Até a chuva de maio
Deixou intocado
Este templo dourado
“Haikai”
Tradução: Alberto Marsicano
Rodrigues
Editora Riento – São Paulo,
1988.
Até a chuva de maio
Deixou intocado
Este templo dourado
“Haikai”
Tradução: Alberto Marsicano
Rodrigues
Editora Riento – São Paulo,
1988.
Foi
uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando,
em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República
Checa. O fato ocorreu em Praga, onde fazia
um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida
à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo
e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao
local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda
é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei
um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei.
Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma
senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei
a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi
quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi
que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu
descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com
orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e
entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal
viu a passagem e saiu aos saltos. O cão –
um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi
na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem
o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto,
quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da
cerca.
Outro
mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir
procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi
lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.
Enfim,
nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber
que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho
animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um
canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto
num parque! Até onde sei são bem perigosos.
Hoje
resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para
reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque
de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os
detentos. Assim, no meu currículo de
viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de
2008)
A
escadaria pública mais bonita e luxuosa encontra-se no subsolo da Praça do
Patriarca. As escadarias de mármore da Galeria Prestes Maia, que liga a Praça
do Patriarca ao Vale do Anhangabaú (ou vice-versa), são sem dúvida as mais
bonitas da cidade. Não conhece a Galeria? Uma pena! Ela tem três pisos e merece uma visita
especial. Inaugurada em 1940 na gestão do prefeito Prestes Maia e teve várias
funções no decorrer dos anos especialmente artísticas e culturais. A entrada
pela praça causa maior impacto. À medida que se vai descendo percebe-se toda a
beleza da galeria – ela é revestida de mármore. À frente e no alto fica o relógio
que perdeu a função original – marcar a hora – e que agora serve apenas como
enfeite. Então, sem pressa, observe nas laterais as esculturas de Victor
Brecheret (“As Graças”), a réplica de Moisés de Michelangelo feita no Liceu de
Artes e Ofícios, e o busto do pintor Almeida Júnior próximo à porta do salão
que leva seu nome. Não deixe de olhar detalhes como o piso, as luminárias... O
estilo é art déco.
Ao
sair a ideia é caminhar até a outra ponta do Vale do Anhangabaú está o Viaduto
Santa Ifigênia, que liga os Largos de São Bento e Santa Cecília. O Santa
Ifigênia foi o segundo viaduto da cidade, inteiramente feito na Bélgica, a
montagem foi realizada pela empresa Lidgerwood Manufacturing Company Limited, sob a
direção do engenheiro Giuseppe Chiappori, sócio de Giulio Micheli e Mário
Tibiriçá. Foi inaugurado em 1913. Como ele não tem escadaria para o
vale, foi feita uma de ferro anexada ao lado da Rua Antônio de Godoi. Estilo art
nouveau.
Ontem, encontrei José na Praça, como sempre de olho no movimento da Rua Direita e indiferente às arrumações em torno dele. José é de Santos. Creio que também me perdoa a intimidade do tratamento, mais jamais ousaria chamá-lo de “meu querido”, “meu amor”, “lindo”, como algumas pessoas costumam se referir aos idosos. É verdade que está conservado. Sou obrigada a reconhecer que para ele o tempo não passou e mantém-se elegante nas roupas démodé – mas o que é moda atualmente? Foi só depois de também observar o motivo de toda a movimentação na praça que percebi a feliz coincidência: um santista de tal envergadura em meio ao Festival do Café que se realizará no Centro Histórico de São Paulo. O café faz parte da história de Santos, uma bela história. José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, nasceu em Santos, mas não alcançou a época do apogeu do café e do Porto de Santos. Bom dia, Café!
Escadas
também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show
de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus
passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as
escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim,
quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por
isso aproveitei o sol de maio e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som
era o das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6
Laranja do metrô.
As
obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários
estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam,
outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem
contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos
cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.
No
centro da praça, olho em torno. No início do século passado ali era um local
ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos
costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais
soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem
conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali
se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam
a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque
– verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.
Fico
em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida
Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da
região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas
acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.
E
dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela
Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e
sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só
arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.
Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.
Quando
o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer
o caminho para a Avenida Paulista.
Continua...
PARTE 2
Escadas são um desafio para pessoas idosas e com problemas de locomoção (e preguiçosos em geral). Você vai caminhando e de repente encontra uma escadaria desafiadora – eu confesso que prefiro escadas a passarelas como as que existem no Parque D. Pedro II e na Praça da Bandeira. As ruas e avenidas de São Paulo têm inúmeras escadarias de vários tipos e estilos, que registram os desníveis topográficos da cidade. Elas também têm história. Minha caminhada em busca dessas escadas começou pelo Centro.
