sábado, 6 de junho de 2026

FINAL DA BUSCA DE ESCADARIAS

NÃO! MAIS ESCADAS? Praça Ramos de Azevedo.


A região da Avenida Paulista também tem o que mostrar em matéria de escadas: as escadarias do mirante sobre o Túnel da Avenida Nove de Julho. Após décadas de abandono em 2015, após uma parceria público-privada, tornou-se um espaço multicultural com música, shows e restaurante, uma boa ideia que durou pouco. A pandemia e o roubo dos equipamentos da empresa acabaram com o empreendimento. No momento, o espaço encontra-se abandonado. O túnel, inaugurado em 1938, foi o primeiro a ser construído em São Paulo e liga o Centro à Zona Sul da cidade. Não se enganem, a avenida começa na Praça da Bandeira e prossegue até a Rua Amauri, no Itaim. São pouco mais de seis quilômetros.

Já o Viaduto Nove de Julho, concluído em 1947, une a Avenida São Luís com a Rua Cel. Xavier de Toledo, no Centro, e oferece uma bonita vista da cidade. As escadas laterais estão em boas condições e costumam estar limpas. 

Túneis da Avenida Nove de Julho. Atualmente em reforma.


Mirante do Viaduto Nove de Julho. Fechado.

A escadaria vista do Viaduto Professor Bernardino Tranchesi. Foto: Nilton Tuna.


Escadaria lateral de acesso à Avenida Nove de Julho.

Uma boa surpresa foram as escadas da Rua Joaquim Antunes em Pinheiros que conduzem à Rua Teodoro Sampaio. A associação de amigos da rua fez um jardim ao pé da escada, azulejou os degraus e enfeitou os muros – há até poesia. 


Ainda em Pinheiros, a Rua Alves Guimarães, por exemplo, é interrompida por escadaria de acesso à Avenida Paulo VI e continua do outro lado.

Mas havia esquecido da Igreja do Calvário (Rua Cardeal Arcoverde) em cuja frente há duas escadarias que levam os devotos à igreja que este ano comemora cem anos.

Igreja do Calvário.


Escadarias de acesso aos fundos do prédio da Câmara Municipal 
com a letra do Hino à República.

E aqui termino essa jornada em busca de escadas. Há muito mais – ao longo das avenidas Vinte e Três de Maio e Sumaré. Meus agradecimentos ao amigo Nilton que me ciceroneou pelo Mirante da Nove de Julho, um espaço nobre que precisa ser revitalizado. Encontrei muita gente no caminho que me ajudou a encontrar as escadarias mais escondidas. 





domingo, 31 de maio de 2026

“Haikai”

 

Até a chuva de maio

Deixou intocado

Este templo dourado

Catedral de Colônia, 2012. Foto: Hilda Araújo.


“Haikai”

Tradução: Alberto Marsicano Rodrigues

Editora Riento – São Paulo, 1988.


domingo, 24 de maio de 2026

O CANGURU DE PRAGA

 

Foi uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando, em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República Checa.  O fato ocorreu em Praga, onde fazia um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei. Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal viu a passagem e saiu aos saltos.  O cão – um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto, quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da cerca.

Outro mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.

Enfim, nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto num parque! Até onde sei são bem perigosos.

Hoje resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os detentos.  Assim, no meu currículo de viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de 2008)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FESTIVAL DO CAFÉ

 

Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos.  Bom dia, Café!

Praça do Patriarca, ontem no final da tarde.



terça-feira, 19 de maio de 2026

ESCADAS DO PACAEMBU

 


Escadas também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim, quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6 Laranja do metrô.

As obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam, outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.

No centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque – verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.

Fico em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.

E dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.

Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.

Quando o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer o caminho para a Avenida Paulista.

Continua...

Subi por esta escadaria.


Da próxima vez será por esta.

Um lê e o outro dorme. 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

GALGANDO ESCADAS

 PARTE 2

Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.

Dos fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX) entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme. 

O desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m, mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de escadas.

Na Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.

Depois de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.

Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.

Continua.😎

Beco do Pinto.


Beco do Pinto.



Esplanada da Praça Ramos de Azevedo.

Escadas ao lado do Viaduto. À direita, Shopping Light.

Ladeira da Memória.

Continua...

domingo, 17 de maio de 2026

ESCADARIAS PAULISTANAS

 Parte I

 “Subir escadas faz bem para saúde”, dizem fisioterapeutas e minha professora de ginástica. Do lado do prédio em que moro há uma escadaria com cem degraus sem corrimão. No auge da pandemia, idosos da vizinhança faziam exercícios galgando os degraus munidos de máscara e garrafinha d’água. Felizmente, há uma segunda opção mais adiante em zigue-zague e no meio da ladeira devidamente munida de corrimãos. Ela é o início da Rua Batista Cepelos. Mais adiante, mais uma escadaria – ligando as Ruas do Paraíso e Armando Ferrentini. E, por fim, a mais bonita, embora toda pichada: a da Praça Jorge Cury com um belvedere na Rua Alabastro com vista para o Parque da Aclimação. O conjunto data de 1950 e foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1986.

          Há uma escadaria de acesso à Rua Paes de Andrade na Avenida Turmalina, porém, é fechada.

        Caminhando um pouco mais, chegamos à Rua Nossa Senhora de Lourdes, no Cambuci, onde se encontra a igreja de N. Sra. da Glória com dois lances de escadas que somam quase 90 degraus – desde a Rua Lavapés, cruzando a Praça Hélio Ansaldo e terminando em frente ao santuário. Esta igreja de 1893 faz parte da história paulista: foi bombardeada durante o levante tenentista de 1924 que ocorreu entre 5 e 28 de julho.  Continua.😀

        FOTOS: escadas da Rua Topázio para a Paraíso e da Praça Profª Maria Thereza Martins Chaibub.



Escadaria em ziguezague da Rua Batista Cepelos.


Mirante das escadarias da Aclimação.