abóbora e de batata doce e, claro, pipoca. Cabe às mães cozinhar a batata doce, fazer o cuscuz e o arroz doce e preparar o bolo de fubá. Paróquias, condomínios, clubes e escolas montam seus arraiais com bandeirinhas e balões (que ficam apenas pendurados) e a garotada se diverte dançando quadrilha. Para os adultos quase sempre sobra o vinho quente e o quentão... E, naturalmente, o pagamento da conta. 
Festas Juninas. Alfredo Volpi (189601988). 

segunda-feira, 5 de junho de 2017


DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

Mais uma obra do fotógrafo e jornalista Silvestre Silva.
O meio ambiente agradece.



quinta-feira, 1 de junho de 2017




               Outono chegando ao fim. Os almanaques agrícolas informam que é tempo de plantar pereiras e macieiras. Os alimentos da época são laranja pera, melão, morango, tangerinas cravo e ponkan, maçã red, pera Williams, chuchu, ervilha, batata doce, cará, cebola, gengibre, mandioca, mandioquinha, rabanete, acelga, agrião, alface, almeirão, brócolis, cebolinha, couve, couve-flor, chicória, espinafre, repolho, rúcula, salsa e salsão. Embora atualmente todos sejam encontrados nos mercados durante o ano, os preços devem ser melhores neste período. 
                É o momento em que também se começa a preparar o arraial para as festas do solstício de inverno (a noite mais longa do ano) que homenageiam Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). O solstício ocorre este ano a 1h24 do dia 21 de junho. 
                Em Sampa, nem sinal de frio.
As Riquíssimas Horas do duque de Berry foram pintadas 
pelos irmãos Limbourg — Paul, Hermann e Jean, artistas flamengos 
contratados pelo duque por volta de 1405. 
No hemisfério norte, começa a colheita. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

MELHORE SEU VOCABULÁRIO.
Sua vida e a dos outros.

Há algumas expressões que estão esquecidas no cotidiano e fazem parte da sociabilidade, ou seja, das regras de boa convivência. Essas palavras fazem muito bem para quem usa e para quem ouve. São as palavras mágicas que ajudam a melhorar as relações sociais. Anote, por favor.
BOM DIA – não custa nada e é sempre muito agradável de ouvir. (Vale para BOA TARDE e BOA NOITE.)
OBRIGADO (A) – Para começar é bom esclarecer que homem diz OBRIGADO e mulher, OBRIGADA. Agradecimento superficial ou mais profundo, que firma um vínculo com aquele que me deu alguma forma de sua atenção em palavras ou atos.
DESCULPE-ME – ou suas variantes. É uma demonstração civilizada de que se está arrependido por alguma ação ou falta cometida contra alguém. De uma pisadela a um esbarrão.
POR FAVOR – nunca se esqueça de dizer porque é essencial nos relacionamentos. É uma expressão de cortesia que ameniza as ordens que damos e os pedidos que fazemos no cotidiano. Com certeza pesará muito na decisão da pessoa a quem se dirige o pedido e, no caso, de ordem, ela será mais bem acatada.
COM LICENÇA – Cabe na abordagem de alguém, numa interrupção, num simples pedido de passagem. A expressão “dá licença” deve ser evitada porque é rude.
Educação começa em casa. Cabe aos pais ensinar aos filhos o uso das palavras mágicas. Ao entrar no elevador cumprimentam-se as pessoas, os funcionários do prédio e os que prestam serviços públicos (carteiro, lixeiro, gari etc.), o motorista e o cobrador do ônibus... Enfim, o dia ficará muito melhor com um bom dia.
Costumo ouvir muita gente reclamando da má educação dos franceses. Discordo inteiramente. Eles são mestres no uso das cinco expressões e, provavelmente, quem se queixa não faz uso delas.
 
Cena de Verão, de Fréderic Bazille (1841-1870).



domingo, 28 de maio de 2017

FAROFA OU PAÇOCA?

