sábado, 28 de outubro de 2017

OS AMIGOS HARVEY
A loucura me fascina e sinto uma enorme simpatia pelos loucos que encontro em meu caminho. O motivo é muito simples: quem define que uma pessoa é louca? Quem estabeleceu que este ou aquele comportamento indicam insanidade? O que é normal? O assunto surgiu porque esta semana perdi a oportunidade de rever, nos Encontros Culturais do prof. Terron, na USP, um clássico do cinema que trata com sutileza essa questão: “Meu amigo Harvey” (Harvey), dirigido por Henry Koster e lançado em 1950. E reproduz bem o ditado popular que diz ”Não são todos os que estão, nem estão todos os que são”.
“A primeira observação que temos a fazer é o óbvio que tantas vezes se esquece: os loucos não são burros”, como bem diz o psiquiatra Juan Antonio Vallega-Nágera. E costumam ser manipuladores. Elwood (Stewart) tem um amigo chamado Harvey e encanta as pessoas da cidadezinha onde mora com suas histórias até que revela a identidade do amigo e torna claro a sua condição de maluco para nossa sociedade organizada “racionalmente”. Sem revelar a trama, que é ótima, diria apenas que um dia Harvey o abandona e, aparentemente, Elwood recupera o juízo. Não necessariamente, pois doenças mentais costumam ser episódicas.
A história do mundo está repleta de casos de líderes, artistas e intelectuais com sérios problemas mentais. Um dos casos mais interessantes é o da rainha Joana de Castela (1479-1555), filha dos reis Fernando e Isabel de Espanha, patrocinadores de Cristóvão Colombo. Era uma jovem bela e culta. Aos 16 anos casou-se com o arquiduque Felipe de Habsburgo e foi para Bruges. A doença mental manifestou-se aos 24 anos e em princípio foi vista como ciúmes do marido e pelo temperamento forte. Com o tempo o quadro agravou-se, mas com enganosos períodos de serenidade.
Felipe tentou mantê-la em reclusão no castelo, sem sucesso. Quando Isabel morreu, Joana viajou para a Espanha a fim de assumir a coroa, e Felipe a acompanhou com a pretensão de assumir o governo; entretanto, precisava provar a insanidade da mulher. Em toda essa tragédia familiar e política, Joana se mostrou uma figura fascinante. Nas entrevistas com membros do parlamento tanto da situação e quanto da oposição, ela se mantém segura e coerente. A morte do marido tornou mais evidente os problemas mentais, especialmente, porque ela se apegou ao cadáver, iniciando uma peregrinação com o corpo de Felipe. Nunca conseguiram tirar-lhe a coroa. Desde a morte da rainha Isabel, D. Fernando, o pai, assumiu a regência e, quando ele morreu, o problema foi resolvido de forma salomônica: respeitaram, nominalmente, os direitos da rainha louca ao poder e enquanto o filho assumia o trono, como monarca de fato. Joana permaneceu reclusa em Tordesilhas por 55 anos até que, além do sofrimento mental, surgiram os físicos: em consequência de ficar dia e noite em pé, apareceram edemas nas pernas e formaram-se ulcerações extremamente dolorosas e morreu em decorrência das feridas infectadas.

Vallega-Nágera em seu livro “Loucos Egrégios” (Guanabara Dois. Rio de Janeiro, 1979) faz uma análise minuciosa da doença de Joana e repudia com veemência as lendas em torno da princesa que teria enlouquecido de amor. Na Wikipédia chegam a dizer que não a deixaram governar como se fosse possível para ela assumir o comando do reino. Vallega-Nágera explica que “os doentes mentais, mesmo os mais graves, não se portam anormalmente sempre, mas sim quando entram em jogo os seus sintomas; o resto do tempo podem aparentar e manter normalidade”.

