Arco do Teles, Praça XV.
Temas culturais.
A
floresta foi o primeiro refúgio do homem. Ali, ele encontrou abrigo das
intempéries, colheu alimento, conviveu com as outras espécies, caçou e foi
caçado. Descobriu que podia usar as mãos, criou as ferramentas, aprendeu a
fazer fogo e iniciou a agricultura e o pastoreio. Aos poucos deixou a floresta,
criando pequenos povoados, que foram crescendo, virando vilas, tornando-se
pequenas cidades que foram se ampliando na medida em que a agricultura e a
pecuária se consolidavam e proporcionavam o aumento das populações.
E
desde então o mundo foi mudando de aparência, transformado pelo homem. Hoje,
estamos pagando o preço dessas conquistas importantes: as florestas cobrem
apenas 40% da superfície total de todos os continentes. É importante lembrar
que dois terços de todas as espécies de plantas e animais desenvolvem-se nas
florestas tropicais úmidas. Com a destruição de uma floresta ou parte dela,
desaparecem ecossistemas completos, pois todos estão interligados pela cadeia
alimentar e cada um tem um papel fundamental nesse elo vital: as plantas
alimentam os animais herbívoros, que são comidos pelos carnívoros – sem contar
os onívoros que não fazem cerimônia na hora da fome. E quando todos morrem,
alimentam os agentes de decomposição – cogumelos, formigas, vermes e um mundo
microscópico.
Mas
o progresso afastou o homem da floresta. Ele não consegue mais entendê-la.
Urbanizada, a maioria das pessoas não consegue sequer identificar simples
verduras em supermercados se não houver uma etiqueta salvadora.
Há
um ótimo livro sobre as relações do homem com a floresta no Brasil: “A ferro e
fogo – A história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira”, de Warren Dean
(1932-1994), editado pela Companhia das Letras. Professor de História na
Universidade de Nova York, Dean é considerado o principal historiador do meio
ambiente brasileiro. Nesta obra, traça um panorama sobre a forma como se
processou a colonização brasileira em relação ao meio ambiente, o que aconteceu
após a independência e a proclamação da república na área de Mata Atlântica,
especialmente com a industrialização do País.
A
ficção também pode ser um bom caminho para refletir sobre a forma como tratamos
o meio ambiente, especialmente, as florestas. Um deles é "As Botas do Diabo", de
Kurt Falkenburger (São Paulo, Brasa, 1971). Falkenburger, escritor e
economista, formado pela Universidade de Viena, em uma viagem ao Brasil, ele
descobriu os restos da ferrovia Madeira-Mamoré perdida na Amazônia em meio à
floresta. Fascinado com que viu, ele pesquisou a história e resolveu que a
melhor forma de contá-la era “colocar a verdade dentro de um quadro de novela,
na qual ele revive um momento da grande empreitada”. Na época, o governo
brasileiro dedicava-se à construção da Rodovia Transamazônica (BR 230).
Vivia-se em 1971 sob o regime militar.
Márcio
Souza relata a história da Madeira-Mamoré em sua obra “Mad Maria”, que a TV
Globo transformou em uma minissérie. O escritor mostra a insanidade e falta de
escrúpulos que marcaram a abertura dessa estrada – que acabou destruindo
milhares de vidas humanas e parte da floresta.
A
verdade é que desde que abandonou a floresta o homem iniciou um processo de
devastação – lento a princípio e assustadoramente rápido nos últimos anos.
É
preciso que as pessoas se conscientizem com urgência de que, apesar de todo o
avanço tecnológico, seria muito difícil para nós vivermos sem florestas.
A divisão dos bairros em São Paulo
funciona no mapa, mas na prática é difícil descobrir onde se está. A Avenida
Celso Garcia corta vários bairros e assim aproveitei para conhecer também o
Parque Estadual do Belém que fica a um quilômetro, mais ou menos, do Piqueri.
