domingo, 15 de março de 2026

PADARIA E PADARIAS

 

“Levava eu um jarrinho

P’ra ir buscar vinho

Levava um tostão

P’ra comprar pão;

E levava uma fita

Para ir bonita.

(...)”*

Nasci em meados do século passado em um mundo bem diferente. Na rua em que morávamos havia uma padaria enorme, a Cirilo, que vendia apenas pão, biscoitos de polvilho e leite. No balcão, a freguesia escolhia o pão fresquinho e o balconista embrulhava numa folha de papel, fazia duas orelhinhas no embrulho que fechava dando uma cambalhota no pacote. Agora vem em saquinhos fechados com a etiqueta do peso e valor a ser pago, mas em alguns lugares, o balconista ainda faz as orelhinhas nas pontas do pacote.

Em nossa casa, o pão era entregue em casa todas as manhãs... As padarias mudaram aos poucos, incluindo o balcão do cafezinho com a média (pão francês em Santos) com manteiga, sanduíches... Na primeira vez que fui à Europa, senti falta das padarias que por lá continuavam vendendo apenas pão. Hoje, como bem lembra o texto da mostra, tornaram-se centros de convivência – as pessoas (especialmente aposentados) se encontram no final da tarde para o café, o bate-papo, assistir a jogos, fazer comemorações e até para ler, pois encontro sempre uma senhora empunhando livros em meio ao burburinho.

            Lembrei-me de tudo isso quando vi a exposição sobre padarias na estação Paraíso do metrô. Pequena, porém, bem ilustrativa do salto do setor na economia. De acordo com dados de 2024, a panificação no Brasil rendeu USD$ 5,12 bilhões! Nosso país é o maior mercado de padarias do mundo com cerca de setenta mil estabelecimentos distribuídos pelo país. Em média o consumo anual é de 29,3 kg de pão por pessoa!

            Em São Paulo, a padaria mais antiga de São Paulo é a Santa Tereza em funcionamento desde 1872 – Praça João Mendes, 150. Ainda em São Paulo, frequentei durante alguns anos a Padaria Dengosa, na esquina de casa, que incluía refeições no cardápio; mas foi vendida e todos debandaram porque os serviços já não eram os mesmos. Atualmente, costumo ir ao Recanto Doce, que é uma das melhores padarias da Aclimação, tem uma equipe muito simpática e também é perto de casa.

*Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

POMAR URBANO








Abacate, amora, figo, goiaba, jabuticaba, jaca, mamão, manga, nêspera, pitanga e romã são algumas frutas que podem ser encontradas pelos caminhos paulistanos. Só aqui na Aclimação, na Praça Manuk Koumerian, temos jaqueira, mangueira, pitangueira e amora! Um pouco mais adiante há uma linda jabuticabeira (Paula Ney) e subindo a Rua Nicolau Sousa Queirós existem abacateiros e mais adiante, uma goiabeira. E cacau, um fruto muito especial.

    Yes, nós temos banana, mas não para dar e vender. Basta pegar! Recentemente, alguém resolveu plantar uma bananeira na Praça Maria Thereza Martins Chaibub, que fica na Rua Topázio bem em frente à Rua Batista Cepelos.

                                                                                                                                                                                                                                                                             Jabuticabeira

.     
  Amoreira 



A nespereira da Rua Piauí e uma das jaqueiras da Praça Clóvis Bevilaácqua.

Mangueira da Praça M. Koumerian.


A pequena goiabeira na esquina com a R. Vergueiro.


Seguro morreu de velho...


Cacaueiro no Parque das Bicicletas, Vila Clementino.




A centenária figueira da Alameda Glete...



E seus frutos.




