quinta-feira, 9 de julho de 2026

VIVA A MOOCA!



Nesses tempos de muita pressa, difícil reconhecer o Lirismo ou se perder em Alta Floresta, porém aqui se trata de duas ruas da Mooca, tradicional bairro paulistano, sede da Subprefeitura da Mooca. A caminhada pela Mooca foi muito agradável, entretanto, pouca coisa sobrou da história do bairro. É lamentável ver o abandono de espaços que poderiam ter sido preservados para uso comum ou empreendimentos comerciais. Mais triste ainda ver a demolição da antiga fábrica de sapatos da Clark. Mais um prédio muito bonito que desapareceu...

O nome do bairro é quatrocentão. Remonta aos tempos em que os silvícolas viviam no planalto e, diz a lenda, observando os homens brancos preenchendo com barro amassado o arcabouço de varas amarradas para fazer paredes, diziam “moo-Ka” (moo-oca) – o que significa, segundo alguns, “eles estão fazendo casas”; porém, de acordo com outros, a expressão seria mũoka, que significa "casa de parente.

A ocupação da área foi lenta até que no final do século XIX a cidade se expandiu graças à ferrovia inaugurada em 1867, à industrialização que se seguiu e à chegada dos imigrantes que se estabeleceram pela região, especialmente italianos. A Mooca tornou-se um bairro operário. Em 1958 Adoniran Barbosa revelava o sonho de um trabalhador: “Lá no alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente dez de fundo, construí minha maloca*.”

Depois de um período em que a população diminuiu, o bairro voltou a crescer. A Mooca tem uma área 7,95 km², onde moram cerca de 81 mil pessoas (2017). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é dos mais altos:  0,909! A base da economia local é comércio e serviços. Na área de educação – além da educação infantil, ensino fundamental e médio público e privado, dispõe de duas universidades particulares. Quando o tema é cultura e entretenimento, há muito o que fazer. O Museu da Imigração do Estado de São Paulo, instalado no prédio da antiga Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo (1885), é um dos principais museus da cidade. Foi criado em 1993. A Biblioteca Municipal Mooca “Affonso Taunay” (1954) mantém várias atividades; se os cinemas de rua acabaram, o Shopping Mooca dispõe de salas modernas e confortáveis. O Teatro Arthur Azevedo, fundado em 1952, é tombado pelo CONPRESP.

Dois clubes da Mooca se destacam na história da cidade: o Jockey Club de São Paulo e o Clube Atlético Juventus. Antes da urbanização da Mooca, Rafael Aguiar Paes de Barros (1835-1889) fundou em sua fazenda Oratório um clube de corridas de cavalos nos mesmos moldes dos clubes ingleses. Reuniu 73 sócios e um capital de $ 9.990 réis e fundou em 14 de março de 1875 o Hipódromo da Mooca ou Club de Corridas Paulistano com capacidade para 1200 pessoas. A primeira corrida aconteceu em outubro de 1876 e estavam inscritos apenas dois cavalos: Macaco e Republicano. Vencedor: Macaco.

Logo o Hipódromo tornou-se uma atração e as pessoas que visitavam a cidade iam conhecer o “Prado”. A iniciativa incentivou o comércio da Mooca. A São Paulo Railway (SPR) tinha um ramal para atender especialmente aos frequentadores do Hipódromo. Desses tempos sobraram as ruas do Hipódromo e dos Trilhos, porque 1941 foi inaugurada a nova sede em Cidade Jardim com o novo nome:  Jockey Club de São Paulo. Aos poucos o hipódromo da Mooca foi se adaptando a novos usos: primeiramente como escola e oficina de preparação de cadetes da Aeronáutica e mais tarde a Prefeitura de São Paulo assumiu a área que abriga a Subprefeitura da Mooca e o Centro Esportivo Salim Farah Maluf.


Os funcionários do Cotonifício Crespi, que jogavam futebol de várzea, tinham dois clubes que se uniram em 1924 e formaram o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube. No ano seguinte, o conde Crespi cedeu uma propriedade entre as Ruas Javari e dos Trilhos para a construção do campo de futebol. A entidade nasceu modesta, mas se destacou nas competições e em 1930 mudou o nome para Clube Atlético Juventus – uma homenagem ao clube italiano. Cresceu e continua firme e forte na mesma Rua Javari. Nem é preciso dizer que o clube da Mooca é um dos mais queridos da cidade até hoje.