Dos
fundos do Pátio do Colégio é possível observar lá embaixo a Várzea do
Tamanduateí cujo acesso pode ser pelas escadarias do Beco do Pinto (século XIX)
entre as Casas da Imagem e da Marquesa de Santos. Essa escadaria histórica liga
as Ruas Roberto Simonsen e Bitencourt Rodrigues. O nome do beco refere-se ao primeiro
proprietário da casa que a Marquesa comprou anos depois – o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes
Leme.
O
desnível entre a Rua Boa Vista e o Parque D. Pedro II varia entre 12m e 25m,
mas o acesso é feito pelas Ladeiras General Carneiro ou Porto Geral. Nada de
escadas.
Na
Rua Líbero Badaró há duas escadarias para o Vale do Anhangabaú – uma é sequência
da Rua Dr. Miguel Couto e a outra tem um charme especial no final – onde há uma
escultura em homenagem ao maestro italiano Giuseppe Verdi (1813-1901), de
autoria de Amadeo Zani. A obra é de 1948.
Depois
de atravessar o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, encontra-se a mais
bonita escadaria da cidade que conduz à Esplanada do Teatro Municipal – espaço do
Monumento a Carlos Gomes, obra do escultor Luiz Brizollara. O conjunto escultórico executado na
Itália é formado por personagens das óperas mais importantes de Carlos Gomes.
Há ainda a escadaria na lateral do Viaduto do Chá no início da Rua Coronel Xavier de Toledo. Mais adiante, ao lado da Estação Anhangabaú do Metrô e em frente à Rua Sete de Abril, estão as escadarias da Ladeira da Memória, onde se encontram um obelisco e um chafariz implantados no início do século XIX; em 1919, o largo foi reformado para os festejos do centenário da Independência: ganhou um pórtico de azulejos e um novo chafariz. Pena que esteja pichado. Um bom caminho para quem se dirige à Praça da Bandeira.
Continua.😎
Parte I
Há uma escadaria de acesso à Rua Paes de Andrade na Avenida Turmalina, porém, é fechada.
Caminhando
um pouco mais, chegamos à Rua Nossa Senhora de
Lourdes, no Cambuci, onde se encontra a igreja de N. Sra. da Glória com
dois lances de escadas que somam quase 90 degraus – desde a Rua Lavapés, cruzando
a Praça Hélio Ansaldo e terminando em frente ao
santuário. Esta igreja de 1893 faz parte da história paulista: foi bombardeada
durante o levante tenentista de 1924 que ocorreu entre 5 e 28 de julho.
FOTOS: escadas da Rua Topázio para a Paraíso e da Praça Profª Maria Thereza Martins Chaibub.
Final da tarde de outono chuvosa. Uma
tarde que combina com um chá. Preto, naturalmente. Lembro-me de uma reportagem
que fiz há muitos anos sobre a Cerimônia do Chá; comprei já neste século
"O Livro do Chá", de Kakuzo Okakura, e no início deste ano, visitei
uma exposição em que havia a reprodução de um espaço doméstico para o preparo
do chá. Anos de teoria, mas recentemente assisti a “Every day a good day”
(direção de Tatsushi Omori, 2018) sobre uma jovem aluna da sra. Takeda, que dá
aulas sobre a cerimônia do chá. Gostei demais e fui em busca do livro para
exprimir o que se pode observar em cada cena do filme.
“O chá é uma obra de arte e necessita de uma mão magistral para revelar suas qualidades mais nobres. [...] Cada preparo das folhas tem sua individualidade, sua afinidade específica com a água e o calor, memórias hereditárias a relembrar, e seu próprio método de contar uma história. [...] Lichihlai, um poeta da dinastia Sung, observou com tristeza que havia três coisas deploráveis no mundo: estragar jovens promissores em decorrência de uma educação incorreta, degradar pinturas de qualidade pela admiração vulgar e desperdiçar totalmente um bom chá por manipulação incompetente.”