Há anos, na USP, fui entrevistar um rapaz com distúrbios mentais. Como era ex-aluno, justifiquei o interesse da reportagem pela permanência dele na universidade por tantos anos; ele não se deixou enganar, recusou-se a contar sua história e explicou como uma entrevista anterior provocara a sua internação, que fora um período doloroso; e terminou me convencendo de que começaria a trabalhar na semana seguinte. Eu acreditei, mas no outro dia o vi em meio a uma crise dolorosa no pátio da FFLCH. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

LÁ VEM O ÔNIBUS
Se você não dirige, não quer ou não pode alugar um automóvel, fique tranquilo. O sistema de transporte público em Las Vegas é muito bom, especialmente, se a meta for conhecer os principais hotéis-cassinos da cidade ao longo da Strip. Há uma linha que circula 24 horas nos sete dias da semana: a DEUCE. A única coisa necessária, além da passagem, que se compra nas máquinas juntos aos pontos de ônibus, é paciência.
Explica-se. As paradas (25) são em frente ou bem próximo dos hotéis e o número de passageiros pode variar de um a mais de vinte. Os ônibus têm dois andares, o pagamento é na entrada, na máquina que fica ao lado do motorista. Basta passar o cartão ou inserir o dinheiro na máquina que não dá troco. O motivo da demora varia: um não sabe o preço e começa a procurar o dinheiro, outro conta as moedas, aquele quer saber do itinerário, esse se atrapalha com o cartão e sempre aparece um desprevenido que compra o bilhete com o motorista que também não dá troco.
E assim se passam até dez minutos em cada ponto (felizmente em alguns pontos não há ninguém). O motorista não continua a viagem até que as escadas estejam vazias e lá em cima todos acomodados. Se houver alguém com problema de locomoção, o motorista espera que a pessoa se acomode antes de partir.  
Os passageiros levam para o ônibus o clima descontraído da cidade. Não há estresse e parece que ninguém tem pressa.
Lá vem o DEUCE. (Foto: Wikipedia.)

O DEUCE percorre o Las Vegas Boulevard desde a Fremont Street Experience até o Four Seasons Hotel, ou seja, vai de Norte a Sul da cidade, em intervalos de 15 minutos (de madrugada, a cada 20 minutos). Há outra linha que é mais rápida porque faz apenas 17 paradas e só roda até meia-noite. O preço de ambas é de US 6 e o bilhete vale por duas horas. Lembre-se que nem a máquina no ônibus nem o motorista dão troco. O ideal é comprar o cartão 24 horas (US 8) ou para três dias (US 20), dependendo do período de estadia, no pontos de parada porque elas dão troco e também aceitam cartão.
Há também o monotrilho cujo percurso é paralelo a Strip, passando pelos fundos dos hotéis. O trajeto é mais curto e o bilhete custa US 5 por viagem.
Uma curiosidade: os hotéis-cassino Mandalay Bay, Luxor e Excalibur são ligados por uma linha gratuita de monotrilho.
Enfim, pedestres acabam aproveitando mais a cidade porque podem entrar e sair dos cassinos à vontade, circular pelas passarelas, descobrir figuras interessantes e, se cansar, podem pegar o ônibus para o próximo destino. 
Parada de ônibus em Flamingo Road. (Foto: HPA, outubro,2017)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017









 
Málaga, 25 de outubro de 1881. Um dia que mudou a história da arte. Nascimento de Pablo Picasso.

 

 








A partir da esquerda de cima para baixo:
Les Demoiselles d'Avignon, 1907.
Mulher Chorando, 1937.
Os pombos, Canes, 1957.
Artista trabalhando, 1965.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

 UMA DISNEYLÂNDIA PARA ADULTOS

Viva Las Vegas turnin' day into nighttime
Turnin' night into daytime
If you see it once
You'll never be the same again.*

Em Las Vegas (Nevada,EUA) nada é o que parece. Ou, como já disse o poeta, “assim é se lhe parece”. As montanhas Rochosas que a rodeiam são secas e têm um belo tom rosado, mas palmeiras verdejantes fazem parte da paisagem urbana. Aquelas vedetes? Ah! Só estão ali na calçada para aparecer na sua foto e ganhar um trocado, assim como o pirata Jack Sparrow entediado não é o Johnny Deep. A pirâmide é plana, a esfinge nunca foi tão jovem e o que faz a Estátua da Liberdade logo ali? Uma aula de história e geografia fica difícil por lá, mas um cataclismo planetário explicaria essa mistura inusitada de épocas e lugares. 
Há várias Las Vegas: a noturna – musical e deslumbrante com suas luzes faiscantes; e a diurna, ridícula sob o sol intenso revelador da farsa, do grotesco sem, entretanto, perder o poder de divertir. Las Vegas verdadeira vai muito além da Strip onde se alinham mais de trinta hotéis-cassinos. A cidade abriga várias indústrias de tecnologia de telecomunicações e jogos eletrônicos. A Universidade de Nevada, situada em Vegas (pública) tem cerca de trinta mil alunos. Museus? Há vários desde Natural History Museum, Madame Toussauds, The Neon Museum, Discovery’Children Museum McCarran Aviation Museum e Liberacce Museum Collection, Erotic Heritage Museum e The National Atomic Testing Museum e vários museus que têm carros como tema. Em meio a essa balburdia tudo é possível. Até descobrir uma igreja católica entre dois cassinos.
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Da sua área total de 351,9 km², apenas 0,1 km² corresponde à água. Nesse clima desértico, floresce a fantasia adulta que arrasta multidões para a única avenida que importa realmente – Las Vegas Boulevard – onde fontes dançantes adornam lagos fantásticos; cachoeiras dão frescor ao boulevard lotado de carros e gente; gôndolas deslizam em águas azuis numa falsa Veneza. Mais modesta, porém, não menos importante, a Fremont Street em downtown também tem seu papel nesse mundo de sonho em pleno deserto. Foi lá que tudo começou.