Bananeiras na pracinha da Aclimação.



terça-feira, 10 de março de 2026

BOBAGEM DO DIA

 

 Hoje o planeta Urano está cheio de dedos: comemora a descoberta de nove dos seus anéis em 1977, mas alguns anos depois revelaram-se outros – ao todo são vinte de acordo com o professor João Steiner (IAG/USP). Os primeiros anéis foram descobertos por James L. Elliot, Edwatd W. Dunham e Douglas Mink. Na verdade, desde a Antiguidade o corpo celeste era observado, mas erroneamente identificado como uma estrela até que, em 13 de março de 1781, o astrônomo alemão William Herschel (1738-1822) descobriu o erro: tratava-se de um planeta e não de uma estrela. Como Herschel, que se radicou na Inglaterra, era músico e vai ver “ouvia estrelas”, como diria Olavo Bilac, quando fez a descoberta.

Foto: Wikipedia.

SAPATOS ESPECIAIS

Revi “Um corpo que cai” do Alfred Hitchcock. Um bom filme, mas há uma cena dramática que me fez rir novamente. A personagem de Kim Novak tenta o suicídio jogando-se no mar e James Stewart a salva. entretanto, ela acabou de dar um mergulho e continua com o elegante par de sapatos. Fantástico!😀



sábado, 7 de março de 2026

MONUMENTOS ITINERANTES

 


Nas andanças pelo Tatuapé, vi de longe um monumento em frente às bibliotecas municipais Cassiano Ricardo e Hans Christian Andersen e, achando que tinha algo a ver com música ou contos de fadas, fui até lá. Como roubaram a placa de identificação, não entendi o que significavam as figuras e ninguém por lá soube explicar. O jeito foi consultar os arquivos da prefeitura. A escultura se chama “Pátria e Família” e é uma das partes do monumento encomendado pelos estudantes de Direito para homenagear Olavo Bilac, e mais tarde desmembrado pela prefeitura e espalhado pela cidade. A escultura está no Tatuapé desde 2000. Eis uma história que vale a pena ser relembrada.

Olavo Bilac (I865-1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista, mas se destacou na poesia, sendo até eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” pela revista FON-FON em 1907. Carioca, frequentou e não concluiu o curso de Medicina no Rio nem o de Direito no Largo de São Francisco. O fato de não ter se formado não diminuiu o apreço dos estudantes da faculdade paulista por Bilac e, quando ele morreu em 1918, resolveram homenageá-lo com um monumento. Arrecadaram dinheiro e encomendaram a obra ao escultor sueco William Zadig (1884-1952) que na época lecionava no Liceu de Artes e Ofícios.

Zadig usou temas de poemas de Bilac para compor sua obra, instalada pela prefeitura na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias. A inauguração aconteceu durante as comemorações do centenário da Independência em 1922. Lá estavam figuras do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).  

O monumento virou uma polêmica: uns diziam que ele atrapalhava o trânsito, outros que era feio demais e havia os puritanos que achavam indecente o “Idílio ou Beijo Eterno”. A prefeitura, entretanto, só retirou o monumento em 1932 por causa de obras viárias e o dividiu em grupos que espalhou por diversos bairros, mas manteve o casal apaixonado no depósito de onde só foi resgatado muitos anos depois pelo prefeito Jânio Quadros que colocou a obra no Cambuci. Novos protestos, porém, desta vez os estudantes da Faculdade de Direito, resgataram o casal que levaram para o Largo de São Francisco para felicidade de todos.  

Quanto à “Pátria e Família”, antes de adornar a Praça José Moreno, passou pelo cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf, com a Avenida Celso Garcia e pela Praça Kennedy na Mooca.

quarta-feira, 4 de março de 2026

PINGO-DE-OURO

 

Foto: véspera de Natal de 2025.

Ela está numa pracinha atrás do prédio em que moro. Reparei nela na véspera de Natal, quando a fotografei, mas hoje pesquisei no Google e soube que é conhecida como pingo-de-ouro e que os frutos são tóxicos. O uso é ornamental. Lembrei-me da moça coreana que, naquele dia, colheu vários frutos enquanto eu estava fotografando os cachos dourados. Como falava mal português, acho que ela já havia provado dos frutos e me pareceu que elogiava o sabor, pois me mostrava à medida que ia comendo. Eu desconhecia a toxidade do fruto, só me preocupei com a higiene – comer sem lavá-los. Só hoje pesquisei para identificar a árvore e soube da toxidade. Espero que ela tenha sobrevivido.

