sábado, 27 de junho de 2026

UMA SÉRIE INESQUECÍVEL

 


Não posso dizer que sou fã de ficção científica, mas li Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur Clarke, George Orwell entre outros. Na adolescência, entretanto, não perdia os episódios de “Perdidos no Espaço” (1965-1968) e, sinceramente, só me lembrava das maldades do Dr. Smith (Jonathan Harris), dos belos olhos de Don West (Mark Goddard) e do robô que sempre gritava “Perigo! Perigo!’, alertando os pioneiros das galáxias sobre alienígenas. A bem da verdade, o grupo de terráqueos era alienígena. A mania dos produtores e escritores de descrever extraterrestres como monstros nunca me agradou. “Quanto à “Jornada nas Estrelas” (setembro de 1966 a junho de 1969), assisti apenas a alguns episódios porque achava a série enfadonha e não gostava dos protagonistas. Spock (Leonard Nimoy) era o mais interessante do grupo. As duas séries foram produzidas antes da histórica viagem da Apolo 11 à Lua, que ocorreu em 20 de julho de 1969.

Há alguns meses resolvi rever “Jornada nas Estrelas” e depois “Perdidos no Espaço” – aquela para tentar descobrir o que tanto atrai marmanjos a ponto de se fantasiarem para irem a “convenções” sobre a série, promovidas em vários locais dos Estados Unidos. E no final concluí que “Perdidos no Espaço” é uma ótima série destinada ao público infantil.

“Perdidos no Espaço” tem uma história interessante. A série "Zorro", estrelada por Guy Williams (1924-1989), teve sucesso, mas foi cancelada na terceira temporada com planos de continuidade, o que não aconteceu. Williams gostou do projeto de "Perdidos no Espaço” e aceitou o papel do professor Robinson, desde que fosse o protagonista, porém, ele não contou com a força do vilão (Dr. Smith) que Jonathan Harris (1914-2002) desempenhou com maestria, roubando todas as cenas. Outra surpresa foi o pequeno Billy Mumy (1954), no papel de Will, o filho do Professor Robinson, que é um pequeno gênio cheio de curiosidade, capaz de argumentar com os adultos com clareza e muita sensibilidade. Apesar de todas as maldades de Smith, ele compreende as fraquezas de caráter da pessoa responsável por todas as desventuras do grupo. Há um terceiro elemento que também se destaca na história: o Robô. Assim, Guy Williams teve que lutar para manter seu nome nos créditos como protagonista da série, de acordo com algumas fontes.  

Os episódios têm histórias muito boas e restam alguns mistérios. Exemplo: como o Dr. Smith, que depois de sabotar a espaçonave e acabou preso na própria armadilha, participando da expedição apenas com a roupa do corpo, conseguiu o uniforme, um camisolão para dormir e uma porção de quinquilharias que exibe na série? A ideia da máquina de lavar que em segundos lava a roupa e entrega embalada em plástico é ótima. Maureen Robinson também tem uma “máquina de costura” fantástica!

Enfim, um misto de fantasia com ficção cientifica. E me diverti bastante 

O robô, Dr. Smith e Will.

EM TEMPO: Alguns episódios que remetem a temas infantis:

Na primeira temporada: A Lâmpada de Aladim (ep.11), O Pirata do Céu (ep. 18), O Espelho Mágico (ep.21). Segunda temporada: O Circo espacial (ep.5), Uma visita ao Inferno (ep.12), O fabricante de brinquedos (ep.18), Os vikings no céu (ep.20), A Caverna dos mágicos (ep.22). Terceira temporada: O Ataque dos Homens relógios (ep.3), A namorada do robô (ep.11), A Princesa do Planeta Gelado (ep.14), Penny, a Princesa do Espaço (ep.17), Concurso de Beleza Cósmica (ep.21).

FAZER NADA PODE SER TRABALHO

 


Quando descobri que havia um curso de jornalismo, me interessei imediatamente, porque gostava de escrever e também porque um repórter não fica confinado num escritório – ele trabalha em campo e só retorna à redação para escrever as reportagens. O jornalismo não é entediante, mas bastante estressante. Volto ao assunto depois de ler uma matéria sobre uma pessoa extraordinária – Shoji Miromiti, 37 anos, um homem com pós-graduação em Ciências, que trabalhou em uma editora de material didático por anos, depois tornou-se escritor freelancer e teve outras atividades, mas a cada experiência desencantava-se com o trabalho aborrecido e estressante. Até que assumiu que gostava mesmo era de fazer nada.

