domingo, 24 de maio de 2026

O CANGURU DE PRAGA

 

Foi uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando, em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República Checa.  O fato ocorreu em Praga, onde fazia um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei. Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal viu a passagem e saiu aos saltos.  O cão – um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto, quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da cerca.

Outro mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.

Enfim, nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto num parque! Até onde sei são bem perigosos.

Hoje resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os detentos.  Assim, no meu currículo de viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de 2008)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

NO SUBSOLO A ESCADARIA DE MÁRMORE

 


A escadaria pública mais bonita e luxuosa encontra-se no subsolo da Praça do Patriarca. As escadarias de mármore da Galeria Prestes Maia, que liga a Praça do Patriarca ao Vale do Anhangabaú (ou vice-versa), são sem dúvida as mais bonitas da cidade. Não conhece a Galeria? Uma pena!  Ela tem três pisos e merece uma visita especial. Inaugurada em 1940 na gestão do prefeito Prestes Maia e teve várias funções no decorrer dos anos especialmente artísticas e culturais. A entrada pela praça causa maior impacto. À medida que se vai descendo percebe-se toda a beleza da galeria – ela é revestida de mármore. À frente e no alto fica o relógio que perdeu a função original – marcar a hora – e que agora serve apenas como enfeite. Então, sem pressa, observe nas laterais as esculturas de Victor Brecheret (“As Graças”), a réplica de Moisés de Michelangelo feita no Liceu de Artes e Ofícios, e o busto do pintor Almeida Júnior próximo à porta do salão que leva seu nome. Não deixe de olhar detalhes como o piso, as luminárias... O estilo é art déco.

Ao sair a ideia é caminhar até a outra ponta do Vale do Anhangabaú está o Viaduto Santa Ifigênia, que liga os Largos de São Bento e Santa Cecília. O Santa Ifigênia foi o segundo viaduto da cidade, inteiramente feito na Bélgica, a montagem foi realizada pela empresa Lidgerwood Manufacturing Company Limited, sob a direção do engenheiro Giuseppe Chiappori, sócio de Giulio Micheli e Mário Tibiriçá. Foi inaugurado em 1913. Como ele não tem escadaria para o vale, foi feita uma de ferro anexada ao lado da Rua Antônio de Godoi. Estilo art nouveau.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FESTIVAL DO CAFÉ

 

Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos.  Bom dia, Café!

Praça do Patriarca, ontem no final da tarde.



terça-feira, 19 de maio de 2026

ESCADAS DO PACAEMBU

 


Escadas também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim, quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6 Laranja do metrô.

As obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam, outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.

No centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque – verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.

Fico em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.

E dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.

Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.

Quando o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer o caminho para a Avenida Paulista.

Continua...

Subi por esta escadaria.


Da próxima vez será por esta.

Um lê e o outro dorme. 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

GALGANDO ESCADAS

 PARTE 2

Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.

Dos fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX) entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme. 

O desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m, mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de escadas.

Na Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.

Depois de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.

Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.

Continua.😎

Beco do Pinto.


Beco do Pinto.



Esplanada da Praça Ramos de Azevedo.

Escadas ao lado do Viaduto. À direita, Shopping Light.

Ladeira da Memória.


domingo, 17 de maio de 2026

ESCADARIAS PAULISTANAS

 Parte I

 “Subir escadas faz bem para saúde”, dizem fisioterapeutas e minha professora de ginástica. Do lado do prédio em que moro há uma escadaria com cem degraus sem corrimão. No auge da pandemia, idosos da vizinhança faziam exercícios galgando os degraus munidos de máscara e garrafinha d’água. Felizmente, há uma segunda opção mais adiante em zigue-zague e no meio da ladeira devidamente munida de corrimãos. Ela é o início da Rua Batista Cepelos. Mais adiante, mais uma escadaria – ligando as Ruas do Paraíso e Armando Ferrentini. E, por fim, a mais bonita, embora toda pichada: a da Praça Jorge Cury com um belvedere na Rua Alabastro com vista para o Parque da Aclimação. O conjunto data de 1950 e foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1986.

          Há uma escadaria de acesso à Rua Paes de Andrade na Avenida Turmalina, porém, é fechada.

        Caminhando um pouco mais, chegamos à Rua Nossa Senhora de Lourdes, no Cambuci, onde se encontra a igreja de N. Sra. da Glória com dois lances de escadas que somam quase 90 degraus – desde a Rua Lavapés, cruzando a Praça Hélio Ansaldo e terminando em frente ao santuário. Esta igreja de 1893 faz parte da história paulista: foi bombardeada durante o levante tenentista de 1924 que ocorreu entre 5 e 28 de julho.  Continua.😀

        FOTOS: escadas da Rua Topázio para a Paraíso e da Praça Profª Maria Thereza Martins Chaibub.



Escadaria em ziguezague da Rua Batista Cepelos.


Mirante das escadarias da Aclimação.

domingo, 10 de maio de 2026

CHÁ DA TARDE

Final da tarde de outono chuvosa. Uma tarde que combina com um chá. Preto, naturalmente. Lembro-me de uma reportagem que fiz há muitos anos sobre a Cerimônia do Chá; comprei já neste século "O Livro do Chá", de Kakuzo Okakura, e no início deste ano, visitei uma exposição em que havia a reprodução de um espaço doméstico para o preparo do chá. Anos de teoria, mas recentemente assisti a “Every day a good day” (direção de Tatsushi Omori, 2018) sobre uma jovem aluna da sra. Takeda, que dá aulas sobre a cerimônia do chá. Gostei demais e fui em busca do livro para exprimir o que se pode observar em cada cena do filme.

“O chá é uma obra de arte e necessita de uma mão magistral para revelar suas qualidades mais nobres. [...] Cada preparo das folhas tem sua individualidade, sua afinidade específica com a água e o calor, memórias hereditárias a relembrar, e seu próprio método de contar uma história. [...] Lichihlai, um poeta da dinastia Sung, observou com tristeza que havia três coisas deploráveis no mundo: estragar jovens promissores em decorrência de uma educação incorreta, degradar pinturas de qualidade pela admiração vulgar e desperdiçar totalmente um bom chá por manipulação incompetente.”

O meu é bem simples; à moda ocidental.