Em 1922 chegou o primeiro cinema do bairro “Palácio Moderno”, mais tarde Cine Teatro Moderno. Foi o primeiro de uma longa lista. Os amantes de teatro tiveram que esperar mais tempo. O Teatro Arthur de Azevedo (Av. Paes de Barros, 955) foi inaugurado em 1952 e tombado em 1992. A casa passou por obras de modernização e está em pleno funcionamento.




 
Rua Javari.

Foto do meu arquivo pessoal. Provavelmente, 2018.

 Continua: As indústrias que embalaram a Mooca.






terça-feira, 30 de junho de 2026

BOMBEIROS EM AÇÃO

 


Hoje pela manhã ao sair da acupuntura assisti aos bombeiros acudindo a um trabalhador acidentado, com apoio da Polícia Militar, na Vila Mariana. Não sei exatamente o que ocorreu, mas creio que foi uma queda do Viaduto Dr. Eduardo Saigh para a plataforma de trabalho que fica sobre o Riacho do Ipiranga. Sem querer acompanhei o atendimento de um profissionalismo irrepreensível do começo ao fim. A PM chegou uns segundos depois e imediatamente cuidou do trânsito, enquanto os bombeiros se movimentavam na plataforma. Nada de pressa, mas muita eficiência. Nenhum grito, apenas coordenação de movimentos. Tudo feito com a calma que essas situações exigem. Em vinte minutos os bombeiros iniciaram a descida da maca por uma escada apoiada nas estruturas da plataforma: o trabalhador imobilizado foi transportado com cuidado e depois colocado no carro de resgate. Eu relutei em fotografar, mas acabei registrando o final. Espero que o rapaz se recupere, não tenha sequelas e retorne à vida normal. Dois de julho, Dia do Bombeiro. Aqui fica minha homenagem a eles.

sábado, 27 de junho de 2026

UMA ÓTIMA SÉRIE INFANTIL

 


Não posso dizer que sou fã de ficção científica, mas li Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur Clarke, George Orwell entre outros. Na adolescência, entretanto, não perdia os episódios de “Perdidos no Espaço” (1965-1968) e, sinceramente, só me lembrava das maldades do Dr. Smith (Jonathan Harris), dos belos olhos de Don West (Mark Goddard) e do robô que sempre gritava “Perigo! Perigo!’, alertando os pioneiros das galáxias sobre alienígenas. A bem da verdade, o grupo de terráqueos era alienígena. A mania dos produtores e escritores de descrever extraterrestres como monstros nunca me agradou. “Quanto à “Jornada nas Estrelas” (setembro de 1966 a junho de 1969), assisti apenas a alguns episódios porque achava a série enfadonha e não gostava dos protagonistas. Spock (Leonard Nimoy) era o mais interessante do grupo. As duas séries foram produzidas antes da histórica viagem da Apolo 11 à Lua, que ocorreu em 20 de julho de 1969.

Há alguns meses resolvi rever “Jornada nas Estrelas” e depois “Perdidos no Espaço” – aquela para tentar descobrir o que tanto atrai marmanjos a ponto de se fantasiarem para irem a “convenções” sobre a série, promovidas em vários locais dos Estados Unidos. E no final concluí que “Perdidos no Espaço” é uma ótima série destinada ao público infantil.

“Perdidos no Espaço” tem uma história interessante. A série "Zorro", estrelada por Guy Williams (1924-1989), teve sucesso, mas foi cancelada na terceira temporada com planos de continuidade, o que não aconteceu. Williams gostou do projeto de "Perdidos no Espaço” e aceitou o papel do professor Robinson, desde que fosse o protagonista, porém, ele não contou com a força do vilão (Dr. Smith) que Jonathan Harris (1914-2002) desempenhou com maestria, roubando todas as cenas. Outra surpresa foi o pequeno Billy Mumy (1954), no papel de Will, o filho do Professor Robinson, que é um pequeno gênio cheio de curiosidade, capaz de argumentar com os adultos com clareza e muita sensibilidade. Apesar de todas as maldades de Smith, ele compreende as fraquezas de caráter da pessoa responsável por todas as desventuras do grupo. Há um terceiro elemento que também se destaca na história: o Robô. Assim, Guy Williams teve que lutar para manter seu nome nos créditos como protagonista da série, de acordo com algumas fontes.  

Os episódios têm histórias muito boas e restam alguns mistérios. Exemplo: como o Dr. Smith, que depois de sabotar a espaçonave e acabou preso na própria armadilha, participando da expedição apenas com a roupa do corpo, conseguiu o uniforme, um camisolão para dormir e uma porção de quinquilharias que exibe na série? A ideia da máquina de lavar que em segundos lava a roupa e entrega embalada em plástico é ótima. Maureen Robinson também tem uma “máquina de costura” fantástica!

