sexta-feira, 1 de maio de 2026

AVENIDA RIO BRANCO

 

 Ela já se chamou Alameda dos Bambus, mas o nome foi mudado para Rio Branco pela prefeitura em 1907 por sugestão dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Eles consideravam que esta seria uma merecida homenagem ao diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912), o Barão do Rio Branco, a figura mais admirada pelos brasileiros e que estudara nas arcadas, embora tenha se formado na faculdade de Recife. Para se ter uma ideia do prestígio do Barão basta contar que no Distrito Federal (Rio de Janeiro), o Carnaval de 1912 foi adiado porque ele morreu exatamente durante a festa. O Barão foi o responsável pelas negociações diplomáticas que configuraram as fronteiras Oeste do Brasil, negociando com Peru e Bolívia, e no Sul, Argentina. É o patrono da diplomacia brasileira.

            Voltando à avenida: ela começa entre o Largo do Paissandu e a Rua Antônio de Godoi e dali segue paralela à Avenida São João, da qual vai se afastando para terminar no Viaduto Orlando Murgel. Nem é preciso lembrar que no princípio aquela era uma área rural, com característica de várzea e ocupada por chácaras. No período entre o final do século XIX e início do século XX, as grandes fortunas estavam mudando de ares e se instalando na região Oeste. Entre eles Antônio da Silva Prado, que adquiriu a chácara de Francisco de Assis Carvalho, Henrique Dumont, irmão de Alberto Santos-Dumont, e Elias Antônio Pacheco e Chaves entre outros.  A avenida tem prédios bem conservados, mas há muitos que mesmo em decadência guardam resquícios do apogeu. O trecho mais abandonado é o inicial. (Antônio Prado tornou memorável a Chácara do Carvalho por sua contribuição à vida cultural da cidade.)

            O prédio da Igreja Evangélica Luterana de São Paulo é de 1909. Foi o primeiro em estilo neogótico da cidade. O projeto é do arquiteto Guilherme Von Eye. Os belos vitrais foram produzidos pela tradicional Casa Conrado. O órgão, construído pela Casa Walcker, tinha doze registros e 620 tubos; após algumas reformas, em 1995 passou a 1.146 tubos. Tive a oportunidade de conhecer a igreja graças a um programa do SESC Carmo que promovia música nas principais igrejas do Centro Histórico. No dia 1º de maio de 2028, um incêndio no edifício Wilson Paes de Almeida, seguido de desabamento, destruiu parcialmente a igreja que promoveu uma campanha para levantar fundos para restauro.  Ela é tombada pelo CONPRESP (1992) e pelo CONDPHAAT (2012).  Um muro todo pichado é a única lembrança do prédio Paes de Almeida.

            Numa esquina, fico sabendo que a Rua General Osório é a rua das motos (nenhuma à vista) porque desde os anos 1940 tem um comércio voltado para peças e acessórios (novos e usados) e equipamentos para motocicletas. Há inclusive oficinas especializadas em conserto e restauro das máquinas. Não há muito o que ver até chegar à Praça Princesa Isabel que foi recuperada e encontra-se bem cuidada. Mulheres com crianças, pessoas passeando com seus cães aos pés do monumento a Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), Duque de Caxias. Criação de Brecheret (1894-1955), vencedor do concurso internacional para a realização do trabalho. A estátua equestre foi inaugurada em 1960. No pedestal de granito há um resumo da carreira de Caxias.

            Passo pelo palacete do cafeicultor Elias Antônio Pacheco e Chaves (1842-1903), que atualmente é sede da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. Trata-se do Palácio dos Campos Elíseos, projeto do arquiteto alemão Matheus Häusler, inaugurado em 1899 e tomado pelo CONDEPHAAT em 1970. Na calçada oposta, um casarão chama atenção. É dos anos 1920 e pertence ao Estado. Já foi sede do Centro de Referência em Educação “Mário Covas”. A casa ao lado deve ter sido muito bonita, mas encontra-se em decadência.

            A grande referência do bairro, entretanto, é o Hospital da Mulher (SUS), inaugurado em 2022, que atende “especialidades como oncologia ginecológica e mamária, ginecologia de alta complexidade, cuidados paliativos e reprodução humana assistida, além de atuar no ensino e pesquisa do programa de residência médica em Ginecologia e Mastologia”. Avenida Rio Branco, 1080, em frente ao Terminal de Ônibus Princesa Isabel.

