quinta-feira, 13 de agosto de 2026

NEUZA GUERREIRO DE CARVALHO

 

Neuza com participantes da oficina da memória, 2018.

Conheci a Neuza em uma das unidades da Universidade de São Paulo em eventos destinados à terceira idade, navegando pelos oitenta anos com galhardia. Baixinha, cabelos brancos e com uma disposição invejável – podia fazer um curso pela manhã, assistir a uma conferência ou a um bom filme à tarde e à noite ouvir música na Sala São Paulo ou no Teatro Municipal assistir a uma ópera ou ainda em algum teatro. Eu a via principalmente na USP, nos Encontros Culturais do prof. Terron, no Instituto Estudos Brasileiros, na Faculdade de Educação fazendo oficinas com a Elly Rozo, e até na Faculdade de Direito. Em todos esses lugares e muitos outros deixou amigos e admiradores. E ainda era uma leitora voraz, atenta aos escritores clássicos e aos contemporâneos.

Professora formada pela Faculdade de Filosofia da USP, na época em que a unidade funcionava na Alameda Glete. Lecionou Biologia no Colégio Campos Sales, na Lapa. Quando o prédio da instituição foi derrubado, iniciou uma batalha para salvar uma velha figueira da sanha imobiliária, afinal ela foi a testemunha de várias gerações que passaram pela Faculdade que originou a Universidade de São Paulo. A figueira da Glete continua firme e forte na paisagem triste de um terreno que hoje serve de estacionamento.

Há alguns anos, quando teve problemas de locomoção, embora um tanto abatida, ela continuou suas atividades com auxílio de uma bengala. Foi por essa ocasião que, numa tarde, ao embarcar na Estação Vergueiro do metrô, a vi sentadinha no banco preferencial. “Que faz você tão longe de casa?” – perguntei, brincando. Ia visitar uma prima que morava perto estação Ana Rosa, meu destino. Fomos conversando até lá. Não conhecia a região e me mostrou um papelzinho com o endereço. Ora, a rua onde moro! Mas do lado oposto. Numa subida de tirar o folego dos mais ousados e com calçadas deformadas pelas raízes das árvores. Eu a acompanhei e nos despedimos na porta da prima.

Neuza se recuperou do problema de locomoção e rejuvenesceu com a volta à intensa programação. Em 2018, me convenceu a participar da oficina “Resgate de Memória Autobiográfica”, organizado, coordenado e aplicado por ela na USP. Convenceu porque era às 8 horas da manhã no Hospital Universitário, na Cidade Universitária. Para quem mora na Aclimação, trata-se de uma viagem e tanto. Foi uma ótima experiência conviver e aprender com ela, além de conhecer pessoas com belas histórias de vida.

Muito obrigada por tudo, Neuza Guerreiro de Carvalho (1930-2026), mas pensando bem, antes de encontrá-la pessoalmente, conheci o “Blog da Vovó Neuza”, onde ela publicava crônicas deliciosas.

Figueira da Rua Glete. Foto: 5/2/2026.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O QUE VI NO CAMINHO

 

Muitas vezes passo por um lugar com algo especial ou diferente, fotografo para não esquecer, pois caneta e papel descansam em casa. Na bolsinha levo apenas o essencial. Aqui, vão algumas coisas que vi pelos caminhos feitos recentemente.





SEGURANÇA – O Abrigo Amigo, por exemplo, é uma iniciativa louvável. Há três anos em funcionamento das 20h às 5h, em 200 pontos de ônibus da cidade, já atendeu neste período dezessete mil chamadas e registrou 285 ocorrências documentadas, segundo o site da prefeitura de São Paulo. Se a pessoa que aguarda condução se sentir em situação vulnerável, aperta um botão que inicia uma vídeo-chamada, atendida por uma funcionária da equipe treinada para acionar serviços de segurança pública e saúde de acordo com a situação de emergência. O equipamento está conectado à internet e conta com câmeras de alta resolução, microfones e alto-falantes. O programa é resultado de uma parceria entre a Prefeitura, Eletromidia e a Claro. É gratuito para o usuário e sem custos para a prefeitura de acordo com o site.

AS FLORES DA SÉ – A estação mais movimentada do metrô de São Paulo é a Sé que registra em média cerca de 368 mil embarques diários. E no mezanino bem em frente às catracas esse buquê recepciona os passageiros, mas acho que bem poucos prestam atenção às flores que dão um colorido ao ambiente onde o cinza é predominante.

CAPELA DOS AFLITOS – A Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos está muito bonita, mas ainda não entrei para visitá-la. Como nos fins de semana, o bairro da Liberdade fica intransitável, o jeito é ir durante a semana. Domingo passado fui bem cedo a uma loja na Rua dos Estudantes e aproveitei para fotografar a fachada da igrejinha que já comemorou 247 anos.