O tema musical da série é de John Williams.

https://www.youtube.com/watch?v=P8p0wySXkXY 

Enfim, um misto de fantasia com ficção cientifica. E me diverti bastante 

O robô, Dr. Smith e Will.

EM TEMPO: Alguns episódios que remetem a temas infantis:

Na primeira temporada: A Lâmpada de Aladim (ep.11), O Pirata do Céu (ep. 18), O Espelho Mágico (ep.21). Segunda temporada: O Circo espacial (ep.5), Uma visita ao Inferno (ep.12), O fabricante de brinquedos (ep.18), Os vikings no céu (ep.20), A Caverna dos mágicos (ep.22). Terceira temporada: O Ataque dos Homens relógios (ep.3), A namorada do robô (ep.11), A Princesa do Planeta Gelado (ep.14), Penny, a Princesa do Espaço (ep.17), Concurso de Beleza Cósmica (ep.21).


https://www.youtube.com/watch?v=AekJVAN5ESE 

FAZER NADA PODE SER TRABALHO

 


Quando descobri que havia um curso de jornalismo, me interessei imediatamente, porque gostava de escrever e também porque um repórter não fica confinado num escritório – ele trabalha em campo e só retorna à redação para escrever as reportagens. O jornalismo não é entediante, mas bastante estressante. Volto ao assunto depois de ler uma matéria sobre uma pessoa extraordinária – Shoji Miromiti, 37 anos, um homem com pós-graduação em Ciências, que trabalhou em uma editora de material didático por anos, depois tornou-se escritor freelancer e teve outras atividades, mas a cada experiência desencantava-se com o trabalho aborrecido e estressante. Até que assumiu que gostava mesmo era de fazer nada.

Como viver sem fazer nada? Um dia descobriu que podia ser “Uma Pessoa de Aluguel que Não Faz Nada” – ele recebe simplesmente por estar presente. Publicou na internet um aviso sobre o serviço chamado “Alugue um Faz-Nada. Serve para qualquer situação em que tudo o que se quer é que uma pessoa esteja presente”. E em pouco tempo o serviço estava funcionando. Em um ano tinha cem mil seguidores e atualmente quase meio milhão. Já foi contratado mais de quatro mil vezes. E ainda pode escolher o trabalho.

Seus clientes são pessoas que querem companhia para ir almoçar, acenar para alguém que está chegando no aeroporto, ver um escritor bloqueado trabalhando... Exemplo de pedidos:

“Quero provar um frappuccino de hojicha (chá verde japonês) do Starbucks. Normalmente, gosto de coisas doces e ouvi dizer que não é assim tão doce, mas de qualquer modo gostava de experimentar. Acho que não vou conseguir bebê-lo todo, por isso, pode partilhá-lo comigo? Não gostaria de desperdiçar nada.”

Pode ser um paradoxo, mas o compromisso de sair de casa, dirigir-se ao encontro da pessoa e estar lá consiste no trabalho.

Vale a pena ler a reportagem.

https://sapo.pt/artigo/o-japones-shoji-miromiti-e-uma-pessoa-de-aluguer-que-nao-faz-nada-uma-historia-inacreditavel-6a3f87dd0090288908c75abc

domingo, 14 de junho de 2026

UM FILME EMOCIONANTE

 

Mont

A II Guerra acabou, mas restaram a destruição das cidades e multidões de pessoas desamparadas, sem casa, alimentação e o básico para sobreviver. E milhares de crianças órfãs, perdidas ou abandonadas vagando pela Europa numa paisagem devastada, lutando pela sobrevivência. São estas crianças o tema do filme de Fred Zinnemann “Perdidos na Tormenta” (“The Search”), produção suíço-americana de 1948. Um filme que consegue mostrar a tragédia das guerras com muita sensibilidade. Uma família é destruída quando é levada para um campo de concentração: a mulher perde o marido e a filha adolescente e é separada do filho menor. Quando a guerra termina, a mãe inicia a busca do filho; enquanto o garoto, ainda aterrorizado com a guerra, procura a mãe pela Alemanha devastada. As cenas externas foram feitas nas ruinas de Berlim e as interiores, na Suíça.

