domingo, 19 de fevereiro de 2017

HISTÓRIAS DO CARNAVAL BRASILEIRO

No início do século passado, a cidade do Rio de Janeiro estava em pé de guerra por causa da grande reforma urbana que o prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913) iniciava não apenas para embelezar a cidade, mas principalmente para combater a cólera e as febres amarela e tifoide que assolavam a capital do país. O trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) não foi compreendido e as autoridades enfrentaram a chamada Revolta da Vacina. Uma das medidas para enfrentar as epidemias consistia em eliminar os ratos que infestavam a cidade e para conseguir o apoio da população pagava-se pelos ratos apreendidos e logo criou-se a brigada dos exterminadores constituída por populares que saiam pela cidade caçando ratos que colocavam em sacos a fim de levar para os postos de recolhimento. O fato inspirou Casemiro Rocha e Claudino Costa, autores da polca que se tornou o grande sucesso do carnaval de 1904: “Rato, rato”: 

Rato, rato, rato,
Porque motivo tu roeste meu baú?
Rato, rato, rato,
Audacioso e malfazejo gabiru.
Rato, rato, rato,
Eu hei de ver ainda o teu dia final,
                                       A ratoeira te persiga e consiga,
                                       Satisfazer meu ideal.

O poderoso senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915), chefe do Partido Republicano, foi alvo de algumas marchinhas carnavalescas – algumas anônimas. Como esta paródia de uma embolada de Catulo da Paixão Cearense, que fez sucesso no carnaval de 1915:
Mestre Pinheiro, seu Machado,
Tome tento
Não te metas que o momento
Não é mais de brincadeira.
Estamos sem prata, sem níquel,
Sem dinheiro,
Pode o povo brasileiro
 Virar pau de goiabeira.
Vem cá, Pinheiro, vem cá
E deixa de rezingar*.

O presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) cujo apelido era Dudu também não escapou do humor carioca e mereceu de J. Carvalho Bulhões a polca “Ó Filomena”:
Ó Filomena
Se eu fosse como tu,
Tirava a urucubaca
Da cabeça do Dudu;
Na careca do Dudu
Já subiu uma macaca
Por isso, coitadinho,
Ele tem urucubaca.

Em 1921 o presidente do Brasil Arthur Bernardes (1875-1955) também experimentou o desprazer de ser lembrado no carnaval. Embora tivesse vários apelidos, os compositores Luiz Nunes Sampaio e Freire Júnior resolveram homenageá-lo com o mais breve: “Ai, seu Mé”:

O Zé Povo quer a goiabada Campista

Rolinha desista / Abaixe esta crista

Embora se faça uma bernarda*
A cacete / Não vais ao Catete

Não vais ao Catete

Ai seu Mé / Ai Mé Mé
Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé

O queijo de Minas tá bichado
Seu Zé / Não sei porque é
Não sei porque é
Prefira bastante apimentado, Yayá
O bom vatapá / O bom vatapá. 


Um dos grandes sucessos do carnaval de 1929 foi uma marchinha de autoria de Freire Jr. “Seu Julinho Vem” que trata da política café (São Paulo) com leite (Minas Gerais) que alternava na presidência da República paulistas e mineiros. A marchinha de Freire Jr. foi lançada no Teatro Municipal de São Paulo e é uma peça publicitária da campanha do paulista Júlio Prestes de Albuquerque (1882-1946) à presidência da República. Prestes venceu, mas não tomou posse, pois com a a Revolução de 1930 Getúlio Dorneles Vargas que ficou no poder quinze anos.

Ó Seu Toninho
Da terra do leite grosso
Bota cerca no caminho
Que o paulista é um colosso
Puxa a garrucha
Finca o pé firme na estrada
Se começa o puxa-puxa
Faz do seu leite coalhada.

Seu Julinho vem, Seu Julinho vem
Se o mineiro lá de cima descuidar
Seu Julinho vem, Seu Julinho vem
Vem, mas custa, muita gente há de chorar

Ó Seu Julinho, tua terra é do café
Fique lá sossegadinho
Creia em Deus e tenha fé
Pois o mineiro
Não conhece a malandragem
Cá no Rio de Janeiro.
Ele não leva vantagem

Getúlio Vargas (1882-1954) também teve uma grande presença nos carnavais ao longo de sua trajetória política. Em 1937, o ditador prometeu eleições para 1938 e candidataram-se à presidência Armando de Salles Oliveira (1887-1945) e Oswaldo Aranha (1884-1960). O jornal A Noite lançou um concurso e venceu a música de Nássara e Cristóvão Alencar “Menina Presidência”, interpretada por Sílvio Caldas. A dupla acertou em cheio. Em novembro de 1936 Vargas estabelece o Estado Novo e ficou no poder até meados de 1945.

A menina presidência
Vai rifar seu coração
E já tem três pretendentes
Todos três chapéu na mão
(E quem será?)
O homem quem será?
Será seu Manduca?
Ou será seu Vavá?
Entre esses dois
Meu coração balança
Porque na hora H
Quem vai ficar é seu Gegê.


*Rezingar: resmungar.
*Bernarda: revolta.