quinta-feira, 2 de abril de 2026

FREITAS VALLE

“Pode-se dizer que a trajetória de Freitas Valle como mecenas, líder cultural e homem público (...) não apenas contribuiu para formar elites artísticas, mas teve iniciativas importantes no campo da instrução elementar e média, na formação artesanal, no estímulo a museus e bibliotecas.” ANTONIO CANDIDO*.

José de Freitas Valle nasceu em família rica; era bonito, tinha olhos azuis, cabelos claros e muito inteligente. Os pais de Freitas Valle eram de Ilhabela (SP), mudaram em 1838 para Alegrete, onde ele nasceu em 1870 – o oitavo de uma prole de dez. Para um rapaz rico e bon vivent, Valle nunca deixou de trabalhar. Começou a escrever poesia ainda na adolescência; aos quinze anos foi aprovado nos exames preparatórios para ingresso nos cursos superiores do Império; aos 15 anos mudou sozinho para São Paulo, ingressou na Faculdade de Direito, onde foi contemporâneo de Washington Luís, Carlos de Campos, Paulo Prado, Alfredo Pujol e Alphonsus Guimarães entre outros. Aos dezessete publicou “Rebentos”, seu primeiro livro de poesias – muito mal recebido pela crítica, tornou-se seu calcanhar de Aquiles, pois seus opositores sempre o lembrariam dele; aos dezoito antes de terminar o curso casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, neta da viscondessa de Campinas, uma das maiores fortunas do estado.

            Antes de fazer 24 anos, foi aprovado em concurso para dar aulas de francês e literatura francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou por 43 anos; logo depois foi nomeado subprocurador do Estado, aposentando-se em 1937. No início do século passado, ingressou no Partido Republicano Paulista – PRP, sendo eleito deputado e senador estadual por várias legislaturas, centralizando sua ação em educação e cultura. Desligou-se da política após a revolta paulista de 1932.

Este é um breve currículo de Freitas Valle, homem apaixonado pelas artes – música, literatura, teatro e escultura e que, apesar de ter um gosto conservador, abriu a Villa Kyrial para artistas de todas as tendências. Nesse espaço, circularam o tenor italiano Enrico Caruso, a atriz francesa Sarah Bernhardt, os músicos franceses Darius Milhaud e Marcel Journet, os maestros Marinuzzi (italiano) e Xavier Leroux (francês), e o poeta e escritor francês Blaise Cendrars. Frequentavam o salão Alphonsus de Guimarães, Martins Fontes, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Lasar Segall, Heitor Villa-Lobos; os maestros Sousa Lima, Francisco Mignone e Félix Otero entre muitos outros. Além de Washington Luís e Júlio Prestes, ambos do PRP.  Coelho Neto e Olavo Bilac, quando vinham a São Paulo, hospedavam-se na Villa Kyrial.

Freitas Valle, depois do fiasco do livro de sua adolescência, amadureceu e passou a escrever em francês com o pseudônimo de Jacques d’Avray, mas não vendia seus livros, que recebiam esmerada editoração – ele costumava presentear os amigos com eles. Era um homem de muitas facetas – poeta, químico, gourmet. E para cada uma dessas atividades ele tinha uma persona – Freval era o perfumista e Jean-Jean o chef. Uma contradição – se não vendia os livros, fazia questão de vender seus “parfums exquis

 Foi o fundador da Pinacoteca do Estado, juntamente com Carlos de Campos, Ramos de Azevedo, Sampaio Viana e Adolfo Pinheiro, instalada e 1905 nas dependências do Liceu de Artes e Ofícios, aberta à visitação pública em 1911 com a I Exposição Brasileira de Belas Artes. Foi sócio fundador da Sociedade Cultura Artística, incentivou a criação de bibliotecas públicas. A primeira exposição de Segall, recém chegado ao Brasil, foi patrocinada por ele; indicou Sousa Lima e Francisco Mignone para as bolsas no exterior, assim como Anita Malfatti e Brecheret entre muitos outros.

