terça-feira, 15 de setembro de 2026

A PENHA DE PAULO EIRÓ

 

Fui algumas vezes ao bairro da Penha, que é sede do Distrito e da Subprefeitura. O bairro paulistano é bem antigo. Data dos tempos do bandeirantismo e seu nome está ligado à devoção dos antigos moradores à Nossa Senhora da Penha de França cuja história milagrosa teve início naquele país, se espalhou pela Espanha e no século XVI foi introduzida no Brasil a partir do Rio de Janeiro. A santa sempre é coloca no alto de um penhasco, conforme a lenda original. Em São Paulo conta a tradição que um soldado francês devoto da Nossa Senhora da Penha esqueceu a imagem da santa ao se retirar da cidade e, quando deu pela falta dela, voltou para reavê-la, mas na noite seguinte, a fato se repetiu outras vezes até que ele resolveu construir uma igreja para que a santa se mantivesse naquele local.  Essa seria a origem da chamada igreja velha em 1667, a matriz Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha que ocupa a Praça do mesmo nome. Foi em torno dela que se desenvolveu o povoado. Em meados do século passado foi construída a Basílica de Nossa Senhora da Penha, uma das maiores e mais bonitas igrejas paulistanas. Como fica no alto do morro, pode ser vista de longe (por enquanto, dada à atual voracidade da construção civil).

            A capela de Nossa Senhora do Rosário, erguida pela Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, domina a praça no centro histórico do bairro. O pedido de construção data de 16 de junho de 1802: originalmente, era de taipa de pilão e em estilo colonial. Apesar das reformas que sofreu – a torre, por exemplo, passou de um lado para outro –, mantém algumas características originais. É tombada pelo CONPRESP e CONDEPHAAT.

            Quatro cursos d’água banham o bairro: os rios Tietê e Aricanduva e os córregos Tiquatira (que recebeu um parque linear) e Rincão. Curiosidades do bairro: a Avenida Celso Garcia termina à margem do rio Aricanduva, enquanto mais adiante a Estrada Velha da Penha transpõe o rio. Nos tempos coloniais, os viajantes que partiam de Piratininga podiam usar o rio Tietê (Anhembi, na época) ou pelo caminho da mata usado pelos índios Ururaí. O rio era mais seguro e fácil, pois permitia o contorno da colina por meio do Aricanduva e Tiquatira. O caminho, que começava na Várzea do Carmo, era conhecido pela população por vários nomes – um deles Caminho da Penha de França. Benfeitorias foram lentas: em 1864 o padre Joaquim do Amaral Gurgel informava que “está quase concluída a Estrada da Penha, obra importante por ser uma das estradas desta capital por onde se estão edificando muitas casas, prometendo em futuro não remoto, ficar uma rua até a igreja da Penha”. Desse trajeto histórico sobraram cerca de 400 metros que são a Estrada Velha da Penha, uma rua que nem saída tem.

O poeta Paulo Eiró (1836-1871), que era de Santo Amaro, passou pela Penha por volta de 1855, e escreveu este poema sobre o vilarejo:


PENHA

Essas formas caprichosas,

Ondulações graciosas

Das montanhas mais extremas,

Veladas de nevoeiros,

Coroadas de Pinheiros,

Seus duráveis diademas;

 

Esse caminho deserto,

O sol que luz tão incerto,

Que os véus da manhã inflama;

O suavíssimo cheiro

Das flores de pessegueiro

Que nos ares se derrama;

 

Do campo a calma severa,

A frescura da atmosfera

E o leve soprar do vento,

Abanando a rosa e o louro,

Inundam, torrente de ouro,

Meu cansado pensamento.

 

Sempre assim, a natureza

Sua pródiga beleza

Revela por toda a parte,

Seja amável, seja austera,

Quando os ornatos esmera,

 quando tosca e sem arte.

 

Mas o berço, mas a infância

Verte angélica fragrância

Em seu primeiro véu.

Aos olhos do desterrado,

É triste o mais ledo prado,

Sombrio o mais puro céu.

 

A que devo, então, ó Penha,

Eu meu olhar se detenha,

Com tanta indulgência, em ti?

Que deslembre o paraíso,

Onde o primeiro sorriso

De minha mãe recolhi?

