segunda-feira, 2 de março de 2026

A FALSA-SERINGUEIRA

 


Condução nos finais de semana é como jogar – depende de “sorte”. Sábado depois de esperar um ônibus por 40 minutos, embarquei um tanto aborrecida. Sentei no banco preferido, o solitário de frente para o cobrador que me livra de vizinhos contadores de casos; entretanto, não tem funcionado muito. Houve um dia em que o cidadão ficou de pé de frente para mim, mas felizmente minha carranca não o animou a puxar conversa; no sábado, acabei enredada numa prosa que no final até foi interessante.

Um senhor sentou-se, no banquinho do acompanhante de cadeirante já que não havia nenhum dois – nem o cadeirante nem o acompanhante. Não sei quando a senhora se acomodou no banco do corredor da outra fileira. O trânsito estava igualzinho à hora do rush, como se dizia antigamente.

Foi uma glória conseguirmos chegar à Rua da Glória para acessar a Conselheiro Furtado e foi ali, na esquina onde paramos mais uma vez, que o senhor suspirou ao ver a árvore que tomou conta de um canteiro que divide as duas ruas com a São Joaquim. Suspirou e comentou em voz alta para ninguém em especial que ao chegar a São Paulo há mais de cinquenta anos a árvore já estava ali. Como crescera e estava tão bonita! A árvore – uma falsa-seringueira – também era velha conhecida da senhora do corredor ao lado. Veio para São Paulo há quarenta anos e também se lembrava bem da árvore.

Assim, a falsa-seringueira acendeu as lembranças dos dois passageiros. Ele morou muitos na região que aprecia muito e onde ainda trabalha; morar, ele mora em São Mateus. A senhora continua no bairro e, lá pelas tantas, interrompe as recordações do senhor para perguntar se não é ele quem deixa o carro na rua (não lembro) todo dia. Sim, ele mesmo. Ela já vai dizendo que ele deve ter conhecido o Bigode, marido dela. Ele não ouviu e continuou apontando lugares que existiram por ali e que desapareceram com o passar dos anos.

Ele fala do desaparecimento dos postos de gasolina e, essa foi a minha deixa para entrar na conversa, pois estávamos passando pela Praça Almeida Júnior: “Ali havia um enorme posto de gasolina substituído por um prédio de quatro andares que foi construído aos poucos e onde há um mercado de peixe e um hortifruti”. Ele suspira um tanto sorumbático com tantas coisas que ele viu em seus 72 anos de vida. Eu procuro animá-lo: “o senhor tem o que recordar porque viveu e tem uma história na cidade”.

Quem mandou abrir a boca? Ele diz que eu também tenho histórias e só não quero contar. Vira-se para a esposa do Bigode e avalia que ela tem uns cinquenta e poucos anos. Ela ri e confessa os 81. Ele me encara e digo que pode contar com mais oitenta da minha parte.

Os dois descem na Sé, esquecidos da falsa-seringueira, originária da Ásia e usada em ajardinamentos.

As pessoas não respeitam a natureza e despejam o lixo no canteiro.


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