sexta-feira, 17 de abril de 2026

OBRIGADA, LOBATO

 

Aos doze anos eu já havia lido muitos livros infantis, como J. M. Barrie e todas as histórias de Charles Perrault e de Hans Christian Andersen. Um dia minha tia Odete me trouxe um livro que marcou toda a minha vida – “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Pela primeira vez ali estavam crianças como eu, uma avó parecida com a minha e todo espaço para brincar. Eram gente como nós. Foi a primeira vez que ouvi falar na Grécia e em deuses que moravam numa montanha, alimentavam-se de ambrosia e bebiam néctar. Perfeição? Na verdade, tinham mais defeitos do que se poderia esperar de seres tão poderosos. A Mitologia era muito mais interessante do que os contos de fadas. E cresci querendo sempre saber mais sobre esse país e sua história. Com esse livro, aprendi também sobre bibliotecas, pois livro era de uma biblioteca circulante e devia ter muito cuidado com ele – eu sempre cuidei muito bem dos meus e dos que peguei emprestado em bibliotecas.  Li todos os livros infantis de Monteiro Lobato – esperava ansiosamente a Páscoa, o meu aniversário e o Natal, épocas em que eu ganhava presentes.

Qual deles é o meu preferido? Não sei dizer, porque todos são maravilhosos. Qual meu personagem preferido? Ah! Essa é fácil! Emília. Minha família era bastante rigorosa: havia regras em casa, os mais velhos mereciam todo respeito, professores eram pessoas muito especiais porque nos abriam as portas para o mundo – ensinando-nos a ler e escrever.

Emília foi uma revelação porque era mandona, boca dura, como se dizia, e dizia o que pensava. Mas ela era uma boneca, pensava eu. Emília por Emília: “Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo – só que não é de banana.”

"Emília nasceu como nascem as válvulas de segurança. Ou a seção livre dos jornais. Emilia, mais do que um ser humano é uma ideia, um pensamento. É o Lobato criança. Mas é também o Lobato adulto”, escreveu Edgard Cavalheiro. 

       Claro que a Grécia estava no roteiro da minha primeira viagem à Europa, que eu achava que seria a única pois já estava na meia idade. Quando cheguei a Atenas, no meio da noite com um luar maravilhoso, lembrei-me dos livros da infância, indiretamente de Lobato. 

"... Nas histórias infantis do criador de Pedrinho e Emília nao se encontram, como escreve Edgard Cavalheiro,seu melhor biógrafo, 'o misticismo, a superstição, a fantasia mórbida que emboloraram o pensamento brasileiro através dos séculos. Há nelas completa libertação fe velhos preconceitos; alegria de vver, saúde para o espírito, impulso para os voos da razão que desabrocha. Deixando de lado a falsa e inoperante moral do catecismo, Lobato envredoupor outro rum, sem dúvida alguma bem mais consentaneo com as duras realidades da vida. Realidades que os meninos terão, um dia, de enfrentar, queiram ou não queiram'."

Dia 18 de abril, Dia da Literatura Infantil.

Biblioteca Monteiro Lobato.

Biblioteca Monteiro Lobato.




quarta-feira, 15 de abril de 2026

BIBLIOTECA INFANTOJUVENIL "MONTEIRO LOBATO"

Foi Mário de Andrade quem criou a primeira biblioteca pública Infantil da cidade, que atualmente se chama “Monteiro Lobato”. Ela foi inaugurada em 14 de abril de 1936, quando era diretor do Departamento Municipal de Cultura, como parte de um amplo plano de incentivo à cultura.  É a mais antiga biblioteca infantil em funcionamento no Brasil e foi a precursora de outras criadas no município.

E aqui entra um personagem importante nessa história: a bibliotecária Lenyra Camargo Fraccaroli (1906-1991), que dirigiu a Biblioteca Monteiro Lobato desde a criação até 1960, sempre incentivando e supervisionando a construção de outras bibliotecas em diversos bairros de São Paulo, em várias cidades paulistas e de outros Estados. O convite de Mário de Andrade foi baseado na experiência dela na direção da Biblioteca Infantil da escola primaria anexa à Escola Normal Caetano de Campos.  Em 1991, a Prefeitura deu o nome dela para a Biblioteca Infantil da Vila Manchester, na Vila Carrão, fundada em 1956.

