quarta-feira, 29 de julho de 2026

NADA FEITO

 


Ontem, saí com quatro objetivos – coisa rara, geralmente, um é o suficiente e muitas vezes ainda mudo de ideia e faço algo completamente diferente; entretanto, decidi aproveitar o caminho que me possibilitava cumprir as metas de uma vez só. As duas primeiras não deram certo; quanto à terceira, era essencial para cumprir a última. E foi aí que as coisas desandaram. Orientação de um motorista de táxi foi para seguir determinada rua que terminava onde eu queria ir. 

Ruas com casas de alto padrão são desertas. Vê-se apenas a parte superior das residências, porque os muros maciços escondem o resto. Toda a área fartamente arborizada, o que dá um frescor ao início da tarde; porém, as calçadas, surpreendentemente, deixam muito a desejar. Os moradores devem usar carro e não os pés para se locomoverem. Não ouço passarinhos – creio que nem eles aguentam tal marasmo. Seis quadras de tédio e nada de chegar ao final dessa triste rua. Avisto uma guarita com um rapaz que me garante que estou chegando. Nesse ponto, ouço gorjeios...

Calculei que havia andado ao todo uns três quilômetros – contando a minha saída do metrô até aquele momento. Bom senso disse que devia desistir dos dois últimos objetivos. Voltar? Nem pensar. Pedir informações seria uma boa iniciativa. Por sorte vi um rapaz apressado (como eu devia ser estrangeiro no bairro), com fones nos ouvidos, que me indica o metrô. Mais adiante, dois valetes sob um guarda-sol conversam; passo por uma igreja onde mesas cobertas com toalhas brancas parecem esperar os fiéis para um café da tarde. Será que os valetes são ligados ao evento?

Chego à terra prometida, mas nada me lembra a estação a que cheguei. Trabalhadores em uma obra em pausa de lanche garantem que a estação é do outro lado da rua, mas recomendam que use a passarela (que passarela?). Subo e desço escadas e me deparo com uma estação da CPTM. Trem? Eu perguntei pela estação do metrô e me indicaram a ferroviária? Fica a dúvida: as pessoas não distinguem um tipo de transporte do outro? Ou não ouvem o que se pergunta?

Na bilheteria, a moça me orientou gentilmente e embarquei de mãos vazias como cheguei por lá. As árvores e suas flores compensaram uma tarde complicada.

domingo, 26 de julho de 2026

UM CAFÉ EXPRESSO, POR FAVOR.


O poeta Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos no dia 26 de julho de 1895 – exatos 131 anos. Advogado, poeta, crítico literário e jornalista, ele foi um dos grandes nomes do movimento Modernista de 1922.

                                                            


CAFÉ-EXPRESSO*

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...


Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!


*Mantive a grafia original. O poema é de 1928.

sábado, 25 de julho de 2026

A VIDA NUM PISCAR DE OLHOS

 

“– A vida das gentes nesse mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos; por fim pisca uma última vez e morre.”

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”

MEMÓRIAS DA EMÍLIA (1936), 1936.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

COLÔNIA DA GLÓRIA


Vez por outra passo por lá de ônibus e o nome da rua chamou minha atenção. O que seria essa Colônia da Glória que mereceu ser denominação de uma rua na Vila Mariana? Lá fui eu pesquisar. No século dezoito, a área urbana da cidade restringia-se ao atual Centro Histórico e o entorno consistia em zona rural. A área da Chácara da Glória pertenceu a Antônio da Silva Brito, que vendeu a propriedade em 1737 e a partir daí foi sendo vendida até que foi adquirida pela Fazenda Nacional e comprada pelo bispo de São Paulo, Dom Mateus de Abreu Pereira (1742-1824). O que me espantou foi o tamanho da chácara que, segundo o Waldir Pires, arquiteto da SMC, “corresponde aos atuais bairros do Cambuci, Glória, parte da Aclimação e Vila Mariana”. Quando o bispo morreu, a propriedade foi a leilão, sendo arrematada pela Fazenda Nacional. O Governo Imperial resolveu então aproveitar a infraestrutura da propriedade para instalar o Seminário das Educandas de Nossa Senhora da Glória destinado à educação de meninas órfãs. O seminário ficou por lá até outubro de 1825 a 1844, quando foi transferido para a região central da cidade e a chácara passou para o Ministério da Agricultura pelo governo imperial para estabelecer o serviço de colonização estrangeira.