            Estico a caminhada até o SESC Bom Retiro na Alameda Nothmann para um cafezinho. E no caminho uma boa surpresa: vejo um trem passando por um viaduto. Adoro trens. E em todos esses anos em São Paulo nunca havia observado essa cena. Enquanto saboreio o café, observo o pessoal fazendo alongamento no saguão. Penso com meus botões que segunda-feira começa com ginástica. Afasto a lembrança e saio em direção ao terminal onde pegarei o ônibus de volta à Aclimação.

Mapa na esquina da General Osório indicando a Rua das Motos.

O Duque pairando sobre as árvores da Praça.

Antiga sede do Centro de Referência em Educação "Mário Covas".

Olha o trem!


sábado, 25 de abril de 2026

AVENIDA SÃO JOÃO

 

Num final de semana ensolarado, saí sem destino e no caminho lembrei-me de que ainda não havia caminhado pela Avenida São João. Conheço o início e o final da avenida; ano passado, no passeio pelo Minhocão, a vi de cima e quantas vezes passei por ela de carro (geralmente táxi ou veículo de empresa onde trabalhava). Passar de carro e caminhar por uma rua são duas coisas bem diferentes. Assim, aproveitei o domingo para andar por essa avenida fascinante.

        Ela começa num ponto histórico: a praça Antônio Prado e tem dois guardiões emblemáticos – o edifício Antônio Arantes – Banespa (atual Farol Santander) e o Martinelli. Um detalhe: o primeiro fica na Rua João Brícola e o segundo entre a São Bento e a Líbero Badaró. Da praça tem-se uma vista muito bonita da avenida que atravessa o Vale do Anhangabaú e segue para o poente até terminar perto de um castelinho – o tristemente famoso castelinho da Rua Apa. Entre um ponto e outro encontra-se a Galeria do Rock, a mais bonita de São Paulo; a Galeria Olido, que já foi endereço da Companhia Siderúrgica Paulista; a centenária igreja dos Homens Pretos e do tradicional restaurante Ponto Chique, ambos no Largo do Paissandu, a um passo da avenida.

E nessa ronda diurna, sem procurar nada e ninguém, chego à esquina das Avenidas São João com a Ipiranga, onde encontro o professor e compositor Paulo Vanzolini (1924-2013) sentado num banco observando a vida passar. Quase sempre tem companhia, mas tenho dúvidas se ele é reconhecido. Na calçada em frente, abrigado no bar famoso, está Adoniran Barbosa (1910-1982), frequentador do pedaço, com seu inseparável Peteleco. Vanzolini descreveu a cena de sangue num bar da São João. “Tiro ao Álvaro”? Não! Essa é de Adoniran Barbosa (1910-1982). Épocas e estilos diferentes. Grandes compositores. Esta é a esquina dos velhos boêmios.

E o decorador da rua colocou num ponto estratégico um paparazzi com sua câmera apontada para o Bar da Bhrama como se esperasse a chegada dos famosos para registrar flagrantes indiscretos. Mais à frente um engraxate – outra lembrança de um tempo em que crianças trabalhavam e os tênis eram para esportistas.

E lá vou eu! Gosto muito do relógio estilizado que adorna o prédio de esquina onde funciona uma farmácia. Passo pela Rua Aurora, onde nasceu Mário de Andrade. À esquerda, vejo o prédio branco de quatro andares que faz parte da história do cinema paulistano: em 1938 ali foi inaugurado Cine Metro, considerado um dos cinemas mais elegantes de São Paulo. O glamour durou até a década de 1960. Em 1997 encerrou as atividades. Atualmente, é sede de uma igreja evangélica.

E na esquina com a Rua Pedro Américo, encontra-se o Edifício Andraus, 32 andares, 115 m de altura e um heliporto. Ficou pronto em 1962 e era o endereço de várias empresas e da Pirani, uma loja popular que ocupava o subsolo, o térreo e mais alguns andares. Em 24 de fevereiro de 1972, um incêndio provocado pela sobrecarga do sistema elétrico causou a morte de dezesseis pessoas e 345 ficaram feridas. A situação não foi pior porque o heliporto possibilitou o resgate de cerca de quinhentas pessoas.

Entre as ruas Aurora e Vitória fica a Praça Júlio de Mesquita que é adornada por um dos mais belos monumentos da cidade: a “Fonte Monumental” em mármore branco de Carrara e bronze. A obra inaugurada em 1927 é da artista campineira Nicolina do Couto (1874-1941).