No elenco, Montgomery Clift (1920-1968), Aline MacMahon (1899-1991), Wendell Corey (1914-1968) e o pequeno Ivan Jandl (1937-1987), natural de Praga, Checoslováquia (atual República Checa.) O filme de venceu o Oscar de 1949, na categoria de Melhor História Original, e o Ivan Jandl ganhou um prêmio especial. Montgomery Clift foi indicado para o Oscar de melhor ator.

O filme de estreia de Montgomery Clift foi “Rio Bravo”, mas “The Search” acabou sendo lançado antes. Na minha opinião, o título em português foi muito infeliz. Quase não assisti ao filme porque achei que seria algum drama sobre tormenta meteorológica. O título poderia ter sido traduzido – A Busca.

Está disponível na plataforma Cinema Livre para assinantes.


domingo, 31 de maio de 2026

“Haikai”

 

Até a chuva de maio

Deixou intocado

Este templo dourado

Catedral de Colônia, 2012. Foto: Hilda Araújo.


“Haikai”

Tradução: Alberto Marsicano Rodrigues

Editora Riento – São Paulo, 1988.


domingo, 24 de maio de 2026

O CANGURU DE PRAGA

 

Foi uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando, em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República Checa.  O fato ocorreu em Praga, onde fazia um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei. Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal viu a passagem e saiu aos saltos.  O cão – um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto, quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da cerca.

Outro mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.

Enfim, nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto num parque! Até onde sei são bem perigosos.

Hoje resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os detentos.  Assim, no meu currículo de viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de 2008)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FESTIVAL DO CAFÉ

 

Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos.  Bom dia, Café!

Praça do Patriarca, ontem no final da tarde.



terça-feira, 19 de maio de 2026

ESCADAS DO PACAEMBU

 


Escadas também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim, quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6 Laranja do metrô.

As obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam, outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.

No centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque – verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.

Fico em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.

E dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.

Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.

Quando o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer o caminho para a Avenida Paulista.

Continua...

Subi por esta escadaria.


Da próxima vez será por esta.

Um lê e o outro dorme. 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

GALGANDO ESCADAS

 PARTE 2

Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.

Dos fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX) entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme. 

O desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m, mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de escadas.

Na Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.

Depois de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.

Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.

Continua.😎

Beco do Pinto.


Beco do Pinto.



Esplanada da Praça Ramos de Azevedo.

Escadas ao lado do Viaduto. À direita, Shopping Light.

Ladeira da Memória.

Continua...

domingo, 17 de maio de 2026

ESCADARIAS PAULISTANAS

 Parte I

 “Subir escadas faz bem para saúde”, dizem fisioterapeutas e minha professora de ginástica. Do lado do prédio em que moro há uma escadaria com cem degraus sem corrimão. No auge da pandemia, idosos da vizinhança faziam exercícios galgando os degraus munidos de máscara e garrafinha d’água. Felizmente, há uma segunda opção mais adiante em zigue-zague e no meio da ladeira devidamente munida de corrimãos. Ela é o início da Rua Batista Cepelos. Mais adiante, mais uma escadaria – ligando as Ruas do Paraíso e Armando Ferrentini. E, por fim, a mais bonita, embora toda pichada: a da Praça Jorge Cury com um belvedere na Rua Alabastro com vista para o Parque da Aclimação. O conjunto data de 1950 e foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1986.

          Há uma escadaria de acesso à Rua Paes de Andrade na Avenida Turmalina, porém, é fechada.

        Caminhando um pouco mais, chegamos à Rua Nossa Senhora de Lourdes, no Cambuci, onde se encontra a igreja de N. Sra. da Glória com dois lances de escadas que somam quase 90 degraus – desde a Rua Lavapés, cruzando a Praça Hélio Ansaldo e terminando em frente ao santuário. Esta igreja de 1893 faz parte da história paulista: foi bombardeada durante o levante tenentista de 1924 que ocorreu entre 5 e 28 de julho.  Continua.😀

        FOTOS: escadas da Rua Topázio para a Paraíso e da Praça Profª Maria Thereza Martins Chaibub.



Escadaria em ziguezague da Rua Batista Cepelos.


Mirante das escadarias da Aclimação.

domingo, 10 de maio de 2026

CHÁ DA TARDE

Final da tarde de outono chuvosa. Uma tarde que combina com um chá. Preto, naturalmente. Lembro-me de uma reportagem que fiz há muitos anos sobre a Cerimônia do Chá; comprei já neste século "O Livro do Chá", de Kakuzo Okakura, e no início deste ano, visitei uma exposição em que havia a reprodução de um espaço doméstico para o preparo do chá. Anos de teoria, mas recentemente assisti a “Every day a good day” (direção de Tatsushi Omori, 2018) sobre uma jovem aluna da sra. Takeda, que dá aulas sobre a cerimônia do chá. Gostei demais e fui em busca do livro para exprimir o que se pode observar em cada cena do filme.

