sábado, 31 de outubro de 2026

AS FEITICEIRAS

 

A bruxa é alguém capaz de fazer ou parecer fazer coisas estranhas para além do poder conhecido da arte e da natureza comum, em virtude de uma combinação com maus espíritos. Definição do filósofo inglês Joseph Glanvill (1636-1680), estudioso e naturalista inglês, autor de um livro em que defendeu a crença em deus e na feitiçaria. De acordo com o dicionário Michaelis “bruxaria é o conjunto de práticas, que segundo a crendice popular, permitem à bruxa ou ao bruxo usar de poderes sobrenaturais de modo a prever o futuro e atuar negativamente sobre a vida de uma pessoa, causando-lhe danos ou malefícios ou, até mesmo, levando à morte”. E complementa: (bruxaria) “é o acontecimento que, por não ter explicação lógica, acaba tendo sua ocorrência atribuída à atuação de forças sobrenaturais”.

Bruxaria não é atributo feminino, pois as lendas incluem homens, sendo Merlin, personagem da saga arturiana anglo-saxônica, um dos magos mais famosos; portanto, creio que os americanos deveriam comemorar o dia dos bruxos, mas que eu saiba nenhum bruxo se sentiu prejudicado com essa omissão. 

A literatura se encarregou de difundir histórias fantásticas envolvendo homens e, especialmente, mulheres com poderes extraordinários. Um dos romances mais famosos de Walter Scott (1771-1832) conta como Rebeca, uma jovem judia trata dos ferimentos do cavaleiro saxão Ivanhoé com unguentos e poções, e acaba sendo acusada de bruxaria. “Ivanhoé” foi lançado em dezembro de 1819. A história se passa na Alta Idade Média, século XII, século em que a Igreja estabeleceu a Inquisição para julgar e punir pessoas acusadas de desvios da fé católica, como a feitiçaria. É bom lembrar que em várias culturas o tratamento de doentes era atribuição de curandeiros – nas tribos indígenas nativas do Brasil, por exemplo, o papel cabia aos pajés. Numa época em que a medicina ainda era rudimentar, muitas vezes, cabia à mulher cuidar dos doentes com chás, poções e unguentos preparados com ervas. Nas mentes ignorantes, a cura dos doentes e feridos era vista como magia, feitiçaria, atribuída a bruxas e magos.

            “No creo en las brujas, pero que las hay, las hay” deve ser o dito popular preferido da indústria cinematográfica e editorial, pois o tema rende muitas histórias e, principalmente, dinheiro.  “As brumas de Avalon”, de Marion Zimmer, e “Harry Potter”, de J.K. Rowling, que o digam.

            Hoje, entretanto, gostaria de relembrar a atriz americana Elizabeth Montgomery (1933-1995) que mudou esse universo de mulheres feias e malévolas ao interpretar Samantha, uma feiticeira bonita, elegante, dona de um nariz perfeito e que ela usa para fazer suas feitiçarias. A série “A Feiticeira”, exibida de 1964 a 1972, foi um grande sucesso. Samantha se apaixona por um simples mortal com quem se casa. O marido James (Dick York) nem desconfia dos poderes da esposa, mas quando descobre exige (ah! outros tempos) que ela nunca mais use feitiçaria. Ela aceita o desafio cheia de boas intenções e tenta ser uma dona de casa esforçada. Vassoura? Usou uma vez para levar a família para visitar Papai Noel. James logo descobre que o casamento inclui a sogra Endora (Agnes Moorehead – 1900-1974), uma bruxa quase malvada que não aprova a escolha da filha, e toda uma coorte de feiticeiros – pai, tios, primos e um médico impagável (Bernard Fox – 1927-2016). As maluquices que acontecem ao longo das oito temporadas da série são possíveis principalmente por causa da profissão de James, um publicitário que trabalha numa grande agência, chefiada por um profissional mesquinho.

    Se o telespectador acreditava que ter uma bruxa/bruxo na família poderia tornar a vida mais fácil, desiludia-se a cada episódio em que as bruxarias causavam mais problemas que soluções.   

Dick York, Agnes Moorehead e Elizabeth Montgomery.

Dick York, por problemas de saúde, foi substituído na sexta temporada por Dick Sargent (1930-1994).

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

NA ERA DO RÁDIO

 

A véspera do Dia das Bruxas de 1938 tornou-se memorável. A CBS (Columbia Broadcasting System) tinha um programa radiofônico noturno com música e notícias, apresentado Orson Welles (1915-1985), que era diretor e astro da série de rádio-teatro Mercury Theatre on the Air.  Na noite do dia 30 de outubro, a programação começou com a informação de que o espetáculo seria uma adaptação de “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells e, em seguida, Orson Welles leu um prólogo baseado no romance, e só então começou a transmissão da programação normal, que foi interrompida com boletins, lidos por Welles em tom realista, sobre a invasão marciana. O programa teria desencadeado pânico em várias cidades da Costa Leste do país. Ouvintes acreditaram que, realmente, espaçonaves alienígenas atacavam o planeta.