Não sabia que a origem da palavra paçoca era Tupi. A paçoca, ensina Houaiss, é a farinha que resulta da mistura de vários ingredientes socados juntos no pilão. Raras crianças não se deliciaram com aquele doce de amendoim que esfarela todo quando o papel não é tirado com cuidado. Novidade mesmo para mim foi descobrir que um prato delicioso que minha avó preparava era paçoca: carne assada, desfiada, socada no pilão com farinha de mandioca. Ela chamava de farofa que comíamos com banana nanica. E a palavra farofa tem origem no quimbundo, língua falada em Angola. Mas voltando ao assunto, a farofa, dependendo da ocasião, podia ser bem simples: fritando a farinha na manteiga e adicionando pedacinhos de ovo cozido.
Nesses tempos em que impera a lei do menor esforço, o pilão com seu pistilo (mão de pilão) é pouco visto pelas lojas de utensílios culinários, embora seja muito antigo e essencial numa boa cozinha. Em casa tínhamos um de pedra com uns 30 cm de diâmetro. Bastante pesado. Interessante que em laboratórios, onde é muito usado, o pilão ganha o nome de almofariz, palavra de origem árabe.
Bem, toda essa farofa (conversa fiada) para chegar ao prato de domingo que em casa era carne assada com macarrão ou nhoque, acompanhado de salada, mas podia variar e então o centro da mesa era ocupado por galinha – sempre selecionada entre as que viviam no galinheiro, no fundo quintal, gordinhas e bem cuidadas.
Depois do almoço minhas tias tinham programa certo: as matinées do Cine Carlos Gomes (Avenida Ana Costa) ou Cine Bandeirantes (Rua Lucas Fortunato), dependendo do filme em cartaz. Eu ia de contrapeso. Domingos inesquecíveis.



sábado, 27 de maio de 2017

SÁBADO TEM FEIJOADA

É antiga a discussão sobre a invenção da feijoada. Aliás, perde-se no tempo o debate sobre a origem do feijão – alguns historiadores dizem que já era consumido há 11 mil anos na Ásia e outros relatam sua existência há sete mil anos no continente americano. Por aqui os silvícolas consumiam feijões e favas, segundo o português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), agricultor e dono de engenho estabelecido em Salvador entre 1565 e 1569.
O folclorista Câmara Cascudo conta que os naturalistas estrangeiros que passaram pelo Brasil no século XIX revelam em seus escritos a presença da leguminosa na alimentação diária da população em todo o país. Eles contam que geralmente o feijão era cozido com carne de vaca e toucinho e outros vegetais. Para o estudioso pernambucano “o que chamamos ‘feijoada’ é uma solução europeia elaborada no Brasil. Técnica portuguesa com o material brasileiro”.
Cascudo cita o cozido preparado com várias carnes (vaca, porco, carneiro, pato ganso), legumes e hortaliças, comum na Europa latina. É o conhecido cozido português; a olla podrida, puchero, paella e cocido espanhóis; pot pourri e cassoulet da França; bollito italiano; pilota catalã (com grão-de-bico) entre outros. “Com esses antecedentes era natural que o português alargasse as fronteiras da feijoada magra e pobre, do triste feijão na água e sal.”
Nas receitas antigas que o pesquisador compilou, nota-se a ausência das verduras que fazem parte dos cozidos tradicionais. E de modo geral usava-se o feijão mulatinho. A chamada feijoada completa surgiu no final do século XIX e início do século XX. Os ingredientes principais são feijão preto, carne seca, linguiça calabresa, paio, lombo defumado, orelha de porco, pé de porco, rabo de porco, língua de porco, costelinha de porco, cebola e alho. Geralmente, acompanham farinha de mandioca (sempre ela), couve manteiga. A laranja também é novidade recente.
Em São Paulo, a feijoada está no cardápio de quase todos os restaurantes às quartas-feiras e sábados. 
Cozinha Caipira, de Almeida Júnior (1850-1899). 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