“O chá é uma obra de arte e necessita de uma mão magistral para revelar suas qualidades mais nobres. [...] Cada preparo das folhas tem sua individualidade, sua afinidade específica com a água e o calor, memórias hereditárias a relembrar, e seu próprio método de contar uma história. [...] Lichihlai, um poeta da dinastia Sung, observou com tristeza que havia três coisas deploráveis no mundo: estragar jovens promissores em decorrência de uma educação incorreta, degradar pinturas de qualidade pela admiração vulgar e desperdiçar totalmente um bom chá por manipulação incompetente.”

O meu é bem simples; à moda ocidental.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

RUA DOS FRANCESES

 

Como chegar à Bela Vista, o popular Bexiga/Bixiga? O mais rápido exige boas pernas: a escadaria da Rua Treze de Maio que termina ao lado do Teatro Ruth Escobar (Rua dos Ingleses). Eu fui de metrô até a estação Brigadeiro, caminhei duas quadras da Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao Centro e já estava na Rua dos Ingleses. Detalhe: ela termina ali e vai descendo o morro. No início, fica a Igreja Presbiteriana da Bela Vista e virando à esquerda chega-se à Rua dos Franceses. A História mostra que ingleses e franceses não se amam muito, mas têm laços fortes, portanto, não é de estranhar que se encontrem mais uma vez. E no reduto dos italianos! E, imaginem só, entre franceses e ingleses está entalada a Rua dos Alemães, velho oponente de tempos antigos.

Desta vez comecei pelo princípio, por sinal, numa encruzilhada formada pelas ruas Conselheiro Carrão, Dr. Luís Barreto, Franceses e Ingleses. Quantas casas bonitas na rua dos Franceses! Estilos diferentes, coloridas e com um jeito aconchegante. Ali quase tudo remete à França. Como o simpático prédio de apartamentos Petit Paris e a Pousada dos Franceses. O que não combina é o edifício L’Hermitage – que significa lugar em que vivem eremitas e é o nome do Museu de São Petersburgo, na Rússia.

O ponto alto das homenagens aos franceses fica quase no final da rua: o Condomínio Praça dos Franceses (claro), construído entre 1973 e 1985 e constituído de sete prédios: Diderot (filósofo e escritor), Flaubert (escritor), La Fayette (militar), La Fontaine (poeta e fabulista), Ravel (pianista e compositor), Renan (filósofo e historiador) e Verlaine (poeta). O terreno pertencente ao incorporador Otto Meinberg, que faliu, em meados de 1960, foi oferecido ao Banco Safra para quitar dívidas. Como a área de ribanceira na Rua Almirante Marques Leão não tinha grande valor, o consultor do banqueiro Joseph Safra sugeriu que ele adquirisse alguns terrenos na Rua dos Franceses, o que valorizaria o empreendimento. Assim, foi feito. O projeto foi desenvolvido pelo escritório de Jacob Lerner e seus sócios Ermanno Siffredi e Maria Bardelli – o casal que projetou as mais bonitas galerias do Centro Histórico. Em frente às sete torres foi construída uma praça desenhada pelo arquiteto Ugo di Pace, o arquiteto iluminador Livio Levi e Domenico Calabrone, o artista plástico autor da escultura gigante, que arremata o conjunto. A praça é privativa do condomínio.

Do lado par da rua vejo uma ruela em declive onde há algumas casas bonitas. Resolvo ir bisbilhotar e não me arrependo. Um lugar muito gracioso. Como a descida continua e faz uma curva, fico em dúvida se devo prosseguir e por sorte aparece um adolescente a quem pergunto se a rua tem saída. Ele é tímido, gagueja um pouco e me informa que a rua continua. Insisto se ela tem saída. Ele não entende e me indica a Rua dos Franceses se eu quero ir para a avenida Paulista. Conversa difícil. Ele não entende a pergunta, acha que estou perdida. Sim, já perdi o interesse na rua, que se chama Veloso Guerra. Resolvo demonstrar que sei muito bem onde estou: aponto a direção da Paulista – mostro as torres de comunicação – e aponto para o outro lado, dizendo que para lá fica o Centro. Ele fica surpreso – não sabia que o Centro era por ali. Agradeço a atenção e me despeço. Acho que ele era ele quem estava perdido; suspeito que ele trabalha por ali e nada sabe do lugar.

