segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O CINEMA QUE VIROU ESTACIONAMENTO

 

O cinema Paissandu era um luxo. No saguão, o espectador admirava três painéis de 15 m de extensão representando o folclore nacional – Bumba-meu-boi, Candomblé e Fandangos. A sala de espera de 900m² tinha ambiente acolhedor: poltronas confortáveis, luz suave, ar condicionado e música de alta fidelidade. Enquanto esperava, o público podia admirar um grande painel que remetia à “Nau Catarineta”, poema épico português. A sala de exibição tinha capacidade para 2.196 pessoas! A tela media 7m30 por 15m30. Atualmente, a maior sala de cinema de São Paulo tem capacidade para 512 pessoas! A decadência do cinema começou nos anos 1970 e agora é um estacionamento, apesar de ter sido tombado pelo patrimônio histórico do município em 1992. O Cine Paissandu foi inaugurado com uma sessão beneficente na noite de 19 de dezembro de 1957 e a primeira sessão para o público foi no dia 20. O filme exibido foi “Guerra e Paz”, baseado no romance de Leon Tolstói e dirigida por King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer.

 

Largo do Paissandu, 60.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O MIRANTE DA RUA AVANHANDAVA

 

Depois de subir e descer várias escadarias pelo Centro Histórico, Aclimação, Bela Vista e até no Pacaembu, soube da existência de um Belvedere na Rua Avanhandava, que pertence ao Distrito da República. E andei ali por perto vendo as escadarias do Viaduto Nove de Julho! Inconformada fui procurar o belvedere.

Comecei caminhada pela Praça Ramos de Azevedo, segui pela Rua Xavier de Toledo – movimentada como sempre, mas desta vez tinha uma novidade: a loja que resolveu “baixar as calças” para incrementar as vendas. Na Consolação, sigo pela Rua Martins Fontes (“paulista eu sou há 400 anos”) e chego à graciosa Rua Avanhandava, que acolhe o pedestre com uma floricultura e uma fonte. E, se for hora do almoço ou jantar (lanche também serve), difícil é escolher onde entrar. Só a tradicional “Famiglia Mancini” oferece várias opções. Meu interesse, entretanto, é o belvedere, mas logo percebo que é melhor usar “mirante”, pois a palavra belvedere só foi reconhecida pelos mais antigos.

        Enfim, a escadaria que fica bem em frente à saída para a Avenida Nove de Julho. Olho bem, mas sempre surge a dúvida: será que consigo a proeza? Afinal são 120 degraus e obviamente não há mais paisagem para admirar. Fui em frente e subi sem problema e ainda sobrou fôlego para voltar pela Rua Augusta, dar uma espiada no Parque Augusta, retornar pela Consolação, admirar a Igreja da Consolação restaurada, atravessar a Praça Roosevelt, olhar os cartazes da peça em cartaz no Teatro do Jaraguá, e na Avenida São Luís sentar-me no banquinho à espera de condução.😊




A história da Rua Avanhandava começa em 1920, quando a Cia. City iniciou a urbanização daquela área. A prefeitura autorizou a empresa a aproveitar a encosta entre a Rua Augusta e a Avenida Anhangabaú (atual Nove de Julho) em obras de implantação na época. A Avanhandava ficou pronta em 1928 e o nome é uma referencia a uma cachoeira localizada à margem direita do Rio Tietê na região em que hoje situa-se Penápolis. No local havia também um forte, erguido em 1858, que teve papel importante na Guerra do Paraguai. Nem a cachoeira nem o forte existem mais.