PREFERÊNCIA NACIONAL
Feijão, farinha de mandioca, arroz e milho são base da comida do brasileiro. O feijão reina absoluto na preferência nacional desde o século XVII, mas a mandioca já era o principal alimento dos nativos, quando os europeus chegaram ao continente, como o próprio Pero Vaz Caminha relata em sua carta ao rei português. Com ela faziam farinha e beijus. Os portugueses logo se renderam à mandioca.
          O navegador Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) de Souza relatou que os navios voltavam para Portugal carregados de farinha de mandioca que ele considerava “muito sadia e desenfastiada, e molhada no caldo da carne ou do peixe fica branda e tão saborosa como cuscuz. Também costumam levar para o mar matalotagem de beijus grossos muito torrados, que dura um ano e mais sem se danarem como a farinha de guerra”. 
A farinha de mandioca acompanha feijão, peixes e carnes em geral. O hábito incorporado no período colonial persiste imbatível até hoje em diferentes formas, como tapioca ou polvilho em todo o país. Para o folclorista Luiz Câmara Cascudo a mandioca é a rainha do Brasil. “Havendo rede, farinha e cachimbo, está em termo...”, como diria frei João de São José, quarto bispo do Pará.
“O feijão, sobretudo o preto, é o prato nacional e predileto dos brasileiros; figura nas mais distintas mesas, acompanhado de um pedaço de carne de rês seco ao sol e de toucinho à vontade. Não há refeição sem feijão, só o feijão mata a fome. É nutritivo e sadio, mas só depois de longamente acostumado sabe ao paladar europeu, pois o gosto é áspero, desagradável.” A declaração é do alemão Carl Seidler em 1826, mas outros estrangeiros testemunham a preferência nacional. Entre eles o pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o mineralogista inglês John Mawe (1764-1829) e a conterrânea dele escritora Maria Graham (1785-1842).
Cascudo reproduz a descrição que Debret fez do jantar de um comerciante pobre. O prato é preparado com “(...) com um miserável pedaço de carne-seca, de três a quatro polegadas quadradas e somente meio dedo de espessura, cozinham-no a grande água com um punhado de feijões pretos, cuja farinha cinzenta, muito substancial, tem a vantagem de não fermentar no estômago. Cheio o prato com esse caldo, no qual nadam alguns feijões, joga-se nele uma grande pitada de farinha de mandioca, a qual, misturada com os feijões esmagados, forma uma pasta consistente que se come com a ponta da faca arredondada, de lâmina larga”.
É interessante a referência que Debret faz ao feijão boiando no caldo, pois a gíria boia surgiu nos quartéis, onde o rancho básico era feijão mal preparado cujos grãos boiavam na panela.
A variedade de feijões é grande: feijão-de-arrancar, feijão-de-corda, feijão-de-praia, feijão-manteiga, feijão-branco, feijão-fradinho, feijão-de-lima ou simplesmente pela cor – preto, branco, mulatinho, roxinho ou cavalo claro. Cresci saboreando o delicioso feijão preto preparado por minha avó, muito mais saboroso que o mulatinho.
Obra de Jean-Baptiste Debret .



quinta-feira, 25 de maio de 2017

O MANJAR PROIBIDO

Já imaginou um manjar branco tão delicioso a ponto de um rei proibir que se divulgasse a receita? Conto de fada? Não. O fato verdadeiro aconteceu em Portugal em pleno século XVI. D. Sebastião, “considerando-o suntuoso e acima da economia fidalga e popular”, proibiu-o através de uma pragmática (qualquer lei diferente do direito) em 28 de abril de 1570.
Deveria ser a delícia das delícias e fiquei muito tempo tentando descobrir a receita desse doce e até tentada a ir para a cozinha materializar essa maravilha e ter a felicidade de provar tal iguaria. Encontrei, finalmente, a receita na obra de mestre Luis da Câmara Cascudo, que o coloca entre os quatro doces históricos na etnografia lusitana.
Mas como diz o poeta santista a “felicidade sempre está onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”. A verdade é que logo no inicio da receita, a magia da história se evaporara no cozimento da galinha, ingrediente principal do manjar. Doce que leva galinha? Nem pensar! Confesso que não gosto muito de galinha, mas li até o fim e descobri que prefiro o doce à moda do Porto, onde o pessoal substitui a galinha por amêndoas. A outra opção (para os dias em que não se comia carne) é trocar a penosa por peixe.
          A proibição real, entretanto, não impediu que o manjar branco se tornasse doce dos conventos ricos e chegasse ao Brasil por meio dos religiosos, já que o padre Cristóvão de Gouvêa o provou em 1583 na Bahia. 
          Se alguém estiver interessado em fazer o manjar branco, aí vai a receita que está na obra de Cascudo, transcrita do livro O doce nunca amargou, de Emanuel Ribeiro, publicado em Coimbra em 1928. Nos dias atuais o manjar branco é até acessível ao bolso popular.
         