Em 1862, o jornal Correio Paulistano publicou o folhetim “Ruinas da Glória – conto fantástico” do escritor Fagundes Varela (1841-1875) que usou como cenário da história a chácara, dando a entender que ela estava abandonada.

Na segunda metade do século dezenove, foi organizada uma comissão para demarcar e organizar a implantação de quatro colônias para imigrantes em São Paulo – Glória e Santana (julho), São Caetano (agosto) e São Bernardo (setembro) de 1877. A implantação do projeto dos Núcleos teve vários problemas – financeiros, salubridade e organização. Se a Colônia da Glória falhou como área agrícola, teve um papel importante “no processo de ocupação territorial intenso, voltado para a explosiva expansão urbana que se iniciou em São Paulo na última década do século dezenove” (Walter Pires). No final do século, os negócios imobiliários na antiga colônia tornam-se intensos – uma das áreas vendidas foi usada para a implantação do jardim da Aclimação.

Fonte: “Configuração territorial, urbanização e patrimônio: Colônia da Glória (1876-1904)”, de Walter Pires. Dissertação de Mestrado, FAU/USP - 2003.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

ISMÁLIA E AS LUAS

Lado oculto da Lua - foto NASA. 

E não é que hoje é o dia internacional da Lua? Explicado porque sou aluada! Nosso satélite é lindo. Esta madrugada parecia uma joia sobre veludo azul. (É, eu sei, nada original.) Hoje é o último dia de Lua nova. Amanhã, quarto crescente.

O aviador brasileiro Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho (1873-1932), mas a data refere-se ao dia em que o astronauta americano Neil Armstrong (1930-2012), no comando da missão Apollo 11, pousou na Lua: 20 de julho de 1969.

 “Ismália”

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…

Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Poema de Alphonsus de Guimaraes (1870-1921), considerado o melhor poeta do movimento simbolista no Brasil.

domingo, 19 de julho de 2026

CASINHA PEQUENINA

 

Casa bandeirista: Sítio da Ressaca, Jabaquara. Foto: Hilda Araújo.

A música de domínio público teve várias gravações, mas prefiro a interpretação de Sílvio Caldas (1908-1998).

https://www.youtube.com/watch?v=-KnPe35nRjc 


Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu, ai
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu

Tinha um coqueiro do lado
Que, coitado, de saudade, já morreu
Tinha um coqueiro do lado
Que, coitado, de saudade, já morreu

Tu não te lembras das juras, ó, perjura
Que fizeste com fervor, ai
Tu não te lembras das juras, ó, perjura
Que fizeste com fervor

Daquele beijo demorado, prolongado
Que selou o nosso amor
Daquele beijo demorado, prolongado
Que selou o nosso amor


sábado, 18 de julho de 2026

CHAMINÉS: MARCOS DE UMA ÉPOCA

As chaminés industriais também têm histórias para contar. A maioria desapareceu, outras estão abandonadas e algumas encontram-se bem preservadas, inseridas em espaços nobres. Construídas em alvenaria de tijolos, cujo tom brique se destaca na paisagem urbana, essas centenárias chaminés são marcos da industrialização de São Paulo. Altas e robustas, elas eram construídas de dentro para fora, com auxílio de barrotes de apoio para o assentamento de tijolos e argamassa, pois andaimes ainda não eram usados. Como as chaminés precisavam (precisam) de manutenção, uma abertura na base suficiente para a passagem de uma pessoa e no interior havia uma escada com varões de ferro com degraus de quarenta centímetros de altura.

Nas minhas caminhadas pela cidade, encontrei várias, inclusive as chaminés dos antigos incineradores de lixo. Elas têm altura que varia entre 30 e 50 metros por dois motivos: precisavam ser altas para evitar que a fumaça expelida não afetasse a vizinhança e para que a eficiência fosse garantida; contudo, a altura não era aleatória, tinha que ser adequada ao volume do fumo produzido. Com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em 1972, as chaminés foram desativadas aos poucos porque houve a conscientização da sociedade em geral sobre questões ambientais, além da modernização dos sistemas produtivos. 

