Condução
nos finais de semana é como jogar – depende de “sorte”. Sábado depois de esperar
um ônibus por 40 minutos, embarquei um tanto aborrecida. Sentei no banco
preferido, o solitário de frente para o cobrador que me livra de vizinhos contadores
de casos; entretanto, não tem funcionado muito. Houve um dia em que o cidadão ficou
de pé de frente para mim, mas felizmente minha carranca não o animou a puxar
conversa; no sábado, acabei enredada numa prosa que no final até foi
interessante.
Um
senhor sentou-se, no banquinho do acompanhante de cadeirante já que não havia
nenhum dois – nem o cadeirante nem o acompanhante. Não sei quando a senhora se
acomodou no banco do corredor da outra fileira. O trânsito estava igualzinho à
hora do rush, como se dizia antigamente.
Foi
uma glória conseguirmos chegar à Rua da Glória para acessar a Conselheiro Furtado
e foi ali, na esquina onde paramos mais uma vez, que o senhor suspirou ao ver a
árvore que tomou conta de um canteiro que divide as duas ruas com a São
Joaquim. Suspirou e comentou em voz alta para ninguém em especial que ao chegar
a São Paulo há mais de cinquenta anos a árvore já estava ali. Como crescera e
estava tão bonita! A árvore – uma falsa-seringueira – também era velha
conhecida da senhora do corredor ao lado. Veio para São Paulo há quarenta anos
e também se lembrava bem da árvore.
Assim,
a falsa-seringueira acendeu as lembranças dos dois passageiros. Ele morou
muitos na região que aprecia muito e onde ainda trabalha; morar, ele mora em
São Mateus. A senhora continua no bairro e, lá pelas tantas, interrompe as recordações
do senhor para perguntar se não é ele quem deixa o carro na rua (não lembro)
todo dia. Sim, ele mesmo. Ela já vai dizendo que ele deve ter conhecido o Bigode,
marido dela. Ele não ouviu e continuou apontando lugares que existiram por ali
e que desapareceram com o passar dos anos.
Ele
fala do desaparecimento dos postos de gasolina e, essa foi a minha deixa para
entrar na conversa, pois estávamos passando pela Praça Almeida Júnior: “Ali
havia um enorme posto de gasolina substituído por um prédio de quatro andares que
foi construído aos poucos e onde há um mercado de peixe e um hortifruti”. Ele
suspira um tanto sorumbático com tantas coisas que ele viu em seus 72 anos de
vida. Eu procuro animá-lo: “o senhor tem o que recordar porque viveu e tem uma
história na cidade”.
Quem
mandou abrir a boca? Ele diz que eu também tenho histórias e só não quero
contar. Vira-se para a esposa do Bigode e avalia que ela tem uns cinquenta e
poucos anos. Ela ri e confessa os 81. Ele me encara e digo que pode contar com
mais oitenta da minha parte.
Os
dois descem na Sé, esquecidos da falsa-seringueira, originária da Ásia e usada
em ajardinamentos.















