domingo, 20 de agosto de 2017

FOTOGRAFIA

Com atraso, o registro do Dia Internacional da fotografia, que marca a invenção do aparelho criado por Louis Daguerre (1787-1851), com base nas pesquisas do francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833). O daguerreótipo antecedeu as câmeras fotográficas. Em 19 de agosto de 1839, a Academia Francesa de Ciências anunciou a invenção do equipamento; entretanto, a busca pelo registro de imagens é muito antiga, mas o responsável por uma das primeiras fotografias duradouras foi Niépce, pois até 1793 as imagens conseguidas desapareciam rapidamente. Ao lado a primeira foto de Niépce. 
      
  En 23 de agosto celebram-se os 51 anos da primeira foto da  Terra tirada por uma sonda  da NASA a partir da Lua.     

A bola de gude azul (Blue Marble). Foto da Terra tirada pela 
tripulação  da  Apollo 17 em 7 de dezembro de 1972. 

Sérgio Jorge: Prêmio ESSO de Fotojornalismo (1960) com o "Homem da Carrocinha".

sábado, 19 de agosto de 2017

SÁBADO COM SHAKESPEARE 
(1564-1616)

"Oh! nunca o sol verá esse amanhã!... Teu rosto, meu barão, é um livro em que os homens podem ler estranhas coisas... Para enganar o mundo é preciso ser semelhante ao mundo." (Lady Macbeth, ato primeiro, cena V da peça MACBETH, c. 1606.)

Lady Macbeth, óleo sobre tela do belga 
Charles Soubre (18211895).  

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O CENTENÁRIO DA VILA ZÉLIA
São Paulo, no início do século XX, não era um mar de rosas tanto para os industriais quanto para os trabalhadores. Os primeiros porque viam seus lucros ameaçados pela própria falta de responsabilidade social e os segundos porque enfrentavam jornadas de trabalho de 12 horas ou mais, péssimas condições de trabalho e baixos salários, que impediam o acesso de trabalhadores a moradias dignas. As greves, tratadas como caso de polícia por patrões e autoridades, começaram a se multiplicar.
Nesse cenário, destaca-se o carioca Jorge Street (1863-1939). Como médico Jorge Street costumava não cobrar dos pobres porque não podiam pagá-lo nem dos ricos porque eram seus amigos. Quando herdou do pai as ações da tecelagem de juta “São João”, trocou o estetoscópio pelos teares e logo depois (1904) também mudava do Rio porque percebeu que era em São Paulo que se encontravam as melhores oportunidades para os negócios: São Paulo era o principal produtor de café e a juta, o material utilizado na confecção de sacaria (até hoje). Nesse ano, ampliou os negócios, comprando do conde Álvares Penteado a tecelagem de juta “Santana” no Brás, por 13 mil contos de réis. Os resultados não poderiam ser melhores e quatro anos depois fechou a fábrica do Rio, transferindo o equipamento para São Paulo, onde investiu também em uma tecelagem de algodão e de uma fábrica no bairro do Belenzinho.
Jorge Street tornou-se um dos mais importantes industriais do Brasil e se destacou também ao defender a criação dos sindicatos: “À medida que os sindicatos se tornam mais fortes e mais ricos vão compreendendo que podem tratar pacificamente com os capitalistas as condições de trabalho assalariado, sem socorrer-se do recurso extremo da greve. [...] longe de nos opormos a essa marcha, devemos colaborar e facilitar o progresso.” Uma visão romântica da questão, mas fundamental na época. Durante a greve de 1917 reconheceu a União dos Operários em Fábricas de Tecido para horror dos patrões.
O fato é que Street preocupava-se com a situação dos trabalhadores. Diariamente, percorria as fábricas. Muitas vezes visitava trabalhadores em casa e o que via nessas ocasiões o desolava. Decidiu então construir a Vila Maria Zélia, no Belém. O prof. Jacques Marcovitch (FEA/USP) afirma que “nenhuma vila operária (brasileira) pode se comparar à Maria Zélia na qualidade do projeto arquitetônico das casas e dos prédios de uso comum”.
O arquiteto francês Paul Pedraurrieux, contratado por Street, criou uma pequena cidade de padrão europeu do início do século passado. Com seis ruas principais e duas transversais que se estendiam num terreno murado até o rio Tietê, na vila foram construídas 198 casas térreas, pintadas de amarelo. Como Street queria: “Morada sã, com bastante sol e luz, e os cômodos de acordo com as necessidades das famílias operárias comuns”.  As portas e janelas eram de madeira maciça - pintadas de cor marrom. O assoalho era de pinho de riga. As moradias menores tinham um quarto, sala, cozinha e banheiro (74,75m²) e as maiores dispunham de três ou quatro quartos (110,40 m²).  O aluguel variava entre 20$000 e 30$000 mil réis.
Se precisassem ir ao centro de São Paulo, bastava tomar o bonde Vila Maria – Largo da Concórdia; porém, os moradores dispunham de vários serviços na própria vila: creche, jardim da infância, duas escolas (a dos meninos e das meninas), consultórios médicos e odontológicos, farmácia, armazém, açougue e restaurante; mais igreja, teatro, salão de baile, quadras esportivas e um campo de futebol. A creche gratuita possuía seis dormitórios com capacidade para 15 leitos cada um. Cada salão, que era cuidado por duas funcionárias, tinha dois pequenos banheiros com água quente e fria.
Em 2015, visitei a Vila Maria Zélia ou o que restou dela. Na Rua dos Prazeres só há tristeza pelo descaso com que é tratado nosso patrimônio histórico. Quando conseguiram o tombamento da vila, ela praticamente perdera as características originais. A área encolheu. A creche desapareceu, cedendo espaço para outros empreendimentos. Os prédios principais estão caindo aos pedaços e, como pertencem ao INSS, é questão de tempo que se desfaçam em poeira. Apenas a Igreja mantém-se, aparentemente, em boas condições. Na praça acolhedora, uma antiga moradora descansa com seu cão. Ela estudou na escola das meninas, mais tarde casou e deixou a vila para onde voltou há cerca de 40 anos, quando o lugar já estava deteriorado pela incúria geral. Ela também lamenta o que aconteceu com lugar. Dizem que produtores de novelas e filmes têm usado o espaço para cenário de suas histórias de época. Difícil imaginar como conseguem porque eu só vi as ruínas de um legado.

