sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

TODOS OS DIAS SÃO DIAS BONS

 


Esta semana assisti ao filme japonês “Todos os dias são dias bons”, que gira em torno da Cerimônia do Chá. Pura poesia. Uma história sobre a iniciação de duas adolescentes nessa arte por meio da praticante, a mulher que dedica a vida a transmitir a tradição para as novas gerações. O recinto da cerimônia é forrado de tatame. Quando a praticante, vestindo quimono, abre a porta de correr, está de joelhos e assim estão os convidados. Todos permanecerão ajoelhados e conhecem o cerimonial e a etiqueta que o envolve. Ela tem conhecimentos sobre as várias artes que compõem a cerimônia – como as variedades da cultura do chá, as roupas tradicionais, a cerâmica, os arranjos florais entre muitas outras coisas.

O que precisa para o chá? Basicamente, lenços de seda, taças, boião para o chá em pó, batedor para preparar o chá, o pano para limpar as taças, uma concha de bambu, uma panela de ferro e um braseiro. Quando as moças perguntam à praticante para que serve determinada ação, ela se espanta. A resposta virá à medida que a história se desenrola.

Para o ocidental a cerimônia é um curso para o desenvolvimento da paciência e do autocontrole; um aprendizado sobre a importância do silêncio e dos pequenos e quase inaudíveis sons do ambiente, da natureza – não há pressa. Filosofia (Taoismo e Zen Budismo), arte e estética muito mais do que um simples chá das cinco.

        “Todos os dias são dias bons” – filme dirigido por Omori Tatsushi, baseado no livro de Noriko Morishita. Gostei muito do filme.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TRANSPORTE PÚBLICO

 

Assisti muito tempo atrás a uma entrevista com um rapaz que adorava viajar de ônibus e fiquei bastante aborrecida com o tratamento que o “jornalista” deu ao entrevistado, ridicularizando-o por gostar desse meio de transporte. Respeito deve-se a todas as pessoas e o entrevistado estava cooperando com o trabalho do repórter, que perdeu a oportunidade de  fazer algo bem melhor. Era um moço que usava o transporte público para ir trabalhar e nas folgas para se divertir.

            Quando mudei para São Paulo, vendi o carro porque não conhecia a cidade e me perder por aqui não estava nos meus planos. Em Santos ninguém se perde: você sempre tem pontos de orientação – os morros, os canais, o porto, a praia... Em São Paulo? Até hoje para mim é um quebra-cabeça. Quando achei que já conhecia o suficiente, voltei a dirigir, mas saía de casa sempre com o roteiro. (Ainda tenho um “Guia Quatro Rodas"). Claro que às vezes não funcionava e, numa época em que celular era coisa de ficção científica, o jeito era pedir ajuda. Ao me aposentar, comecei a deixar o carro na garagem por comodismo, pois havia ônibus praticamente na porta de casa e assim me desfiz dele sem nenhuma hesitação. E nenhum arrependimento. Ao lado do prédio há um ponto de táxis e todos os motoristas são velhos conhecidos.

            Nos dias atuais sou usuária de ônibus, metrô e trem; raramente tomo táxis (não uso Uber). Ao longo desses anos, posso ter concluído algumas coisas sobre locomoção por São Paulo de transporte público: os ônibus são veículos sociáveis; o metrô, mais impessoal. Táxis? Posso escrever um livro sobre as brigas que arranjei com taxistas em geral. Meu amigo Pedro costumava dizer que os taxistas, quando me viam, tinham código para avisar os colegas para me evitar😊.

Não adoro andar de ônibus e meu transporte predileto é o metrô pela pontualidade, segurança e impessoalidade; porém, os ônibus são muito mais interessantes, além de propiciar a comunicabilidade entre os passageiros e entre a tripulação; e, principalmente, oferecem a visão das ruas, que frequentemente viram o mote da viagem. O passageiro entra e cumprimenta o motorista (nem todos, mas alguns até vão de copiloto), passa pelo corredor até o cobrador (uma função que só tem no Brasil) e, se não tiver cartão, o troco pode ser o início de uma conversa.

No metrô, o bilhete é adquirido em uma cabine blindada; na plataforma de embarque o passageiro mal vê o condutor e, ao abrir das portas, tudo é rápido – o entra e sai, a busca de um banco, o celular em punho para continuar o joguinho, o filme, as notícias, as mensagens... As conversas, quando há, acontecem se a pessoa está acompanhada ou em grupos. E mesmo assim é um mar de histórias.

Linhas: 508 L - 10 e 875 R - 10: Aclimação. Foto: Internet. Agora às vezes, verde.