O Flamingo é um dos mais antigos cassinos da cidade. O gangster Benjamin Siegel (1906-1947), conhecido como Bugsy, construiu o cassino com um empréstimo do sindicato do crime. A casa foi inaugurada em 26 de dezembro de 1946 e Bugsy, assassinado em 1947 pela máfia por se recusar a pagar a dívida.  
O tempo da máfia passou. Os cassinos são fiscalizados de perto pela Comissão de Jogos do Estado de Nevada, que regula desde a emissão de fichas até o licenciamento dos funcionários. Há mais de 250 cassinos em Nevada, sem contar os estabelecimentos de nativos americanos e os de caridade. Nada é aleatório. Eles funcionam em conjunto com grandes e luxuosos hotéis abertos aos visitantes. A circulação é projetada para que sempre as pessoas passem por um dos setores de jogos e por entre as máquinas caça-níqueis. Não há janelas para que o jogador não perceba a passagem do tempo. O ar é renovado constantemente dando uma sensação de bem-estar às pessoas. Há sempre música ambiente. Além do jogo há shows grandiosos, restaurantes, lanchonetes e lojas para todos os bolsos.

A cidade, que tem 583 756 habitantes, recebeu 42,9 milhões de pessoas em 2016, de acordo com a Las Vegas Convention & Visitors Authority. Nem todos turistas e jogadores: mais de 6,3 milhões de pessoas foram a negócio para eventos e convenções. Todos os caminhos do Las Vegas boulevard, entretanto, conduzem aos cassinos: escadas rolantes levam às passarelas e às vezes o acesso às passarelas é por dentro de um cassino. 








Viva Las Vegas”, de Doc Pomus / Mort Shuman. Gravação: Elvis Presley.

Fotos: Hilda Araújo, outubro, 2017.


domingo, 22 de outubro de 2017

Madonna del Lume 

Domingo, San Francisco. Saio sem roteiro para descobrir a cidade que é estrela de tantos filmes famosos e amada por quase todos que a conhecem. Assim, o som de uma banda musical pode nos levar para uma festa que celebra a participação de imigrantes sicilianos na formação da sociedade de San Francisco. Trata-se da festa da Madonna del Lume, protetora dos pescadores e marítimos em geral, e que tem origem em Porticello (Palermo, Sicilia).
Em 1935, as famílias dos pescadores sicilianos de San Francisco organizaram uma associação (Madonna del Lume Society) junto à paróquia de S. Pedro e S. Paulo em North Beach tanto para preservar essa herança cultural como homenagear a santa. A festa anual acontece na primeira semana de outubro, quando é eleita uma rainha entre as jovens da comunidade que desfila num cortejo precedido por uma banda, bandeiras, membros da paróquia. A imagem da Madona encerra o séquito.
Tudo muito diferente das procissões do meu tempo de criança em Santos, em que os participantes levavam expressões graves, usavam roupas escuras e falavam baixinho. Neste acompanhamento, todos estão alegres, descontraídos, usam roupas coloridas. Eles saem da igreja, passam pela Washington Square e seguem em direção ao Fisherman’s Wharf. No sábado, eles promovem uma procissão de barcos, que termina com uma cerimônia sob a ponte Golden Gate.

Eu vou para Chinatown. 




