Era em
abril o aniversário de José Renato Monteiro Lobato: exatamente no dia 18. O
garoto nasceu em Taubaté (SP), que deixou com apenas dezessete anos para cursar
a Faculdade de Direito em São Paulo, onde ingressou após um susto: a reprovação
na prova oral de Português. O sonho do rapaz era estudar Artes Plásticas, mas o
avô materno nem quis ouvir falar no caso. Há algum tempo Lobato já mudara o
nome para José Bento, tudo por causa da bengala do pai que trazia as iniciais
JB no castão de prata, que ele admirava e, num futuro distante, pretendia usar.
O
lado artístico se manteve e, graças a ele, podemos saber como era a república na
Rua 21 de Abril, no Belenzinho, onde Lobato se instalou, pois ele fez uma
aquarela da residência que ficou conhecida como o Minarete. O chalé em vez de
muro tinha uma cerca viva e um portão de ferro; telhado de duas águas em ponta;
no térreo residia uma família e no piso superior havia dois salões, onde
moravam os estudantes. Godofredo Rangel foi o primeiro morador e quando Ricardo
Gonçalves foi visitá-lo se encantou com a vista: “Mas é uma torre, Rangel! Veja
que amplidão de vista se descortina! Uma torre - um minarete!...”
Era
ali que se reunia o Cenáculo – que tanto pode ser a sala de refeições como o
local onde se reúnem pessoas com o mesmo ideal – no caso, todos eram
“candidatos a intelectual”. O, mas nem todos os oito residentes no Minarete
eram estudantes da São Francisco. Os rapazes e seus pseudônimos eram: Albino
Carvalho Neto (NA), Cândido Negreiros (CN), Godofredo Rangel (Rangel), José
Antônio Nogueira (Nogueira), Lino Moreira (LM), Martinho Dias (Tito Lívio),
Monteiro Lobato (YEWSKY) e Ricardo Gonçalves (Bruno de Cádiz). O primeiro
encontro do grupo foi em 1902, na Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo),
ainda no quarto de Cândido Negreiros. Lobato lembraria tempos depois que: “Foi
a noite dos projetos grandiosos, essa. O Cenáculo ia reformar o mundo,
modificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma
filosofia inéditas.” Nada como a juventude. Eles trilharam caminhos diferentes,
continuaram amigos ao longo dos anos e alguns mantiveram-se escrevendo. Lobato
em São Paulo e Rangel em Minas corresponderam-se durante quarenta anos.
Em
setembro de 1943, quando Lobato escreveu: “Desconfio, Rangel, que essa nossa
aturada correspondência vele alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas
vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época.
Leitura, história e mais coisas”. No mês seguinte, aborda novamente o assunto. “Verdadeiras
memórias dum novo gênero – escritas a intervalos e sem nem por sombras a menor
ideia de que um dia fossem publicadas. Que pedantismo o meu no começo! Topete
incrível! Emília pura.”
Foto: Godofredo Rangel. Wikipedia. O Minarete, aquarela de Monteiro Lobato.










