Aos doze anos eu já havia lido
muitos livros infantis, como J. M. Barrie e todas as histórias de Charles
Perrault e de Hans Christian Andersen. Um dia minha tia Odete me trouxe um
livro que marcou toda a minha vida – “Os doze trabalhos de Hércules”, de
Monteiro Lobato. Pela primeira vez ali estavam crianças como eu, uma avó
parecida com a minha e todo espaço para brincar. Eram gente como nós. Foi a
primeira vez que ouvi falar na Grécia e em deuses que moravam numa montanha,
alimentavam-se de ambrosia e bebiam néctar. Perfeição? Na verdade, tinham mais defeitos
do que se poderia esperar de seres tão poderosos. A Mitologia era muito mais
interessante do que os contos de fadas. E cresci querendo sempre saber mais sobre
esse país e sua história. Com esse livro, aprendi também sobre bibliotecas,
pois livro era de uma biblioteca circulante e devia ter muito cuidado com ele –
eu sempre cuidei muito bem dos meus e dos que peguei emprestado em bibliotecas. Li todos os livros infantis de Monteiro
Lobato – esperava ansiosamente a Páscoa, o meu aniversário e o Natal, épocas em
que eu ganhava presentes.
Qual
deles é o meu preferido? Não sei dizer, porque todos são maravilhosos. Qual
meu personagem preferido? Ah! Essa é fácil! Emília. Minha família era bastante rigorosa:
havia regras em casa, os mais velhos mereciam todo respeito, professores eram
pessoas muito especiais porque nos abriam as portas para o mundo – ensinando-nos
a ler e escrever.
Emília
foi uma revelação porque era mandona, boca dura, como se dizia, e dizia o que
pensava. Mas ela era uma boneca, pensava eu. Emília por Emília: “Dizem todos
que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo – só que não é de banana.”
"Emília nasceu como nascem as válvulas de segurança. Ou a seção livre dos jornais. Emilia, mais do que um ser humano é uma ideia, um pensamento. É o Lobato criança. Mas é também o Lobato adulto”, escreveu Edgard Cavalheiro.
Claro que a Grécia estava no roteiro da minha primeira viagem à Europa, que eu achava que seria a única pois já estava na meia idade. Quando cheguei a Atenas, no meio da noite com um luar maravilhoso, lembrei-me dos livros da infância, indiretamente de Lobato.
"... Nas histórias infantis do criador de Pedrinho e Emília nao se encontram, como escreve Edgard Cavalheiro,seu melhor biógrafo, 'o misticismo, a superstição, a fantasia mórbida que emboloraram o pensamento brasileiro através dos séculos. Há nelas completa libertação fe velhos preconceitos; alegria de vver, saúde para o espírito, impulso para os voos da razão que desabrocha. Deixando de lado a falsa e inoperante moral do catecismo, Lobato envredoupor outro rum, sem dúvida alguma bem mais consentaneo com as duras realidades da vida. Realidades que os meninos terão, um dia, de enfrentar, queiram ou não queiram'."
Dia 18 de abril, Dia da Literatura Infantil.