Uma chaminé, entretanto, tem uma história especial. A Chaminé da Luz, que pertenceu à antiga Usina Elétrica da Luz, teve um papel importante no processo de eletrificação da cidade de São Paulo. Ela ficou pronta em 1896 e em 1924 foi alvo de bombardeios pelo governo federal durante a rebelião tenentista que ocorreu entre 5 e 28 de julho, matando cerca de mil pessoas, enquanto cerca de quatro mil ficaram feridas. O objetivo da revolta foi a deposição do presidente Artur Bernardes (1875-1955), fato que o levou a decretar estado de sítio até quase o final do governo. Há alguns anos o Ministério Público condenou o governo do Estado a restaurar a chaminé, que ainda mantém resquícios da revolta em suas paredes. (Rua João Teodoro, 155 - Bom Retiro).

Companhia Antarctica Paulista: Avenida Presidente Wilson, Mooca.


Chaminé da Companhia Refinação União integrada ao jardim do condomínio.
Rua Borges Figueiredo.

A Chaminé da Luz, no Bom Retiro.


A chaminé situada no Parque D. Pedro II, que aparece em muitas fotos que fiz pelo Centro, também pertenceu à antiga Usina Elétrica da Luz, de acordo com a IA (não confio muito nela). 

A chaminé vista do Palácio das Indústrias.


Vista da Rua Vinte e Cinco de Março.


E de outro ponto do Parque.


 Numa viela, uma chaminé ao lado do conjunto de galpões da antiga Serraria Americana, que funcionou na Rua Tagipuru, 709, na Barra Funda.


 

 Há ainda as três chaminés da Casa das Caldeiras, década de 1920, na Água Branca. Tombamento do conjunto pelo CONDEPHAAT: 1986.

Há duas chaminés dos antigos incineradores de lixo: Vergueiro (Rua Breno Ferraz do Amaral, 390 próximo à estação Santos-Imigrantes) e Pinheiros (Rua do Sumidouro., Parque Victor Civita). 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A MOOCA DOS BISCOITOS, PANETONES E ALPARGATAS


Vista parcial fábrica da Companhia Antarctica Paulista: Avenida Presidente Wilson.

A Mooca foi um dos grandes polos industriais da cidade. Um rápido olhar pela lista de empresas instaladas naquela região há um século é possível imaginar que quase tudo que se precisava era produzido ou passava por lá – desde velas e sabão, a fósforos, chuveiros, tecidos, biscoitos, açúcar, panetones, sapatos de qualidade e alpargatas e cerveja. O trajeto do trem da Linha 10 – Turquesa Brás-Ipiranga dá uma percepção do que era a região na primeira metade do século passado: uma longa sequência de galpões industriais, agora abandonados, a maioria semidestruída. A ferrovia foi o motivo da instalação das indústrias naquela área, pois facilitava o transporte dos insumos e das mercadorias.

A Mooca é um bairro de muitas origens – a italiana predominava, mas ali conviviam alemães, franceses, escoceses, libaneses, holandeses, espanhóis e portugueses entre outros. Uma das primeiras indústrias instaladas na Mooca foi a Cervejaria Bavária, fundada em 1892 pelo alemão Heinrich Stupakoff (1856-1920), numa área de 23 mil metros quadrados, na Avenida Bavária, atual Presidente Wilson, 307. As instalações da empresa incluíam um depósito de cevada, um edifício destinado a adegas, uma chaminé de cinquenta metros de altura e um conjunto de casas para operários. Havia ainda no local dois poços artesanais com 130 m de profundidade e capacidade de 250 mil litros de água para a fabricação do gelo e da cerveja – em caso de falta d’água no bairro, a população recorria à empresa.

Em 1904 a Companhia Antarctica Paulista – Fábrica de Gelo e Cervejaria, que nascera modesta, já havia crescido a ponto de adquirir o controle da Cervejaria Bavária. A Antarctica surgiu a partir da sociedade de outro alemão, Louis Bücher, proprietário de uma pequena cervejaria, com Joaquim Salles, dono de um matadouro e uma pequena fábrica de gelo subutilizada, na Água Branca, nas imediações das ferrovias SPR e a Sorocabana. O empreendimento foi um sucesso: em 1895, a companhia tornou-se sociedade anônima e em 1904 ao adquirir a Bavária, mudou para a Mooca.