Como viver sem fazer nada? Um dia descobriu que podia ser “Uma Pessoa de Aluguel que Não Faz Nada” – ele recebe simplesmente por estar presente. Publicou na internet um aviso sobre o serviço chamado “Alugue um Faz-Nada. Serve para qualquer situação em que tudo o que se quer é que uma pessoa esteja presente”. E em pouco tempo o serviço estava funcionando. Em um ano tinha cem mil seguidores e atualmente quase meio milhão. Já foi contratado mais de quatro mil vezes. E ainda pode escolher o trabalho.

Seus clientes são pessoas que querem companhia para ir almoçar, acenar para alguém que está chegando no aeroporto, ver um escritor bloqueado trabalhando... Exemplo de pedidos:

“Quero provar um frappuccino de hojicha (chá verde japonês) do Starbucks. Normalmente, gosto de coisas doces e ouvi dizer que não é assim tão doce, mas de qualquer modo gostava de experimentar. Acho que não vou conseguir bebê-lo todo, por isso, pode partilhá-lo comigo? Não gostaria de desperdiçar nada.”

Pode ser um paradoxo, mas o compromisso de sair de casa, dirigir-se ao encontro da pessoa e estar lá consiste no trabalho.

Vale a pena ler a reportagem.

https://sapo.pt/artigo/o-japones-shoji-miromiti-e-uma-pessoa-de-aluguer-que-nao-faz-nada-uma-historia-inacreditavel-6a3f87dd0090288908c75abc

domingo, 14 de junho de 2026

UM FILME EMOCIONANTE

 

Mont

A II Guerra acabou, mas restaram a destruição das cidades e multidões de pessoas desamparadas, sem casa, alimentação e o básico para sobreviver. E milhares de crianças órfãs, perdidas ou abandonadas vagando pela Europa numa paisagem devastada, lutando pela sobrevivência. São estas crianças o tema do filme de Fred Zinnemann “Perdidos na Tormenta” (“The Search”), produção suíço-americana de 1948. Um filme que consegue mostrar a tragédia das guerras com muita sensibilidade. Uma família é destruída quando é levada para um campo de concentração: a mulher perde o marido e a filha adolescente e é separada do filho menor. Quando a guerra termina, a mãe inicia a busca do filho; enquanto o garoto, ainda aterrorizado com a guerra, procura a mãe pela Alemanha devastada. As cenas externas foram feitas nas ruinas de Berlim e as interiores, na Suíça.

No elenco, Montgomery Clift (1920-1968), Aline MacMahon (1899-1991), Wendell Corey (1914-1968) e o pequeno Ivan Jandl (1937-1987), natural de Praga, Checoslováquia (atual República Checa.) O filme de venceu o Oscar de 1949, na categoria de Melhor História Original, e o Ivan Jandl ganhou um prêmio especial. Montgomery Clift foi indicado para o Oscar de melhor ator.

O filme de estreia de Montgomery Clift foi “Rio Bravo”, mas “The Search” acabou sendo lançado antes. Na minha opinião, o título em português foi muito infeliz. Quase não assisti ao filme porque achei que seria algum drama sobre tormenta meteorológica. O título poderia ter sido traduzido – A Busca.

Está disponível na plataforma Cinema Livre para assinantes.


domingo, 31 de maio de 2026

“Haikai”

 

Até a chuva de maio

Deixou intocado

Este templo dourado

Catedral de Colônia, 2012. Foto: Hilda Araújo.


“Haikai”

Tradução: Alberto Marsicano Rodrigues

Editora Riento – São Paulo, 1988.


domingo, 24 de maio de 2026

O CANGURU DE PRAGA

 

Foi uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando, em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República Checa.  O fato ocorreu em Praga, onde fazia um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei. Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal viu a passagem e saiu aos saltos.  O cão – um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto, quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da cerca.

Outro mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.

Enfim, nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto num parque! Até onde sei são bem perigosos.

Hoje resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os detentos.  Assim, no meu currículo de viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de 2008)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FESTIVAL DO CAFÉ

 

Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos.  Bom dia, Café!

Praça do Patriarca, ontem no final da tarde.



terça-feira, 19 de maio de 2026

ESCADAS DO PACAEMBU

 


Escadas também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim, quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6 Laranja do metrô.

As obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam, outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.

No centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque – verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.

Fico em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.

E dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.

Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.

Quando o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer o caminho para a Avenida Paulista.

Continua...

Subi por esta escadaria.


Da próxima vez será por esta.

Um lê e o outro dorme. 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

GALGANDO ESCADAS

 PARTE 2

Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.

Dos fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX) entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme. 

O desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m, mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de escadas.

Na Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.

Depois de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.

Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.

Continua.😎

Beco do Pinto.


Beco do Pinto.



Esplanada da Praça Ramos de Azevedo.

Escadas ao lado do Viaduto. À direita, Shopping Light.

Ladeira da Memória.

Continua...