 

Deverei ao santo templo

Que com júbilo contemplo

A erguer-se na solidão,

Semelhando-se à asa branca

De um anjo que o pranto estanca

Sobre o cálix da oração?

 

Ou devo a essa voz secreta

Que fala baixo ao poeta,

Quando mais perto de Deus?

Adeus, ó Penha de França,

Levo comigo a esperança

De dizer-te um dia... adeus!

            Um dos pontos importantes do bairro é o Centro Cultural da Penha que reúne o Espaço Cultural Mário Zan, a Biblioteca José Paulo Paes, o Teatro Martins Pena, o Estúdio Itamar Assumpção e salas de estudos. Largo do Rosário, 20.

Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha – Praça Nossa Sra. da Penha, 20.

Basílica de Nossa Senhora da Penha – Rua Santo Afonso, 199

Capela de Nossa Senhora do Rosário – Largo do Rosário, 4.





Ao longe à direita a Basílica.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DUAS EXPOSIÇÕES IMPERDÍVEIS

Oportunidade imperdível: ver em São Paulo obras originais de dois artistas magistrais: “Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra" até o próximo dia 27 de setembro no Centro Cultural Caixa, e “Miró: Mestre das Formas”, no Museu de Arte Brasileira / FAAP até 12 de outubro de 2026.

A exposição da Caixa Cultural reúne 69 gravuras originais, produzidas entre 1620 de 1665, sobre temas variados – retratos, cenas cotidianas, paisagens e narrativas religiosas. Pintor e gravador neerlandês, reconhecido como um dos maiores nomes da arte europeia, Rembrandt van Rijn (1606- 1669) viveu no século de ouro dos Países Baixos, entre o final do século XVI e início do XVIII. O curador é o historiador italiano Luca Baroni, diretor da Rete Museale Marche Nord,

O público dispõe de áudio-guia, conteúdo em braile, vídeos em libras, ambiente sensorial, sala imersiva, além de lupas para ver detalhes das gravuras menores. Há ainda uma representação holográfica do holandês em tamanho real.

A entrada é gratuita. Praça da Sé, 111. Metrô Sé. Linha Azul.

Visitação: de terça a domingo, das 9h às 18h até 27 de setembro de 2026. Informações: (11) 3321-4400, 

 



O Museu de Arte Brasileira/FAAP exibe “Miró: Mestre das Formas”. São mais de cem obras do artista catalão – pinturas, gravuras, esculturas, tapeçarias e fotografias. A mostra cobre mais de seis décadas de produção de Joan Miró (1893-1983), muitas das quais inéditas no Brasil. A curadoria é do espanhol Jordi J. Clavero e a realização é do Instituto Totex.

Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia).

Museu de Arte Brasileira MAB FAA: Rua Alagoas, 903, Higienópolis.

Visitação: de terça a domingo, das 9h às 20h (última entrada às 19h) até 12 de outubro de 2026. 



quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CHUVA E LEMBRANÇAS

 

Ontem, numa conversa com minha amiga Ercília, falando das chuvas, lembrávamos dos dias de tormentas e enchentes na Baixada Santista, quando éramos escaladas para cobrir as consequências das inundações pela Baixada. Era um trabalho difícil, mas nunca deixamos de ir aos locais atingidos, conversar com a população e ouvir queixas sob chuva e em meio a torrentes de água suja.

Uma das primeiras reportagens que eu fiz foi na antiga Rodovia da Banana, que liga Peruíbe à Ana Dias, e que se chama desde 2021 Rodovia Coronel Rodolpho Pettená. Foi em 1970. Era foca. Nunca tinha ouvido falar em Ana Dias. Eu e o fotógrafo estávamos com sorte; fomos numa caminhonete F 100– nos dias ruins teria sido ou Kombi ou Fusca. Não lembro mais dos detalhes apenas que a pista da estrada era um lamaçal só e os caminhoneiros estavam isolados em uma área além de alguma curva. Claro que hesitei, mas tirei os sapatos e enfiei os pés na lama literalmente. Curioso, o motorista do jornal foi junto. O fotógrafo registrou o fato e a foto foi publicada no dia seguinte na primeira página ilustrando a reportagem.