Não me esqueci do tradicionalíssimo “Rei do File”, no ponto desde 1914 – Praça Júlio de Mesquita, quando se chamava Esplanadinha, mas ficou conhecido como “Filé do Moraes” por conta do cozinheiro que assim se chamava.

Destaque para o Prédio dos Estudantes, que pertence ao Centro Acadêmico XI de Agosto dos alunos da Faculdade de Direito da USP: funciona como moradia estudantil para os jovens que não têm meios de se manter em São Paulo durante o curso.

Há prédios muito bonitos ao longo da Avenida São João e bem conservados. Vale uma caminhada.



Uma soneca ao lado de Vanzolini. (30/12/2025)





terça-feira, 21 de abril de 2026

O PALACETE DO CARMO

 

Chama-se Palacete do Carmo e seu perímetro é enorme: Ruas Venceslau Brás, Irmã Simpliciana, Roberto Simonsen e Praça Clóvis. Deve ter sido muito bonito e tido seus dias de fasto. É propriedade do Mosteiro de Santa Terezinha de Jesus, conforme esclarece a Arquidiocese de São Paulo em seu site. O mundo mudou e o Palacete foi saindo de moda, ficando esquecido. Nos últimos tempos, eu tinha a impressão de que estava se esfarelando e sempre achei corajosos os donos de veículos que usavam os estacionamentos. O térreo da Venceslau Brás era ocupado por uma modesta quitanda, uma loja que vendia de tudo, mas organização não era o lado forte da casa; seguiam-se uma barbearia e um cabelereiro, um mercadinho proibido para obesos, o restaurante e padaria “Cantinho do Centenário” e na esquina da Rua Irmã Simpliciana, havia um restaurante maior. Do lado desta rua, apenas o muro que protege um espaço que pode ter sido um jardim do palacete. A parte da Praça Clóvis está protegida por uma cerca.

Na Rua Roberto Simonsen, enquanto o estacionamento se esfacelava aos poucos, o destaque era um espaço que fazia carimbos e clichês (será que alguém ainda sabe do que se trata?).

Nas últimas semanas todos mudaram. Alguns colocaram cartazes avisando do novo endereço. Outros, quem sabe?

E assim o véu caiu sobre o prédio que aguarda seu destino.

 

Palacete do Carmo.


Venceslau Brás com Irmã Simpliciana.

Lateral da Rua Roberto Simonsen.

domingo, 19 de abril de 2026

CAMINHADAS AZUIS DE ABRIL

Abril é um mês azul, mais azul do que os outros meses. Os dias são amenos – nem muito quentes nem muito frios. Um tempo apropriado para se caminhar sem destino, descobrir algumas particularidades da cidade. E não sou a única – hoje aguardava o ônibus para ir ao Centro Histórico quando passou um homem jovem, carregando um saco cheio de latinhas de alumínio, e num repente, olhou o céu, tirou o boné e falou para ninguém: “Que dia lindo!”. Lembrei de Vinicius de Moraes...

Amanhecer. (18/04/2026)

Canteiros da Av. São Luís - nesgas de azul. (10/04/2026)

Domingo azul na Av. São João. (12/04/2026)

Domingo azul na Av. São João. (12/04/2026)

Av. São João. (12/04/2026)


Outro domingo azul. (19/04/2026) 

Edifício Viadutos: um chapeuzinho para dias azuis e outros nem tanto. (19/04/2026)

Meandros urbanos, aproveitando o azul intenso do domingo.(19/04/2026)


Reflexos. Praça Pérola Byington (19/04/2026)

AS CORES DE ABRIL, de Vinicius de Moraes (1913-1980).

As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu em flor
E pássaros mil
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor

O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor

Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida em canção

Sou eu, o poeta, quem diz
Vai e canta, meu irmão,
Ser feliz é viver morto de paixão

sexta-feira, 17 de abril de 2026

OBRIGADA, LOBATO

 

Aos doze anos eu já havia lido muitos livros infantis, como os de J. M. Barrie e todas as histórias de Charles Perrault e de Hans Christian Andersen. Um dia minha tia Odete me trouxe um livro que marcou toda a minha vida – “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Pela primeira vez ali estavam crianças como eu, uma avó parecida com a minha e todo espaço para brincar. Eram gente como nós. Foi a primeira vez que ouvi falar na Grécia e em deuses que moravam numa montanha, alimentavam-se de ambrosia e bebiam néctar. Perfeição? Na verdade, tinham mais defeitos do que se poderia esperar de seres tão poderosos. A Mitologia era muito mais interessante do que os contos de fadas. E cresci querendo sempre saber mais sobre esse país e sua história. Com esse livro, aprendi também sobre bibliotecas, pois livro era de uma biblioteca circulante e devia ter muito cuidado com ele – eu sempre cuidei muito bem dos meus e dos que peguei emprestado em bibliotecas.  Li todos os livros infantis de Monteiro Lobato – esperava ansiosamente a Páscoa, o meu aniversário e o Natal, épocas em que eu ganhava presentes.