 A questão é que a maioria dos ouvintes não prestou atenção no aviso da emissora ou ligou o rádio após o aviso. O fato causou indignação da imprensa, que considerou a transmissão enganosa e, segundo pesquisas atuais, teria ampliado as consequências do programa, relatando pânico geral e estradas congestionadas por pessoas em fuga, temerosa da concorrência do rádio. Orson Welles, por outros motivos, claro, ajudou a divulgar a história do pânico. 

No dia das bruxas, coletiva de Welles sobre o programa da noite anterior.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DIA DOS AVIADORES

 

O homem sempre sonha com o impossível e, quando não consegue realizar seus desejos, inventa algo para superar essa falha. Desde o princípio dos tempos, ele desejou voar como os pássaros que observava cortar os ares. A mitologia grega revela esse desejo no mito de Dédalo, que fabricou dois pares de asas com penas, que se prendiam aos ombros com cera, para escapar com o filho Ícaro do Labirinto de Cnossos, onde estavam presos. Dédalo alertou o filho para evitar se aproximar do sol e do mar porque o calor derreteria a cera e a umidade tornaria as penas muito pesadas. A experiência única encantou Ícaro que esqueceu as recomendações paternas e aproveitou a beleza e o prazer do momento: subiu às alturas, caiu no mar e morreu afogado. No século XV, Leonardo Da Vinci (1452-1519) se ocupou com a ideia de voar e elaborou o projeto de um veículo com asas acopladas aos braços denominado ornitóptero. Essa ideia, entretanto, só se concretizou neste século, graças a um projeto do Instituto de Estudos Espaciais da Universidade de Toronto para a construção de uma aeronave de propulsão humana, denominada Snowbird, que voou efetivamente em 2010.

            O primeiro homem a voar foi o padre santista Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), inventor da passarola como denominou o aeróstato. Ele apresentou seu invento ao rei D. João V e à corte portuguesa em duas ocasiões – na primeira vez o balão de papel pegou fogo, mas na segunda, subiu vinte palmos, mas antes de chegar ao teto, os criados destruíram o balão com medo de incêndio. O padre Bartolomeu de Gusmão é considerado o Pai da Aerostação.

            No início do século XX, nas Américas e na Europa havia muita gente trabalhando para tornar o sonho realidade – nos Estados Unidos, os irmãos Wright, e no Brasil o jovem mineiro, Alberto Santos Dumont (1873-1932). Santos Dumont projetou e construiu os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina e o fez em Paris, no dia 23 de outubro de 1906. A partir daí tornou-se uma celebridade na Cidade Luz, mas continuou empenhado no desenvolvimento das máquinas voadoras. Enquanto os primeiros carros circulavam por Paris, Santos Dumont deslocava-se pela cidade nos seus dirigíveis.

            A história da aviação é fascinante – 63 anos depois o homem pousava na Lua! O mundo ficou menor e o universo do trabalho se expandiu. No início, os aviadores eram vistos como esportistas (o que aborrecia Santos Dumont), mas logo se expandiu para o setor comercial.

            Atualmente, em todo o mundo há cerca de quarenta mil aeroportos e aeródromos registrados. No ranking internacional, em primeiro lugar encontra-se os Estados Unidos com 16.116, seguido do Brasil, com 5.297; Austrália: 2.257; México, 1.580; e Canadá, 1459*.

Pilotos, mecânicos e engenheiros aeronáuticos foram as primeiras profissões que o transporte aéreo criou, enquanto o serviço dos correios foi o setor mais beneficiado inicialmente, pois até aquela época dependia do transporte marítimo e ferroviário, já que veículos automotores terrestres estavam também começando. Uma profissão muito antiga ganhou um novo status: o meteorologista tornou-se fundamental para apoio à navegação aérea. Os primeiros voos eram feitos por hidroaviões. O aeródromo mais antigo do mundo é o College Park, em Maryland (USA), criado em 1909 pelos irmãos Wright. Os primeiros voos eram em hidroaviões ou em pistas terrestres improvisadas e, quando o espaço na fuselagem aumentou, o piloto passou a contar com um navegador para determinar e orientar a rota.

Foi um começo forjado por heróis. Os pilotos eram desbravadores dos céus que singravam em reides aéreos, estabelecendo rotas e recordes de milhagens. Entre esses pioneiros contam-se os franceses Eugène Adrien Roland Georges Garros (1888–1918) e Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), os brasileiros Eduardo Pacheco Chaves (1887-1975), João Ribeiro de Barros (1900-1947) e João Negrão (1901-1978) – a dupla do Jaú; o norte-americano Charles Lindebergh (1902-1974) e os portugueses Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924).

Embora não tenha sido aviador, Charles Astor (1900-1972) teve um papel importante na aeronáutica: ele foi o introdutor do paraquedismo no Brasil e idealizador da criação do Serviço de Busca e Salvamento da Força Aérea Brasileira – PARA-SAR – FAB. E aqui, minha homenagem ao primo tenente-coronel José Antônio Silveira, que foi paraquedista, e nos deixou há alguns anos, quando já estava na reserva.