Da primeira enchente não esqueci. Das outras tantas e tantas me lembro vagamente. Lembro de duas enchentes na Zona Noroeste: uma em que eu e o outro jornalista escalados navegamos por uma avenida a bordo de um barquinho; e a outra com a amiga Ercília, quando empurramos uma Kombi atolada e eu perdi um pé da babucha que usava. (Repórter nunca sabe onde será o seu próximo trabalho e esse é o encanto da profissão.) No dia seguinte comprei uma galocha que ficava no jornal para essas coberturas. Um dia escreverei sobre a última, que foi em Cubatão já nos anos 1980.

Bons tempos.

Estrada da Banana: Jornal CIDADE DE SANTOS.

Avenida na Zona Noroeste de Santos. Ano: 1970.


FERNANDO PESSOA E A CHUVA

 

"CHOVE. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente..."

 

Fernando Pessoa (1888-1932) / Cancioneiro.



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SETE DE SETEMBRO

 

No dia 7 de setembro as atenções voltam-se para o Alto do Ipiranga, onde o príncipe regente D. Pedro (1798-1834) proclamou nossa Independência às margens do riacho do Ipiranga, hoje tão abandonado. Entretanto, o bairro Penha de França, ou apenas Penha, também teve um papel importante nessa História que aconteceu em 1822  O príncipe e comitiva partiram do Rio de Janeiro, no dia 14 de agosto, com destino à Província de São Paulo que vivia uma crise política: em maio daquele ano houve uma revolta de militares e civis, liderada por Francisco Inácio de Souza Queiroz, que culminara com a destituição do governo e criara uma situação de instabilidade política.

Foi uma longa viagem a cavalo e em mulas, com paradas para pernoites até que no dia 24 de agosto, uma sexta-feira, chegou à Penha de França: “A 24 de agosto chegou o príncipe à povoação da Penha de França, a légua e meia da capital, onde pernoitou, expedindo daí o decreto que dissolveu o governo provisório, e ordenou que saíssem obrigatoriamente da capital os principais fomentadores dos movimentos subversivos (ocorridos entre maio e julho)”.

No dia seguinte, D. Pedro assistiu missa antes de partir para São Paulo. A entrada do regente teve caráter oficial – foi recepcionado por vereadores, religiosos e pelo povo em frente à Igreja da Ordem Terceira de N. Sra. do Carmo (Av. Rangel Pestana, 230). Foi hospedado pelo coronel Antônio da Silva Prado. Barão de Iguape, e depois na casa de Manoel Rodrigues Jordão, o brigadeiro Jordão, na cidade. Ele ficou dez dias em São Paulo em articulações políticas até a partida para Santos, cidade natal de José Bonifácio de Andrade e Silva, no dia 5 de setembro. Na volta de Santos, às margens do riacho do Ipiranga, houve o encontro com o mensageiro Paulo Bregaro, oficial do Tribunal Militar, com as cartas que definiram o momento da Independência.

Era 7 de setembro de 1822. Um sábado. Na mesma noite, D. Pedro compareceu à Casa da Ópera que ficava na região do Pátio do Colégio, onde foi aclamado espontaneamente pela população que lotou o teatro. 

Placa localizada na Basílica de Nossa Senhora. da Penha.

A Basílica ainda pode ser vista da estação Penha do Metrô.


O Museu Paulista do Ipiranga e o busto de José Bonifácio, o Patriarca da Independência.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

DESENCONTROS E ENCONTROS

 Quando eu digo que São Paulo é cheia de surpresas, não acreditam. Hoje, conheci o túmulo de Marlene Dietrich.