Estação da Luz: fevereiro de 2024.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

AFONSO CELSO

 

As minhas desventuras pela Avenida Celso Garcia me levaram a indagar quem seria esse senhor que tem o seu nome a uma das importantes vias da cidade de São Paulo. Afonso Celso Garcia da Luz (1869-1908), advogado, jornalista e político, nem era paulistano. Nasceu em Batatais (SP), formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde também começou sua trajetória no jornalismo. Depois de formado trabalhou como advogado criminalista. Escreveu para vários jornais da época e colaborou com O Estado de S. Paulo. Em 1905 foi eleito vereador e se destacou como defensor do operariado, denunciando as más condições de vida do trabalhador; apresentou também projetos para casas operárias e redução de tarifas de transporte para trabalhadores e estudantes. Ele morreu aos 39 anos, vítima de pneumonia e seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação. Deixou viúva Maria Chaves Garcia e dois filhos. A população fez um abaixo-assinado à Câmara pedindo que a Avenida da Intendência fosse denominada Celso Garcia. O pedido foi encaminhado ao prefeito Raymundo Duprat, que aceitou a solicitação e assim em 1908 a velha Rua da Intendência cede lugar à Avenida Celso Garcia, que começa na rua doutor Ricardo Gonçalves e termina na Avenida Aricanduva, estendendo-se por quase sete quilômetros, do Brás à Penha. Celso Garcia morou num casarão do Brás.

Foto: Wikipedia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

BOBAGEM DO DIA

Minhas desventuras no Terminal D. Pedro II e na Avenida Celso Garcia, que parecem não simpatizar comigo. Explico.

1 – Fui a Casa do Tatuapé de metrô e ônibus, mas na volta resolvi ir a pé até o metrô – a educadora comentara que eram vinte minutos de caminhada até a Estação Tatuapé, o que me animou. Duas quadras depois, estava morta de calor e arrependida da decisão, mas logo vi ônibus para o Terminal D. Pedro II. Ora, que maravilha! Embarquei e no terceiro ponto, o veículo quebrou. Descem todos para esperar o próximo.

2 – Na semana seguinte, eu, que não gosto de shoppings, tive a brilhante ideia de conhecer o Shopping Aricanduva, que tem a fama de ser um dos maiores de São Paulo. Isso me ocorreu quando estava no Carrão e embarquei no ônibus indicado por um motorista do Terminal. Cruzes! Ele só não disse que era do outro lado do mundo. Uma jornada aborrecidíssima. Passamos pelo Carrão, Sapopemba e Vila Formosa até chegar à Aricanduva. Cheguei a pensar em descer, mas... Voltar? Jamais. Onde eu ia mesmo? Ao Shopping Aricanduva. O ônibus para em frente. É imenso e diferente, porém, já não tenho o mínimo interesse. Escolho uma entrada e caminho pelos corredores que têm as mesmas lojas de todos os outros, mas pouca gente apesar de ser dezembro. Olho a hora e penso que voltar ao Carrão está fora de meus planos e lembro-me do Parque D. Pedro II. Descuro onde pegar um ônibus para lá. No ponto, encontro até Papai Noel. Em cinco minutos o bus aparece. Lotado. Um senhor me cede o lugar. Minhas esperanças de que o caminho fosse curto duram pouco. Nada dos confortos dos ônibus da Zona Sul. Nada de ar condicionado e o motor faz um barulhão. Meia hora depois achei que estava na Avenida Celso Garcia e quando respiro aliviada vejo a placa “Avenida Aricanduva”. Ainda??? Minutos depois alcançamos a tão esperada Avenida Celso Garcia, mas nenhum dos passageiros contava com o poste em que o ônibus bate. Nenhum ferido. O motorista desce, vai conferir, volta e manda todo mundo descer. Ninguém reclama. Sol escaldante. Vou verificar os fatos: a porta teve os vidros estilhaçados. Como? Acreditem: os postes estão fora de prumo, inclinados para a rua e quando a porta do ônibus se abriu bateu em um deles (ou nos dois). Mudamos para outro ônibus. Termino a viagem sentada confortavelmente na frente.

3 – Como hoje não choveu, achei uma boa ideia aproveitar para conhecer o parque Piqueri, o que venho planejando há quase dois meses, e o caminho melhor é pela Avenida Celso Garcia. Quando cheguei ao Terminal D. Pedro II, fui informada da paralisação dos ônibus por causa de um protesto que bloqueou o Terminal por volta do meio-dia. Oh! Céus! Mudei meus planos😔.

Acabo de ler no UOL que o “Sindmotoristas, sindicato que representa os trabalhadores do setor, declarou que não havia nenhum indicativo de greve e que o ato foi promovido por integrantes de uma chapa de oposição. O sindicato repudiou a ação e acusou os manifestantes de tentarem tumultuar o processo eleitoral da entidade”. 

Terminal D. Pedro II hoje por volta de 12h30.

SÃO PAULO – MULTIPLICIDADE

As fotografias da cidade de São Paulo do arquiteto Leonardo Finotti (1977) são maravilhosas. A Caixa Cultural apresenta até abril “São Paulo – Multiplicidade”, uma retrospectiva do trabalho de Finotti com dez séries produzidas por Finotti ao longo da carreira: são paulo vertical, habitar mendes da rocha, marketscapes, necropoli(s)tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos tropicais, verAcidade e brutiful. Ele usou inclusive drones para fotos aéreas. O trabalho de Leonardo Finotti é reconhecido internacionalmente. Mineiro, ele estabeleceu-se em São Paulo em 2008.

