quarta-feira, 18 de março de 2026

COBRA NO CAMINHO

 

Tinha sido um daqueles dias complicados. Final da tarde, passa um pouco das seis horas, ameaça de chuva. No ponto, apenas uma moça preocupada com a demora dos ônibus. Consulta o celular a todo instante. Sabe os horários dos ônibus que já deveriam ter chegado. Está atrasada e conta que tem três gatos que devem estar aflitos com a ausência dela, pois já devem estar com fome. Mesmo sem que eu pergunte, acaba me contando que se separou do marido, mas manteve os bichanos. Conta as gracinhas, que são lindos etc. e tal.  Ela é simpática, fala com desenvoltura e vez por outra vai até o meio fio espiar se vem algum ônibus. Não tenho muito a contribuir com a conversa e ela continua até que se entusiasma e fala do projeto de ampliar seu mundo pet: entrou com pedido no IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente para adotar uma serpente Píton, gênero nativo da Ásia e África que, embora não seja venenosa, é uma das maiores cobras conhecidas. Vai colocá-la num cubículo envidraçado que vai mandar fazer na casa do Litoral. Suspirei aliviada por saber que o bicho não será meu vizinho na Aclimação. Salva pelo ônibus que apareceu. Ah! Ela parecia tão normal...




domingo, 15 de março de 2026

PADARIA E PADARIAS

 

“Levava eu um jarrinho

P’ra ir buscar vinho

Levava um tostão

P’ra comprar pão;

E levava uma fita

Para ir bonita.

(...)”*

Nasci em meados do século passado em um mundo bem diferente. Na rua em que morávamos havia uma padaria enorme, a Cirilo, que vendia apenas pão, biscoitos de polvilho e leite. No balcão, a freguesia escolhia o pão fresquinho e o balconista embrulhava numa folha de papel, fazia duas orelhinhas no embrulho que fechava dando uma cambalhota no pacote. Agora vem em saquinhos fechados com a etiqueta do peso e valor a ser pago, mas em alguns lugares, o balconista ainda faz as orelhinhas nas pontas do pacote.

Em nossa casa, o pão era entregue em casa todas as manhãs... As padarias mudaram aos poucos, incluindo o balcão do cafezinho com a média (pão francês em Santos) com manteiga, sanduíches... Na primeira vez que fui à Europa, senti falta das padarias que por lá continuavam vendendo apenas pão. Hoje, como bem lembra o texto da mostra, tornaram-se centros de convivência – as pessoas (especialmente aposentados) se encontram no final da tarde para o café, o bate-papo, assistir a jogos, fazer comemorações e até para ler, pois encontro sempre uma senhora empunhando livros em meio ao burburinho.

            Lembrei-me de tudo isso quando vi a exposição sobre padarias na estação Paraíso do metrô. Pequena, porém, bem ilustrativa do salto do setor na economia. De acordo com dados de 2024, a panificação no Brasil rendeu USD$ 5,12 bilhões! Nosso país é o maior mercado de padarias do mundo com cerca de setenta mil estabelecimentos distribuídos pelo país. Em média o consumo anual é de 29,3 kg de pão por pessoa!

            Em São Paulo, a padaria mais antiga de São Paulo é a Santa Tereza em funcionamento desde 1872 – Praça João Mendes, 150. Ainda em São Paulo, frequentei durante alguns anos a Padaria Dengosa, na esquina de casa, que incluía refeições no cardápio; mas foi vendida e todos debandaram porque os serviços já não eram os mesmos. Atualmente, costumo ir ao Recanto Doce, que é uma das melhores padarias da Aclimação, tem uma equipe muito simpática e também é perto de casa.

*Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

POMAR URBANO








Abacate, amora, figo, goiaba, jabuticaba, jaca, mamão, manga, nêspera, pitanga e romã são algumas frutas que podem ser encontradas pelos caminhos paulistanos. Só aqui na Aclimação, na Praça Manuk Koumerian, temos jaqueira, mangueira, pitangueira e amora! Um pouco mais adiante há uma linda jabuticabeira (Paula Ney) e subindo a Rua Nicolau Sousa Queirós existem abacateiros e mais adiante, uma goiabeira. E cacau, um fruto muito especial.