Fui ao Cemitério da Consolação para conversar com Popó, o responsável pelas visitas guiadas; porém, fiz um caminho diferente: desci na Avenida Angélica e entrei pela portaria da Rua Mato Grosso. Claro que me perdi porque da rua vi o topo do maior mausoléu da América Latina, que pertence à família Matarazzo, e fui lá dar uma olhada (acho que não havia visto ainda). E logo estava indo para lá e para cá observando esses resquícios da vaidade humana. Tive que pedir ajuda ao funcionário que passava soprador de folhas nas alamedas. Popó não estava. Terei que retornar outro dia. Na saída, fui até a Rua Sergipe pegar o ônibus, quando avistei o Cemitério dos Protestantes cuja história conhecia sem tê-lo visitado. Não perdi a oportunidade. Fui entrando. Muito bonito. Simples e pequeno. Sem ostentação. Caminhei observando pelos nomes inscritos nos mausoléus a origem das famílias que formam nossa sociedade. E foi assim que me deparei com Marlene Dietrich – ela nasceu em 1934, quando a atriz alemã, naturalizada estadunidense, já era um imenso sucesso – e faleceu em 2011. A estrela de “O Anjo Azul” nasceu em 1901 em Berlim e faleceu em 1992 em Paris. Espero que esta sra. Marlene Dietrich, que descansa aqui, não tenha passado por situações desagradáveis por ter sido xará da estrela.


h..

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O CINEMA QUE VIROU ESTACIONAMENTO

 

O cinema Paissandu era um luxo. No saguão, o espectador admirava três painéis de 15 m de extensão representando o folclore nacional – Bumba-meu-boi, Candomblé e Fandangos. A sala de espera de 900m² tinha ambiente acolhedor: poltronas confortáveis, luz suave, ar condicionado e música de alta fidelidade. Enquanto esperava, o público podia admirar um grande painel que remetia à “Nau Catarineta”, poema épico português. A sala de exibição tinha capacidade para 2.196 pessoas! A tela media 7m30 por 15m30. Atualmente, a maior sala de cinema de São Paulo tem capacidade para 512 pessoas! A decadência do cinema começou nos anos 1970 e agora é um estacionamento, apesar de ter sido tombado pelo patrimônio histórico do município em 1992. O Cine Paissandu foi inaugurado com uma sessão beneficente na noite de 19 de dezembro de 1957 e a primeira sessão para o público foi no dia 20. O filme exibido foi “Guerra e Paz”, baseado no romance de Leon Tolstói e dirigida por King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer.

 

Largo do Paissandu, 60.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O MIRANTE DA RUA AVANHANDAVA

 

Depois de subir e descer várias escadarias pelo Centro Histórico, Aclimação, Bela Vista e até no Pacaembu, soube da existência de um Belvedere na Rua Avanhandava, que pertence ao Distrito da República. E andei ali por perto vendo as escadarias do Viaduto Nove de Julho! Inconformada fui procurar o belvedere.

Comecei caminhada pela Praça Ramos de Azevedo, segui pela Rua Xavier de Toledo – movimentada como sempre, mas desta vez tinha uma novidade: a loja que resolveu “baixar as calças” para incrementar as vendas. Na Consolação, sigo pela Rua Martins Fontes (“paulista eu sou há 400 anos”) e chego à graciosa Rua Avanhandava, que acolhe o pedestre com uma floricultura e uma fonte. E, se for hora do almoço ou jantar (lanche também serve), difícil é escolher onde entrar. Só a tradicional “Famiglia Mancini” oferece várias opções. Meu interesse, entretanto, é o belvedere, mas logo percebo que é melhor usar “mirante”, pois a palavra belvedere só foi reconhecida pelos mais antigos.

        Enfim, a escadaria que fica bem em frente à saída para a Avenida Nove de Julho. Olho bem, mas sempre surge a dúvida: será que consigo a proeza? Afinal são 120 degraus e obviamente não há mais paisagem para admirar. Fui em frente e subi sem problema e ainda sobrou fôlego para voltar pela Rua Augusta, dar uma espiada no Parque Augusta, retornar pela Consolação, admirar a Igreja da Consolação restaurada, atravessar a Praça Roosevelt, olhar os cartazes da peça em cartaz no Teatro do Jaraguá, e na Avenida São Luís sentar-me no banquinho à espera de condução.😊




A história da Rua Avanhandava começa em 1920, quando a Cia. City iniciou a urbanização daquela área. A prefeitura autorizou a empresa a aproveitar a encosta entre a Rua Augusta e a Avenida Anhangabaú (atual Nove de Julho) em obras de implantação na época. A Avanhandava ficou pronta em 1928 e o nome é uma referencia a uma cachoeira localizada à margem direita do Rio Tietê na região em que hoje situa-se Penápolis. No local havia também um forte, erguido em 1858, que teve papel importante na Guerra do Paraguai. Nem a cachoeira nem o forte existem mais.