Destaque: quando vi a enorme foto aérea, pensei que se tratasse de um grande parque rodeado por um bairro bastante populoso. Engano: trata-se do Cemitério da Vila Prudente, na Zona Leste, que tem 763.175 m² e é considerado o maior da América do Sul.

Foto: divulgação.
Caixa Cultural: Praça da Sé, 111. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A RUA DO SOL NASCENTE


Nasci em uma cidade do interior paulista que só fui conhecer quando completei setenta anos; cresci numa cidade do litoral, que é berço do Patriarca da Independência do Brasil; e na maturidade me desafiei a encarar a vida na maior cidade cidade e brasileira. O trajeto foi Taubaté, Santos e São Paulo. Santos é aquela cidade do coração – das lembranças maravilhosas que sempre me despertam muita saudade. São Paulo é um turbilhão – acho que essa é a palavra que melhor a define. Ela exige rapidez, dinamismo; é instigante e perturbadora. Irresistível. Apaixonante. Um dia, entretanto, você se aposenta e vem o tempo da calmaria. Apenas se você quiser, porque a cidade continua com seu canto de sereia atraindo os inquietos.

Aposentada, pude dedicar meu tempo para descobrir São Paulo e seus meandros a pé, de ônibus. trem e metrô. Comecei quando descobri que não tinha fotografias de Santos e de São Paulo. Saí fazendo fotos e logo estava a escrever sobre o que via... Assim, surgiram meus passeios paulistanos lá pelos idos de 2008. Passeios porque saio de casa sozinha, sem roteiro, sem pressa a observar paisagens, pessoas e tudo o mais que possa acontecer pelo caminho. Como ver o Sol despontando no início da Rua Topázio, na Aclimação, onde vivo há quase 43 anos. A verdade é que aos poucos a cidade vai se entranhando em você  sem que se perceba.

  “A RUA DO SOL NASCENTE – passeios paulistanos” reúne crônicas feitas entre 2008 e 2025. 

 N

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A FIGUEIRA DA GLETE

 FOTOS DE 5/2/2025.

                       Cada vez mais bonita.

Carregada de frutos.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

BYE BYE, ORELHÕES

             
                                                      Estação Sé do Metrô: 2022.


                         
                                                          Estação Sé do Metro: 2025.
 

Os telefones públicos, os populares orelhões, estão com os dias contados, pois a Anatel vai retirá-los das ruas das cidades que dispõem de telefonia digital. Depois de 54 anos de bons serviços prestados, eles desaparecerão, embora há algum tempo ninguém saiba me informar onde se compram os cartões telefônicos. Eu já perguntei em vários locais, mas só consegui rostos admirados com a pergunta inusitada. Um dia fiquei toda animada ao ver na rua um homem batendo  papo num telefone público, mas logo percebi que nem fio o aparelho tinha.

    Quando o novo modelo de telefone público surgiu em 1972, foi saudado com bom humor pelo público que, bem ao estilo brasileiro, logo lhe deu o apelido que se ajustou perfeitamente ao novo equipamento: orelhão. Certamente, ele deixará muitas histórias emocionantes na lembrança da população. 

O famoso protetor dos telefones públicos foi criado pela arquiteta Chu Ming Silveira (1941-1997). Chu Ming, na época chefe da seção de projetos do Departamento de Engenharia da Companhia Telefônica Brasileira ‒ CTB, realizou um trabalho perfeito: o novo equipamento urbano protegia o aparelho e o usuário, tinha baixo custo de fabricação, instalação e manutenção, além de boa acústica e estética atraente; era durável e, principalmente, fácil de usar. Ela se inspirou no formato do ovo porque achava que era a forma de melhor acústica. O orelhão foi um sucesso tão grande que logo foi adotado no Paraguai, Peru, Colômbia, China, Angola e Moçambique.

Os primeiros orelhões foram instalados no Rio de Janeiro no dia do padroeiro da cidade: 20 de janeiro de 1972. Em seguida foi a vez de São Paulo que recebeu 170 aparelhos no dia do aniversário: 25 de janeiro. O nome que Chu Ming Silveira dera ao equipamento era bem mais romântico: tulipa, o que (pelo menos no Brasil) não vingou.

Após décadas de relevantes serviços, com o advento da telefonia móvel e a sua popularização, os telefones públicos foram se tornando menos utilizados e os orelhões tornaram-se vítimas de vândalos e passaram a ser usados para colocar adesivos com números de telefone de pessoas que ofereciam serviços especialmente de acompanhantes para “programas”.

Chu Ming Silveira nasceu em Xangai, China. A família mudou para o Brasil, estabelecendo-se em São Paulo, onde ela se formou arquiteta pelo Mackenzie em 1964.

Avenida Ricardo Jafet: 10/12;2021