Até a chuva de maio
Deixou intocado
Este templo dourado
“Haikai”
Tradução: Alberto Marsicano
Rodrigues
Editora Riento – São Paulo,
1988.
Temas culturais.
Até a chuva de maio
Deixou intocado
Este templo dourado
“Haikai”
Tradução: Alberto Marsicano
Rodrigues
Editora Riento – São Paulo,
1988.
Foi
uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando,
em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República
Checa. O fato ocorreu em Praga, onde fazia
um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida
à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo
e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao
local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda
é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei
um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei.
Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma
senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei
a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi
quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi
que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu
descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com
orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e
entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal
viu a passagem e saiu aos saltos. O cão –
um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi
na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem
o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto,
quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da
cerca.
Outro
mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir
procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi
lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.
Enfim,
nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber
que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho
animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um
canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto
num parque! Até onde sei são bem perigosos.
Hoje
resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para
reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque
de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os
detentos. Assim, no meu currículo de
viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de
2008)
A
escadaria pública mais bonita e luxuosa encontra-se no subsolo da Praça do
Patriarca. As escadarias de mármore da Galeria Prestes Maia, que liga a Praça
do Patriarca ao Vale do Anhangabaú (ou vice-versa), são sem dúvida as mais
bonitas da cidade. Não conhece a Galeria? Uma pena! Ela tem três pisos e merece uma visita
especial. Inaugurada em 1940 na gestão do prefeito Prestes Maia e teve várias
funções no decorrer dos anos especialmente artísticas e culturais. A entrada
pela praça causa maior impacto. À medida que se vai descendo percebe-se toda a
beleza da galeria – ela é revestida de mármore. À frente e no alto fica o relógio
que perdeu a função original – marcar a hora – e que agora serve apenas como
enfeite. Então, sem pressa, observe nas laterais as esculturas de Victor
Brecheret (“As Graças”), a réplica de Moisés de Michelangelo feita no Liceu de
Artes e Ofícios, e o busto do pintor Almeida Júnior próximo à porta do salão
que leva seu nome. Não deixe de olhar detalhes como o piso, as luminárias... O
estilo é art déco.
Ao
sair a ideia é caminhar até a outra ponta do Vale do Anhangabaú está o Viaduto
Santa Ifigênia, que liga os Largos de São Bento e Santa Cecília. O Santa
Ifigênia foi o segundo viaduto da cidade, inteiramente feito na Bélgica, a
montagem foi realizada pela empresa Lidgerwood Manufacturing Company Limited, sob a
direção do engenheiro Giuseppe Chiappori, sócio de Giulio Micheli e Mário
Tibiriçá. Foi inaugurado em 1913. Como ele não tem escadaria para o
vale, foi feita uma de ferro anexada ao lado da Rua Antônio de Godoi. Estilo art
nouveau.
Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos. Bom dia, Café!
Escadas
também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show
de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus
passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as
escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim,
quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por
isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som
era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6
Laranja do metrô.
As
obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários
estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam,
outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem
contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos
cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.
No
centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local
ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos
costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais
soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem
conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali
se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam
a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque
– verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.
Fico
em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida
Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da
região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas
acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.
E
dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela
Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e
sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só
arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.
Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.
Quando
o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer
o caminho para a Avenida Paulista.
Continua...
PARTE 2
Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.
Dos
fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do
Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX)
entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga
as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro
proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes
Leme.
O
desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m,
mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de
escadas.
Na
Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência
da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma
escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de
autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.
Depois
de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais
bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do
Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na
Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.
Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.
Continua.😎
Parte I
Há uma escadaria de acesso à Rua Paes de Andrade na Avenida Turmalina, porém, é fechada.
Caminhando
um pouco mais, chegamos à Rua Nossa Senhora de
Lourdes, no Cambuci, onde se encontra a igreja de N. Sra. da Glória com
dois lances de escadas que somam quase 90 degraus – desde a Rua Lavapés, cruzando
a Praça Hélio Ansaldo e terminando em frente ao
santuário. Esta igreja de 1893 faz parte da história paulista: foi bombardeada
durante o levante tenentista de 1924 que ocorreu entre 5 e 28 de julho.
FOTOS: escadas da Rua Topázio para a Paraíso e da Praça Profª Maria Thereza Martins Chaibub.