 


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

TARDE DE INVERNO

 Agosto, 25. Um dia típico de inverno. Céu nublado. Cai uma garoa fina. O frio agradável apetece uma poltrona, um chá preto ou vinho tinto, bom livro; mantenho, porém, minha rotina. Há menos pessoas pelas ruas e nos ônibus. O motorista está de touca e bem agasalhado. De manhã trabalha com a esposa, que é cobradora e faz meio período. Num ponto próximo do Centro, quando a porta se abre, um homem conta uma pequena história para conseguir carona e ele manda subir pela porta de trás. No próximo, outro carona. Não dá porque já tem um caroneiro. Lá fora, os poucos que enfrentam o tempo compõem um cenário um tanto sombrio com suas roupas escuras. Em meio ao trânsito o homem puxa uma carroça cheia de material reciclável. Duas amigas entram tagarelando, sentam-se no banco dos preferenciais e tagarelam até que um abre um pacotinho para saborear uma bomba. Desço na Rua Boa Vista e sigo em direção à Praça do Patriarca. Meu destino é uma visita às Graças na Galeria Prestes Maia. Elas encontram-se protegidas por um cercadinho. Uma jovem varre os nichos em que elas se encontram. Tudo brilhando. Subo pela escada rolante e fico em dúvida sobre a direção. A Rua Direita está em obras. A temperatura e a garoa afugentaram os camelôs. Sigo pela Rua da Quitanda, sem pressa. Vislumbro um café muito simpático e resolvo entrar. Poucas pessoas e atendimento rápido. Gostei demais do cardápio.

PRATO DO DIA
Felicidade à moda
Porção de carinho
Paz ao ponto
Amor a gosto
Saúde à vontade
Servido com afeto e dedicação.
No caixa, um senhor paga a conta, mas o cartão foi recusado. Ele troca rapidamente por outro. “Que vergonha!” – diz sorrindo meio sem jeito. Acontece – comento para animá-lo.
Entro na loja que procurava e uma vendedora apressada e desinteressada foi dizendo “Meu nome é fulana, se precisar de algo é só me procurar”. E sumiu. Nada me agrada. A essa altura já estou na Sé, onde namoro os doces da Romana, me desvio do assédio do pessoal da Rua do Ouro e das tentações da Livraria da UNESP.
Antes de pegar o ônibus, passei pela estação da Sé para saber mais sobre o museu dos objetos esquecidos e da prótese de perna em exibição na vitrine. O funcionário foi muito simpático. O museu resume-se à vitrine que se renovará periodicamente com objetos estranhos esquecidos no metrô, como a perna mecânica. Esta não foi a primeira. Já houve outros casos e ele lembrou de um rapaz que fora à AACD para reparos da perna mecânica e já retornara usando outra e esquecera a antiga no vagão. Achar dentaduras é muito comum, segundo ele. Ri e explica que para eles isso é rotina, mas não resiste e conta que já deixaram até móveis grandes no vagão. Hora de voltar para casa. (Preguiça de levantar para fazer a foto.)


terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR AÍ E POR ALI

Parece que o Inverno retornou. Hoje, um dia frio e gostoso. Bom para usar notas para escrever sobre curiosidades anotadas nos caminhos.


Nos semáforos há quase sempre pessoas que aproveitam para ganhar um dinheirinho – fazem malabarismo, vendem docinhos (cuja origem é um mistério) a preço de banana, como se dizia antigamente, porque agora a banana já subiu de patamar, panos de prato entre outras coisas. Pedestres como eu, entretanto, têm que se distrair com alguma coisa enquanto aguardam a luz verde. Foi assim que da Praça João Mendes notei os três magrinhos perdidos na paisagem do Centro Histórico de São Paulo. Devem ficar na Liberdade... Verde! Antes de atravessar sempre é recomendável olhar para não ser surpreendido por algum motoqueiro desvairado😊




Estava na estação Sé, quando vi a vitrine ao lado do setor de “Achados e Perdidos”, que passou por uma reforma recentemente. Criaram um museu com os objetos esquecidos por passageiros no percurso de viagens. A vitrine dá uma boa ideia do que esse povo distraído deixa nos vagões e estações. Lá estão um sombrero, uma ampulheta (lembrei-me do rapaz da USP que não sabia ver horas), duas dentaduras, a miniatura de uma antiga bomba de gasolina, um leque e um lindo elefantinho. O último item é uma prótese de perna mecânica!