Uma empresa tão poderosa que construiu uma área de lazer de trezentos mil metros quadrados para os funcionários, onde havia campo de futebol, quadra de tênis, pista de atletismo, parque infantil, restaurantes e, naturalmente, uma choperia.  Esse era o Parque Antarctica, que também desapareceu.

Estes foram alguns dos empreendedores que transformaram a Mooca num dos bairros mais importantes da história da cidade: Heinrich Stupakoff – Cervejaria Bavária, depois comprada pela Antarctica; Donato Di Cunto – padaria e confeitaria, firme e forte no mesmo endereço; Francisco Matarazzo – Indústrias Reunidas Matarazzo; Alessandro Lorenzetti – fábrica de parafusos; Pierre Duchen – biscoitos amanteigados; Vittorio Migliora – Fiat Lux; Egidio Pinotti Gamba– Moinhos Gamba ou Moinho Santo Antônio; Robert Fraser – Alpargatas; Irmãos Giuseppe e Nicola Puglisi Carbone – Companhia União dos Refinadores – Açúcar e Café entre muitos outros.


Parte do prédio ainda com os tijolos originais.





Largo São Rafael.

Rua Borges de Figueiredo, que concentrou grandes indústrias.



quinta-feira, 9 de julho de 2026

VIVA A MOOCA!



Nesses tempos de muita pressa, difícil reconhecer o Lirismo ou se perder em Alta Floresta, porém aqui se trata de duas ruas da Mooca, tradicional bairro paulistano, sede da Subprefeitura da Mooca. A caminhada pela Mooca foi muito agradável, entretanto, pouca coisa sobrou da história do bairro. É lamentável ver o abandono de espaços que poderiam ter sido preservados para uso comum ou empreendimentos comerciais. Mais triste ainda ver a demolição da antiga fábrica de sapatos da Clark. Mais um prédio muito bonito que desapareceu...

O nome do bairro é quatrocentão. Remonta aos tempos em que os silvícolas viviam no planalto e, diz a lenda, observando os homens brancos preenchendo com barro amassado o arcabouço de varas amarradas para fazer paredes, diziam “moo-Ka” (moo-oca) – o que significa, segundo alguns, “eles estão fazendo casas”; porém, de acordo com outros, a expressão seria mũoka, que significa "casa de parente.

A ocupação da área foi lenta até que no final do século XIX a cidade se expandiu graças à ferrovia inaugurada em 1867, à industrialização que se seguiu e à chegada dos imigrantes que se estabeleceram pela região, especialmente italianos. A Mooca tornou-se um bairro operário. Em 1958 Adoniran Barbosa revelava o sonho de um trabalhador: “Lá no alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente dez de fundo, construí minha maloca*.”

Depois de um período em que a população diminuiu, o bairro voltou a crescer. A Mooca tem uma área 7,95 km², onde moram cerca de 81 mil pessoas (2017). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é dos mais altos:  0,909! A base da economia local é comércio e serviços. Na área de educação – além da educação infantil, ensino fundamental e médio público e privado, dispõe de duas universidades particulares. Quando o tema é cultura e entretenimento, há muito o que fazer. O Museu da Imigração do Estado de São Paulo, instalado no prédio da antiga Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo (1885), é um dos principais museus da cidade. Foi criado em 1993. A Biblioteca Municipal Mooca “Affonso Taunay” (1954) mantém várias atividades; se os cinemas de rua acabaram, o Shopping Mooca dispõe de salas modernas e confortáveis. O Teatro Arthur Azevedo, fundado em 1952, é tombado pelo CONPRESP.

Dois clubes da Mooca se destacam na história da cidade: o Jockey Club de São Paulo e o Clube Atlético Juventus. Antes da urbanização da Mooca, Rafael Aguiar Paes de Barros (1835-1889) fundou em sua fazenda Oratório um clube de corridas de cavalos nos mesmos moldes dos clubes ingleses. Reuniu 73 sócios e um capital de $ 9.990 réis e fundou em 14 de março de 1875 o Hipódromo da Mooca ou Club de Corridas Paulistano com capacidade para 1200 pessoas. A primeira corrida aconteceu em outubro de 1876 e estavam inscritos apenas dois cavalos: Macaco e Republicano. Vencedor: Macaco.