(Maria Zélia era o nome da filha de Street, que morreu muito jovem. O destino da Vila: em 1924 foi vendida para a família Scarpa e passou a se chamar Vila Scarpa; em 1929 por causa de dívida passou para o grupo Guinle que lhe devolveu o nome antigo; em 1931, a fábrica foi desativada e a vila, que era particular, passou para o governo federal, que a usou como presídio durante o Estado Novo. Fotos: Hilda Araújo. )




Publicado originalmente em 11 de agosto de 2015.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CURSOS JURÍDICOS: 190 ANOS.
No dia 11 de agosto de 1827, criavam-se os Cursos Jurídicos no Brasil, nas cidades de São Paulo e em Olinda (Pernambuco). Até aquela data os advogados brasileiros formavam-se em Portugal, mas com a Independência era natural que se instalasse aqui, finalmente, um curso jurídico. O deputado José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopoldo, foi quem levou a ideia à Assembleia Constituinte em 1823 e, após muitos debates sobre currículo e corpo docente, levantou-se a questão da localização.
A capital do Império, Rio de Janeiro, era a escolha lógica, mas os deputados reivindicavam a honra para outras cidades. São Paulo, por exemplo, enfrentou objeções bizarras, como a levantada pelo deputado Silva Lisboa: "Sempre, em todas as nações, se falou melhor o idioma nacional nas cortes. Nas províncias há dialetos, com os seus particulares defeitos. É reconhecido que o dialeto de S. Paulo é o mais notável. A mocidade do Brasil, fazendo ali os seus estudos, contrairia pronúncia muito desagradável". No entanto, as ponderações do deputado Luís José de Carvalho e Mello, Visconde de Cachoeira foram consideradas pelos constituintes: "A cidade de S. Paulo é muito próxima ao porto de Santos, tem baratos viveres, tem clima saudável e moderado e é muito abastecida de gêneros de primeira necessidade, e os habitantes das Províncias do sul, e do interior de Minas, podem ali dirigir os seus jovens filhos com comodidade. (§) O estabelecimento da outra em Olinda apresenta semelhantes circunstâncias, e é a situação apropriada para ali virem os estudantes das Províncias do Norte".
Olinda, por sua vez, tinha a seu favor desde o início o Seminário, criado pelo Bispo Azeredo Coutinho, em 1789, que se destacava pela excelência do ensino.
          Mas o projeto de lei sancionado em 1823 teve fim trágico com a dissolução da Assembleia Constituinte por D. Pedro I, que outorgou em seguida a Constituição em 25 de março de 1824. Mas os esforços não foram em vão, pois em 1826 o deputado Lúcio Soares Teixeira de Gouveia propôs a revisão do projeto de lei do Visconde de São Leopoldo, reacendendo as discussões sobre localização, entretanto, prevaleceu a ideia de Francisco de Paulo Souza e Mello e, no dia 11 de agosto de 1827, foi assinada a lei criando os cursos jurídicos em Olinda e São Paulo.