Satisfeita com o que vi, resolvo descer a Conselheiro Carrão para ver o lado mais popular do bairro – a Rua Almirante Marques Leão (continuação da Santo Antônio) e que se estende até a Alameda Ribeirão Preto. Na esquina tem uma feira. Pausa para hidratação. Uma escada leva à rua Dr. Leôncio Granato – que não tem encantos. Retorno. Vejo a torre de uma igreja sobressaindo dos telhados: Achiropita? Como é perto, vou até lá conhecer a igreja, que é bonitinha. Paro para um cafezinho na Padaria Camões – uma discrepância. Que faz o poeta lusitano nas plagas de Virgílio? O balconista comenta que me viu na porta da Igreja, faz elogios ao chapéu e comenta que devo ser uma senhora muito ativa. Fala pelos cotovelos!  Felizmente chega outro freguês. Lá fora tomo o rumo da Avenida Paulista. (Fotos: maio de 2026)






Condomínio Praça dos Franceses.

A escultura de Calabrone.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

MORRO DOS INGLESES

 

São Paulo tem muitos morros – eu moro no Morro da Aclimação. E um deles é o Morro dos Ingleses, situado no Espigão da Paulista onde a altura gira em torno de oitocentos metros. Quem quiser testar, pode começar subindo a escadaria do Bexiga (dezesseis metros de altura e 84 degraus) que liga a Rua Treze de Maio à Rua dos Ingleses e depois ir subindo a ladeira em direção à Avenida Paulista. Um bom exercício.

            O Morro dos Ingleses, tombado pelo CONPRESP, tem como limites as ruas dos Ingleses, Franceses, Holandeses, Alameda Joaquim Eugênio de Lima e a Almirante Marques Leão. Os motivos do tombamento incluem interesses históricos, arquitetônicos e turísticos. O lado histórico remete à fundação do São Paulo Country Club em 1901 por imigrantes ingleses e escoceses, quando a região era ainda desabitada e tranquila. O clube acabou atraindo os moradores da Avenida Paulista que se interessaram pelo golfe, esporte praticado na entidade. A população o chamava de “clube dos ingleses” por ser exclusivo. Em 1908 a Câmara aprovou uma lei autorizando a Prefeitura a comprar o morro – provavelmente apenas a área onde hoje existe o mirante (AHM). Em 1912 alguns proprietários de terrenos no morro já estavam providenciando às próprias custas o arruamento da área entre a Avenida Paulista e o bairro da Bela Vista. A rua N só passou a se chamar Rua dos Ingleses, como já era conhecida, em 1916. A escadaria que liga a Bela Vista à Rua dos Ingleses foi construída em 1929 pelo prefeito José Pires do Rio (1880-1950).

            O morro é bastante agradável e tem muitas coisas interessantes. O lado direito do final da rua dos Ingleses, por exemplo, tem vários prédios, mas sobraram casas muito bonitas do lado ímpar. Eis um aspecto curioso desse lado: os imóveis têm uma área na frente e as casas ficam em um nível inferior sendo acessível por escadas. Quase sempre há uma escadaria lateral que leva aos fundos. Em alguns pontos é possível ver lá embaixo a Rua Treze de Maio. Como no modesto Parque dos Ingleses – um espaço arborizado e calmo. Há pequenos negócios funcionando nesse recuo frontal de algumas casas – como uma minúscula cantina cuja comida deve ser muito boa – as poucas mesas estão todas ocupadas. Ali está o Shopping das Artes (347) que tem entrada também pela Treze de Maio,870.

            Chego às escadarias. Ao lado está o Teatro Ruth Escobar, que parece em reforma. Em frente fica o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. Nessa parte da rua, nada de prédios; predominam casas muito bonitas, que resistem ao tempo. Lá está o Museu dos Óculos Gioconda Giannini (108), que visitarei em outra ocasião. Chego ao início da rua, que faz esquina com a Rua dos Franceses, onde fica a Igreja Presbiteriana da Bela Vista fundada em 1946.

            Amanhã, será a vez dos Franceses. Alemãs, Belgas e Holandeses têm pequenas ruas residenciais.


O acesso ao Shopping das Artes também pode ser pela Rua Treze de Maio.



O pequeno parque: sombra e tranquilidade.

 
As escadarias de ligação com a Rua Treze de Maio.