Como
chegar à Bela Vista, o popular Bexiga/Bixiga? O mais rápido exige boas pernas:
a escadaria da Rua Treze de Maio que termina ao lado do Teatro Ruth Escobar
(Rua dos Ingleses). Eu fui de metrô até a estação Brigadeiro, caminhei duas
quadras da Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao Centro e já estava na Rua
dos Ingleses. Detalhe: ela termina ali e vai descendo o morro. No início, fica
a Igreja Presbiteriana da Bela Vista e virando à esquerda chega-se à Rua dos
Franceses. A História mostra que ingleses e franceses não se amam muito, mas têm
laços fortes, portanto, não é de estranhar que se encontrem mais uma vez. E no
reduto dos italianos! E, imaginem só, entre franceses e ingleses está entalada
a Rua dos Alemães, velho oponente de tempos antigos.
Desta
vez comecei pelo princípio, por sinal, numa encruzilhada formada pelas ruas
Conselheiro Carrão, Dr. Luís Barreto, Franceses e Ingleses. Quantas casas
bonitas na rua dos Franceses! Estilos diferentes, coloridas e com um jeito
aconchegante. Ali quase tudo remete à França. Como o simpático prédio de
apartamentos Petit Paris e a Pousada dos Franceses. O que não combina é o
edifício L’Hermitage – que significa lugar em que vivem eremitas e é o nome do
Museu de São Petersburgo, na Rússia.
O
ponto alto das homenagens aos franceses fica quase no final da rua: o
Condomínio Praça dos Franceses (claro), construído entre 1973 e 1985 e
constituído de sete prédios: Diderot (filósofo e escritor), Flaubert
(escritor), La Fayette (militar), La Fontaine (poeta e fabulista), Ravel
(pianista e compositor), Renan (filósofo e historiador) e Verlaine (poeta). O
terreno pertencente ao incorporador Otto Meinberg, que faliu, em meados de
1960, foi oferecido ao Banco Safra para quitar dívidas. Como a área de
ribanceira na Rua Almirante Marques Leão não tinha grande valor, o consultor do
banqueiro Joseph Safra sugeriu que ele adquirisse alguns terrenos na Rua dos
Franceses, o que valorizaria o empreendimento. Assim, foi feito. O projeto foi
desenvolvido pelo escritório de Jacob Lerner e seus sócios Ermanno Siffredi e
Maria Bardelli – o casal que projetou as mais bonitas galerias do Centro
Histórico. Em frente às sete torres foi construída uma praça desenhada pelo
arquiteto Ugo di Pace, o arquiteto iluminador Livio Levi e Domenico Calabrone, o artista plástico
autor da escultura gigante, que arremata o conjunto. A praça é privativa do
condomínio.
Do
lado par da rua vejo uma ruela em declive onde há algumas casas bonitas.
Resolvo ir bisbilhotar e não me arrependo. Um lugar muito gracioso. Como a
descida continua e faz uma curva, fico em dúvida se devo prosseguir e por sorte
aparece um adolescente a quem pergunto se a rua tem saída. Ele é tímido,
gagueja um pouco e me informa que a rua continua. Insisto se ela tem saída. Ele
não entende e me indica a Rua dos Franceses se eu quero ir para a avenida
Paulista. Conversa difícil. Ele não entende a pergunta, acha que estou perdida.
Sim, já perdi o interesse na rua, que se chama Veloso Guerra. Resolvo
demonstrar que sei muito bem onde estou: aponto a direção da Paulista – mostro as
torres de comunicação – e aponto para o outro lado, dizendo que para lá fica o
Centro. Ele fica surpreso – não sabia que o Centro era por ali. Agradeço a atenção
e me despeço. Acho que ele era ele quem estava perdido; suspeito que ele
trabalha por ali e nada sabe do lugar.
Satisfeita
com o que vi, resolvo descer a Conselheiro Carrão para ver o lado mais popular
do bairro – a Rua Almirante Marques Leão (continuação da Santo Antônio) e que se
estende até a Alameda Ribeirão Preto. Na esquina tem uma feira. Pausa para hidratação.
Uma escada leva à rua Dr. Leôncio Granato – que não tem encantos. Retorno. Vejo a torre de uma igreja sobressaindo dos telhados:
Achiropita? Como é perto, vou até lá conhecer a igreja, que é bonitinha. Paro para
um cafezinho na Padaria Camões – uma discrepância. Que faz o poeta lusitano nas
plagas de Virgílio? O balconista comenta que me viu na porta da Igreja, faz
elogios ao chapéu e comenta que devo ser uma senhora muito ativa. Fala pelos
cotovelos! Felizmente chega outro
freguês. Lá fora tomo o rumo da Avenida Paulista. (Fotos: maio de 2026)
São
Paulo tem muitos morros – eu moro no Morro da Aclimação. E um deles é o
Morro dos Ingleses, situado no Espigão da Paulista onde a altura gira em torno
de oitocentos metros. Quem quiser testar, pode começar subindo a escadaria do
Bexiga (dezesseis metros de altura e 84 degraus) que liga a Rua Treze de Maio à
Rua dos Ingleses e depois ir subindo a ladeira em direção à Avenida Paulista.
