sexta-feira, 19 de maio de 2017


O GAROTO

Família amiga há muitos anos. Quando a filha entrou na adolescência, nasceu o garoto, agora companhia do pai, eletricista de primeira. Quando algum esperto nativo decidiu mudar o padrão das tomadas, ele veio ao apartamento fazer a troca e trouxe o filho. Não sou fã de crianças. Leo tem olhos cinza, cabelo encaracolado e não sofre de inibição. Sentiu-se em casa e começou a ajudar o pai, mas logo se entediou e começou a sessão de perguntas. Na sala da TV, quis saber se eu dormia ali; depois observou a janela, mais alta do que ele, e quis saber se podia ver a piscina. Informei que o prédio não tinha esse equipamento e a janela dava para a rua. Quis sentar-se. Coloquei-o na poltrona. Quantos anos você tem? Mostrou cinco dedos, mas o pai que trabalhava nas tomadas, o corrigiu. Ainda não tinha cinco. Perguntei por perguntar, pois já sabia a resposta, se ele estava na escola. E para minha surpresa disse que não. Então quis saber se eu tinha pai e levou uma bronca do pai dele que achou a pergunta impertinente. Não ficou sem resposta, mas Leo não é de se contentar com facilidade. Olhou em torno e quis saber por que o calendário estava em março. Era fevereiro. Como explicar que os primeiros 28 dias de março coincidem com os de fevereiro (exceto nos anos bissextos)? Sai pela tangente. Você sabe ler? Disse que não estava na escola... E ele explica muito sério que não está na escola porque está de férias. Quando estão saindo, lembro-me de uma cadernetinha colorida nova esquecida numa gaveta. Vou buscar e dou a ele. Leo fica deslumbrado com ela, sorri e pergunta se tenho outra. Fico um pouco decepcionada, mas logo percebo que a segunda seria para a irmã ou para a mãe. Fiquei devendo, mas foi embora feliz com a lembrança inesperada. 


Ilustração: "Pipas", obra de Cândido Portinari (1903-1962).