Por
volta de 1825 a cidade de São Paulo tinha cerca de vinte mil habitantes e já
apresentava problemas sociais como crianças vivendo pelas ruas ou recém-nascidos
abandonados. Esse foi um dos motivos que levaram o Governo Imperial a instalar
na Chácara da Glória uma instituição assistencialista, aproveitando a
infraestrutura existente – um sobrado largo com três módulos centrais (uma sala
central e quartos nas laterais), uma capela e terras próprias. No mesmo ano
começou a funcionar a Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São
Paulo, que encerrou as atividades apenas em 1950 – nesse período, a entidade
recebeu 4.180 crianças.
O
presidente da Província (Estado) Lucas Antônio Monteiro de Barros, visconde de
Congonhas do Campo, se encarregou da organização do Seminário das Educandas da
Glória. É bom lembrar que o educandário
ficava na zona rural de São Paulo, praticamente isolado do Triângulo (Rua
Direita, XV e São Bento), numa época em que as estradas eram precárias tanto
para o trânsito de charretes como de cavaleiros.
O
programa educacional refletia a época: as meninas eram preparadas para o
casamento, ou seja, aprendiam prendas domésticas – costurar, cozinhar e criar
filhos. As meninas aprendiam a ler e escrever, caligrafia, as quatro operações
aritméticas, princípios de moral e religião; arte culinária, bordado e
engomado; mais tarde foram incluídas música e dança. O casamento era permitido
a partir dos 15 anos; o candidato passava por uma avaliação da diretora e do síndico
da instituição – precisava ter bom caráter e um ofício. Para aquelas que não
conseguiam um marido, a opção era trabalhar como empregada doméstica.
Com
o tempo, o casamento deixou de ser a meta e criou-se uma escola normal para que
as moças se preparassem para o magistério; mas a escola não chegou a funcionar
por falta de professores. A solução foi encaminhar as jovens com melhor
desempenho para a Escola Normal (atual Escola Estadual Caetano de Campos).
Em
1844, o Seminário mudou para a Rua Açu, atual Rua Brigadeiro Tobias, na época
ainda distante do Centro Histórico do qual era separada pelo rio Anhangabaú. O
seminário ocupou um sobrado amarelo de dois andares, janelas protegidas por
grades e muros altos. Com problemas de administração, o governo federal fez um
acordo com a ordem religiosa francesa das irmãs de que administrou a
instituição entre 1870 e 1932, com o objetivo de capacitar as moças para o
exercício do magistério.
Com
o tempo, usos e costumes mudam e a tendência é a correção dos erros do passado
e tudo transforma-se em história ou História.
Walter
Pires: “Configuração territorial, urbanização e patrimônio: Colônia da Glória
(1876-1904)”.
Fontes:
Alana Marchioro Drapcynski: “SEMINÁRIO DA GLÓRIA: RAÇA, GÊNERO E EDUCAÇÃO NO
COTIDIANO DE UMA INSTITUIÇÃO ASSISTENCIAL (SÃO PAULO, 1825-1872)”.