Um bom exercício.
O Morro dos Ingleses, tombado pelo CONPRESP,
tem como limites as ruas dos Ingleses, Franceses, Holandeses, Alameda Joaquim
Eugênio de Lima e a Almirante Marques Leão. Os motivos do tombamento incluem
interesses históricos, arquitetônicos e turísticos. O lado histórico remete à
fundação do São Paulo Country Club em 1901 por imigrantes ingleses e escoceses,
quando a região era ainda desabitada e tranquila. O clube acabou atraindo os
moradores da Avenida Paulista que se interessaram pelo golfe, esporte praticado
na entidade. A população o chamava de “clube dos ingleses” por ser exclusivo.
Em 1908 a Câmara aprovou uma lei autorizando a Prefeitura a comprar o morro –
provavelmente apenas a área onde hoje existe o mirante (AHM). Em 1912 alguns
proprietários de terrenos no morro já estavam providenciando às próprias custas
o arruamento da área entre a Avenida Paulista e o bairro da Bela Vista. A rua N
só passou a se chamar Rua dos Ingleses, como já era conhecida, em 1916. A
escadaria que liga a Bela Vista à Rua dos Ingleses foi construída em 1929 pelo
prefeito José Pires do Rio (1880-1950).
O morro é bastante agradável e tem
muitas coisas interessantes. O lado direito do final da rua dos Ingleses, por
exemplo, tem vários prédios, mas sobraram casas muito bonitas do lado ímpar.
Eis um aspecto curioso desse lado: os imóveis têm uma área na frente e as casas ficam em um nível inferior sendo acessível por escadas. Quase sempre há uma
escadaria lateral que leva aos fundos. Em alguns pontos é possível ver lá
embaixo a Rua Treze de Maio. Como no modesto Parque dos Ingleses – um espaço
arborizado e calmo. Há pequenos negócios
funcionando nesse recuo frontal de algumas casas – como uma minúscula cantina
cuja comida deve ser muito boa – as poucas mesas estão todas ocupadas. Ali está
o Shopping das Artes (347) que tem entrada também pela Treze de Maio,870.
Amanhã, será a vez dos Franceses.
Alemãs, Belgas e Holandeses têm pequenas ruas residenciais.
Ela já se chamou Alameda dos
Bambus, mas o nome foi mudado para Rio Branco pela prefeitura em 1907 por sugestão
dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Eles
consideravam que esta seria uma merecida homenagem ao diplomata José Maria da
Silva Paranhos Júnior (1845-1912), o Barão do Rio Branco, a figura mais
admirada pelos brasileiros e que estudara nas arcadas, embora tenha se formado
na faculdade de Recife. Para se ter uma ideia do prestígio do Barão basta
contar que no Distrito Federal (Rio de Janeiro), o Carnaval de 1912 foi adiado
porque ele morreu exatamente durante a festa. O Barão foi o responsável pelas
negociações diplomáticas que configuraram as fronteiras Oeste do Brasil,
negociando com Peru e Bolívia, e no Sul, Argentina. É o patrono da diplomacia
brasileira.
Voltando
à avenida: ela começa entre o Largo do Paissandu e a Rua Antônio de
Godoi e dali segue paralela à Avenida São João, da qual vai se afastando para
terminar no Viaduto Orlando Murgel. Nem é preciso lembrar que no princípio aquela
era uma área rural, com característica de várzea e ocupada por chácaras. No período
entre o final do século XIX e início do século XX, as grandes fortunas estavam
mudando de ares e se instalando na região Oeste. Entre eles Antônio da Silva
Prado, que adquiriu a chácara de Francisco de Assis Carvalho, Henrique Dumont,
irmão de Alberto Santos-Dumont, e Elias Antônio Pacheco e Chaves entre outros. A avenida tem prédios bem conservados, mas há
muitos que mesmo em decadência guardam resquícios do apogeu. O trecho mais
abandonado é o inicial. (Antônio Prado tornou memorável a Chácara do Carvalho por
sua contribuição à vida cultural da cidade.)