Qual deles é o meu preferido? Não sei dizer, porque todos são maravilhosos. Qual meu personagem preferido? Ah! Essa é fácil! Emília. Minha família era bastante rigorosa: havia regras em casa, os mais velhos mereciam todo respeito, professores eram pessoas muito especiais porque nos abriam as portas para o mundo – ensinando-nos a ler e escrever.

Emília foi uma revelação porque era mandona, boca dura, como se dizia, e dizia o que pensava. Mas ela era uma boneca, pensava eu. Emília por Emília: “Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo – só que não é de banana.”

"Emília nasceu como nascem as válvulas de segurança. Ou a seção livre dos jornais. Emília, mais do que um ser humano é uma ideia, um pensamento. É o Lobato criança. Mas é também o Lobato adulto”, escreveu Edgard Cavalheiro. 

       Claro que a Grécia estava no roteiro da minha primeira viagem à Europa, que eu achava que seria a única pois já estava na meia idade. Quando cheguei a Atenas, no meio da noite com um luar maravilhoso, lembrei-me dos livros da infância, indiretamente de Lobato. 

"... Nas histórias infantis do criador de Pedrinho e Emília nao se encontram, como escreve Edgard Cavalheiro, seu melhor biógrafo, 'o misticismo, a superstição, a fantasia mórbida que emboloraram o pensamento brasileiro através dos séculos. Há nelas completa libertação de velhos preconceitos; alegria de viver, saúde para o espírito, impulso para os voos da razão que desabrocha. Deixando de lado a falsa e inoperante moral do catecismo, Lobato enveredou por outro rumo, sem dúvida alguma bem mais consentâneo com as duras realidades da vida. Realidades que os meninos terão, um dia, de enfrentar, queiram ou não queiram'." 

Dia 18 de abril, Dia da Literatura Infantil.

Biblioteca Monteiro Lobato.

Biblioteca Monteiro Lobato.



Fonte: "Tempo de Contar", de Joel Silveira, Editora Record. 1986.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

BIBLIOTECA INFANTOJUVENIL "MONTEIRO LOBATO"

Foi Mário de Andrade quem criou a primeira biblioteca pública Infantil da cidade, que atualmente se chama “Monteiro Lobato”. Ela foi inaugurada em 14 de abril de 1936, quando era diretor do Departamento Municipal de Cultura, como parte de um amplo plano de incentivo à cultura.  É a mais antiga biblioteca infantil em funcionamento no Brasil e foi a precursora de outras criadas no município.

E aqui entra um personagem importante nessa história: a bibliotecária Lenyra Camargo Fraccaroli (1906-1991), que dirigiu a Biblioteca Monteiro Lobato desde a criação até 1960, sempre incentivando e supervisionando a construção de outras bibliotecas em diversos bairros de São Paulo, em várias cidades paulistas e de outros Estados. O convite de Mário de Andrade foi baseado na experiência dela na direção da Biblioteca Infantil da escola primaria anexa à Escola Normal Caetano de Campos.  Em 1991, a Prefeitura deu o nome dela para a Biblioteca Infantil da Vila Manchester, na Vila Carrão, fundada em 1956.

            A primeira sede da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato foi em uma casa da Rua Major Sertório, onde além dos livros havia várias atividades para atrair as crianças – como coleções de selos (filatelia) e moedas antigas (numismática), salas de jogos e de revistas, e para sessões de cinema falado. As crianças também elaboravam um jornal “A Voz da Infância”, que foi feito de 1936 até 1948. Monteiro Lobato costumava frequentar a biblioteca e contar histórias para as crianças (Que privilégio!). Nesse espaço criou-se uma sessão em braile, que atualmente funciona no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000).

            Com o crescimento do público, a biblioteca mudou para a chácara do senador Rodolfo Miranda (1882-1954), na Rua General Jardim, onde foi construído o prédio atual, de linhas modernas e ambientes claros, inaugurado em 24 de dezembro de 1950. O projeto é do arquiteto Hentz Gorham, da Divisão de Arquitetura da Prefeitura. Somente em 1955 Monteiro Lobato tornou-se o patrono da biblioteca, pois ele continuava o autor preferido dos frequentadores. A casa onde o senador viveu, bem em frente à biblioteca, é a sede da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ela é também a mantenedora do acervo Monteiro Lobato, com cerca de 4500 itens referente à vida e obra do autor, é basicamente formado por doações da família do escritor.