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O MUNDO DE TÁXI
Se na Europa o viajante tem o conforto dos trens conectados a linhas de metrô para ir ou sair de aeroportos, nos Estados Unidos, a situação é diferente. Felizmente, os norte-americanos inventaram o shuttle, serviço de transporte bem mais barato do que táxi (geralmente vans), e que deixa o passageiro no hotel. Entretanto, em alguns lugares o serviço é disponível em horários que não são adequados (às 6 horas, às 13h etc.) e o jeito é usar táxi ou similares. Não se esqueça de que a praxe nos Estados Unidos é pagar a corrida e acrescentar de 15 a 20% de gorjeta.
Esse momento pode ser desfrutado como uma parte bem interessante do passeio seja qual for a cidade. Desta vez peguei vários táxis (algo incomum nos roteiros europeus) e me vi sendo conduzida por motoristas de diferentes nacionalidades e todos muito satisfeitos com a nova vida que encontraram nos Estados Unidos, embora o trabalho seja exaustivo. O segredo é a oportunidade, que encontram nesse país feito de imigrantes. Assim, conheci um chinês, um vietnamita, um camaronês, um iraquiano, um indiano e um armênio.
O chinês mostrou-se o mais nervoso de todos e resmungou muito com os percalços do trânsito (muito bom por sinal) em Honolulu. O vietnamita falou com saudade das belezas do Vietnã. Nenhum ressentimento com o passado trágico entre o país de nascimento e o adotivo. O indiano surpreendeu-se quando elogiei o cinema da Índia. O iraquiano, quando soube que ia de San Francisco para Las Vegas de avião, me aconselhou a economizar dinheiro, usando o shuttle que servia os hotéis da região. O camaronês acha Las Vegas uma fantasia no meio do deserto, comentou a derrota da seleção nacional para o Brasil em 2014 e ainda estava estarrecido com a chacina que matara 59 pessoas no início da semana.
Um deles quando soube que eu era do Brasil suspirou nostálgico pela Xuxa. Xuxa? Foi-se o tempo em que falavam de Pelé ou de Reinaldo, mas Xuxa? Céus!
O armênio? Este não era de falar muito. Trânsito livre até o aeroporto, onde encontramos um imenso congestionamento para chegarmos ao terminal da empresa aérea que me traria de volta a São Paulo. Foi só então que perguntou para onde eu ia e pude perguntar a nacionalidade dele.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O MAGO
Ele chegou ao hotel às 6h30 a bordo de um yellow cab. Um senhor negro, talvez 50 anos. Dei a direção, ele disse OK e partimos. Acho que a conversa começou quando ele percebeu que eu estava admirando o nascer do sol em Los Angeles. “Belo dia”, comentou e, então, a jornada que prometia ser enfadonha tornou-se inesquecível. Perguntou de onde eu era e, como todos ao saberem da minha procedência, exclamou: “Hum, Brazil!”. Fico curiosa para saber o que querem dizer, mas temo a resposta. Em seguida quis saber da situação econômica do país. Disse que não era muito boa, mas o problema maior eram os políticos e emendei comentando que também não entendia como os Estados Unidos elegeram Donald Trump. O “homem” é louco e foi uma estupidez a eleição dele, uma pessoa despreparada. Elogiou Obama e demonstrou confiança na volta dele à presidência, já que é jovem.
Perguntei se ele era da Califórnia. Não, de uma pequena cidade do Texas. Gosta de Los Angeles, mas pretende voltar para a terra natal quando se aposentar, porque lá todos se conhecem e se cumprimentam nas ruas, vão à mesma igreja, às festas com boa música e ótima comida. Eu observei que em New Orleans as pessoas também se cumprimentam quando passam umas pelas outras. Ele se entusiasmou: “Ah! Conhece New Orleans! Lugar maravilhoso! Ótima música, ótima comida!”
Caímos num congestionamento matinal mesmo numa hight way. Volta a elogiar a vida na cidade pequena e diz que o problema das pessoas resume-se a três coisas – SGU, iniciais em inglês de pressa, ganância e coisas desnecessárias. Ele diz que é preciso repensar o estilo de vida, que deve ser simples para se usufruir melhor da existência. E para se viver melhor são essenciais disciplina, paixão e tolerância. Quando peguei a caneta para anotar, ele se surpreendeu: “Vai escrever o que eu disse?” Ele parecia satisfeito.
Ele morou em muitas cidades e se entusiasma quando descobre que meu destino é San Francisco. Adora a cidade, relembra a canção de Tony Bennet – cantor que ele aprecia e, de repente, me diz que também canta e para provar solta a voz no melhor estilo de Bennet. Vegas? Vai sempre por lá visitar o irmão. “A senhora sabe aproveitar a aposentadoria. Quero fazer o mesmo quando me aposentar.” E ele sonha, imitando os sotaques de cada lugar... Quer ir à Itália (“buon giorno”), França (“bon jour”), à Espanha (“buenos dias”) e então quer saber o que tem de bonito no Brasil. Sinuca de bico – mas cito a Floresta Amazônica e, naturalmente, Rio de Janeiro. Ah! Ele se entusiasma para valer (“mulheres muito bonitas”), mas é nesse momento que ele me surpreende e me conquista definitivamente ao cantar “Garota de Ipanema”.