O prédio da Igreja Evangélica Luterana
de São Paulo é de 1909. Foi o primeiro em estilo neogótico da cidade. O projeto
é do arquiteto Guilherme Von Eye. Os belos vitrais foram produzidos pela
tradicional Casa Conrado. O órgão, construído pela Casa Walcker, tinha doze
registros e 620 tubos; após algumas reformas, em 1995 passou a 1.146 tubos.
Tive a oportunidade de conhecer a igreja graças a um programa do SESC Carmo que
promovia música nas principais igrejas do Centro Histórico. No dia 1º de maio
de 2028, um incêndio no edifício Wilson Paes de Almeida, seguido de desabamento,
destruiu parcialmente a igreja que promoveu uma campanha para levantar fundos
para restauro. Ela é tombada pelo CONPRESP
(1992) e pelo CONDPHAAT (2012). Um muro
todo pichado é a única lembrança do prédio Paes de Almeida.
Numa esquina, fico sabendo que a Rua
General Osório é a rua das motos (nenhuma à vista) porque desde os anos 1940
tem um comércio voltado para peças e acessórios (novos e usados) e equipamentos
para motocicletas. Há inclusive oficinas especializadas em conserto e restauro das
máquinas. Não há muito o que ver até chegar à Praça Princesa Isabel que foi recuperada
e encontra-se bem cuidada. Mulheres com crianças, pessoas passeando com seus
cães aos pés do monumento a Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), Duque de
Caxias. Criação de Brecheret (1894-1955), vencedor do concurso internacional para
a realização do trabalho. A estátua equestre foi inaugurada em 1960. No
pedestal de granito há um resumo da carreira de Caxias.
Passo pelo palacete do cafeicultor Elias
Antônio Pacheco e Chaves (1842-1903), que atualmente é sede da Secretaria
Estadual de Justiça e Cidadania. Trata-se do Palácio dos Campos Elíseos, projeto
do arquiteto alemão Matheus Häusler,
inaugurado em 1899 e tomado pelo CONDEPHAAT em 1970. Na calçada oposta, um casarão
chama atenção. É dos anos 1920 e pertence ao Estado. Já foi sede do Centro de Referência
em Educação “Mário Covas”. A casa ao lado deve ter sido muito bonita, mas
encontra-se em decadência.
A grande referência do bairro,
entretanto, é o Hospital da Mulher (SUS), inaugurado em 2022, que atende “especialidades
como oncologia ginecológica e mamária, ginecologia de alta complexidade,
cuidados paliativos e reprodução humana assistida, além de atuar no ensino e
pesquisa do programa de residência médica em Ginecologia e Mastologia”. Avenida
Rio Branco, 1080, em frente ao Terminal de Ônibus Princesa Isabel.
Estico a caminhada até o SESC Bom Retiro na Alameda Nothmann para um cafezinho. E no caminho uma boa surpresa: vejo um trem passando por um viaduto. Adoro trens. E em todos esses anos em São Paulo nunca havia observado essa cena. Enquanto saboreio o café, observo o pessoal fazendo alongamento no saguão. Penso com meus botões que segunda-feira começa com ginástica. Afasto a lembrança e saio em direção ao terminal onde pegarei o ônibus de volta à Aclimação.
Num
final de semana ensolarado, saí sem destino e no caminho lembrei-me de que
ainda não havia caminhado pela Avenida São João. Conheço o início e o final da
avenida; ano passado, no passeio pelo Minhocão, a vi de cima e quantas vezes
passei por ela de carro (geralmente táxi ou veículo de empresa onde
trabalhava). Passar de carro e caminhar por uma rua são duas coisas bem
diferentes. Assim, aproveitei o domingo para andar por essa avenida fascinante.
Ela começa num ponto
histórico: a praça Antônio Prado e tem dois guardiões emblemáticos – o edifício
Antônio Arantes – Banespa (atual Farol Santander) e o Martinelli. Um detalhe: o
primeiro fica na Rua João Brícola e o segundo entre a São Bento e a Líbero
Badaró. Da praça tem-se uma vista muito bonita da avenida que atravessa o Vale
do Anhangabaú e segue para o poente até terminar perto de um castelinho – o
tristemente famoso castelinho da Rua Apa. Entre um ponto e outro encontra-se a
Galeria do Rock, a mais bonita de São Paulo; a Galeria Olido, que já foi
endereço da Companhia Siderúrgica Paulista; a centenária igreja dos Homens
Pretos e do tradicional restaurante Ponto Chique, ambos no Largo do Paissandu, a
um passo da avenida.