            A primeira sede da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato foi em uma casa da Rua Major Sertório, onde além dos livros havia várias atividades para atrair as crianças – como coleções de selos (filatelia) e moedas antigas (numismática), salas de jogos e de revistas, e para sessões de cinema falado. As crianças também elaboravam um jornal “A Voz da Infância”, que foi feito de 1936 até 1948. Monteiro Lobato costumava frequentar a biblioteca e contar histórias para as crianças (Que privilégio!). Nesse espaço criou-se uma sessão em braile, que atualmente funciona no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000).

            Com o crescimento do público, a biblioteca mudou para a chácara do senador Rodolfo Miranda (1882-1954), na Rua General Jardim, onde foi construído o prédio atual, de linhas modernas e ambientes claros, inaugurado em 24 de dezembro de 1950. O projeto é do arquiteto Hentz Gorham, da Divisão de Arquitetura da Prefeitura. Somente em 1955 Monteiro Lobato tornou-se o patrono da biblioteca, pois ele continuava o autor preferido dos frequentadores. A casa onde o senador viveu, bem em frente à biblioteca, é a sede da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ela é também a mantenedora do acervo Monteiro Lobato, com cerca de 4500 itens referente à vida e obra do autor, é basicamente formado por doações da família do escritor.

A biblioteca Monteiro Lobato tem um encanto especial: além do ambiente colorido, o visitante encontra pelo caminho Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde, o Marquês de Rabicó. Apoiada no parapeito do balcão do primeiro andar, a Cuca observa os recém-chegados, que ao subir as escadas, são recepcionados por Dona Benta e Tia Nastácia. Trata-se de bonecos de pano gigantes. No térreo, duas vitrines reúnem uma coleção de mamulengos, bonecos de pano de mais ou menos setenta centímetros, que representam personagens históricos e de histórias infantis. Lá estão também antigas edições dos livros  da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicados pela Editora Brasiliense, a editora exclusiva dos livros de Monteiro Lobato e o que me deixou mais feliz foi ver ali todos os livros de Lobato que ganhei na infância.


Fotos: Prefeito Fábio da Silva Prado, Mário de Andrade e Lenyra Fraccaroli. Acervos culturais e artísticos da Prefeitura de São Paulo. Fotógrafo desconhecido, 1946.


Ah! Esse laço de fita!💓

Endereço da Biblioteca Monteiro Lobato: Rua General Jardim, 485 - Vila Buarque.
Tel.: (11) 3256-4438 e (11) 3256-4122

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O MINARETE DO BELENZINHO

 


Era em abril o aniversário de José Renato Monteiro Lobato: exatamente no dia 18. O garoto nasceu em Taubaté (SP), que deixou com apenas dezessete anos para cursar a Faculdade de Direito em São Paulo, onde ingressou após um susto: a reprovação na prova oral de Português. O sonho do rapaz era estudar Artes Plásticas, mas o avô materno nem quis ouvir falar no caso. Há algum tempo Lobato já mudara o nome para José Bento, tudo por causa da bengala do pai que trazia as iniciais JB no castão de prata, que ele admirava e, num futuro distante, pretendia usar.  

O lado artístico se manteve e, graças a ele, podemos saber como era a república na Rua 21 de Abril, no Belenzinho, onde Lobato se instalou, pois ele fez uma aquarela da residência que ficou conhecida como o Minarete. O chalé em vez de muro tinha uma cerca viva e um portão de ferro; telhado de duas águas em ponta; no térreo residia uma família e no piso superior havia dois salões, onde moravam os estudantes. Godofredo Rangel foi o primeiro morador e quando Ricardo Gonçalves foi visitá-lo se encantou com a vista: “Mas é uma torre, Rangel! Veja que amplidão de vista se descortina! Uma torre - um minarete!...”