Logo o Hipódromo tornou-se uma atração e as pessoas que visitavam a cidade iam conhecer o “Prado”. A iniciativa incentivou o comércio da Mooca. A São Paulo Railway (SPR) tinha um ramal para atender especialmente aos frequentadores do Hipódromo. Desses tempos sobraram as ruas do Hipódromo e dos Trilhos, porque 1941 foi inaugurada a nova sede em Cidade Jardim com o novo nome:  Jockey Club de São Paulo. Aos poucos o hipódromo da Mooca foi se adaptando a novos usos: primeiramente como escola e oficina de preparação de cadetes da Aeronáutica e mais tarde a Prefeitura de São Paulo assumiu a área que abriga a Subprefeitura da Mooca e o Centro Esportivo Salim Farah Maluf.


Os funcionários do Cotonifício Crespi, que jogavam futebol de várzea, tinham dois clubes que se uniram em 1924 e formaram o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube. No ano seguinte, o conde Crespi cedeu uma propriedade entre as Ruas Javari e dos Trilhos para a construção do campo de futebol. A entidade nasceu modesta, mas se destacou nas competições e em 1930 mudou o nome para Clube Atlético Juventus – uma homenagem ao clube italiano. Cresceu e continua firme e forte na mesma Rua Javari. Nem é preciso dizer que o clube da Mooca é um dos mais queridos da cidade até hoje.

Em 1922 chegou o primeiro cinema do bairro “Palácio Moderno”, mais tarde Cine Teatro Moderno. Foi o primeiro de uma longa lista. Os amantes de teatro tiveram que esperar mais tempo. O Teatro Arthur de Azevedo (Av. Paes de Barros, 955) foi inaugurado em 1952 e tombado em 1992. A casa passou por obras de modernização e está em pleno funcionamento.




 
Rua Javari.

Foto do meu arquivo pessoal. Provavelmente, 2018.

 Continua: As indústrias que embalaram a Mooca.






terça-feira, 30 de junho de 2026

BOMBEIROS EM AÇÃO

 


Hoje pela manhã ao sair da acupuntura assisti aos bombeiros acudindo a um trabalhador acidentado, com apoio da Polícia Militar, na Vila Mariana. Não sei exatamente o que ocorreu, mas creio que foi uma queda do Viaduto Dr. Eduardo Saigh para a plataforma de trabalho que fica sobre o Riacho do Ipiranga. Sem querer acompanhei o atendimento de um profissionalismo irrepreensível do começo ao fim. A PM chegou uns segundos depois e imediatamente cuidou do trânsito, enquanto os bombeiros se movimentavam na plataforma. Nada de pressa, mas muita eficiência. Nenhum grito, apenas coordenação de movimentos. Tudo feito com a calma que essas situações exigem. Em vinte minutos os bombeiros iniciaram a descida da maca por uma escada apoiada nas estruturas da plataforma: o trabalhador imobilizado foi transportado com cuidado e depois colocado no carro de resgate. Eu relutei em fotografar, mas acabei registrando o final. Espero que o rapaz se recupere, não tenha sequelas e retorne à vida normal. Dois de julho, Dia do Bombeiro. Aqui fica minha homenagem a eles.

sábado, 27 de junho de 2026

UMA ÓTIMA SÉRIE INFANTIL

 


Não posso dizer que sou fã de ficção científica, mas li Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur Clarke, George Orwell entre outros. Na adolescência, entretanto, não perdia os episódios de “Perdidos no Espaço” (1965-1968) e, sinceramente, só me lembrava das maldades do Dr. Smith (Jonathan Harris), dos belos olhos de Don West (Mark Goddard) e do robô que sempre gritava “Perigo! Perigo!’, alertando os pioneiros das galáxias sobre alienígenas. A bem da verdade, o grupo de terráqueos era alienígena. A mania dos produtores e escritores de descrever extraterrestres como monstros nunca me agradou. “Quanto à “Jornada nas Estrelas” (setembro de 1966 a junho de 1969), assisti apenas a alguns episódios porque achava a série enfadonha e não gostava dos protagonistas. Spock (Leonard Nimoy) era o mais interessante do grupo. As duas séries foram produzidas antes da histórica viagem da Apolo 11 à Lua, que ocorreu em 20 de julho de 1969.