E
nessa ronda diurna, sem procurar nada e ninguém, chego à esquina das Avenidas
São João com a Ipiranga, onde encontro o professor e compositor Paulo Vanzolini
(1924-2013) sentado num banco observando a vida passar. Quase sempre tem
companhia, mas tenho dúvidas se ele é reconhecido. Na calçada em frente,
abrigado no bar famoso, está Adoniran Barbosa (1910-1982), frequentador do
pedaço, com seu inseparável Peteleco. Vanzolini descreveu a cena de sangue num
bar da São João. “Tiro ao Álvaro”? Não! Essa é de Adoniran Barbosa (1910-1982).
Épocas e estilos diferentes. Grandes compositores. Esta é a esquina dos velhos boêmios.
E
o decorador da rua colocou num ponto estratégico um paparazzi com sua câmera
apontada para o Bar da Bhrama como se esperasse a chegada dos famosos para
registrar flagrantes indiscretos. Mais à frente um engraxate – outra lembrança
de um tempo em que crianças trabalhavam e os tênis eram para esportistas.
E
lá vou eu! Gosto muito do relógio estilizado que adorna o prédio de esquina onde
funciona uma farmácia. Passo pela Rua Aurora, onde nasceu Mário de Andrade. À
esquerda, vejo o prédio branco de quatro andares que faz parte da história do
cinema paulistano: em 1938 ali foi inaugurado Cine Metro, considerado um dos
cinemas mais elegantes de São Paulo. O glamour durou até a década de 1960. Em 1997
encerrou as atividades. Atualmente, é sede de uma igreja evangélica.
E
na esquina com a Rua Pedro Américo, encontra-se o Edifício Andraus, 32 andares,
115 m de altura e um heliporto. Ficou pronto em 1962 e era o endereço de várias
empresas e da Pirani, uma loja popular que ocupava o subsolo, o térreo e mais
alguns andares. Em 24 de fevereiro de 1972, um incêndio provocado pela
sobrecarga do sistema elétrico causou a morte de dezesseis pessoas e 345 ficaram
feridas. A situação não foi pior porque o heliporto possibilitou o resgate de
cerca de quinhentas pessoas.
Entre
as ruas Aurora e Vitória fica a Praça Júlio de Mesquita que é adornada por um
dos mais belos monumentos da cidade: a “Fonte Monumental” em mármore branco de Carrara
e bronze. A obra inaugurada em 1927 é da artista campineira Nicolina do Couto (1874-1941).
Não
me esqueci do tradicionalíssimo “Rei do File”, no ponto desde 1914 – Praça Júlio
de Mesquita, quando se chamava Esplanadinha, mas ficou conhecido como “Filé do Moraes”
por conta do cozinheiro que assim se chamava.
Destaque
para o Prédio dos Estudantes, que pertence ao Centro Acadêmico XI de Agosto dos
alunos da Faculdade de Direito da USP: funciona como moradia estudantil para os
jovens que não têm meios de se manter em São Paulo durante o curso.
Há prédios muito bonitos ao longo da Avenida São João e bem conservados. Vale uma caminhada.


Chama-se
Palacete do Carmo e seu perímetro é enorme: Ruas Venceslau Brás, Irmã
Simpliciana, Roberto Simonsen e Praça Clóvis. Deve ter sido muito bonito e tido
seus dias de fasto. É propriedade do Mosteiro de Santa Terezinha de Jesus,
conforme esclarece a Arquidiocese de São Paulo em seu site. O mundo
mudou e o Palacete foi saindo de moda, ficando esquecido. Nos últimos tempos, eu
tinha a impressão de que estava se esfarelando e sempre achei corajosos os
donos de veículos que usavam os estacionamentos. O térreo da Venceslau Brás era
ocupado por uma modesta quitanda, uma loja que vendia de tudo, mas organização
não era o lado forte da casa; seguiam-se uma barbearia e um cabelereiro, um
mercadinho proibido para obesos, o restaurante e padaria “Cantinho do
Centenário” e na esquina da Rua Irmã Simpliciana, havia um restaurante maior. Do
lado desta rua, apenas o muro que protege um espaço que pode ter sido um jardim
do palacete. A parte da Praça Clóvis está protegida por uma cerca.
Na
Rua Roberto Simonsen, enquanto o estacionamento se esfacelava aos poucos, o
destaque era um espaço que fazia carimbos e clichês (será que alguém ainda sabe
do que se trata?).
Nas
últimas semanas todos mudaram. Alguns colocaram cartazes avisando do novo
endereço. Outros, quem sabe?
E
assim o véu caiu sobre o prédio que aguarda seu destino.