Era ali que se reunia o Cenáculo – que tanto pode ser a sala de refeições como o local onde se reúnem pessoas com o mesmo ideal – no caso, todos eram “candidatos a intelectual”. O, mas nem todos os oito residentes no Minarete eram estudantes da São Francisco. Os rapazes e seus pseudônimos eram: Albino Carvalho Neto (NA), Cândido Negreiros (CN), Godofredo Rangel (Rangel), José Antônio Nogueira (Nogueira), Lino Moreira (LM), Martinho Dias (Tito Lívio), Monteiro Lobato (YEWSKY) e Ricardo Gonçalves (Bruno de Cádiz). O primeiro encontro do grupo foi em 1902, na Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo), ainda no quarto de Cândido Negreiros. Lobato lembraria tempos depois que: “Foi a noite dos projetos grandiosos, essa. O Cenáculo ia reformar o mundo, modificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma filosofia inéditas.” Nada como a juventude. Eles trilharam caminhos diferentes, continuaram amigos ao longo dos anos e alguns mantiveram-se escrevendo. Lobato em São Paulo e Rangel em Minas corresponderam-se durante quarenta anos.

Em setembro de 1943, quando Lobato escreveu: “Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vele alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época. Leitura, história e mais coisas”. No mês seguinte, aborda novamente o assunto. “Verdadeiras memórias dum novo gênero – escritas a intervalos e sem nem por sombras a menor ideia de que um dia fossem publicadas. Que pedantismo o meu no começo! Topete incrível! Emília pura.”

Foto: Godofredo Rangel. Wikipedia.                                 O Minarete, aquarela de Monteiro Lobato.

 


domingo, 12 de abril de 2026

MONTEIRO LOBATO E O PINGUIM

 

Monteiro Lobato era apaixonado pelo mar e algumas vezes passou férias na Baixada Santista (SP), onde morava o cunhado, Heitor de Morais. Em cartas ao amigo Godofredo Rangel, reunidas no livro “A Barca de Gleyre”, ele conta seus encontros com pinguins nas praias do litoral sul de São Paulo. Numa delas, ele tenta confundir o motorneiro português, que é mais esperto do que ele imaginava. Interessante o uso que Lobato costumava fazer do advérbio “jamais” na linguagem coloquial das cartas.

Santos, 15 de julho de 1915.

(...) Nas pedras de São Vicente peguei outro pinguim, de asinha machucada. E por causa deste coitadinho tive de brigar no bonde. Eu o trazia no colo. O condutor, um português bem merecedor de que Cunhambebe o houvesse comido, implicou. ‘O regulamento purive conduzir aves nos bondes.’ Eu quis discutir calmamente. ‘Ave tem penas, meu senhor, e onde estão as penas deste vivente?’, aleguei. Ele teimou que era ave. Eu jurei que pinguim era filhote de foca, segundo a opinião de todos os zoólogos ou exploradores ao tipo de Amundsen etc. etc. – uma coisa comprida. Minha ideia era manter a discussão até que me aproximasse da casa do Heitor, mas o raio do mondrongo teve uma ideia luminosa. Fazer parar o bonde. ‘Com a ave o bonde não segue.’ Eu ainda fiz chicana: ‘E se o Rui estivesse aqui: Seguia ou não seguia o bonde?’. ‘Que Rui?’, perguntou o alarve. ‘Rui, a águia de Haia. Ele desconfiou que eu estava a mangaire e fez parar o bonde e foi a um telefone ‘falar à Companhia e pedir pruvidências’. Voltou. Continuou o estúpido bate-boca. O bonde estava se atrasando. Havia mais gente dentro. Tive de ceder. Insultei-o à portuguesa e desci. A casa de Heitor não estava longe. Depois de exibido lá o meu pinguim, soltei-o de novo no mar. Com que gosto se meteu a nado! Quando vinha uma onda, enristava o bico e furava-a. E lá foi nadando e sumiu ao longe. Talvez tenha sido o único pinguim do mundo que jamais andou de bonde.”


A BARCA DE GLEYRE - Monteiro Lobato, São Paulo, Editora Globo. 2010.


sábado, 4 de abril de 2026

VIAGEM À LUA

“ERA EM abril. O mês do dia de anos de Pedrinho e por todos considerado o melhor mês do ano. Por quê? Porque não é frio nem quente e não é mês das águas nem de seca – tudo na conta certa!... E por causa disso inventaram lá no Sítio do Pica-pau Amarelo uma grande novidade: as férias-de-lagarto. (...) Já que o mês de abril é o mais agradável de todos, escolheram-no para o grande ‘repouso anual’ – o mês inteiro sem fazer nada, parados, cochilando como lagarto ao sol! Sem fazer nada é um modo de dizer, pois que eles ficavam fazendo uma coisa agradabilíssima: vivendo! Só isso. Gozando o prazer de viver.”