            E vale lembrar também o piloto americano Chuck Yeager, que quebrou a barreira do som (Mach 1,06) em 14 de outubro de 1947, a bordo do Bell X-1.

* Os números podem varias dependendo da fonte.



Edu Chaves, João Negrão e João Ribeiro de Barros. 


                                 
                                                                                                                   Chuck Yeager (1923-2020)


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

"MINHA" SIBIPIRUNA

Quando abro a janela de manhã, ela parece um ramalhete de flores no meio das outras árvores da praça. É o abrigo de dezenas de passarinhos, especialmente, bem-te-vis e rolinhas-caldo-de-feijão. Daqui a alguns dias, o chão terá um lindo tapete amarelo. 



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DIA DO PROFESSOR

Neste dia, a homenagem do poeta paulistano Paulo Bomfim (1926-2019) aos mestres:

 DIA DO PROFESSOR

"Dia de professar amor,
Dia de semeadura,
Dia da colheita,
Dia da saudade,
Dia da esperança,
Dia do Professor,
Dia da gratidão!
Na lonjura dos rincões,
Nas periferias da vida,
Nos subúrbios do sonho,
Na caminhada dos rios,
Nas caatingas, no cerrado,
Nos pampas, nos igapós,
Nas veredas do sertão,
Nos vilarejos, nas praias,
Na inquietação das cidades,
Somos infância de novo
Trazendo a flor de um sorriso,
A gratidão que floresce
No Dia do Professor."

No dia dos professores, talvez muitas pessoas lembrem-se da Cartilha Sodré. E quem era esse Sodré? Na verdade, era Benedicta Stahl Sodré (1900-1972). Paulista, filha de imigrantes alemães, estudou no Colégio Metodista Piracicabano e formou-se no magistério pelo Instituto de Educação Sud Minucci, em Piracicaba. Viveu em São Carlos, onde lecionou por 32 anos. Ela desenvolveu um método inovador de alfabetização rápida, que resultou na criação da Cartilha Sodré, lançada entre 1939 e 1940, e foi um sucesso editorial nacional. Benedita Stahl Sodré recebeu em 1964 o Prêmio Jaboti da Câmara Brasileira do Livro e o título de Cidadã de São Carlos em 1968.





 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

DIA DA CRIANÇA

 

Eu tive uma infância feliz! Guardo ótimas lembranças. Única criança na casa situada em rua em transição do residencial para o comercial, onde havia apenas mais uma menina, filha do seu Luciano. Às vezes ela ia em casa brincar, mas eu nunca fui a casa em que ela morava. Minha primeira amiga foi Semíramis – ela e a irmã mais velha estudavam piano com minha tia Odete, ótima pianista e excelente professora.

Sempre gostei de brincar sozinha – espaço não faltava. Pensando bem eu fui uma criança estranha: sempre que no rádio tocava “Vingança” ia para a sala correndo para ouvir aquela cantora desejar que alguém rolasse como “as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu para poder descansar”. 1951. E eu só tinha sete anos!

A tia mais jovem, que era funcionária da Receita Federal, comprava revistas do Pato Donald, que minha avó desaprovava, compensando com livros de contos de fadas com capas coloridas, miolo com poucas ilustrações e todas em preto e branco. Enquanto não aprendi a ler, minha tia lia as histórias para mim. As duas tias se revezavam a contar o enredo dos filmes a que assistíamos no Cine Carlos Gomes ou Bandeirantes. Até que um dia num bonde, acompanhando minha avó em algum passeio, olhei um anúncio e descobri que podia ler algo fora da cartilha! Uma revelação!

Tia Odete me apresentou Monteiro Lobato com “Os Doze Trabalhos de Hércules” e minha avó semeou livros em minha vida – no princípio na Páscoa, no meu aniversário, no Natal; mas depois sempre que ela podia eles iam chegando às minhas mãos e me encantando a cada página. Depois da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo, vieram os Três Mosqueteiros – dos quatro amigos, preferia Atos...

Havia também o rádio. Vivi o final da era do rádio que Woody Allen transformou num filme maravilhoso...

Quando a infância terminou? Não sei. O importante é viver cada fase da vida e no final dizer, como os franceses, “c´est  la vie”. 

Na foto acima, com minha avó Maria Luísa, c. 1947. 



sábado, 10 de outubro de 2026

AMANHECER NA ACLIMAÇÃO

 

É muito bom abrir as janelas pela manhã e ver sempre um espetáculo diferente se desenhando no horizonte... Um dia resolvi registrar alguns amanheceres e acabei com uma linda coleção. 

Por alguns anos esse espetáculo era em frente ao prédio onde moro, mas um dia derrubaram todas as casas sólidas, bonitas e com jardins e rapidamente construíram quatro enormes edifícios. Assim, só sobrou esta nesga de céu...

Há muito mais, porém, gosto muito destes.