Nem precisa dizer que foi a melhor viagem de táxi que fiz na vida – e já fiz muitas! Quando chegamos ao meu destino, ele me deu várias dicas de San Francisco e desejou boa viagem. Agradeci e fiz questão de saber o nome dele. Joel, disse modestamente. Espero que Joel tenha uma ótima aposentadoria, volte para a cidade natal, frequente muitas festas e viaje bastante. Aliás, ele foi o único taxista norte-americano que encontrei nas minhas duas estadas naquele país. Não senti o tempo passar nem me preocupei com o valor da corrida. Valeu cada centavo de dólar. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


ESTRANHO ENCONTRO


        Terry Allen (1943) assina a escultura do executivo que não consegue tirar a cabeça do escritório e o poeta Philip Levine (1928-2015) escreveu o poema "Corporate Head" que completa a obra, que fica no prédio no Ernst & Young Plaza, 725 S. Figueroa Street, Los Angeles. 

Foto: Hilda Prado Araújo, 19/10/17.
They said
I had a head
for business.
They said
to get a head
I have to lose
my head.
They said
Be concrete
& I became
concrete.
They  said,
go, my son,
multiply,
divide, conquer.
I did my best.

domingo, 15 de outubro de 2017

DIA DO PROFESSOR

            Dona Branca foi minha primeira professora (Escola Portuguesa/Santos). Foram tantos os mestres ao longo da vida escolar que seria impossível, depois de tantos anos, lembrar-me de todos – e todos tiveram importância na minha formação de um modo ou de outro. Minha homenagem Zina de Castro Bicudo (Geografia), Lígia Fava Fonseca (Português e Latim), Ana Maria Luisa (Francês), Itagiba (Filosofia), Monsenhor Manuel Pestana (Cultura Religiosa) e José de Sá Porto (Cultura Brasileira).

Excerto do poema de Álvaro de Campos

“Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!”

Tela de Almeida Júnior (1850-1899): Pinacoteca do Estado de São Paulo.

sábado, 14 de outubro de 2017

REPRESA HOOVER E O GRAND CANYON

De repente vejo a Represa Hoover, construída entre 1931 e 1936, entre os estados de Nevada e Arizona. Aliás, vejo um pequeno pedaço porque desde 11 de setembro de 2001 é área de segurança.  Foi o maior projeto do governo dos Estados Unidos e teve dupla finalidade: controlar o regime do rio Colorado, que no final de seu percurso corta uma região desértica, e dar emprego aos americanos afetados pela Grande Depressão. O Colorado é um dos principais rios do sudeste dos Estados Unidos, nasce nas montanhas Rochosas, percorre 2.330 km, banha sete estados americanos e dois mexicanos. Há evidências de que foi ocupado pelo homem há oito mil anos; mas os europeus só o encontraram no século XVI.
 
 Quando a construção do reservatório foi autorizada, um contingente de 10 a 20 mil trabalhadores mudou para Nevada, onde o governo criou um acampamento. Quando a obra começou as companhias envolvidas construíram Boulder City, próxima a Las Vegas. Aliás, Boulder City é a única cidade de Nevada em que o jogo é proibido. Outro lugar destinado aos trabalhadores foi Williamsville –que os operários chamavam de Ragtown. Em julho de 1934 havia 5.251 pessoas trabalhando na obra. Durante todo o período de construção registraram-se 112 mortes associadas à represa.
A represa fica no caminho para o Grand Canyon, um desfiladeiro esculpido pelo rio Colorado e afluentes ao longo de dois bilhões de anos. Foi encontrado pelo explorador espanhol García Lopes de Cárdenas em 1540 e, pelo que se sabe, a expedição de John Wesley Powell foi a primeira a vencer as corredeiras do Colorado no Grand Canyon, considerado uma das sete maravilhas naturais do mundo (a baía da Guanabara é uma delas) desde 1991.