A área tem uma história
triste. No princípio, chamava-se Chácara Belém, mas de 1902 até 2005 foi sede
de do Instituto Disciplinar, da Colônia correcional, do Reformatório de Meninas
até abrigar a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor – FEBEM. Em 1990 ocorreu
um incêndio que exigiu uma reforma do prédio. Após o fechamento da unidade e uma
série de mudanças no sistema socioeducativo de menores, o governo estadual em
2012 criou o Parque Estadual do Belém “Manoel Pitta”, onde funciona a Fábrica
de Cultura, um complexo que dispõe de múltiplas atividades: dança, teatro,
música, circo e artes plásticas.
O Parque, que tem 210 mil m², é
bonito e muito bem cuidado. O paisagismo foi criado pelo arquiteto Raul
Pereira, que reintroduziu várias espécies arbóreas nativas e preservou cerca de
650 árvores. Não faltam atividades para quem está de férias ou quer sombra
nesses dias de verão: pista de corrida, ciclovia, quadras poliesportivas, áreas
para ginástica ao ar livre e playgrounds. Para os amantes da leitura, há
também uma biblioteca.
O nome é em homenagem a Manoel
Pitta, que nasceu no bairro do Belém, onde se estabeleceu no comércio com uma
loja de calçados que administrou até 2011, quando faleceu. Pitta ingressou na
Sociedade Amigos do Belém e a presidiu por 35 anos, período em que conseguiu a
instalação da Base Comunitária do Belém, mudança de nome do Sesc Tatuapé para
Sesc Belenzinho, a criação do Dia do Belém (30 de junho), passeios ciclísticos
no bairro e a criação Do Parque do Belém.
O endereço é Avenida Celso Garcia, 2531, esquina com a Rua Nelson Cruz. O ideal é ir a pé, de bicicleta ou de ônibus porque o parque não tem estacionamento. Não achei boa ideia deixar o carro nas imediações. Se o parque é muito agradável, o entorno, nem tanto. Um homem fumava craque junto à mureta externa da Avenida Celso Garcia ao meio-dia. Na rua lateral (Nelson Cruz), usada para estacionamento, não me animei a usar a calçada tomada pelo lixo. Um cenário deprimente.
Avenida
Celso Garcia, 2593. Funciona diariamente das 6 às 18 horas. Entrada gratuita.
O Parque Piqueri “Vereador Toninho Paiva” fica próximo de duas
movimentadas vias de São Paulo – a Avenida Celso Garcia e a Marginal Tietê, mas
é um paraíso verde. O velho Matarazzo, dono da área em que instalou sua casa de
campo, tinha bom gosto e, se hoje o lugar é muito bonito, nos tempos do conde
deveria ser maravilhoso.
Logo na entrada um perfume de
clorofila que meus pulmões estranharam. Vegetação densa que absorve os ruídos
externos. Ouvem-se os passarinhos – aliás, de acordo com a Prefeitura há uma
boa variedade de aves. A flora também é bastante variada. Há quanto tempo não
via bambuzal! Eucaliptos também. Encontram-se espécies ameaçadas de extinção
como o cedro (cedrela fissilis), pau-brasil (Paubrasilia echinata)
e o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifólia).
A administração funciona em uma graciosa casa branca – tem até orelhão que agora funciona como enfeite; mais adiante outra casa abriga o Ponto de Leitura, uma minibiblioteca com cerca de dois mil livros que os moradores do bairro podem consultar ou retirar por empréstimo. Os esportistas da região têm pista para praticar corrida, campos de futebol, quadras poliesportivas, aparelhos de ginástica e espaço para bocha (nem desconfio como se joga), playgrounds. O lago dá um toque especial ao parque. Na saída, vejo um pássaro tomando banho numa vasilha embora o lago estivesse bem próximo – me olhou feio quando parei para observá-lo.
O entorno do parque é muito agradável. Ainda restam casas antigas bem conservadas. Uma pausa para um café num supermercado situado em um prédio bonito e com uma decoração original. Próxima parada: Fábrica de Cultura.
O Parque está localizado na Rua Tuiuti, 515 – Tatuapé. Funciona de segunda à sexta-feira das 6h às 18h. Não tem estacionamento. Ele fica a 500m da Avenida Celso Garcia. Ônibus no Terminal D. Pedro II.
