sexta-feira, 14 de julho de 2017

DE ESTRASBURGO A MARSELHA

A beleza e a força da Marselhesa são indiscutíveis. (Há quem a considere sangrenta, mas não se fazem revoluções com meiguice.) Que ninguém se engane com o nome do hino francês. A Marselhesa não teve origem em Marselha, porto mediterrâneo, mas em Estrasburgo, no leste da França. O autor é Claude-Josephe Rouget de Lisle (1760-1836), um engenheiro militar nascido em Franche Comté que, nas horas vagas, compunha canções vendidas em Paris com sucesso.
          No auge da Revolução, a França declarou guerra à Áustria no dia 20 de abril de 1791, iniciando “a cruzada pela liberdade universal”, como dizia um dos líderes dos girondinos. Cinco dias depois, enquanto a guarnição de Estrasburgo preparava-se para partir para a guerra, nobres (sim), políticos e militares locais reuniram-se em um jantar regado a brindes e discursos belicosos. Nesse clima de entusiasmo alguém perguntou a de Lisle se ele não poderia compor uma canção que servisse de marcha patriótica para os soldados que partiam.
Lisle foi para casa e trabalhou durante toda a noite na composição do Chant de Guerre pour l’Armée du Rhin e pela manhã mostrou a obra ao barão Dietrich, prefeito da cidade, que a apresentou publicamente três dias depois. O compositor conseguiu um resultado brilhante, usando em seus versos invocações familiares, bélicas e patrióticas, que a música acompanha em nuances que variam do suave ao grandioso.
A música só se tornou um sucesso absoluto no ano seguinte, quando 500 voluntários marcharam de Marselha a Paris para defender a Revolução, cantando a canção de Lisle, que ficou desde então conhecida como ”la Marseillaise”, transformada em hino nacional em 1795. Entretanto, a marcha não escapou das artimanhas políticas e perdeu e reconquistou o status de hino várias vezes.
A Marselhesa, Arco do Triunfo, Paris, 8/05/2012.
Os revolucionários marselheses partiram da sede do Clube dos Jacobinos, que se tornou recentemente o Memorial da Marselhesa. A Rua Thubaneau, em Belsunce, em Marselha, está longe de ser um lugar agradável atualmente e o projeto faz parte da recuperação do bairro. O Memorial é dividido em várias salas, aonde diversos dispositivos multimídia permitem que o visitante faça uma viagem histórica, que culmina com a apresentação da canção revolucionária. Bela e arrepiante (assisti em 2012).
Rouget de Lisle salvou-se da guilhotina, no período do Terror, graças à composição. Mais tarde, quando Napoleão assumiu o poder, baniu o hino que só voltou a ser a reconhecido na Revolução de 1830 e até foi reorquestrado por Hector Berlioz. Napoleão III também aboliu a Marselhesa, que em 1879 voltou a ser reconhecida como o hino nacional francês.  
(Foto: H.P.P. Araújo.)