José de Freitas Valle foi o grande nome da Belle Époque em São Paulo e teve a sorte de ter sua trajetória narrada pela professora e escritora Márcia Camargos (1965), doutora em História Social pela USP. “Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana” (Editora SENAC-São Paulo, 2001) é um livro indispensável para se conhecer um período efervescente na vida cultural paulistana e nele o papel desempenhado por Valle.

*“Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana”.

“Tinha qualquer coisa de príncipe da Renascença”, segundo Menotti Del Picchia.


segunda-feira, 30 de março de 2026

A VILLA KYRIAL

Rua Domingos de Morais, 300. Um prédio comum, sem encantos, construído na década de 1960, vendido na época como moderno e elegante. Seis décadas depois tem a entrada obliterada pela instalação de um supermercado. Nem sempre esse lugar foi tão prosaico.  No início do século XX, a cidade começava a se expandir e a Avenida Paulista era o lugar predileto dos muito ricos para instalar suas “casas de campo”. A Vila Mariana era subúrbio paulistano. Em 1904, o gaúcho José de Freitas Valle (1870-1958), que viera muito jovem para São Paulo para estudar Direito no Largo de São Francisco, preferiu comprar uma chácara no arrabalde – na Rua Domingos de Morais, 10, com cerca de sete mil metros quadrados, com fundos para a Rua Cubatão. Ali, Freitas Valle construiu com a herança do pai a lendária Villa Kyrial que, mais do que uma residência luxuosa, foi um polo cultural muito importante, frequentado por artistas e intelectuais nacionais e internacionais de todas as tendências. 



A casa de estilo eclético tinha uma parte térrea e dois blocos com piso superior de um lado e do outro havia uma pequena torre. A entrada era por uma varanda que dava acesso tanto ao hall quanto à Galeria, que tinha nichos no lugar de janelas com figuras representando a pintura, a dança, a escultura e a música. Era na Galeria que se realizavam os serões literários e a apresentação de artistas. O mobiliário constituía-se de poltronas e sofás de couro, junto à parede, ladeando a poltrona de Freitas Valle, apelidada de trono. As paredes eram cobertas por 113 quadros, quase a metade da coleção de Vale; mas o destaque era o piano Bechstein, marca de altíssima qualidade, que no século XIX tornara-se o preferido das casas reais europeias. Depois do vestíbulo, havia a biblioteca e o fumoir. Na biblioteca, muito bem abastecida de livros e revistas estrangeiras; a seguir chegava-se à sala de música onde havia um gramofone, um piano de armário e uma eolina – instrumento precursor do acordeom e da concertina. Da sala de música passava-se à sala de visitas.

             O espaço familiar estendia-se ao longo de um corredor com oito dormitórios à direita das salas; havia ainda uma de almoço, dois banheiros, duas copas, saleta de costura e cozinha. No final do corredor, uma escada de ferro em caracol levava a mais dois quartos. Em um deles Freitas mantinha o depósito de essências e produtos destinados à fabricação artesanal de perfumes. No subsolo, ficava a famosa adega que tinha a mesma metragem do térreo.

Um caseiro, um tratador de cães, arrumadeira, copeira e cozinheira compunham o quadro de empregados da casa. Freitas Valle nunca teve carro, tinha à disposição um automóvel de aluguel dirigido por um motorista português.

São Paulo crescia na direção Sul e a Vila Mariana foi perdendo seu jeito suburbano, as chácaras foram loteadas, atraindo novos moradores. Aos poucos, a tranquilidade da Villa Kyrial foi se diluindo no burburinho urbano e os frequentadores desaparecendo dos saraus. Freitas Valle morreu em 1958 e quando a Villa Kyrial foi vendida em 1960, a propriedade tinha menos da metade da área original.  

Quem foi esse Freitas Valle? Bom, isso é outra história.