É assim que gosto de viver nesta fase da vida – lagarteando ao sol.

Assim começa a história da VIAGEM AO CÉU feita pela turma do Sítio do Pica-pau Amarelo escrita por Monteiro Lobato em 1932. E neste abril de 2026, quatro astronautas seguem em direção à Lua, quase 57 anos após a caminhada de Neil Armstrong por lá...


Livro guardado com carinho e ...


Foto da Terra tirada pelo astronauta da NASA e comandante da Artemis II, Reid Wiseman, de uma das janelas da espaçonave Orion. NASA.


NA TRILHA DO COELHO

 


Nada como uma loja com uma decoração criativa para animar a caminhada... 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

FREITAS VALLE

“Pode-se dizer que a trajetória de Freitas Valle como mecenas, líder cultural e homem público (...) não apenas contribuiu para formar elites artísticas, mas teve iniciativas importantes no campo da instrução elementar e média, na formação artesanal, no estímulo a museus e bibliotecas.” ANTONIO CANDIDO*.

José de Freitas Valle nasceu em família rica; era bonito, tinha olhos azuis, cabelos claros e muito inteligente. Os pais de Freitas Valle eram de Ilhabela (SP), mudaram em 1838 para Alegrete, onde ele nasceu em 1870 – o oitavo de uma prole de dez. Para um rapaz rico e bon vivent, Valle nunca deixou de trabalhar. Começou a escrever poesia ainda na adolescência; aos quinze anos foi aprovado nos exames preparatórios para ingresso nos cursos superiores do Império; aos 15 anos mudou sozinho para São Paulo, ingressou na Faculdade de Direito, onde foi contemporâneo de Washington Luís, Carlos de Campos, Paulo Prado, Alfredo Pujol e Alphonsus Guimarães entre outros. Aos dezessete publicou “Rebentos”, seu primeiro livro de poesias – muito mal recebido pela crítica, tornou-se seu calcanhar de Aquiles, pois seus opositores sempre o lembrariam dele; aos dezoito antes de terminar o curso casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, neta da viscondessa de Campinas, uma das maiores fortunas do estado.

            Antes de fazer 24 anos, foi aprovado em concurso para dar aulas de francês e literatura francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou por 43 anos; logo depois foi nomeado subprocurador do Estado, aposentando-se em 1937. No início do século passado, ingressou no Partido Republicano Paulista – PRP, sendo eleito deputado e senador estadual por várias legislaturas, centralizando sua ação em educação e cultura. Desligou-se da política após a revolta paulista de 1932.

Este é um breve currículo de Freitas Valle, homem apaixonado pelas artes – música, literatura, teatro e escultura e que, apesar de ter um gosto conservador, abriu a Villa Kyrial para artistas de todas as tendências. Nesse espaço, circularam o tenor italiano Enrico Caruso, a atriz francesa Sarah Bernhardt, os músicos franceses Darius Milhaud e Marcel Journet, os maestros Marinuzzi (italiano) e Xavier Leroux (francês), e o poeta e escritor francês Blaise Cendrars. Frequentavam o salão Alphonsus de Guimarães, Martins Fontes, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Lasar Segall, Heitor Villa-Lobos; os maestros Sousa Lima, Francisco Mignone e Félix Otero entre muitos outros. Além de Washington Luís e Júlio Prestes, ambos do PRP.  Coelho Neto e Olavo Bilac, quando vinham a São Paulo, hospedavam-se na Villa Kyrial.

Freitas Valle, depois do fiasco do livro de sua adolescência, amadureceu e passou a escrever em francês com o pseudônimo de Jacques d’Avray, mas não vendia seus livros, que recebiam esmerada editoração – ele costumava presentear os amigos com eles. Era um homem de muitas facetas – poeta, químico, gourmet. E para cada uma dessas atividades ele tinha uma persona – Freval era o perfumista e Jean-Jean o chef. Uma contradição – se não vendia os livros, fazia questão de vender seus “parfums exquis

 Foi o fundador da Pinacoteca do Estado, juntamente com Carlos de Campos, Ramos de Azevedo, Sampaio Viana e Adolfo Pinheiro, instalada e 1905 nas dependências do Liceu de Artes e Ofícios, aberta à visitação pública em 1911 com a I Exposição Brasileira de Belas Artes. Foi sócio fundador da Sociedade Cultura Artística, incentivou a criação de bibliotecas públicas. A primeira exposição de Segall, recém chegado ao Brasil, foi patrocinada por ele; indicou Sousa Lima e Francisco Mignone para as bolsas no exterior, assim como Anita Malfatti e Brecheret entre muitos outros.