          O curso jurídico foi instalado em São Paulo em 1º de março de 1828 no convento de São Francisco – havia apenas cinco frades na cidade e estavam no Recolhimento da Luz. A escolha do diretor recaiu sobre José Arouche de Toledo Rendon (1756-1836), militar e político, formado em Ciências Jurídicas em Coimbra. A festa de inauguração foi relatada pelo jornal O Farol Paulistano, propriedade do futuro Regente José da Costa Carvalho, depois Marquês de Monte Alegre: “A sala destinada para aula, que mede 90 palmos de cumprimento, estava apinhada de gente, até muitas das principais senhoras desta cidade, tendo sido convidadas, assistiram esse ato brilhantíssimo”. O professor português José Maria de Avelar Brotero (1798-1873), que causou muito dor de cabeça a Arouche, fez um discurso, depois todos foram à igreja para um Te Deum e em seguida foram convidados para os comes e bebes “doces e refrescos, que para isso estavam preparados numa esplêndida mesa”.
          A academia mudou a vida da cidade de São Paulo, que era um vilarejo pacato e sem graça. Foi uma mudança econômica e cultural conduzida pelos jovens e suas estudantadas. A primeira turma do curso jurídico tinha 33 alunos matriculados e apenas dez eram paulistanos; os demais eram das províncias do Rio, Bahia e Minas. Nos primeiros 25 anos, formaram-se na Academia 138 paulistas, 181 cariocas ou fluminenses, 100 mineiros, 56 baianos, 48 gaúchos, 11 maranhenses e nove mato-grossenses.  
Ao longo desses 189 anos de funcionamento, estudantes e egressos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco participaram dos principais movimentos políticos da História do Brasil – como o Abolicionista, o Republicano e pelas Diretas-Já. Nove presidentes da República saíram do Largo de São Francisco, além de vários governadores e prefeitos não apenas de São Paulo.  

          A instalação do curso em Olinda ocorreu em 15 de maio de 1828 e a primeira turma formou-se em 1832. 
Largo de São Francisco e Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Os amantes salvos dos puritanos pelos estudantes de Direito.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

PEDAÇOS DE SÃO PAULO

Minhas visitas ao Bom Retiro começam pela Praça Coronel Fernandes Prestes (Estação Tiradentes do Metrô), que é muito bonita. Logo em frente à saída da estação vê-se o prédio da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (FATEC). Um espaço histórico: naquele endereço morou o Marquês de Três Rios, Joaquim Egídio de Sousa Aranha (1821-1893), cujo solar foi adaptado em 1894 para acolher a Escola Politécnica, mas foi bombardeado durante a Revolução de 1924 e demolido em 1929, dando lugar alguns anos depois ao prédio atual.

Arborizada, fechada ao trânsito de veículos, a Praça é o endereço do Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo que fica em frente ao edifício Ramos de Azevedo, construído em 1920, e, desde 2000, sede do Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís”. Entre os dois prédios, há dois monumentos: a estátua do coronel Fernando Prestes de Albuquerque (1855-1937), republicano e pai de Júlio Prestes (1842-1946), o presidente eleito derrubado por Vargas em 1930, e um memorial da participação da Força Pública (atual Polícia Militar) na Revolução de 1932. O que pouca gente sabe é que ali há um pequeno e belo jardim com um laguinho habitado por carpas coloridas. Ontem, o jardineiro cuidava das plantas, rodeado de passarinhos, enquanto pombos se divertiam num banho matinal, indiferentes aos peixes. 


