Fui
algumas vezes ao bairro da Penha, que é sede do Distrito e da Subprefeitura. O
bairro paulistano é bem antigo. Data dos tempos do bandeirantismo e seu nome
está ligado à devoção dos antigos moradores à Nossa Senhora da Penha de França
cuja história milagrosa teve início naquele país, se espalhou pela Espanha e no
século XVI foi introduzida no Brasil a partir do Rio de Janeiro. A santa sempre
é coloca no alto de um penhasco, conforme a lenda original. Em São Paulo conta
a tradição que um soldado francês devoto da Nossa Senhora da Penha esqueceu a
imagem da santa ao se retirar da cidade e, quando deu pela falta dela, voltou
para reavê-la, mas na noite seguinte, a fato se repetiu outras vezes até que
ele resolveu construir uma igreja para que a santa se mantivesse naquele local.
Essa seria a origem da chamada igreja
velha em 1667, a matriz Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha que ocupa
a Praça do mesmo nome. Foi em torno dela que se desenvolveu o povoado. Em
meados do século passado foi construída a Basílica de Nossa
Senhora da Penha, uma das
maiores e mais bonitas igrejas paulistanas. Como fica no alto do morro, pode
ser vista de longe (por enquanto, dada à atual voracidade da construção civil).
A capela de Nossa Senhora do Rosário, erguida pela
Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, domina a praça no centro
histórico do bairro. O pedido de construção data de 16 de junho de 1802:
originalmente, era de taipa de pilão e em estilo colonial. Apesar das reformas
que sofreu – a torre, por exemplo, passou de um lado para outro –, mantém
algumas características originais. É tombada pelo CONPRESP e CONDEPHAAT.
Quatro cursos d’água banham o bairro: os rios Tietê e
Aricanduva e os córregos Tiquatira (que recebeu um parque linear) e Rincão. Curiosidades
do bairro: a Avenida Celso Garcia termina à margem do rio Aricanduva, enquanto
mais adiante a Estrada Velha da Penha transpõe o rio. Nos tempos coloniais, os
viajantes que partiam de Piratininga podiam usar o rio Tietê (Anhembi, na
época) ou pelo caminho da mata usado pelos índios Ururaí. O rio era mais seguro
e fácil, pois permitia o contorno da colina por meio do Aricanduva e Tiquatira.
O caminho, que começava na Várzea do Carmo, era conhecido pela população por
vários nomes – um deles Caminho da Penha de França. Benfeitorias foram lentas:
em 1864 o padre Joaquim do Amaral Gurgel informava que “está quase concluída a
Estrada da Penha, obra importante por ser uma das estradas desta capital por
onde se estão edificando muitas casas, prometendo em futuro não remoto, ficar
uma rua até a igreja da Penha”. Desse trajeto histórico sobraram cerca de 400
metros que são a Estrada Velha da Penha, uma rua que nem saída tem.
O poeta Paulo Eiró (1836-1871),
que era de Santo Amaro, passou pela Penha por volta de 1855, e escreveu este
poema sobre o vilarejo:
PENHA
Essas formas caprichosas,
Ondulações graciosas
Das montanhas mais extremas,
Veladas de nevoeiros,
Coroadas de Pinheiros,
Seus duráveis diademas;
Esse caminho deserto,
O sol que luz tão incerto,
Que os véus da manhã inflama;
O suavíssimo cheiro
Das flores de pessegueiro
Que nos ares se derrama;
Do campo a calma severa,
A frescura da atmosfera
E o leve soprar do vento,
Abanando a rosa e o louro,
Inundam, torrente de ouro,
Meu cansado pensamento.
Sempre assim, a natureza
Sua pródiga beleza
Revela por toda a parte,
Seja amável, seja austera,
Quando os ornatos esmera,
quando tosca
e sem arte.
Mas o berço, mas a infância
Verte angélica fragrância
Em seu primeiro véu.
Aos olhos do desterrado,
É triste o mais ledo prado,
Sombrio o mais puro céu.
A que devo, então, ó Penha,
Eu meu olhar se detenha,
Com tanta indulgência, em ti?
Que deslembre o paraíso,
Onde o primeiro sorriso
De minha mãe recolhi?
Deverei ao santo templo
Que com júbilo contemplo
A erguer-se na solidão,
Semelhando-se à asa branca
De um anjo que o pranto estanca
Sobre o cálix da oração?
Ou devo a essa voz secreta
Que fala baixo ao poeta,
Quando mais perto de Deus?
Adeus, ó Penha de França,
Levo comigo a esperança
De dizer-te um dia... adeus!
Um
dos pontos importantes do bairro é o Centro Cultural da Penha que reúne o Espaço
Cultural Mário Zan, a Biblioteca José Paulo Paes, o Teatro Martins Pena, o
Estúdio Itamar Assumpção e salas de estudos. Largo do Rosário, 20.
Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha –
Praça Nossa Sra. da Penha, 20.
Basílica de Nossa Senhora da Penha – Rua
Santo Afonso, 199
Capela de Nossa Senhora do Rosário – Largo do Rosário, 4.