 O desfiladeiro tem 443 km de extensão e em alguns pontos 29 km de largura; faz parte do Parque Nacional do Grand Canyon, criado em 1919, e é uma das primeiras áreas protegidas dos Estados Unidos. O presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) foi um dos seus defensores:
 "O Grand Canyon me enche de admiração, está além de comparação, além da descrição, absolutamente sem paralelo no vasto mundo... Deixe esta grande maravilha da natureza permanecer como agora é e não faça nada para estragar a sua grandeza, sublimidade e beleza. Você não pode melhorá-la... Mas o que você pode fazer é mantê-la para os seus filhos, filhos de seus filhos e todos os que virão depois de você, como a grande visão que cada americano deve ver”.
Realmente, uma visão única de grandeza aliada à beleza.  
Arizona, 5 de outubro de 2017. 


sexta-feira, 13 de outubro de 2017


 A CAMINHO DA FAMA
       Chega-se a Hollywood de metrô. Para a fama o caminho é mais longo e muitas vezes sem saída. Quando se desembarca na Estação Hollywood Vine, encontra-se o cenário pronto: o ambiente inclui um palco de cada lado, duas câmeras prontas para entrar em ação e rolos de filmes forrando as paredes. Tudo muito criativo. Ao sair já se pisa na calçada da fama que cobre toda extensão do Hollywood Boulevard. Dez passos e a brincadeira torna-se maçante. Difícil achar seu astro predileto. É preciso ser muito fanático para sair procurando. E assim você caminha distraída sobre uma constelação de estrelas quase tão extensa quanto a Via Láctea.
Há cerca de vinte anos um grupo de empresários e moradores de Hollywood tem se dedicado à revitalização da região. Pelas calçadas do bulevar uma multidão se acotovela enquanto os veículos com turistas passam de um lado para o outro. Meu destino: Museu de Hollywood. Um caminho repleto de lugares marcantes da história do cinema norte-americano. Como o Teatro Egípcio construído em 1922 por Sid Grauman, um showman, e Charles E. Toberman, empresário ligado aos negócios imobiliários. Fez tanto sucesso que em 1926 Grauman investiu na construção do Teatro Chinês, inaugurado em 1927. Famoso por seu pátio com assinatura e a impressão de mãos de grandes astros de Hollywood. Carmen Miranda está lá. É bom saber que ela não foi esquecida. Há até a Carmen Miranda Square.
Enfim, o Hollywood Museum! Ele funciona no prédio que pertenceu a Maksymilian Faktorowicz (1872-1938), um imigrante polonês que chegou a Nova York com a família em 1904, quando adotou o nome de Max Factor. Em 1908 se estabeleceu em Los Angeles, com uma barbearia e usou sua experiência europeia em cosméticos primeiro para atender às necessidades de atores e depois ampliou para o show business. Entre seus clientes destacavam-se Pola Negri, Gloria Swanson, Mary Pickford, Claudette Colbert, Jean Harlow, Joan Creawford, Lucille Ball e Marilyn Monroe, frequentadoras do salão que ficava próximo do Hollywood Boulevard.


Nem é preciso dizer que fez um grande sucesso. Max Factor com suas pesquisas e desenvolvimento de produtos revolucionou o conceito de maquiagem. Max Factor tornou-se uma das maiores marcas no mundo dos cosméticos. Em 1991 a empresa foi adquirida pela Procter & Gamble que, há alguns anos, deixou de comercializar a marca nos Estados Unidos.
O Museu de Hollywoodocupa a casa que ele mandou construir em 1928. O arquiteto S. Charles Lee assinou o projeto. O edifício art-déco só ficou pronto em 1935.
Na recepção, uma senhora com ares de Gloria Swanson (“Deuses vencidos”) vende os ingressos e explica o roteiro a ser seguido. A visita é um passeio pela história do cinema e da televisão, através de objetos, roupas, manequins, fotos e filmes. São dez mil itens. Duas estrelas se destacam: Jean Harlow e Marylin Monroe – ambas são obra de Max Factor. Uma joia inestimável: o maravilhoso carro de Jean Harlow.
Várias salas reproduzem os ambientes em que as estrelas eram maquiadas ou simplesmente descansavam. Os equipamentos usados para torná-las deusas nas telas são também uma oportunidade para descobrir o quanto a indústria de cosméticos evoluiu.
Roupas usadas por artistas de ontem e de hoje nas telas ou em cerimônias do Oscar também se espalham pelos três pavimentos do museu. Numa vitrine reluzem os sapatinhos vermelhos de Dorothy – personagem de Judy Garland no filme O Mágico de Oz. No porão, reúnem-se os heróis e vilões dos filmes de suspense e terror, inclusive “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme.