FIM DO CAVEIRÃO – O prédio abandonado há seis décadas vai desaparecendo. Erguido para ser uma garagem não foi concluído e se tornou um problema para a Rua do Carmo. A demolição foi finalmente conseguida na justiça e o trabalho começou em fevereiro deste ano e já está terminando para alívio da vizinhança.


EDITORA TRÊS – Na saída da estação ferroviária pela Rua William Speers (Lapa), me deparo com o prédio da Editora Três...Fundada por Domingo Alzugaray em 1972, publicou entre outras revistas a Planeta e lançou a IstoÉ. Teve a falência decretada ano passado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

NA TRILHA DA LINHA OURO

 



Com uma área de 1.521.202 km²é muito difícil dizer que se conhece a cidade de São Paulo. Quando trabalhava, passei várias vezes de carro pela Zona Sul da cidade, mas isso não quer dizer muita coisa, porque nessas ocasiões os interesses eram outros, mais específicos e práticos. A inauguração do monotrilho – Linha Ouro 17 do metrô, no mês passado, foi a oportunidade para ver esse lado de São Paulo. Assim, semana passada fui com o amigo Nilton conhecer o trecho do monotrilho da linha Ouro, que funciona provisoriamente de segunda à sexta-feira das 9 às 16 horas em operação assistida. O monotrilho é totalmente automático, ou seja, sem operador.

Na estação Klabin (Lilás), embarcamos para o Campo Belo onde se faz a transferência para o Aeroporto de Congonhas. No caminho, poucas pessoas, a maioria sem mala como nós, mas cheias de curiosidade. Na plataforma de embarque/desembarque a sensação agradável que a iluminação natural oferece e lá fora o panorama visto do alto – a altura média do percurso do monotrilho é de vinte metros.

Funcionários explicam o trajeto – embora os painéis eletrônicos funcionem adequadamente. Enquanto esperamos, vamos observando o panorama desse pedacinho do Campo Belo, onde fui anos atrás para visitar a Casa Modernista do arquiteto Vilanova Artigas (1915-1985). Chega o trem e, embora sobrem lugares, preferimos ir em pé para não perder os detalhes do percurso. Nilton vai identificando para mim as avenidas que cruzamos. Um caminho em que o destaque é a diversidade arquitetônica dos edifícios comerciais e residenciais antigos e modernos; há núcleos de casas que resistem. O contraste é o remanescente da favela do Buraco Quente, incrustada numa área cercada por prédios de apartamentos. Formada por casas de tijolinhos vermelhos, construídas provavelmente aos poucos e com soluções pouco convencionais, mas que atendem às necessidades dos moradores dentro de suas possibilidades, já que foram eles os arquitetos.  

A viagem é curta, a velocidade, média. Na parada Congonhas resolvemos ir até a estação Morumbi. Nesse trecho, a principal atração da paisagem é sem dúvida a Ponte Octavio Frias de Oliveira, a famosa Ponte Estaiada, que liga a avenida Roberto Marinho à Marginal Pinheiros. Eu que sempre quis vê-la de perto!

Foi uma ótima tarde de inverno desse inverno atípico, mas eu fiquei com vontade de fazer algumas partes do percurso a pé... E voltei ontem começando o passeio pela avenida Washington Luís, onde fica o Aeroporto de Congonhas. Ao desembarcar da Linha 17 fui informada que não precisava atravessar a avenida Washington Luís, bastava usar a passagem subterrânea, onde há uma exposição de fotos dos visitantes que ficaram felizes por conhecerem "uma avenida no céu". Outra surpresa, pois saí exatamente no térreo do aeroporto para minha caminhada. 

FOTOS: O texto de apresentação da exposição de fotos no túnel de ligação entre o metrô e o aeroporto. Vista do acesso ao aeroporto de Congonhas.





FOTOS: Área de embarque e desembarque na estação Campo Belo.





domingo, 2 de agosto de 2026

SEMINÁRIO DAS EDUCANDAS

 

Por volta de 1825 a cidade de São Paulo tinha cerca de vinte mil habitantes e já apresentava problemas sociais como crianças vivendo pelas ruas ou recém-nascidos abandonados. Esse foi um dos motivos que levaram o Governo Imperial a instalar na Chácara da Glória uma instituição assistencialista, aproveitando a infraestrutura existente – um sobrado largo com três módulos centrais (uma sala central e quartos nas laterais), uma capela e terras próprias. No mesmo ano começou a funcionar a Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que encerrou as atividades apenas em 1950 – nesse período, a entidade recebeu 4.180 crianças.

O presidente da Província (Estado) Lucas Antônio Monteiro de Barros, visconde de Congonhas do Campo, se encarregou da organização do Seminário das Educandas da Glória.  É bom lembrar que o educandário ficava na zona rural de São Paulo, praticamente isolado do Triângulo (Rua Direita, XV e São Bento), numa época em que as estradas eram precárias tanto para o trânsito de charretes como de cavaleiros.