 

domingo, 6 de agosto de 2017

TRÊS LOIRAS INESQUECÍVEIS

Os homens, realmente, preferem as loiras? Não importa qual seja a preferência mundial, o fato é que, no século passado, um punhado de atrizes louras (falsas ou verdadeiras) incendiaram as telas do cinema norte-americano. Uma das mais famosas foi Mae West (1893-1980), que se notabilizou também pelas frases maliciosas (para a época) tanto em roteiros de cinema e textos teatrais e como em entrevistas. O sucesso só aconteceu em 1932, quando ela estava com 39 anos! Era baixinha (1m56) e gordinha, mas nada disso impediu que ela se tornasse o maior sucesso de Hollywood. Ou melhor, uma lenda sexual. Lenda porque na vida privada era recatada. As fantasias sexuais que alimentava o público eram baseadas numa aparência falsa: o busto e os quadris de 110 cm eram à base de enchimentos. O jornalista Ruy Castro conta, na biografia da atriz, que o segundo filme  dela (“Uma loira para três”) salvou a Paramount Pictures da falência e no terceiro (“Uma dama do outro mundo”), o furacão Mae West escreveu o roteiro, escalou o galã e dirigiu o diretor nas sequências em que aparecia. Deixou o cinema aos 50 anos, mas continuou trabalhando até que em 1970 participou de “Homem e mulher até certo ponto”, com Raquel Welch, Farrah Fawcett e John Houston. 
Jean Harlow (1901-1936) foi outra loira que fez a cabeça das audiências mundo afora. Começou no cinema em 1930 (“Anjos do Inferno”), mas o sucesso só começou em 1932, quando filmou “Terra das Paixões”, dirigido por Victor Fleming. Logo, tornou-se uma estrela reconhecida mundialmente; entretanto, na vida pessoal não teve tanta sorte: teve escarlatina na adolescência, casou-se cedo com um empresário, mas logo divorciou-se. O segundo casamento, em 1932, não se consumou porque o marido, Paul Bern (1889-1932), produtor da MGM, era impotente e se suicidou dois meses depois. O terceiro casamento em 1933 também não deu certo e a atriz se divorciou oito meses depois. Em 1937, Jean Harlow adoeceu durante as filmagens de “Saratoga” e faleceu dias depois vítima de nefrite aguda. Apesar da morte prematura, Jean Harlow fez cerca de 40 filmes e ainda escreveu um livro (“Today is tonight) que só foi publicado em 1965.
        A terceira bombshell blond norte-americana é Norma Jean (1926-1962), que, aliás, era morena. Para quem não lembra ou não sabe, trata-se de Marilyn Monroe. Cresceu em lares adotivos e orfanatos; casou-se aos 16 anos e aos vinte já estava divorciada. Durante a II Guerra Mundial trabalhava em uma fábrica, quando conheceu um fotógrafo, se tornou modelo e logo conseguiu pequenos papeis em filmes até que no inicio da década de 1950 alcançou o estrelato. Se nas telas os personagens de Marylin sempre (ou quase) encontravam o príncipe encantado, na vida real a beleza e a sensualidade não lhe garantiram felicidade. Casou-se com Joe Dimaggio (1914-1999) e depois com Arthur Miller (1915-2005) – o primeiro, uma lenda do basebol, e o segundo, premiado dramaturgo. Morreu aos 36 anos, quando era amante do presidente John Kennedy (1917-1963), vítima de uma overdose de barbitúricos – um assunto que não se esgota. Gosto de me lembrar dela em “Quanto mais quente melhor”, “Bus stop”, “Os desajustados” ou “O Pecado mora ao lado”.
Um fato curioso é que a carreira destas três louras durou uma década, mas elas prosseguem bem vivas na memória dos fãs de cinema. 

sábado, 5 de agosto de 2017

ARTE DE ENVELHECER

Sempre que tenho compromissos na Cidade Universitária vou mais cedo, tomo café na FEA e depois faço hora na livraria Visconde de Cairu, pequena, mas simpática. E foi lá que vi o livrinho que folhei distraída até que li o texto do Freud sobre mulheres idosas e que me deixou furiosa. Fui consultar o preço que era bom e ainda ganhei um descontão, tipo, leve-o, por favor. 
Para que eu quero um livro sobre “Como envelhecer”, se já estou bem avançada nessa fase da vida? Acomodada na poltrona preferida, acho a leitura agradável. Afinal, Anne Karpf é jornalista e socióloga da saúde (nem sabia que essa profissão existia). Como ela explica logo no início, o livro “se desenvolve a partir da crença de que precisamos nos libertar das ideias predeterminadas de como uma pessoa mais velha, ou mesmo mais jovem, deve parecer, soar ou viver”.
Com os avanços científicos e tecnológicos do século XX, a expectativa de vida do homo sapiens aumentou e o conceito de velhice mudou. A Organização Mundial de Saúde prevê que em 2050 haverá dois bilhões de idosos no mundo e em 2020 pela primeira vez na história o número de pessoas com mais de 60 anos será maior que o de crianças até cinco anos e 80% dessas pessoas viverão em países de baixa e média renda*.
A autora mostra como esses números são usados para disseminar o medo da velhice por meio de uma “linguagem apocalíptica” ao se referir à “bomba relógio demográfica” ou ao “tsunami grisalho”. “Não corremos mais o risco de invasão de marcianos, mas de pessoas velhas” – escreve Anne Karpf que segue analisando o impacto econômico (real) dessa mudança de uma forma mais pontual do que a media costuma fazer, mostrando que o envelhecimento da população não implica em um fardo insuportável para as sociedades industrializadas. Ela cita o economista Phil Mullan que diz que o debate sobre os “custos financeiros dos mais velhos tem sido deliberadamente exagerado, em parte, para tirar a responsabilidade do Estado pelo seu suporte financeiro e jogá-la sobre entidades privadas e até mesmo sobre outros indivíduos mais velhos”.
  Numa sociedade em que cada vez mais se valoriza o novo e a aparência, cresce o medo do envelhecimento e surge, triunfante, o que a autora chama de “mercado anti-idade”. Com um potencial de consumo global de U$ 10 trilhões em 2020, o público sênior (acima de 60 anos) deve ganhar cada vez mais relevância no varejo. Mas os cuidados para evitar o envelhecimento, entretanto, começam muito mais cedo, na faixa dos trinta anos ou até menos, o que amplia a clientela da indústria anti-idade.
          Interessante que os difusores de medo desse futuro mundo de idosos se esquecem de que farão parte dele.
A autora reuniu uma coletânea de citações de escritores, músicos, médicos, sociólogos entre outros, mostrando diversas visões do envelhecimento.
Que tal começar com Norma Desmond, personagem de Gloria Swanson (1899-1893) no clássico Crepúsculo dos Deuses, filme de 1950, dirigido por Billy Wilder (1906-2002)? “Não há nada de trágico em ter 50 anos. A não ser que você esteja tentando ter 25.”
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832): “A idade nos pega de surpresa.” Filósofo alemão.
Simone de Beauvoir (1908-1986): “Um dia acordei e havia uma mulher de 70 anos na minha cama”. Escritora francesa.
Rabino Zalman Schachter-Shalomi (1924-2014): “Morte não é um erro cósmico” e, explica Anne Karpf, “se nos esforçarmos para integrá-la à nossa compreensão de vida desde a mais tenra idade, isso pode paradoxalmente reduzir o medo do envelhecimento”.
Nora Ephrom (1941): “Ah, o pescoço. Existem pescoços de galinha. Existem pescoços de peru. Existem pescoços de elefante. Existem pescoços com pelancas. Existem pescoços esqueléticos e pescoços gordos, pescoços flácidos, pescoços encarquilhados, pescoços com faixas, pescoços enrugados, pescoços fibrosos, pescoços moces, pescoços cheios de manchas... Para conhecer a idade de uma árvore é necessário cortá-la, mas isso não seria necessário se ela tivesse um pescoço.” (Escritora e roteirista norte-americana.)
Molly Andrews: “Por todo ciclo da vida, mudança e continuidade tecem uma teia intrincada. Conforme encontramos novos desafios, físicos e psicológicos, com os quais a vida no confronta, nós mudamos, mesmo permanecendo os mesmos. Nesse aspecto, a velhice não é diferente dos outros estágios da vida. As mudanças são muitas e são reais: negá-las, como alguns fazem em uma tentativa de combater o preconceito, é tolice.” (Professora de ciências sociais,  University of East London).
Peregrine Worsthorne (1923): Para mim é difícil escrever sobre a velhice porque não me sinto velho. Eu simplesmente me sinto eu. Talvez eu seja anormal, monstruosamente excêntrico nesse aspecto, já que também tenho de admitir que não consigo me lembrar de me sentir jovem ou na meia idade. Consigo me lembra dos tipos esperanças, preocupações e medos que eu sentia em diferentes períodos da minha vida, mas para mim foi a mesma coisa ter aquelas preocupações, esperanças e me dos.  E é a ininterrupta continuidade da minha autoconsciência que torna as mudanças relativamente insignificantes. (Jornalista inglês)
Enfim, a mensagem que ela passa é de que “envelhecer, em cada estágio da vida, pode ser altamente enriquecedor”. (Ilustrações: Rainha Elizabeth II, 91 anos, e o ator Robert Redford, 80.


 






sexta-feira, 4 de agosto de 2017

QUAIS SÃO AS NOVAS?

 
Bancas de jornal me fascinam. Enquanto espero o ônibus leio as manchetes dos jornais do dia, das revistas da semana ou simplesmente me diverto com a diversidade das publicações que sugerem receitas deliciosas e prometem rápida perda de peso – você escolhe. Há também aquelas que tratam personagens de novela como seres reais. Ridículo. Caetano Veloso, no século passado, já perguntava “quem lê tanta notícia?”. Todo mês compro uma revista de Sudoko com duzentos jogos e recebo quinzenalmente o jornal do bairro, mas raramente leio. Quando viajo para o exterior, depois de algum tempo quero notícias de casa, o que é difícil; mas às vezes é muito complicado. (Foto acima: quiosque parisiense, 2010.)
Banca de jornal em Fez, Marrocos, 2010.
Fotos: Hilda Prado Araújo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

          PASSEIOS PAULISTANOS

Segunda-feira, dia reservado para uma visita à Dona Maria Marcolina Monteiro de Barros, uma senhora de tradicional família paulistana que se tornou uma referência popular quando a rua que a homenageia se tornou centro comercial importante da Subprefeitura da Mooca, composta pelos distritos do Belém, Brás, Mooca, Pari e Tatuapé. A denominação da rua aconteceu há mais de cem anos. Compras boas e baratas, dizem, acontecem na Rua Maria Marcolina.
          Entre uma espiada e outra em vitrines que se repetem, desperta a curiosidade dos menos interessados em gastança, o Cavalheiro que emprestou seu nome a outra rua. Trata-se de Joaquim Carlos Augusto Cavalheiro, que foi um empreiteiro de obras, segundo o lacônico portal da Prefeitura de São Paulo, e que por esse e outros motivos teve seu nome dado ao logradouro também em 1916.  
          Foi na Mooca que Rafael Paes de Barros, filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguape, construiu o Clube Paulista de Corridas de Cavalo, primeiro hipódromo da cidade, inaugurado em 1876 em pleno Império. Em 25 de janeiro de 1941, o clube cedeu lugar ao Hipódromo Paulistano em Cidade Jardim, às margens do rio Pinheiros. Daqueles tempos restaram apenas os prédios onde funcionavam as cocheiras e a Rua Hipódromo cujo nome foi oficializado em 1916.
          A Mooca, entretanto é muito mais que um centro de compras. Foi reduto dos imigrantes italianos, que atraíram outras colônias para lá; tornou-se um polo industrial e cultural – lá funcionaram os Cines Teatro Moderno, Santo Antônio, Aliança, Imperial, o Icaraí (Ouro Verde) e o Patriarca. Em 1924 o conde Rodolfo Crespi (1874-1939), dono do cotonifício Crespi, fundou um clube de futebol para os funcionários da fábrica: o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, que originou o Clube Atlético Juventus (Rua Javari, 117).
          Outra instituição do bairro foi a Companhia Antártica Paulista (AMBEV), que foi criada no final do século XIX, cuja sede na Avenida Presidente Wilson, 307 foi construída no início do século passado.
          Na Mooca foi construída a Hospedaria dos Imigrantes em 1897, local de recepção dos imigrantes recém-chegados, que funcionou até 1978, quando teve as atividades encerradas. Atualmente, abriga o Museu da Imigração do Estado de São Paulo (Rua Visconde de Paranaíba, 1316).

          Enfim, a Mooca é um mundo (não só de compras) a se descobrir. 
(Fotos:HPA.)