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural.


quarta-feira, 18 de março de 2026

COBRA NO CAMINHO

 

Tinha sido um daqueles dias complicados. Final da tarde, passa um pouco das seis horas, ameaça de chuva. No ponto, apenas uma moça preocupada com a demora dos ônibus. Consulta o celular a todo instante. Sabe os horários dos ônibus que já deveriam ter chegado. Está atrasada e conta que tem três gatos que devem estar aflitos com a ausência dela, pois já devem estar com fome. Mesmo sem que eu pergunte, acaba me contando que se separou do marido, mas manteve os bichanos. Conta as gracinhas, que são lindos etc. e tal.  Ela é simpática, fala com desenvoltura e vez por outra vai até o meio fio espiar se vem algum ônibus. Não tenho muito a contribuir com a conversa e ela continua até que se entusiasma e fala do projeto de ampliar seu mundo pet: entrou com pedido no IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente para adotar uma serpente Píton, gênero nativo da Ásia e África que, embora não seja venenosa, é uma das maiores cobras conhecidas. Vai colocá-la num cubículo envidraçado que vai mandar fazer na casa do Litoral. Suspirei aliviada por saber que o bicho não será meu vizinho na Aclimação. Salva pelo ônibus que apareceu. Ah! Ela parecia tão normal...




domingo, 15 de março de 2026

PADARIA E PADARIAS

 

“Levava eu um jarrinho

P’ra ir buscar vinho

Levava um tostão

P’ra comprar pão;

E levava uma fita

Para ir bonita.

(...)”*

Nasci em meados do século passado em um mundo bem diferente. Na rua em que morávamos havia uma padaria enorme, a Cirilo, que vendia apenas pão, biscoitos de polvilho e leite. No balcão, a freguesia escolhia o pão fresquinho e o balconista embrulhava numa folha de papel, fazia duas orelhinhas no embrulho que fechava dando uma cambalhota no pacote. Agora vem em saquinhos fechados com a etiqueta do peso e valor a ser pago, mas em alguns lugares, o balconista ainda faz as orelhinhas nas pontas do pacote.

Em nossa casa, o pão era entregue em casa todas as manhãs... As padarias mudaram aos poucos, incluindo o balcão do cafezinho com a média (pão francês em Santos) com manteiga, sanduíches... Na primeira vez que fui à Europa, senti falta das padarias que por lá continuavam vendendo apenas pão. Hoje, como bem lembra o texto da mostra, tornaram-se centros de convivência – as pessoas (especialmente aposentados) se encontram no final da tarde para o café, o bate-papo, assistir a jogos, fazer comemorações e até para ler, pois encontro sempre uma senhora empunhando livros em meio ao burburinho.

            Lembrei-me de tudo isso quando vi a exposição sobre padarias na estação Paraíso do metrô. Pequena, porém, bem ilustrativa do salto do setor na economia. De acordo com dados de 2024, a panificação no Brasil rendeu USD$ 5,12 bilhões! Nosso país é o maior mercado de padarias do mundo com cerca de setenta mil estabelecimentos distribuídos pelo país. Em média o consumo anual é de 29,3 kg de pão por pessoa!

            Em São Paulo, a padaria mais antiga de São Paulo é a Santa Tereza em funcionamento desde 1872 – Praça João Mendes, 150. Ainda em São Paulo, frequentei durante alguns anos a Padaria Dengosa, na esquina de casa, que incluía refeições no cardápio; mas foi vendida e todos debandaram porque os serviços já não eram os mesmos. Atualmente, costumo ir ao Recanto Doce, que é uma das melhores padarias da Aclimação, tem uma equipe muito simpática e também é perto de casa.


*Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

POMAR URBANO








Abacate, amora, figo, goiaba, jabuticaba, jaca, mamão, manga, nêspera, pitanga e romã são algumas frutas que podem ser encontradas pelos caminhos paulistanos. Só aqui na Aclimação, na Praça Manuk Koumerian, temos jaqueira, mangueira, pitangueira e amora! Um pouco mais adiante há uma linda jabuticabeira (Paula Ney) e subindo a Rua Nicolau Sousa Queirós existem abacateiros e mais adiante, uma goiabeira. E cacau, um fruto muito especial.

    Yes, nós temos banana, mas não para dar e vender. Basta pegar! Recentemente, alguém resolveu plantar uma bananeira na Praça Maria Thereza Martins Chaibub, que fica na Rua Topázio bem em frente à Rua Batista Cepelos.

