segunda-feira, 10 de abril de 2017

NAS ÁGUAS VERMELHAS DO SÃO FRANCISCO

Em 1819, o botânico e naturalista francês Auguste Saint-Hilaire (1779-1853) fez uma viagem até a nascente do rio São Francisco a partir do Rio de Janeiro. A aventura, por assim dizer, originou o livro “Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás”, publicado em 1848 em Paris. O rio São Francisco nasce na serra da Canastra em Minas Gerais e percorre 2.863 km até o Oceano Atlântico depois de atravessar a Bahia, fazendo a divisa desse estado com Pernambuco e mais adiante faz a divisão entre os estados de Alagoas e Sergipe. O velho Chico, o chamado rio de integração nacional, tem 36 afluentes, sua bacia hidrográfica, a terceira maior do Brasil, banha 503 municípios e abrange sete estados. O rio é navegável em dois trechos: o médio entre Pirapora (MG) e as cidades de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) tem 1.371 km; e  o baixo, com 208 km, vai de Piranhas (AL) ao Atlântico.
Em janeiro de 1975 empreendi a aventura de Pirapora a Petrolina a bordo da gaiola Benjamim Guimarães, barco a vapor movido a rodas de pás, fabricado em 1913 pelo estaleiro James Rees, de Pittisburgh, Pensilvânia (EUA). Barco lotado – populações ribeirinhas, estudantes do eixo Rio/São Paulo/Minas e alguns turistas estrangeiros dormindo em redes no convés por Cr$ 94. Uma cabine de primeira classe custava R$ 1. 000,00, mas não era tão animada. Duração da viagem: seis ou sete dias. A passagem incluia três refeições por dia e o passageiro da geral tinha que levar o próprio prato, talher e copo na bagagem. (Lembro de um operário que fazia as refeições no capacete). Uma multidão aguardava a hora do embarque e assim que se alcançava o convés era preciso pendurar a rede para garantir a pousada. Aos retardatários, o chão! E o chão logo estava repleto de mochilas.
Partimos no dia 25 de janeiro. Para quem não sabe a gaiola é um barco dotado de uma caldeira que produz o vapor para mover as rodas de pás que funcionam como mecanismo de propulsão. O primeiro vapor a navegar pelo São Francisco foi o “Saldanha Marinho”, importado dos Estados Unidos em 1871 e montado em Barbacena (MG). Benjamim Guimarães singrava bravamente pelas águas barrentas do rio parando rapidamente aqui e ali para pegar ou deixar passageiros ou em estadas mais demoradas para se prover de lenha para abastecer a caldeira voraz.
O São Francisco ofereceu-me uma gama de paisagens inesquecíveis e algumas irrecuperáveis porque desapareceram com a construção da barragem de Sobradinho. Foram vinte e três localidades aos longo dos 1.371 km até Petrolina.
O Benjamim Guimaraes é tombado pelo patrimônio histórico local e estadual, atualmente, passa por reformas. O nome é homenagem a Benjamim Ferreira Guimarães (1861-1948), industrial, banqueiro e filantropo mineiro.


Foto: Prefeitura de Pirapora (MG).









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