O programa educacional refletia a época: as meninas eram preparadas para o casamento, ou seja, aprendiam prendas domésticas – costurar, cozinhar e criar filhos. As meninas aprendiam a ler e escrever, caligrafia, as quatro operações aritméticas, princípios de moral e religião; arte culinária, bordado e engomado; mais tarde foram incluídas música e dança. O casamento era permitido a partir dos 15 anos; o candidato passava por uma avaliação da diretora e do síndico da instituição – precisava ter bom caráter e um ofício. Para aquelas que não conseguiam um marido, a opção era trabalhar como empregada doméstica.

Com o tempo, o casamento deixou de ser a meta e criou-se uma escola normal para que as moças se preparassem para o magistério; mas a escola não chegou a funcionar por falta de professores. A solução foi encaminhar as jovens com melhor desempenho para a Escola Normal (atual Escola Estadual Caetano de Campos).

Em 1844, o Seminário mudou para a Rua Açu, atual Rua Brigadeiro Tobias, na época ainda distante do Centro Histórico do qual era separada pelo rio Anhangabaú. O seminário ocupou um sobrado amarelo de dois andares, janelas protegidas por grades e muros altos. Com problemas de administração, o governo federal fez um acordo com a ordem religiosa francesa das irmãs de que administrou a instituição entre 1870 e 1932, com o objetivo de capacitar as moças para o exercício do magistério.

Com o tempo, usos e costumes mudam e a tendência é a correção dos erros do passado e tudo transforma-se em história ou História.

Walter Pires: “Configuração territorial, urbanização e patrimônio: Colônia da Glória (1876-1904)”.

Fontes: Alana Marchioro Drapcynski: “SEMINÁRIO DA GLÓRIA: RAÇA, GÊNERO E EDUCAÇÃO NO COTIDIANO DE UMA INSTITUIÇÃO ASSISTENCIAL (SÃO PAULO, 1825-1872)”.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

NADA FEITO

 


Ontem, saí com quatro objetivos – coisa rara, geralmente, um é o suficiente e muitas vezes ainda mudo de ideia e faço algo completamente diferente; entretanto, decidi aproveitar o caminho que me possibilitava cumprir as metas de uma vez só. As duas primeiras não deram certo; quanto à terceira, era essencial para cumprir a última. E foi aí que as coisas desandaram. Orientação de um motorista de táxi foi para seguir determinada rua que terminava onde eu queria ir. 

Ruas com casas de alto padrão são desertas. Vê-se apenas a parte superior das residências, porque os muros maciços escondem o resto. Toda a área fartamente arborizada, o que dá um frescor ao início da tarde; porém, as calçadas, surpreendentemente, deixam muito a desejar. Os moradores devem usar carro e não os pés para se locomoverem. Não ouço passarinhos – creio que nem eles aguentam tal marasmo. Seis quadras de tédio e nada de chegar ao final dessa triste rua. Avisto uma guarita com um rapaz que me garante que estou chegando. Nesse ponto, ouço gorjeios...

Calculei que havia andado ao todo uns três quilômetros – contando a minha saída do metrô até aquele momento. Bom senso disse que devia desistir dos dois últimos objetivos. Voltar? Nem pensar. Pedir informações seria uma boa iniciativa. Por sorte vi um rapaz apressado (como eu devia ser estrangeiro no bairro), com fones nos ouvidos, que me indica o metrô. Mais adiante, dois valetes sob um guarda-sol conversam; passo por uma igreja onde mesas cobertas com toalhas brancas parecem esperar os fiéis para um café da tarde. Será que os valetes são ligados ao evento?

Chego à terra prometida, mas nada me lembra a estação a que cheguei. Trabalhadores em uma obra em pausa de lanche garantem que a estação é do outro lado da rua, mas recomendam que use a passarela (que passarela?). Subo e desço escadas e me deparo com uma estação da CPTM. Trem? Eu perguntei pela estação do metrô e me indicaram a ferroviária? Fica a dúvida: as pessoas não distinguem um tipo de transporte do outro? Ou não ouvem o que se pergunta?

Na bilheteria, a moça me orientou gentilmente e embarquei de mãos vazias como cheguei por lá. As árvores e suas flores compensaram uma tarde complicada.

domingo, 26 de julho de 2026

UM CAFÉ EXPRESSO, POR FAVOR.


O poeta Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos no dia 26 de julho de 1895 – exatos 131 anos. Advogado, poeta, crítico literário e jornalista, ele foi um dos grandes nomes do movimento Modernista de 1922.

                                                            


CAFÉ-EXPRESSO*

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...


Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!


*Mantive a grafia original. O poema é de 1928.