Há alguns meses resolvi rever “Jornada nas Estrelas” e depois “Perdidos no Espaço” – aquela para tentar descobrir o que tanto atrai marmanjos a ponto de se fantasiarem para irem a “convenções” sobre a série, promovidas em vários locais dos Estados Unidos. E no final concluí que “Perdidos no Espaço” é uma ótima série destinada ao público infantil.

“Perdidos no Espaço” tem uma história interessante. A série "Zorro", estrelada por Guy Williams (1924-1989), teve sucesso, mas foi cancelada na terceira temporada com planos de continuidade, o que não aconteceu. Williams gostou do projeto de "Perdidos no Espaço” e aceitou o papel do professor Robinson, desde que fosse o protagonista, porém, ele não contou com a força do vilão (Dr. Smith) que Jonathan Harris (1914-2002) desempenhou com maestria, roubando todas as cenas. Outra surpresa foi o pequeno Billy Mumy (1954), no papel de Will, o filho do Professor Robinson, que é um pequeno gênio cheio de curiosidade, capaz de argumentar com os adultos com clareza e muita sensibilidade. Apesar de todas as maldades de Smith, ele compreende as fraquezas de caráter da pessoa responsável por todas as desventuras do grupo. Há um terceiro elemento que também se destaca na história: o Robô. Assim, Guy Williams teve que lutar para manter seu nome nos créditos como protagonista da série, de acordo com algumas fontes.  

Os episódios têm histórias muito boas e restam alguns mistérios. Exemplo: como o Dr. Smith, que depois de sabotar a espaçonave e acabou preso na própria armadilha, participando da expedição apenas com a roupa do corpo, conseguiu o uniforme, um camisolão para dormir e uma porção de quinquilharias que exibe na série? A ideia da máquina de lavar que em segundos lava a roupa e entrega embalada em plástico é ótima. Maureen Robinson também tem uma “máquina de costura” fantástica!

O tema musical da série é de John Williams.

https://www.youtube.com/watch?v=P8p0wySXkXY 

Enfim, um misto de fantasia com ficção cientifica. E me diverti bastante 

O robô, Dr. Smith e Will.

EM TEMPO: Alguns episódios que remetem a temas infantis:

Na primeira temporada: A Lâmpada de Aladim (ep.11), O Pirata do Céu (ep. 18), O Espelho Mágico (ep.21). Segunda temporada: O Circo espacial (ep.5), Uma visita ao Inferno (ep.12), O fabricante de brinquedos (ep.18), Os vikings no céu (ep.20), A Caverna dos mágicos (ep.22). Terceira temporada: O Ataque dos Homens relógios (ep.3), A namorada do robô (ep.11), A Princesa do Planeta Gelado (ep.14), Penny, a Princesa do Espaço (ep.17), Concurso de Beleza Cósmica (ep.21).


https://www.youtube.com/watch?v=AekJVAN5ESE 

FAZER NADA PODE SER TRABALHO

 


Quando descobri que havia um curso de jornalismo, me interessei imediatamente, porque gostava de escrever e também porque um repórter não fica confinado num escritório – ele trabalha em campo e só retorna à redação para escrever as reportagens. O jornalismo não é entediante, mas bastante estressante. Volto ao assunto depois de ler uma matéria sobre uma pessoa extraordinária – Shoji Miromiti, 37 anos, um homem com pós-graduação em Ciências, que trabalhou em uma editora de material didático por anos, depois tornou-se escritor freelancer e teve outras atividades, mas a cada experiência desencantava-se com o trabalho aborrecido e estressante. Até que assumiu que gostava mesmo era de fazer nada.

Como viver sem fazer nada? Um dia descobriu que podia ser “Uma Pessoa de Aluguel que Não Faz Nada” – ele recebe simplesmente por estar presente. Publicou na internet um aviso sobre o serviço chamado “Alugue um Faz-Nada. Serve para qualquer situação em que tudo o que se quer é que uma pessoa esteja presente”. E em pouco tempo o serviço estava funcionando. Em um ano tinha cem mil seguidores e atualmente quase meio milhão. Já foi contratado mais de quatro mil vezes. E ainda pode escolher o trabalho.