    Yes, nós temos banana, mas não para dar e vender. Basta pegar! Recentemente, alguém resolveu plantar uma bananeira na Praça Maria Thereza Martins Chaibub, que fica na Rua Topázio bem em frente à Rua Batista Cepelos.

                                                                                                                                                                                                                                                                             Jabuticabeira

.     
  Amoreira 



A nespereira da Rua Piauí e uma das jaqueiras da Praça Clóvis Bevilaácqua.

Mangueira da Praça M. Koumerian.


A pequena goiabeira na esquina com a R. Vergueiro.


Seguro morreu de velho...


Cacaueiro no Parque das Bicicletas, Vila Clementino.




A centenária figueira da Alameda Glete...



E seus frutos.




Bananeiras na pracinha da Aclimação.



terça-feira, 10 de março de 2026

BOBAGEM DO DIA

 

 Hoje o planeta Urano está cheio de dedos: comemora a descoberta de nove dos seus anéis em 1977, mas alguns anos depois revelaram-se outros – ao todo são vinte de acordo com o professor João Steiner (IAG/USP). Os primeiros anéis foram descobertos por James L. Elliot, Edwatd W. Dunham e Douglas Mink. Na verdade, desde a Antiguidade o corpo celeste era observado, mas erroneamente identificado como uma estrela até que, em 13 de março de 1781, o astrônomo alemão William Herschel (1738-1822) descobriu o erro: tratava-se de um planeta e não de uma estrela. Como Herschel, que se radicou na Inglaterra, era músico e vai ver “ouvia estrelas”, como diria Olavo Bilac, quando fez a descoberta.

Foto: Wikipedia.

SAPATOS ESPECIAIS

Revi “Um corpo que cai” do Alfred Hitchcock. Um bom filme, mas há uma cena dramática que me fez rir novamente. A personagem de Kim Novak tenta o suicídio jogando-se no mar e James Stewart a salva. entretanto, ela acabou de dar um mergulho e continua com o elegante par de sapatos. Fantástico!😀



sábado, 7 de março de 2026

MONUMENTOS ITINERANTES

 


Nas andanças pelo Tatuapé, vi de longe um monumento em frente às bibliotecas municipais Cassiano Ricardo e Hans Christian Andersen e, achando que tinha algo a ver com música ou contos de fadas, fui até lá. Como roubaram a placa de identificação, não entendi o que significavam as figuras e ninguém por lá soube explicar. O jeito foi consultar os arquivos da prefeitura. A escultura se chama “Pátria e Família” e é uma das partes do monumento encomendado pelos estudantes de Direito para homenagear Olavo Bilac, e mais tarde desmembrado pela prefeitura e espalhado pela cidade. A escultura está no Tatuapé desde 2000. Eis uma história que vale a pena ser relembrada.

Olavo Bilac (I865-1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista, mas se destacou na poesia, sendo até eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” pela revista FON-FON em 1907. Carioca, frequentou e não concluiu o curso de Medicina no Rio nem o de Direito no Largo de São Francisco. O fato de não ter se formado não diminuiu o apreço dos estudantes da faculdade paulista por Bilac e, quando ele morreu em 1918, resolveram homenageá-lo com um monumento. Arrecadaram dinheiro e encomendaram a obra ao escultor sueco William Zadig (1884-1952) que na época lecionava no Liceu de Artes e Ofícios.

Zadig usou temas de poemas de Bilac para compor sua obra, instalada pela prefeitura na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias. A inauguração aconteceu durante as comemorações do centenário da Independência em 1922. Lá estavam figuras do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).  

O monumento virou uma polêmica: uns diziam que ele atrapalhava o trânsito, outros que era feio demais e havia os puritanos que achavam indecente o “Idílio ou Beijo Eterno”. A prefeitura, entretanto, só retirou o monumento em 1932 por causa de obras viárias e o dividiu em grupos que espalhou por diversos bairros, mas manteve o casal apaixonado no depósito de onde só foi resgatado muitos anos depois pelo prefeito Jânio Quadros que colocou a obra no Cambuci. Novos protestos, porém, desta vez os estudantes da Faculdade de Direito, resgataram o casal que levaram para o Largo de São Francisco para felicidade de todos.  