                                                                                                                                                                                                                                                                             Jabuticabeira

.     
  Amoreira 



A nespereira da Rua Piauí e uma das jaqueiras da Praça Clóvis Bevilaácqua.

Mangueira da Praça M. Koumerian.


A pequena goiabeira na esquina com a R. Vergueiro.


Seguro morreu de velho...


Cacaueiro no Parque das Bicicletas, Vila Clementino.




A centenária figueira da Alameda Glete...



E seus frutos.




Bananeiras na pracinha da Aclimação.



terça-feira, 10 de março de 2026

BOBAGEM DO DIA

 

 Hoje o planeta Urano está cheio de dedos: comemora a descoberta de nove dos seus anéis em 1977, mas alguns anos depois revelaram-se outros – ao todo são vinte de acordo com o professor João Steiner (IAG/USP). Os primeiros anéis foram descobertos por James L. Elliot, Edwatd W. Dunham e Douglas Mink. Na verdade, desde a Antiguidade o corpo celeste era observado, mas erroneamente identificado como uma estrela até que, em 13 de março de 1781, o astrônomo alemão William Herschel (1738-1822) descobriu o erro: tratava-se de um planeta e não de uma estrela. Como Herschel, que se radicou na Inglaterra, era músico e vai ver “ouvia estrelas”, como diria Olavo Bilac, quando fez a descoberta.

Foto: Wikipedia.

SAPATOS ESPECIAIS

Revi “Um corpo que cai” do Alfred Hitchcock. Um bom filme, mas há uma cena dramática que me fez rir novamente. A personagem de Kim Novak tenta o suicídio jogando-se no mar e James Stewart a salva. entretanto, ela acabou de dar um mergulho e continua com o elegante par de sapatos. Fantástico!😀



sábado, 7 de março de 2026

MONUMENTOS ITINERANTES

 


Nas andanças pelo Tatuapé, vi de longe um monumento em frente às bibliotecas municipais Cassiano Ricardo e Hans Christian Andersen e, achando que tinha algo a ver com música ou contos de fadas, fui até lá. Como roubaram a placa de identificação, não entendi o que significavam as figuras e ninguém por lá soube explicar. O jeito foi consultar os arquivos da prefeitura. A escultura se chama “Pátria e Família” e é uma das partes do monumento encomendado pelos estudantes de Direito para homenagear Olavo Bilac, e mais tarde desmembrado pela prefeitura e espalhado pela cidade. A escultura está no Tatuapé desde 2000. Eis uma história que vale a pena ser relembrada.

Olavo Bilac (I865-1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista, mas se destacou na poesia, sendo até eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” pela revista FON-FON em 1907. Carioca, frequentou e não concluiu o curso de Medicina no Rio nem o de Direito no Largo de São Francisco. O fato de não ter se formado não diminuiu o apreço dos estudantes da faculdade paulista por Bilac e, quando ele morreu em 1918, resolveram homenageá-lo com um monumento. Arrecadaram dinheiro e encomendaram a obra ao escultor sueco William Zadig (1884-1952) que na época lecionava no Liceu de Artes e Ofícios.

Zadig usou temas de poemas de Bilac para compor sua obra, instalada pela prefeitura na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias. A inauguração aconteceu durante as comemorações do centenário da Independência em 1922. Lá estavam figuras do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).  

O monumento virou uma polêmica: uns diziam que ele atrapalhava o trânsito, outros que era feio demais e havia os puritanos que achavam indecente o “Idílio ou Beijo Eterno”. A prefeitura, entretanto, só retirou o monumento em 1932 por causa de obras viárias e o dividiu em grupos que espalhou por diversos bairros, mas manteve o casal apaixonado no depósito de onde só foi resgatado muitos anos depois pelo prefeito Jânio Quadros que colocou a obra no Cambuci. Novos protestos, porém, desta vez os estudantes da Faculdade de Direito, resgataram o casal que levaram para o Largo de São Francisco para felicidade de todos.  

Quanto à “Pátria e Família”, antes de adornar a Praça José Moreno, passou pelo cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf, com a Avenida Celso Garcia e pela Praça Kennedy na Mooca.