Hoje
foi um dia dedicado a explorar a Avenida Senador Queirós, que começa na Avenida
Ipiranga e termina na rua Mercúrio, próximo ao Viaduto que faz parte do
conjunto viário da região do Parque D. Pedro II. Normalmente, a percorro a
partir da Rua Mercúrio, no trajeto dos ônibus em ocasiões especiais, como
eventos que impeçam a rota pela Rua Boa Vista. Achei melhor começar a caminhada
pelo início da avenida, já que seria a primeira vez que andaria por ali. Eis um lugar
estranho porque se o pedestre não prestar atenção pode perder o rumo, pois a
Avenida Ipiranga é paralela à Rua Líbero Badaró e ambas dão acesso à Praça Dr.
Alfredo Issa de onde parte a Senador Queirós. Sábia decisão, porque acabei
mudando meus planos após terminar a caminhada.
A
Avenida Senador Queirós tem duas pistas separadas por canteiro central com mão
única em direção ao Centro Histórico. Uma curiosidade: os elegantes postes de
iluminação antigos dão um certo encanto à avenida que já teve dias melhores.
Movida por um comércio variado, acho difícil definir a Senador Queirós, que
mistura pequenos prédios de três andares até edifícios com mais de dez pisos.
Foi nas pesquisas que encontrei o delicioso depoimento de Henrique Pianco, um
jovem estudante de arquitetura, que ao mudar para São Paulo morou naquela rua:
“Meu apartamento tinha apenas um
cômodo, somente uma janela. A iluminação natural abraçava todo o espaço. O
apartamento sentia tudo. Quando amanhecia, o som dos carros e da agitação
aumentava. Era hora do café. Quando o chão de madeira era tingido por uma luz
avermelhada, era o entardecer; hora de levantar da cadeira e alongar a coluna.
Quando a escuridão tomava conta e ele parecia prestes a adormecer, algo
diferente acontecia do lado de fora: a avenida despertava com força.”
“A Av. Senador Queirós foi para mim um palco de experiências. Para ser
sincero, dizer que a avenida foi palco não me soa certo; na verdade ela foi
jardim.”
Imagino
o que pensaria dela Francisco Antônio de Souza Queiroz, o Senador Queirós em
questão, um dos Grandes do Império. Paulista, nasceu em 1806, foi proprietário
rural conquistou prestígio político, que lhe garantiu uma carreira de sucesso
iniciada como vereador e que concluiu como senador por São Paulo em 1848. Ele
também ocupou, interinamente, a presidência da Província de São Paulo
(governador do Estado). Fundou a Associação Barão de Sousa Queirós de Proteção
à Infância e Juventude – Instituto Ana Rosa que funciona até os dias atuais –
já completou 152 anos. Em decorrência da sua atuação recebeu o título
honorífico de Barão de Souza Queirós com Grandeza, que não era hereditário.
Enfim,
o que me fez mudar de ideia sobre a caminhada foi a Praça Alfredo Issa, um encrave
de cerca de quinze mil metros quadrados, entre as avenidas Ipiranga e Senador
Queirós e a rua Casper Líbero. Ali destacam-se dois prédios.
O
Edifício Garagem Alfredo Issa da Polícia Civil tem história mais antiga. No
início do século passado a área era um grande charco e foco de muitos problemas.
Em princípio aquele terreno pertencia ao Estado, que começou a construir ali em
1944 o Palácio da Polícia, mas a obra foi abandonada três anos mais tarde. Muita
água rolou até a década de 1970 – rolou água mesmo porque o problema da
paralisação foi o lençol freático que fica a apenas seis metros de
profundidade.
Enfim,
Município e Estado acabaram fazendo um acordo e a área passou para o município
que decidiu construir ali um edifício-garagem e para tanto lançou um concurso,
vencido pelos arquitetos Benno Perelmutter
(1935-2017) e Jorge Nasser. O prédio redondo em concreto e estruturas aparentes
(neobrutalismo) foi construído na gestão do prefeito Paulo Maluf (1931) e
inaugurado em 1971; entretanto, ao assumir a prefeitura, José Carlos Figueiredo
Ferraz (1918-1994) devolveu o prédio para a Secretaria de Segurança Pública do
Estado que decidiu usá-lo para estacionamento da própria frota. O que se vê
atualmente não é mais o edifício original, pois sofreu ao longo dos anos várias
alterações.
Enquanto não se resolvia a questão do edifício garagem, foi construído o Edifício Montreal, primeiro projeto do escritório paulistano do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), sob encomenda do Banco Nacional Imobiliário. Inaugurado em 1954, o prédio tem 24 pavimentos, distribuídos em 21 andares com 230 apartamentos tipo quitinete. Como na época havia restrições à construção de prédios na confluência de duas ruas, as fachadas da Avenida Ipiranga e Casper Líbero são diferentes. Enfim, é bem Niemeyer – as entradas pelo subsolo e uma obra de arte para adornar o ambiente – dois delicados murais de Di Cavalcanti (1897-1972) muito bem conservados. Agradeço a gentileza do atendimento e a permissão de fotografar.
Em
tempo: o Edifício Montreal duas entradas – Avenida Ipiranga, 1284 e Rua Cásper
Libero, mas integra-se à praça por causa do térreo.
Há sempre surpresas no caminho.
