A biblioteca Monteiro Lobato tem um encanto especial: além do ambiente colorido, o visitante encontra pelo caminho Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde, o Marquês de Rabicó. Apoiada no parapeito do balcão do primeiro andar, a Cuca observa os recém-chegados, que ao subir as escadas, são recepcionados por Dona Benta e Tia Nastácia. Trata-se de bonecos de pano gigantes. No térreo, duas vitrines reúnem uma coleção de mamulengos, bonecos de pano de mais ou menos setenta centímetros, que representam personagens históricos e de histórias infantis. Lá estão também antigas edições dos livros  da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicados pela Editora Brasiliense, a editora exclusiva dos livros de Monteiro Lobato e o que me deixou mais feliz foi ver ali todos os livros de Lobato que ganhei na infância.


Fotos: Prefeito Fábio da Silva Prado, Mário de Andrade e Lenyra Fraccaroli. Acervos culturais e artísticos da Prefeitura de São Paulo. Fotógrafo desconhecido, 1946.


Ah! Esse laço de fita!💓

Endereço da Biblioteca Monteiro Lobato: Rua General Jardim, 485 - Vila Buarque.
Tel.: (11) 3256-4438 e (11) 3256-4122

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O MINARETE DO BELENZINHO

 


Era em abril o aniversário de José Renato Monteiro Lobato: exatamente no dia 18. O garoto nasceu em Taubaté (SP), que deixou com apenas dezessete anos para cursar a Faculdade de Direito em São Paulo, onde ingressou após um susto: a reprovação na prova oral de Português. O sonho do rapaz era estudar Artes Plásticas, mas o avô materno nem quis ouvir falar no caso. Há algum tempo Lobato já mudara o nome para José Bento, tudo por causa da bengala do pai que trazia as iniciais JB no castão de prata, que ele admirava e, num futuro distante, pretendia usar.  

O lado artístico se manteve e, graças a ele, podemos saber como era a república na Rua 21 de Abril, no Belenzinho, onde Lobato se instalou, pois ele fez uma aquarela da residência que ficou conhecida como o Minarete. O chalé em vez de muro tinha uma cerca viva e um portão de ferro; telhado de duas águas em ponta; no térreo residia uma família e no piso superior havia dois salões, onde moravam os estudantes. Godofredo Rangel foi o primeiro morador e quando Ricardo Gonçalves foi visitá-lo se encantou com a vista: “Mas é uma torre, Rangel! Veja que amplidão de vista se descortina! Uma torre - um minarete!...”

Era ali que se reunia o Cenáculo – que tanto pode ser a sala de refeições como o local onde se reúnem pessoas com o mesmo ideal – no caso, todos eram “candidatos a intelectual”. O, mas nem todos os oito residentes no Minarete eram estudantes da São Francisco. Os rapazes e seus pseudônimos eram: Albino Carvalho Neto (NA), Cândido Negreiros (CN), Godofredo Rangel (Rangel), José Antônio Nogueira (Nogueira), Lino Moreira (LM), Martinho Dias (Tito Lívio), Monteiro Lobato (YEWSKY) e Ricardo Gonçalves (Bruno de Cádiz). O primeiro encontro do grupo foi em 1902, na Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo), ainda no quarto de Cândido Negreiros. Lobato lembraria tempos depois que: “Foi a noite dos projetos grandiosos, essa. O Cenáculo ia reformar o mundo, modificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma filosofia inéditas.” Nada como a juventude. Eles trilharam caminhos diferentes, continuaram amigos ao longo dos anos e alguns mantiveram-se escrevendo. Lobato em São Paulo e Rangel em Minas corresponderam-se durante quarenta anos.

Em setembro de 1943, quando Lobato escreveu: “Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vele alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época. Leitura, história e mais coisas”. No mês seguinte, aborda novamente o assunto. “Verdadeiras memórias dum novo gênero – escritas a intervalos e sem nem por sombras a menor ideia de que um dia fossem publicadas. Que pedantismo o meu no começo! Topete incrível! Emília pura.”

Foto: Godofredo Rangel. Wikipedia.                                 O Minarete, aquarela de Monteiro Lobato.