Quanto à “Pátria e Família”, antes de adornar a Praça José Moreno, passou pelo cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf, com a Avenida Celso Garcia e pela Praça Kennedy na Mooca.

quarta-feira, 4 de março de 2026

PINGO-DE-OURO

 

Foto: véspera de Natal de 2025.

Ela está numa pracinha atrás do prédio em que moro. Reparei nela na véspera de Natal, quando a fotografei, mas hoje pesquisei no Google e soube que é conhecida como pingo-de-ouro e que os frutos são tóxicos. O uso é ornamental. Lembrei-me da moça coreana que, naquele dia, colheu vários frutos enquanto eu estava fotografando os cachos dourados. Como falava mal português, acho que ela já havia provado dos frutos e me pareceu que elogiava o sabor, pois me mostrava à medida que ia comendo. Eu desconhecia a toxidade do fruto, só me preocupei com a higiene – comer sem lavá-los. Só hoje pesquisei para identificar a árvore e soube da toxidade. Espero que ela tenha sobrevivido.

    Em Portugal (depois na Grécia) vi laranjeiras carregadas de frutas maduras. Lindas! “Por que as pessoas não comem?” – perguntei a uma senhora, que me explicou serem muito azedas. Não prestavam para consumo, só como ornamentação.

Foto: 3 de março de 2026.



segunda-feira, 2 de março de 2026

A FALSA SERINGUEIRA

 


Condução nos finais de semana é como jogo – depende de “sorte”. Sábado depois de esperar um ônibus por 40 minutos, embarquei um tanto aborrecida. Sentei no banco preferido, o solitário de frente para o cobrador, e que me livra de vizinhos contadores de casos; entretanto, não tem funcionado muito. Houve um dia em que o cidadão ficou de pé de frente para mim, mas felizmente minha carranca não o animou a puxar conversa; no sábado, acabei enredada numa prosa que no final até foi interessante.

Um senhor sentou-se, no banquinho do acompanhante de cadeirante já que não havia nenhum dois – nem o cadeirante nem o acompanhante. Não sei quando a senhora se acomodou no banco do corredor da outra fileira. O trânsito estava igualzinho à hora do rush, como se dizia antigamente.

Foi uma glória conseguirmos chegar à Rua da Glória para acessar a Conselheiro Furtado e foi ali, na esquina onde paramos mais uma vez, que o senhor suspirou ao ver a árvore que tomou conta de um canteiro que divide as duas ruas com a São Joaquim. Suspirou e comentou em voz alta para ninguém em especial que ao chegar a São Paulo há mais de cinquenta anos a árvore já estava ali. Como crescera e estava tão bonita! A árvore – uma falsa-seringueira – também era velha conhecida da senhora do corredor ao lado. Veio para São Paulo há quarenta anos e também se lembrava bem da árvore.

Assim, a falsa-seringueira acendeu as lembranças dos dois passageiros. Ele morou muitos anos na região que aprecia muito e onde ainda trabalha; morar, ele mora em São Mateus. A senhora continua no bairro e, lá pelas tantas, interrompe as recordações do senhor para perguntar se não é ele quem deixa o carro na rua (não lembro) todo dia. Sim, ele mesmo. Ela já vai dizendo que ele deve ter conhecido o Bigode, marido dela. Ele não ouviu e continuou apontando lugares que existiram por ali e que desapareceram com o passar dos anos.

Ele fala do desaparecimento dos postos de gasolina e, essa foi a minha deixa para entrar na conversa, pois estávamos passando pela Praça Almeida Júnior: “Ali havia um enorme posto de gasolina substituído por um prédio de quatro andares que foi construído aos poucos e onde há um mercado de peixe e um hortifruti”. Ele suspira um tanto sorumbático com tantas coisas que ele viu em seus 72 anos de vida. Eu procuro animá-lo: “o senhor tem o que recordar porque viveu e tem uma história na cidade”.

Quem mandou abrir a boca? Ele diz que eu também tenho histórias e só não quero contar. Vira-se para a esposa do Bigode e avalia que ela tem uns cinquenta e poucos anos. Ela ri e confessa os 81. Ele me encara e digo que pode contar com mais oitenta da minha parte.

Os dois descem na Sé, esquecidos da falsa-seringueira, originária da Ásia e usada em ajardinamentos. Ontem à tarde fui fotografar a falsa-seringueira.

As pessoas não respeitam a natureza e despejam o lixo no canteiro.