        O Museu fica em 1660 N Highland Ave, Hollywood. Funciona das 10 às 17 horas. Fotos em cor: HPPA, setembro 2017. 
Foto internet: J. Harlow e o carro que se encontra no Museu.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CIDADE DOS ANJOS


Meu interesse por Los Angeles (EUA) é nenhum, mas a rota para o Havaí é obrigatoriamente por lá e pensei no que poderia me interessar. A cidade foi fundada em 4 de setembro de 1781 com o nome de Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Angeles del Río de Porciúncula, sob o reinado de Carlos III (1716-1788) da Espanha e o governador da colônia era Felipe de Neve. O México conquistou a independência em 1821. Aos poucos o lugar foi atraindo os americanos e não demorou a ocorrer a guerra ente os dois países (1846-1848) e que terminou com um tratado que garantiu aos americanos a Califórnia, que foi incorporada à União em 1857.

Com quase três milhões e oitocentos mil habitantes, Los Angeles é a segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos depois de Nova York. É sem dúvida um importante polo cultural. Um passeio por downtown, Santa Monica, Hollywood (por que não?)... Para quem não dirige é importante saber que o sistema de transporte público é muito bom. A passagem de ônibus custa USD 1,75 (preferenciais pagam USD 0,75), mas a máquina não dá troco, portanto, o ideal é comprar o cartão e abastecer com créditos. A boa notícia é que no metrô, o equipamento dá troco. O valor da passagem é o mesmo.
        
Que tal começar pelo início? Sobrou pouca coisa do Pueblo original que nos dias atuais se estende por Olvera Street, perto da praça dominada pela Pacific Station (Amtrack e metrô). Num sábado à tarde, o clima é de festa e pode-se facilmente pensar que se está em algum lugarejo do México – feira, comida, música e muitos imigrantes saudosos de suas origens, além de descendentes que mantêm as raízes, se misturam pelo “pueblo” que também atrai turistas. No início de outubro já podia se observar os preparativos para a celebração do dia dos mortos. Na praça, as atividades giram em torno do coreto muito bem conservado e o entorno tem algumas casas históricas. A mais antiga é a Villa Adobe, onde funciona um museu
      O Centro Histórico nas imediações da Spring Street tem belos prédios , com uma arquitetura simples e elegante do século passado. No final, encontra-se o Central Market com várias opções de comida – desde hambúrguer até comida vegetariana e mexicana; salsichas alemãs e pasta. Servem bebida alcoólica. Numa das entradas, um ótimo sanduíche de filé com um molho especial e chope. Entretanto, para quem frequenta o Mercado da Cantareira em São Paulo, o de Los Angeles é de uma pobreza franciscana, especialmente, em variedade de frutas e legumes! 
        Downtown passa por um processo de recuperação. Há por exemplo, uma área dedicada à venda de diamantes e joias em geral. As vitrines faíscam ao sol.
         O Performing Arts Center of Los Angeles County merece uma visita e os programas culturais são de alta qualidade. Ali encontram-se o Walt Disney Concert Hall, Dorothy Chandler Pavilion (1964), Ahmanson Theater (completando cinquenta anos de atividade), que recebem cerca de dois milhões de pessoas anualmente. 

Sem dúvida o que chama atenção é a arquitetura do Walt Disney Concert Hall, um babado que acho de grande mau gosto. Foram necessários 16 anos e USD 274 milhões para construir Walt Disney Concert Hall, obra do arquiteto canadense Frank Gehry. A casa de espetáculos foi ideia de Lillian Marie Bounds Disney (1899-1997) para homenagear o marido, falecido em 1966. Ela iniciou a campanha com a doação de USD 50 milhões. De todo jeito vale conferir. A obra causou problemas para os vizinhos e teve que ser ajustada. Há quem ame.        

terça-feira, 10 de outubro de 2017





Por melhor que seja a viagem ou a aventura, 
“There is no place like home”, como já disse 
Dorothy (Judy Garland, 1922-1969) em 
“O Mágico de Oz” (1939).