Outro dia saí da estação Ipiranga de trem num lugar incomum. Parei na tentativa de descobrir que direção tomar. Rua Ilha Sergipe, onde à esquerda há um viaduto, que deve ser o Pacheco Chaves, e concluí de que não era este o caminho. Pequenas casas coloridas, outras inacabadas e um pequeno comércio popular movimentado. Uma favela. Segui o povo e para minha surpresa o caminho é cortado por uma via férrea. A placa não me deixou dúvida, mas fui perguntar se ainda passava trem por lá. Sim, passa. Nada de porteira. O jeito é ficar de ouvido atento. Enfim, cheguei à Avenida Henry Ford.





UM COLÉGIO INESQUECÍVEL

Não resisto e compartilho a crônica sobre o Instituto de Educação Canadá do escritor e jornalista santista Flávio Viegas Amoreira, membro da Academia Santista de Letras, curador da Casa das Culturas de Santos e cronista do jornal A TRIBUNA. Estudei no Canadá, como o chamamos carinhosamente, nos anos sessenta do século passado, e também fui aluna dos professores Itagiba, dona Ada e Maria Helena Caruso entre tantos outros. Hoje o colégio chama-se Escola Estadual Canadá (Rua Mato Grosso, 163, Boqueirão).



Foto de 2024.


sábado, 22 de agosto de 2026

FOLCLORE BRASILEIRO

Hoje é dia do Folclore Nacional. O folclore é o conjunto de atividades que compõem a cultura de um povo, ou seja, engloba música, dança, literatura, culinária, as superstições e as artes em geral. O folclore brasileiro reúne as tradições das três raças formadoras da nossa sociedade – indígenas, brancos e negros. Em termos regionais, o folclore do Norte e Nordeste é muito rico e cultivado com entusiasmo pela população em geral. O Estado e a cidade de São Paulo comemoram no dia 31 de outubro o dia do Saci, um dos personagens do folclore brasileiro. Ainda em São Paulo, o Curupira é considerado o guardião das florestas.

Várias manifestações culturais brasileiras são consideradas Patrimônio da humanidade pela UNESCO, como o Bumba-meu-boi e o Tambor de Crioula (Maranhão) e o Frevo (Pernambuco).

Como hoje é sábado a comemoração pode ter feijoada, caipirinha ou aluá e bolo de fubá. Para quem não conhece, o aluá é uma bebida fermentada de baixo teor alcoólico, feita de milho moído ou casca de abacaxi.

Exposição: Brecheret, no Centro Cultural FIESP.


Mostra da FAAP.

NA FAAP, a exposição “Arte da Nossa Gentereúne obras originais – pintura, escultura, gravura, bordado e cerâmica – de artistas brasileiros de diferentes regiões do país. 

Victor Brecheret: a imagem indígena como símbolo de brasilidade”  Centro Cultural FIESP, Avenida Paulista ,1313, Cerqueira César. Visitação: de terça a domingo das 10 às 20 horas. Até 30 de agosto de 2026. Gratuito.

domingo, 16 de agosto de 2026

RUA ROBERTO SIMONSEN

 

Rua Roberto Simonsen, 97. Por fora, o casarão centenário está em boas condições, mas por dentro encontra-se bastante danificado. Chocante mesmo é a destruição do elevador pantográfico. A boa notícia é que se transformará em um espaço cultural e o cartão de visitas é a exposição “Apocalipse”, que reúne obras do artista plástico paulistano Alex Fleming, que pode ser visitada até o final deste mês.

A Rua Roberto Simonsen, uma das mais antigas de São Paulo, é pequena – começa na Praça da Sé e termina no Pátio do Colégio. Cerca de 150 metros. Repleta de história e coisas pitorescas. Ela teve outros nomes: primeiro foi Rua de Santa Teresa por causa da casa de “Recolhimento de Santa Teresa”, construída em 1685 para abrigar moças. Em 1865, um vereador sugeriu que se alterasse o nome para Rua do Carmo, desta vez a causa era a Igreja do Carmo, pois naquela época a rua tinha ouro traçado. Em 1948, foi escolhida para homenagear o santista Roberto Simonsen (1889-1948), engenheiro, industrial, administrador, professor, historiador e político. Entre outras realizações, ele foi criador do Centro das Indústrias, atual FIESP.

