Como
chegar à Bela Vista, o popular Bexiga/Bixiga? O mais rápido exige boas pernas:
a escadaria da Rua Treze de Maio que termina ao lado do Teatro Ruth Escobar
(Rua dos Ingleses). Eu fui de metrô até a estação Brigadeiro, caminhei duas
quadras da Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao Centro e já estava na Rua
dos Ingleses. Detalhe: ela termina ali e vai descendo o morro. No início, fica
a Igreja Presbiteriana da Bela Vista e virando à esquerda chega-se à Rua dos
Franceses. A História mostra que ingleses e franceses não se amam muito, mas têm
laços fortes, portanto, não é de estranhar que se encontrem mais uma vez. E no
reduto dos italianos! E, imaginem só, entre franceses e ingleses está entalada
a Rua dos Alemães, velho oponente de tempos antigos.
Desta
vez comecei pelo princípio, por sinal, numa encruzilhada formada pelas ruas
Conselheiro Carrão, Dr. Luís Barreto, Franceses e Ingleses. Quantas casas
bonitas na rua dos Franceses! Estilos diferentes, coloridas e com um jeito
aconchegante. Ali quase tudo remete à França. Como o simpático prédio de
apartamentos Petit Paris e a Pousada dos Franceses. O que não combina é o
edifício L’Hermitage – que significa lugar em que vivem eremitas e é o nome do
Museu de São Petersburgo, na Rússia.
O
ponto alto das homenagens aos franceses fica quase no final da rua: o
Condomínio Praça dos Franceses (claro), construído entre 1973 e 1985 e
constituído de sete prédios: Diderot (filósofo e escritor), Flaubert
(escritor), La Fayette (militar), La Fontaine (poeta e fabulista), Ravel
(pianista e compositor), Renan (filósofo e historiador) e Verlaine (poeta). O
terreno pertencente ao incorporador Otto Meinberg, que faliu, em meados de
1960, foi oferecido ao Banco Safra para quitar dívidas. Como a área de
ribanceira na Rua Almirante Marques Leão não tinha grande valor, o consultor do
banqueiro Joseph Safra sugeriu que ele adquirisse alguns terrenos na Rua dos
Franceses, o que valorizaria o empreendimento. Assim, foi feito. O projeto foi
desenvolvido pelo escritório de Jacob Lerner e seus sócios Ermanno Siffredi e
Maria Bardelli – o casal que projetou as mais bonitas galerias do Centro
Histórico. Em frente às sete torres foi construída uma praça desenhada pelo
arquiteto Ugo di Pace, o arquiteto iluminador Livio Levi e Domenico Calabrone, o artista plástico
autor da escultura gigante, que arremata o conjunto. A praça é privativa do
condomínio.
Do
lado par da rua vejo uma ruela em declive onde há algumas casas bonitas.
Resolvo ir bisbilhotar e não me arrependo. Um lugar muito gracioso. Como a
descida continua e faz uma curva, fico em dúvida se devo prosseguir e por sorte
aparece um adolescente a quem pergunto se a rua tem saída. Ele é tímido,
gagueja um pouco e me informa que a rua continua. Insisto se ela tem saída. Ele
não entende e me indica a Rua dos Franceses se eu quero ir para a avenida
Paulista. Conversa difícil. Ele não entende a pergunta, acha que estou perdida.
Sim, já perdi o interesse na rua, que se chama Veloso Guerra. Resolvo
demonstrar que sei muito bem onde estou: aponto a direção da Paulista – mostro as
torres de comunicação – e aponto para o outro lado, dizendo que para lá fica o
Centro. Ele fica surpreso – não sabia que o Centro era por ali. Agradeço a atenção
e me despeço. Acho que ele era ele quem estava perdido; suspeito que ele
trabalha por ali e nada sabe do lugar.
Satisfeita
com o que vi, resolvo descer a Conselheiro Carrão para ver o lado mais popular
do bairro – a Rua Almirante Marques Leão (continuação da Santo Antônio) e que se
estende até a Alameda Ribeirão Preto. Na esquina tem uma feira. Pausa para hidratação.
Uma escada leva à rua Dr. Leôncio Granato – que não tem encantos. Retorno. Vejo a torre de uma igreja sobressaindo dos telhados:
Achiropita? Como é perto, vou até lá conhecer a igreja, que é bonitinha. Paro para
um cafezinho na Padaria Camões – uma discrepância. Que faz o poeta lusitano nas
plagas de Virgílio? O balconista comenta que me viu na porta da Igreja, faz
elogios ao chapéu e comenta que devo ser uma senhora muito ativa. Fala pelos
cotovelos! Felizmente chega outro
freguês. Lá fora tomo o rumo da Avenida Paulista. (Fotos: maio de 2026)




