Assisti
muito tempo atrás a uma entrevista com um rapaz que adorava viajar de ônibus e
fiquei bastante aborrecida com o tratamento que o “jornalista” deu ao
entrevistado, ridicularizando-o por gostar desse meio de transporte. Respeito
deve-se a todas as pessoas e o entrevistado estava cooperando com o trabalho do
repórter, que perdeu a oportunidade de fazer algo bem melhor. Era um moço que usava o transporte público para ir trabalhar e nas folgas para se divertir.
Quando mudei para São Paulo, vendi o
carro porque não conhecia a cidade e me perder por aqui não estava nos meus
planos. Em Santos ninguém se perde: você sempre tem pontos de orientação – os
morros, os canais, o porto, a praia... Em São Paulo? Até hoje para mim é um
quebra-cabeça. Quando achei que já conhecia o suficiente, voltei a dirigir, mas
saía de casa sempre com o roteiro. (Ainda tenho um “Guia Quatro Rodas"). Claro
que às vezes não funcionava e, numa época em que celular era coisa de ficção
científica, o jeito era pedir ajuda. Ao me aposentar, comecei a deixar o carro
na garagem por comodismo, pois havia ônibus praticamente na porta de casa e
assim me desfiz dele sem nenhuma hesitação. E nenhum arrependimento. Ao lado
do prédio há um ponto de táxis e todos os motoristas são velhos conhecidos.
Nos dias atuais sou usuária de
ônibus, metrô e trem; raramente tomo táxis (não uso Uber). Ao longo desses
anos, posso ter concluído algumas coisas sobre locomoção por São Paulo de
transporte público: os ônibus são veículos sociáveis; o metrô, mais impessoal. Táxis?
Posso escrever um livro sobre as brigas que arranjei com taxistas em geral. Meu amigo Pedro costumava dizer que os taxistas, quando me viam, tinham código para avisar os colegas para me evitar😊.
Não
adoro andar de ônibus e meu transporte predileto é o metrô pela pontualidade,
segurança e impessoalidade; porém, os ônibus são muito mais interessantes, além
de propiciar a comunicabilidade entre os passageiros e entre a tripulação; e,
principalmente, oferecem a visão das ruas, que frequentemente viram o mote da
viagem. O passageiro entra e cumprimenta o motorista (nem todos, mas alguns até
vão de copiloto), passa pelo corredor até o cobrador (uma função que só tem no
Brasil) e, se não tiver cartão, o troco pode ser o início de uma conversa.
No
metrô, o bilhete é adquirido em uma cabine blindada; na plataforma de embarque
o passageiro mal vê o condutor e, ao abrir das portas, tudo é rápido – o entra
e sai, a busca de um banco, o celular em punho para continuar o joguinho, o
filme, as notícias, as mensagens... As conversas, quando há, acontecem se a
pessoa está acompanhada ou em grupos. E mesmo assim é um mar de histórias.

As minhas desventuras pela Avenida Celso Garcia me levaram a indagar quem seria esse senhor que tem o seu nome a uma das importantes vias da cidade de São Paulo. Afonso Celso Garcia da Luz (1869-1908), advogado, jornalista e político, nem era paulistano. Nasceu em Batatais (SP), formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde também começou sua trajetória no jornalismo. Depois de formado trabalhou como advogado criminalista. Escreveu para vários jornais da época e colaborou com O Estado de S. Paulo. Em 1905 foi eleito vereador e se destacou como defensor do operariado, denunciando as más condições de vida do trabalhador; apresentou também projetos para casas operárias e redução de tarifas de transporte para trabalhadores e estudantes. Ele morreu aos 39 anos, vítima de pneumonia e seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação. Deixou viúva Maria Chaves Garcia e dois filhos. A população fez um abaixo-assinado à Câmara pedindo que a Avenida da Intendência fosse denominada Celso Garcia. O pedido foi encaminhado ao prefeito Raymundo Duprat, que aceitou a solicitação e assim em 1908 a velha Rua da Intendência cede lugar à Avenida Celso Garcia, que começa na rua doutor Ricardo Gonçalves e termina na Avenida Aricanduva, estendendo-se por quase sete quilômetros, do Brás à Penha. Celso Garcia morou num casarão do Brás.
Foto: Wikipedia.