    Em Portugal (depois na Grécia) vi laranjeiras carregadas de frutas maduras. Lindas! “Por que as pessoas não comem?” – perguntei a uma senhora, que me explicou serem muito azedas. Não prestavam para consumo, só como ornamentação.

Foto: 3 de março de 2026.



segunda-feira, 2 de março de 2026

A FALSA SERINGUEIRA

 


Condução nos finais de semana é como jogo – depende de “sorte”. Sábado depois de esperar um ônibus por 40 minutos, embarquei um tanto aborrecida. Sentei no banco preferido, o solitário de frente para o cobrador, e que me livra de vizinhos contadores de casos; entretanto, não tem funcionado muito. Houve um dia em que o cidadão ficou de pé de frente para mim, mas felizmente minha carranca não o animou a puxar conversa; no sábado, acabei enredada numa prosa que no final até foi interessante.

Um senhor sentou-se, no banquinho do acompanhante de cadeirante já que não havia nenhum dois – nem o cadeirante nem o acompanhante. Não sei quando a senhora se acomodou no banco do corredor da outra fileira. O trânsito estava igualzinho à hora do rush, como se dizia antigamente.

Foi uma glória conseguirmos chegar à Rua da Glória para acessar a Conselheiro Furtado e foi ali, na esquina onde paramos mais uma vez, que o senhor suspirou ao ver a árvore que tomou conta de um canteiro que divide as duas ruas com a São Joaquim. Suspirou e comentou em voz alta para ninguém em especial que ao chegar a São Paulo há mais de cinquenta anos a árvore já estava ali. Como crescera e estava tão bonita! A árvore – uma falsa-seringueira – também era velha conhecida da senhora do corredor ao lado. Veio para São Paulo há quarenta anos e também se lembrava bem da árvore.

Assim, a falsa-seringueira acendeu as lembranças dos dois passageiros. Ele morou muitos anos na região que aprecia muito e onde ainda trabalha; morar, ele mora em São Mateus. A senhora continua no bairro e, lá pelas tantas, interrompe as recordações do senhor para perguntar se não é ele quem deixa o carro na rua (não lembro) todo dia. Sim, ele mesmo. Ela já vai dizendo que ele deve ter conhecido o Bigode, marido dela. Ele não ouviu e continuou apontando lugares que existiram por ali e que desapareceram com o passar dos anos.

Ele fala do desaparecimento dos postos de gasolina e, essa foi a minha deixa para entrar na conversa, pois estávamos passando pela Praça Almeida Júnior: “Ali havia um enorme posto de gasolina substituído por um prédio de quatro andares que foi construído aos poucos e onde há um mercado de peixe e um hortifruti”. Ele suspira um tanto sorumbático com tantas coisas que ele viu em seus 72 anos de vida. Eu procuro animá-lo: “o senhor tem o que recordar porque viveu e tem uma história na cidade”.

Quem mandou abrir a boca? Ele diz que eu também tenho histórias e só não quero contar. Vira-se para a esposa do Bigode e avalia que ela tem uns cinquenta e poucos anos. Ela ri e confessa os 81. Ele me encara e digo que pode contar com mais oitenta da minha parte.

Os dois descem na Sé, esquecidos da falsa-seringueira, originária da Ásia e usada em ajardinamentos. Ontem à tarde fui fotografar a falsa-seringueira.

As pessoas não respeitam a natureza e despejam o lixo no canteiro.


domingo, 1 de março de 2026

CIDADE MARAVILHOSA: 461 ANOS.

 





Chafariz de Mestre Valentim, Praça XV.


Arcos da Lapa.

Arco do Teles, Praça XV.

Jockey Club do Brasil, Gávea.

Palacete Alfandegário da Ilha dos Ratos, hoje Ilha Fiscal.