A Casa nº 1 ou Casa da Imagem e Casa da Marquesa de Santos (1797-1867) são separadas pelo Beco do Pinto, uma escadaria de acesso à Rua Bitencourt Rodrigues que nos velhos tempos era o caminho feito pelos escravos para levar o lixo para despejo no rio Tamanduateí, logo adiante.  

Do outro lado morou Dutra Rodrigues (1844-188), presidente da Província (governador do Estado) de São Paulo, que ali recebeu a visita do Imperador D. Pedro II. O prédio foi restaurado e nele atualmente funciona o Restaurante Cama e Café, que também tem um programa cultural movimentado – saraus, exposições e shows. Na esquina com o Pátio do Colégio, outro restaurante: o Pateo Cuccina (nº 122). Nem precisa dizer que a comida italiana é especialidade da casa.

Vários sobrados antigos e em decadência têm o piso inferior usado como estacionamentos. Um deles destina-se a motos e tem um charme especial – um lustre pendente muito bonito. Na entrada de um dos estacionamentos, há um minúsculo café muito simpático – dois bancos dentro.

Este ano o Palacete do Carmo, que ocupa quase uma quadra (com um dos lados na Rua Roberto Simonsen) e se encontra em estado deplorável, foi desocupado para restauro. A construção é dos anos vinte do século passado.

Rua pequena, mas com trânsito intenso, especialmente, ônibus e trólebus que se dirigem ao Pátio do Colégio ou que transitam entre a Avenida Rangel Pestana e o Parque D. Pedro II.

O trabalho do rapaz é atrair carros para o estacionamento – ou seja – ele fica no meio da rua e indica a entrada para os motoristas. Parece que não, mas cansa.

sábado, 15 de agosto de 2026

COISAS DA INFÂNCIA

 

Quando era criança domingo era dia de ir à matinê de cinema no Cine Carlos Gomes ou Bandeirantes – dois filmes, com intervalo para algumas guloseimas que minhas tias compravam. E numa dessas sessões assisti a “O dia em que a Terra parou” (1951) e, apesar das explicações das tias, acabei ficando com um medo enorme de habitantes de outros planetas. Foi então que um dia folheando a revista O CRUZEIRO, que se comprava todas as semanas, me deparei com a reportagem sobre venusianos que tinham descido de um disco voador em Los Angeles e feito contato com um tal George Adamski (não lembrava o nome, tive que procurar).

Para mim, pior do que a notícia, foram os desenhos que Adamski fez dos viajantes do espaço. Apavorada, identifiquei um dos venusianos: havia um quadro com a fotografia dele numa das paredes do meu quarto. Minha avó Maria era uma mulher muito religiosa e nossa casa tinha uma fartura de imagens da corte celestial e de outros agregados como Antoninho da Rocha Marmo e Izildinha. O postal colorido de Izildinha ficava no quarto de minha avó e o meu fora brindado com uma gravura de Antoninho.

Fui correndo pedir à minha avó para retirar aquela foto do quarto porque tinha medo do menino que era de outro planeta. Ela continuou impassível no seu crochê e me informou que o quadro continuaria onde estava: era apenas uma foto e o menino era santo. Nem se preocupou com a questão dos extraterrestres (a expressão não era usada na época). Passei algumas semanas difíceis, imaginando que o viajante do espaço poderia aparecer a qualquer momento. Interessante (como diria Spock) porque esse o foi o único medo que me lembro de ter sentido na infância.

                Havia esquecido do fato até alguns anos atrás quando visitei o Cemitério da Consolação e vi entre as campas mais visitadas o nome de Antoninho da Rocha Marmo (1918-1930), embora os restos mortais tenham sido transladados em 2021 para a capela Nossa Senhora da Saúde, no hospital que tem o nome dele, em Campos de Jordão. A campa do cemitério paulistano foi conservada com seu nome. Coisas da infância.

                Os venusianos de Los Angeles sustentaram Adamski até a sua morte em 1965.