José de Freitas Valle foi o grande nome da Belle Époque em São Paulo e teve a sorte de ter sua trajetória narrada pela professora e escritora Márcia Camargos (1965), doutora em História Social pela USP. “Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana” (Editora SENAC-São Paulo, 2001) é um livro indispensável para se conhecer um período efervescente na vida cultural paulistana e nele o papel desempenhado por Valle.

*“Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana”.

“Tinha qualquer coisa de príncipe da Renascença”, segundo Menotti Del Picchia.


segunda-feira, 30 de março de 2026

A VILLA KYRIAL

Rua Domingos de Morais, 300. Um prédio comum, sem encantos, construído na década de 1960, vendido na época como moderno e elegante. Seis décadas depois tem a entrada obliterada pela instalação de um supermercado. Nem sempre esse lugar foi tão prosaico.  No início do século XX, a cidade começava a se expandir e a Avenida Paulista era o lugar predileto dos muito ricos para instalar suas “casas de campo”. A Vila Mariana era subúrbio paulistano. Em 1904, o gaúcho José de Freitas Valle (1870-1958), que viera muito jovem para São Paulo para estudar Direito no Largo de São Francisco, preferiu comprar uma chácara no arrabalde – na Rua Domingos de Morais, 10, com cerca de sete mil metros quadrados, com fundos para a Rua Cubatão. Ali, Freitas Valle construiu com a herança do pai a lendária Villa Kyrial que, mais do que uma residência luxuosa, foi um polo cultural muito importante, frequentado por artistas e intelectuais nacionais e internacionais de todas as tendências. 



A casa de estilo eclético tinha uma parte térrea e dois blocos com piso superior de um lado e do outro havia uma pequena torre. A entrada era por uma varanda que dava acesso tanto ao hall quanto à Galeria, que tinha nichos no lugar de janelas com figuras representando a pintura, a dança, a escultura e a música. Era na Galeria que se realizavam os serões literários e a apresentação de artistas. O mobiliário constituía-se de poltronas e sofás de couro, junto à parede, ladeando a poltrona de Freitas Valle, apelidada de trono. As paredes eram cobertas por 113 quadros, quase a metade da coleção de Vale; mas o destaque era o piano Bechstein, marca de altíssima qualidade, que no século XIX tornara-se o preferido das casas reais europeias. Depois do vestíbulo, havia a biblioteca e o fumoir. Na biblioteca, muito bem abastecida de livros e revistas estrangeiras; a seguir chegava-se à sala de música onde havia um gramofone, um piano de armário e uma eolina – instrumento precursor do acordeom e da concertina. Da sala de música passava-se à sala de visitas.

             O espaço familiar estendia-se ao longo de um corredor com oito dormitórios à direita das salas; havia ainda uma de almoço, dois banheiros, duas copas, saleta de costura e cozinha. No final do corredor, uma escada de ferro em caracol levava a mais dois quartos. Em um deles Freitas mantinha o depósito de essências e produtos destinados à fabricação artesanal de perfumes. No subsolo, ficava a famosa adega que tinha a mesma metragem do térreo.

Um caseiro, um tratador de cães, arrumadeira, copeira e cozinheira compunham o quadro de empregados da casa. Freitas Valle nunca teve carro, tinha à disposição um automóvel de aluguel dirigido por um motorista português.

São Paulo crescia na direção Sul e a Vila Mariana foi perdendo seu jeito suburbano, as chácaras foram loteadas, atraindo novos moradores. Aos poucos, a tranquilidade da Villa Kyrial foi se diluindo no burburinho urbano e os frequentadores desaparecendo dos saraus. Freitas Valle morreu em 1958 e quando a Villa Kyrial foi vendida em 1960, a propriedade tinha menos da metade da área original.  

Quem foi esse Freitas Valle? Bom, isso é outra história.

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural.