quinta-feira, 24 de março de 2016

INÊS DE CASTRO
D. Pedro I (1320-1367) ainda era herdeiro da coroa portuguesa, quando se casou de acordo com os interesses de Estado com D. Constança Manuel; entretanto, o príncipe se apaixonou pela aia da mulher, Dª. Inês de Castro (1320-1355) que era filha do mordomo-mor do rei D. Afonso XI de Castela, um dos fidalgos mais poderosos do reino.
O romance foi muito mal visto pela família e pela população e, especialmente, pelos círculos diplomáticos. Em nome dada moralidade, D. Afonso decretou o exílio de Inês em 1344, enviando-a para o Castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana, onde a jovem tinha sido criada por uma tia. No entanto, a distância não destruiu o amor entre Pedro e Inês, que mantiveram correspondência.
Em outubro do ano seguinte Dª. Constança morreu ao dar à luz o futuro rei D. Fernando I. Agora viúvo, D. Pedro, contra a vontade do pai, mandou Inês regressar do exílio e os dois passaram a viver juntos, provocando grande escândalo na corte para enorme desgosto do rei, que tentou casá-lo de novo. O filho rejeitou a ideia alegando que ainda sentia muito a perda da esposa.
Pedro e Inês tiveram quatro filhos: Afonso, que morreu logo após o nascimento, João, Dinis e Beatriz. As intrigas se alastraram e na corte corria o boato de que os irmãos de Inês planejavam matar o herdeiro legítimo do trono para garantir a coroa ao filho mais velho do dos amantes.
Pedro e Inês haviam mudado do norte de Portugal para Coimbra e moravam no Paço de Santa Clara, construído pela Rainha Santa Isabel para uso exclusivo de reis e príncipes com suas legitimas esposas. Um novo boato referia-se ao possível casamento secreto de Inês e Pedro.
Pressionado pela corte, o rei D. Afonso IV decidiu que a melhor solução seria matar a dama galega. Na tentativa de saber a verdade, o Rei ordenou a dois conselheiros que dissessem a D. Pedro que ele podia se casar livremente com D. Inês, se assim o pretendesse. D. Pedro percebeu que se tratava de uma cilada e respondeu que não pensava casar-se nunca com Inês.
A 7 de janeiro de 1355 o rei cedeu às pressões dos seus conselheiros e aproveitando a ausência de D. Pedro, numa excursão de caça, providenciou a execução de Inês de Castro em Santa Clara, conforme fora decidido em conselho.
Segundo a lenda, as lágrimas derramadas no rio Mondego pela morte de Inês teriam criado a Fonte das Lágrimas da Quinta das Lágrimas e algumas algas avermelhadas que ali crescem seriam o seu sangue derramado. O assassinato provocou uma crise entre pai e filho.
Com a morte de D. Afonso D. Pedro tornou-se o oitavo rei de Portugal, recebendo o título de D. Pedro I em 1357. Em 1360 legitimou os filhos ao afirmar que havia se casado secretamente com Inês em 1354 em Bragança “em dia que não se lembrava”. A palavra do rei, do seu capelão e de um seu criado foram as provas necessárias para legalizar esse casamento. Em seguida perseguiu os assassinos de D. Inês, que tinham fugido para o Reino de Castela.
Dois foram apanhados e executados em Santarém (segundo a lenda o rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e o do outro pelas costas, assistindo à execução enquanto se banqueteava, o que é confirmado por Fernão Lopes, com a ressalva de que o carrasco o teria dissuadido da ideia pela dificuldade encontrada nesta forma de execução). O terceiro conseguiu escapar para a França e, posteriormente, seria perdoado pelo Rei no seu leito de morte.
          A tétrica cerimônia da coroação e do beija-mão à Rainha D. Inês, já morta, que D. Pedro pretensamente teria imposto à sua corte e que se tornaria numa das cenas mais vívidas no imaginário popular, teria sido inserida pela primeira vez nas narrativas espanholas do final do XVI.
Túmulo de Inês. Imagem Wikipedia.
D. Pedro I mandou construir dois esplêndidos túmulos no mosteiro de Alcobaça: um para a amada Inês cujo corpo trasladou para lá em 1361 e outro para ele, que se juntou a ela em 1367. Ao longo dos séculos mudaram algumas vezes os túmulos de lugar. Na década de oitenta do século XVIII, os túmulos foram levados para o recém-construído panteão real, onde foram colocados frente a frente, surgindo a lenda de que assim “possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final”.


Episódio de Dona Inês de Castro
(Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135) 

Passada esta tão próspera vitória, 
Tornado Afonso à Lusitana Terra, 
A se lograr da paz com tanta glória 
Quanta soube ganhar na dura guerra, 
O caso triste e dino da memória, 
Que do sepulcro os homens desenterra, 
Aconteceu da mísera e mesquinha 
Que despois de ser morta foi Rainha.