Minhas desventuras no Terminal D. Pedro II e na Avenida Celso Garcia, que parecem não simpatizar comigo. Explico.
1 – Fui
a Casa do Tatuapé de metrô e ônibus, mas na volta resolvi ir a pé até o metrô –
a educadora comentara que eram vinte minutos de caminhada até a Estação Tatuapé,
o que me animou. Duas quadras depois, estava morta de calor e arrependida da decisão,
mas logo vi ônibus para o Terminal D. Pedro II. Ora, que maravilha! Embarquei e
no terceiro ponto, o veículo quebrou. Descem todos para esperar o próximo.
2 – Na
semana seguinte, eu, que não gosto de shoppings, tive a brilhante ideia de conhecer
o Shopping Aricanduva, que tem a fama de ser um dos maiores de São Paulo. Isso
me ocorreu quando estava no Carrão e embarquei no ônibus indicado por um
motorista do Terminal. Cruzes! Ele só não disse que era do outro lado do mundo.
Uma jornada aborrecidíssima. Passamos pelo Carrão, Sapopemba e Vila Formosa até
chegar à Aricanduva. Cheguei a pensar em descer, mas... Voltar? Jamais. Onde eu
ia mesmo? Ao Shopping Aricanduva. O ônibus para em frente. É imenso e
diferente, porém, já não tenho o mínimo interesse. Escolho uma entrada e
caminho pelos corredores que têm as mesmas lojas de todos os outros, mas pouca
gente apesar de ser dezembro. Olho a hora e penso que voltar ao Carrão está
fora de meus planos e lembro-me do Parque D. Pedro II. Descuro onde pegar um ônibus
para lá. No ponto, encontro até Papai Noel. Em cinco minutos o bus
aparece. Lotado. Um senhor me cede o lugar. Minhas esperanças de que o caminho
fosse curto duram pouco. Nada dos confortos dos ônibus da Zona Sul. Nada de ar
condicionado e o motor faz um barulhão. Meia hora depois achei que estava na
Avenida Celso Garcia e quando respiro aliviada vejo a placa “Avenida Aricanduva”.
Ainda??? Minutos depois alcançamos a tão esperada Avenida Celso Garcia, mas
nenhum dos passageiros contava com o poste em que o ônibus bate. Nenhum ferido.
O motorista desce, vai conferir, volta e manda todo mundo descer. Ninguém
reclama. Sol escaldante. Vou verificar os fatos: a porta teve
os vidros estilhaçados. Como? Acreditem: os postes estão fora de prumo, inclinados
para a rua e quando a porta do ônibus se abriu bateu em um deles (ou nos dois).
Mudamos para outro ônibus. Termino a viagem sentada confortavelmente na frente.
3 – Como hoje não choveu, achei uma boa ideia aproveitar para conhecer o parque Piqueri, o que venho planejando há quase dois meses, e o caminho melhor é pela Avenida Celso Garcia. Quando cheguei ao Terminal D. Pedro II, fui informada da paralisação dos ônibus por causa de um protesto que bloqueou o Terminal por volta do meio-dia. Oh! Céus! Mudei meus planos😔.
Acabo
de ler no UOL que o “Sindmotoristas, sindicato que representa os trabalhadores
do setor, declarou que não havia nenhum indicativo de greve e que o ato foi
promovido por integrantes de uma chapa de oposição. O sindicato repudiou a ação
e acusou os manifestantes de tentarem tumultuar o processo eleitoral da
entidade”.
As
fotografias da cidade de São Paulo do arquiteto Leonardo Finotti (1977) são
maravilhosas. A Caixa Cultural apresenta até abril “São Paulo – Multiplicidade”,
uma retrospectiva do trabalho de Finotti com dez séries produzidas por Finotti ao
longo da carreira: são paulo vertical, habitar mendes da rocha,
marketscapes, necropoli(s)tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos
tropicais, verAcidade e brutiful. Ele usou inclusive drones para fotos aéreas.
Destaque: quando vi a enorme foto aérea, pensei que se tratasse de um grande parque
rodeado por um bairro bastante populoso. Engano: trata-se do Cemitério da Vila
Prudente, na Zona Leste, que tem 763.175 m² e é considerado o maior da América
do Sul.