               “Coze-se uma galinha e, depois de bem cozida, tira-se para um prato onde se deixa arrefecer; estando fria extrai-se-lhe toda a carne do peito sem a pele, e esta carne desfia-se a mão o mais completamente possível.
             Feito isso, em um tacho bem limpo deita-se um litro de leite e no leite, a carne desfiada da galinha. Mexe-se bem para a mistura ficar perfeita e, depois, reúne-se-lhe um quilo de açúcar refinado e 320 gramas de farinha de arroz.
            Mexe-se bem e leva-se ao lume onde se põe a cozer. Enquanto vai cozendo, deita-se no tacho, pouco a pouco, um litro de leite, onde se dissolveu meio quilo de açúcar refinado.
            Assim que tudo estiver cozido, o que se conhece quando, metendo no preparado a ponta da faca, esta despegar lisa, deita-se-lhe uma pouca de água-flor, dá-se-lhe uma mexedela, e tira-se do fogo, deitando-se o doce em pequenos pires ou em uma travessa grande, para, depois de frio, se cortar em pedaços.”

O manjar branco deu origem ao manjar real, o sucesso do século XVIII, e que é um pouco mais complicado de fazer. Recomendo também o uso de um dicionário para entender as recomendações do cozinheiro português e evitar que tudo desande enquanto se traduz a receita.

“Depene-se uma galinha em água quente, limpe-se, e lave-se, e ponha-se a cozer em água com pouco sal. Em estando quase cozida, passe-se o caldo pelo peneiro, tire-se-lhe a gordura, deitem-lhe de molho o miolo de dois vinténs de pão; em estando bem ensopado, esprema-se por um pano lavado, deite-se em um grol em que esteja já um arrátel (459 g) de amêndoas doces bem pisadas, e pisando tudo outra vez, passe-se depois pelo peneiro, desfiando-lhe o peito da galinha; deite-se depois tudo em quatro arráteis de açúcar em ponto de espadana, chegue-se a lume brando, e mexendo-se sempre com uma colher, até se incorporar em consistência conveniente, deite-se em pratos, ou em covilhetes e sirva-se neles quando parecer.”


(Publicado no site anterior em janeiro de 2010.)

Castelo de Villandry, Tours, França, 23 de maio, 2012. Foto: HPPA.



terça-feira, 23 de maio de 2017

MMDC
           No dia 23 de maio de 1932 recrudesceram as tensões políticas entre São Paulo e o governo federal, especificamente contra a ditadura estabelecida por Getúlio Vargas em 1930 e exigia uma constituição para reger o Brasil. No confronto que ocorreu na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República na Capital, morreram Euclides Miragaia e Antônio de Camargo Andrade; os manifestantes se apossaram de um bonde e se dirigiram para a Rua Barão de Itapetininga e foram recebidos a tiros. Mário Martins de Almeida morreu e vários foram feridas.  Foram quatro horas de batalha e mais um manifestante morto: Dráusio Marcondes de Souza, um garoto de 14 anos. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo tornaram-se MMDC – sigla que nomeou a sociedade secreta criada no dia 24 para organizar a guerra paulista por uma Constituição e que eclodiu em 9 de julho. 
“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre."
Versos de Antônio Benedicto Machado Florence, mas também atribuídos a Guilherme de Almeida.

O movimento nunca foi separatista.

Obelisco de São Paulo: Mausoléu aos Heróis de 32. Projeto do escultor Galileo Ugo Emendabili (1898-1974), executado pelo engenheiro alemão Urich Edler. O Obelisco tem 70 metros de altura. Inauguração: 9 de julho de 1955. A entrada está voltada para a Avenida Vinte e Três de Maio, perto da Praça Ibraim Nobre (1888-1970), o tribuno do Movimento Constitucionalista.

domingo, 21 de maio de 2017


A QUARTA ARTE
(Minhas esculturas preferidas)


Ao entrar no Museu do Louvre pela primeira vez perdi o fôlego ao vê-la no alto das escadas simplesmente flutuando. E quando voltei em outras ocasiões a sensação se renovou. A beleza da Vitória da Samotrácia é indescritível. O artista grego desconhecido a esculpiu, provavelmente, para a comemoração de uma vitória naval por volta de 190 a. C. A escultura foi descoberta em 1863 por Charles Champoiseau (1830-1909), arqueólogo e cônsul francês que a enviou para Paris. Anos mais tarde Champoiseau encontrou a proa da embarcação. O conjunto tem 5m57 de altura. Só para concluir: Samotrácia é uma ilha grega de 178 m² situada no mar Egeu.