Seus clientes são pessoas que querem companhia para ir almoçar, acenar para alguém que está chegando no aeroporto, ver um escritor bloqueado trabalhando... Exemplo de pedidos:

“Quero provar um frappuccino de hojicha (chá verde japonês) do Starbucks. Normalmente, gosto de coisas doces e ouvi dizer que não é assim tão doce, mas de qualquer modo gostava de experimentar. Acho que não vou conseguir bebê-lo todo, por isso, pode partilhá-lo comigo? Não gostaria de desperdiçar nada.”

Pode ser um paradoxo, mas o compromisso de sair de casa, dirigir-se ao encontro da pessoa e estar lá consiste no trabalho.

Vale a pena ler a reportagem.

https://sapo.pt/artigo/o-japones-shoji-miromiti-e-uma-pessoa-de-aluguer-que-nao-faz-nada-uma-historia-inacreditavel-6a3f87dd0090288908c75abc

domingo, 14 de junho de 2026

UM FILME EMOCIONANTE

 

Mont

A II Guerra acabou, mas restaram a destruição das cidades e multidões de pessoas desamparadas, sem casa, alimentação e o básico para sobreviver. E milhares de crianças órfãs, perdidas ou abandonadas vagando pela Europa numa paisagem devastada, lutando pela sobrevivência. São estas crianças o tema do filme de Fred Zinnemann “Perdidos na Tormenta” (“The Search”), produção suíço-americana de 1948. Um filme que consegue mostrar a tragédia das guerras com muita sensibilidade. Uma família é destruída quando é levada para um campo de concentração: a mulher perde o marido e a filha adolescente e é separada do filho menor. Quando a guerra termina, a mãe inicia a busca do filho; enquanto o garoto, ainda aterrorizado com a guerra, procura a mãe pela Alemanha devastada. As cenas externas foram feitas nas ruinas de Berlim e as interiores, na Suíça.

No elenco, Montgomery Clift (1920-1968), Aline MacMahon (1899-1991), Wendell Corey (1914-1968) e o pequeno Ivan Jandl (1937-1987), natural de Praga, Checoslováquia (atual República Checa.) O filme de venceu o Oscar de 1949, na categoria de Melhor História Original, e o Ivan Jandl ganhou um prêmio especial. Montgomery Clift foi indicado para o Oscar de melhor ator.

O filme de estreia de Montgomery Clift foi “Rio Bravo”, mas “The Search” acabou sendo lançado antes. Na minha opinião, o título em português foi muito infeliz. Quase não assisti ao filme porque achei que seria algum drama sobre tormenta meteorológica. O título poderia ter sido traduzido – A Busca.

Está disponível na plataforma Cinema Livre para assinantes.


domingo, 31 de maio de 2026

“Haikai”

 

Até a chuva de maio

Deixou intocado

Este templo dourado

Catedral de Colônia, 2012. Foto: Hilda Araújo.


“Haikai”

Tradução: Alberto Marsicano Rodrigues

Editora Riento – São Paulo, 1988.


domingo, 24 de maio de 2026

O CANGURU DE PRAGA

 

Foi uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando, em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República Checa.  O fato ocorreu em Praga, onde fazia um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei. Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal viu a passagem e saiu aos saltos.  O cão – um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto, quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da cerca.

Outro mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.

Enfim, nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto num parque! Até onde sei são bem perigosos.

Hoje resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os detentos.  Assim, no meu currículo de viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de 2008)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FESTIVAL DO CAFÉ

 

Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos.  Bom dia, Café!

Praça do Patriarca, ontem no final da tarde.



terça-feira, 19 de maio de 2026

ESCADAS DO PACAEMBU

 


Escadas também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim, quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6 Laranja do metrô.

As obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam, outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.

No centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque – verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.

Fico em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.

E dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.

Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.

Quando o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer o caminho para a Avenida Paulista.

Continua...

Subi por esta escadaria.


Da próxima vez será por esta.

Um lê e o outro dorme. 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

GALGANDO ESCADAS

 PARTE 2

Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.

Dos fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX) entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme. 

O desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m, mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de escadas.

Na Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.

Depois de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.

Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.

Continua.😎

Beco do Pinto.


Beco do Pinto.



Esplanada da Praça Ramos de Azevedo.

Escadas ao lado do Viaduto. À direita, Shopping Light.

Ladeira da Memória.

Continua...