Beleza provocante. Sensibilidade à flor da pele. O que se pode dizer da obra-prima de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) “Êxtase de Santa Teresa”? A escultura que representa o momento em que o anjo trespassa Santa Tereza d’Ávila (1515-1582) com a seta do amor divino, se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. A obra foi realizada entre 1647 e 1652. (Foto: Wikipedia.)





Davi é perfeito. Não há como descrevê-lo. Michelangelo (1475-1564) concluiu a obra em 1504 para decorar a fachada de Santa Maria del Fiore em Florença (Itália), mas por problemas técnicos, a escultura foi colocada na Piazza della Signoria em frente ao Palazzo Vecchio de onde foi removida em 1857 para o interior da Galleria Dell’Accademia. Na praça foi colocada uma réplica da obra. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017


O GAROTO

Família amiga há muitos anos. Quando a filha entrou na adolescência, nasceu o garoto, agora companhia do pai, eletricista de primeira. Quando algum esperto nativo decidiu mudar o padrão das tomadas, ele veio ao apartamento fazer a troca e trouxe o filho. Não sou fã de crianças. Leo tem olhos cinza, cabelo encaracolado e não sofre de inibição. Sentiu-se em casa e começou a ajudar o pai, mas logo se entediou e começou a sessão de perguntas. Na sala da TV, quis saber se eu dormia ali; depois observou a janela, mais alta do que ele, e quis saber se podia ver a piscina. Informei que o prédio não tinha esse equipamento e a janela dava para a rua. Quis sentar-se. Coloquei-o na poltrona. Quantos anos você tem? Mostrou cinco dedos, mas o pai que trabalhava nas tomadas, o corrigiu. Ainda não tinha cinco. Perguntei por perguntar, pois já sabia a resposta, se ele estava na escola. E para minha surpresa disse que não. Então quis saber se eu tinha pai e levou uma bronca do pai dele que achou a pergunta impertinente. Não ficou sem resposta, mas Leo não é de se contentar com facilidade. Olhou em torno e quis saber por que o calendário estava em março. Era fevereiro. Como explicar que os primeiros 28 dias de março coincidem com os de fevereiro (exceto nos anos bissextos)? Sai pela tangente. Você sabe ler? Disse que não estava na escola... E ele explica muito sério que não está na escola porque está de férias. Quando estão saindo, lembro-me de uma cadernetinha colorida nova esquecida numa gaveta. Vou buscar e dou a ele. Leo fica deslumbrado com ela, sorri e pergunta se tenho outra. Fico um pouco decepcionada, mas logo percebo que a segunda seria para a irmã ou para a mãe. Fiquei devendo, mas foi embora feliz com a lembrança inesperada. 


Ilustração: "Pipas", obra de Cândido Portinari (1903-1962).  

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O PENSADOR
        
Há tempo para tudo, diz um antigo livro. Agora estávamos em tempo de pensar. Para quem não está acostumado, pensar significa “submeter (algo) ao processo de raciocínio lógico; ter atividade psíquica consciente e organizada; exercer a capacidade de julgamento, dedução ou concepção; refletir sobre, ponderar, pesar” (Dicionário Houaiss).
          E nesses tempos em que vivemos, vale a pena refletir sobre o “Sermão do bom ladrão” proferido pelo padre Antônio Vieira (1608-1697) na Igreja da Misericórdia de Lisboa há 362 anos, na presença de D. João IV, ministros e cortesãos. Vieira é um dos grandes mestres da língua portuguesa; dono de um estilo rebuscado, ele foi um brilhante pregador. Segue um excerto do sermão:


SERMÃO DO BOM LADRÃO” 
(...) O que eu posso acrescentar pela experiência que tenho é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também da parte de aquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato nem Despautério.
Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, e, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente – que é o seu tempo colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.(...)

Para ler o texto integral: