quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CHUVA E LEMBRANÇAS

 

Ontem, numa conversa com minha amiga Ercília, falando das chuvas, lembrávamos dos dias de tormentas e enchentes na Baixada Santista, quando éramos escaladas para cobrir as consequências das inundações pela Baixada. Era um trabalho difícil, mas nunca deixamos de ir aos locais atingidos, conversar com a população e ouvir queixas sob chuva e em meio a torrentes de água suja.

Uma das primeiras reportagens que eu fiz foi na antiga Rodovia da Banana, que liga Peruíbe à Ana Dias, e que se chama desde 2021 Rodovia Coronel Rodolpho Pettená. Foi em 1970. Era foca. Nunca tinha ouvido falar em Ana Dias. Eu e o fotógrafo estávamos com sorte; fomos numa caminhonete F 100– nos dias ruins teria sido ou Kombi ou Fusca. Não lembro mais dos detalhes apenas que a pista da estrada era um lamaçal só e os caminhoneiros estavam isolados em uma área além de alguma curva. Claro que hesitei, mas tirei os sapatos e enfiei os pés na lama literalmente. Curioso, o motorista do jornal foi junto. O fotógrafo registrou o fato e a foto foi publicada no dia seguinte na primeira página ilustrando a reportagem.

Da primeira enchente não esqueci. Das outras tantas e tantas me lembro vagamente. Lembro de duas enchentes na Zona Noroeste: uma em que eu e o outro jornalista escalados navegamos por uma avenida a bordo de um barquinho; e a outra com a amiga Ercília, quando empurramos uma Kombi atolada e eu perdi um pé da babucha que usava. (Repórter nunca sabe onde será o seu próximo trabalho e esse é o encanto da profissão.) No dia seguinte comprei uma galocha que ficava no jornal para essas coberturas. Um dia escreverei sobre a última, que foi em Cubatão já nos anos 1980.

Bons tempos, Ercília.

Estrada da Banana: Jornal CIDADE DE SANTOS.

Avenida na Zona Noroeste de Santos. Ano: 1970.


FERNANDO PESSOA E A CHUVA

 

"CHOVE. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente..."

 

Fernando Pessoa (1888-1932) / Cancioneiro.



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SETE DE SETEMBRO

 

No dia 7 de setembro as atenções voltam-se para o Alto do Ipiranga, onde o príncipe regente D. Pedro (1798-1834) proclamou nossa Independência às margens do riacho do Ipiranga, hoje tão abandonado. Entretanto, o bairro Penha de França, ou apenas Penha, também teve um papel importante nessa História que aconteceu em 1822  O príncipe e comitiva partiram do Rio de Janeiro, no dia 14 de agosto, com destino à Província de São Paulo que vivia uma crise política: em maio daquele ano houve uma revolta de militares e civis, liderada por Francisco Inácio de Souza Queiroz, que culminara com a destituição do governo e criara uma situação de instabilidade política.

Foi uma longa viagem a cavalo e em mulas, com paradas para pernoites até que no dia 24 de agosto, uma sexta-feira, chegou à Penha de França: “A 24 de agosto chegou o príncipe à povoação da Penha de França, a légua e meia da capital, onde pernoitou, expedindo daí o decreto que dissolveu o governo provisório, e ordenou que saíssem obrigatoriamente da capital os principais fomentadores dos movimentos subversivos (ocorridos entre maio e julho)”.

No dia seguinte, D. Pedro assistiu missa antes de partir para São Paulo. A entrada do regente teve caráter oficial – foi recepcionado por vereadores, religiosos e pelo povo em frente à Igreja da Ordem Terceira de N. Sra. do Carmo (Av. Rangel Pestana, 230). Foi hospedado pelo coronel Antônio da Silva Prado. Barão de Iguape, e depois na casa de Manoel Rodrigues Jordão, o brigadeiro Jordão, na cidade. Ele ficou dez dias em São Paulo em articulações políticas até a partida para Santos, cidade natal de José Bonifácio de Andrade e Silva, no dia 5 de setembro. Na volta de Santos, às margens do riacho do Ipiranga, houve o encontro com o mensageiro Paulo Bregaro, oficial do Tribunal Militar, com as cartas que definiram o momento da Independência.

Era 7 de setembro de 1822. Um sábado. Na mesma noite, D. Pedro compareceu à Casa da Ópera que ficava na região do Pátio do Colégio, onde foi aclamado espontaneamente pela população que lotou o teatro. 

Placa localizada na Basílica de Nossa Senhora. da Penha.

A Basílica ainda pode ser vista da estação Penha do Metrô.


O Museu Paulista do Ipiranga e o busto de José Bonifácio, o Patriarca da Independência.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

DESENCONTROS E ENCONTROS

 Quando eu digo que São Paulo é cheia de surpresas, não acreditam. Hoje, conheci o túmulo de Marlene Dietrich.

Fui ao Cemitério da Consolação para conversar com Popó, o responsável pelas visitas guiadas; porém, fiz um caminho diferente: desci na Avenida Angélica e entrei pela portaria da Rua Mato Grosso. Claro que me perdi porque da rua vi o topo do maior mausoléu da América Latina, que pertence à família Matarazzo, e fui lá dar uma olhada (acho que não havia visto ainda). E logo estava indo para lá e para cá observando esses resquícios da vaidade humana. Tive que pedir ajuda ao funcionário que passava soprador de folhas nas alamedas. Popó não estava. Terei que retornar outro dia. Na saída, fui até a Rua Sergipe pegar o ônibus, quando avistei o Cemitério dos Protestantes cuja história conhecia sem tê-lo visitado. Não perdi a oportunidade. Fui entrando. Muito bonito. Simples e pequeno. Sem ostentação. Caminhei observando pelos nomes inscritos nos mausoléus a origem das famílias que formam nossa sociedade. E foi assim que me deparei com Marlene Dietrich – ela nasceu em 1934, quando a atriz alemã, naturalizada estadunidense, já era um imenso sucesso – e faleceu em 2011. A estrela de “O Anjo Azul” nasceu em 1901 em Berlim e faleceu em 1992 em Paris. Espero que esta sra. Marlene Dietrich, que descansa aqui, não tenha passado por situações desagradáveis por ter sido xará da estrela.


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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O CINEMA QUE VIROU ESTACIONAMENTO

 

O cinema Paissandu era um luxo. No saguão, o espectador admirava três painéis de 15 m de extensão representando o folclore nacional – Bumba-meu-boi, Candomblé e Fandangos. A sala de espera de 900m² tinha ambiente acolhedor: poltronas confortáveis, luz suave, ar condicionado e música de alta fidelidade. Enquanto esperava, o público podia admirar um grande painel que remetia à “Nau Catarineta”, poema épico português. A sala de exibição tinha capacidade para 2.196 pessoas! A tela media 7m30 por 15m30. Atualmente, a maior sala de cinema de São Paulo tem capacidade para 512 pessoas! A decadência do cinema começou nos anos 1970 e agora é um estacionamento, apesar de ter sido tombado pelo patrimônio histórico do município em 1992. O Cine Paissandu foi inaugurado com uma sessão beneficente na noite de 19 de dezembro de 1957 e a primeira sessão para o público foi no dia 20. O filme exibido foi “Guerra e Paz”, baseado no romance de Leon Tolstói e dirigida por King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer.

 

Largo do Paissandu, 60.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O MIRANTE DA RUA AVANHANDAVA

 

Depois de subir e descer várias escadarias pelo Centro Histórico, Aclimação, Bela Vista e até no Pacaembu, soube da existência de um Belvedere na Rua Avanhandava, que pertence ao Distrito da República. E andei ali por perto vendo as escadarias do Viaduto Nove de Julho! Inconformada fui procurar o belvedere.

Comecei caminhada pela Praça Ramos de Azevedo, segui pela Rua Xavier de Toledo – movimentada como sempre, mas desta vez tinha uma novidade: a loja que resolveu “baixar as calças” para incrementar as vendas. Na Consolação, sigo pela Rua Martins Fontes (“paulista eu sou há 400 anos”) e chego à graciosa Rua Avanhandava, que acolhe o pedestre com uma floricultura e uma fonte. E, se for hora do almoço ou jantar (lanche também serve), difícil é escolher onde entrar. Só a tradicional “Famiglia Mancini” oferece várias opções. Meu interesse, entretanto, é o belvedere, mas logo percebo que é melhor usar “mirante”, pois a palavra belvedere só foi reconhecida pelos mais antigos.

        Enfim, a escadaria que fica bem em frente à saída para a Avenida Nove de Julho. Olho bem, mas sempre surge a dúvida: será que consigo a proeza? Afinal são 120 degraus e obviamente não há mais paisagem para admirar. Fui em frente e subi sem problema e ainda sobrou fôlego para voltar pela Rua Augusta, dar uma espiada no Parque Augusta, retornar pela Consolação, admirar a Igreja da Consolação restaurada, atravessar a Praça Roosevelt, olhar os cartazes da peça em cartaz no Teatro do Jaraguá, e na Avenida São Luís sentar-me no banquinho à espera de condução.😊




A história da Rua Avanhandava começa em 1920, quando a Cia. City iniciou a urbanização daquela área. A prefeitura autorizou a empresa a aproveitar a encosta entre a Rua Augusta e a Avenida Anhangabaú (atual Nove de Julho) em obras de implantação na época. A Avanhandava ficou pronta em 1928 e o nome é uma referencia a uma cachoeira localizada à margem direita do Rio Tietê na região em que hoje situa-se Penápolis. No local havia também um forte, erguido em 1858, que teve papel importante na Guerra do Paraguai. Nem a cachoeira nem o forte existem mais.

 


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

TARDE DE INVERNO

 Agosto, 25. Um dia típico de inverno. Céu nublado. Cai uma garoa fina. O frio agradável apetece uma poltrona, um chá preto ou vinho tinto, bom livro; mantenho, porém, minha rotina. Há menos pessoas pelas ruas e nos ônibus. O motorista está de touca e bem agasalhado. De manhã trabalha com a esposa, que é cobradora e faz meio período. Num ponto próximo do Centro, quando a porta se abre, um homem conta uma pequena história para conseguir carona e ele manda subir pela porta de trás. No próximo, outro carona. Não dá porque já tem um caroneiro. Lá fora, os poucos que enfrentam o tempo compõem um cenário um tanto sombrio com suas roupas escuras. Em meio ao trânsito o homem puxa uma carroça cheia de material reciclável. Duas amigas entram tagarelando, sentam-se no banco dos preferenciais e tagarelam até que um abre um pacotinho para saborear uma bomba. Desço na Rua Boa Vista e sigo em direção à Praça do Patriarca. Meu destino é uma visita às Graças na Galeria Prestes Maia. Elas encontram-se protegidas por um cercadinho. Uma jovem varre os nichos em que elas se encontram. Tudo brilhando. Subo pela escada rolante e fico em dúvida sobre a direção. A Rua Direita está em obras. A temperatura e a garoa afugentaram os camelôs. Sigo pela Rua da Quitanda, sem pressa. Vislumbro um café muito simpático e resolvo entrar. Poucas pessoas e atendimento rápido. Gostei demais do cardápio.

PRATO DO DIA
Felicidade à moda
Porção de carinho
Paz ao ponto
Amor a gosto
Saúde à vontade
Servido com afeto e dedicação.
No caixa, um senhor paga a conta, mas o cartão foi recusado. Ele troca rapidamente por outro. “Que vergonha!” – diz sorrindo meio sem jeito. Acontece – comento para animá-lo.
Entro na loja que procurava e uma vendedora apressada e desinteressada foi dizendo “Meu nome é fulana, se precisar de algo é só me procurar”. E sumiu. Nada me agrada. A essa altura já estou na Sé, onde namoro os doces da Romana, me desvio do assédio do pessoal da Rua do Ouro e das tentações da Livraria da UNESP.
Antes de pegar o ônibus, passei pela estação da Sé para saber mais sobre o museu dos objetos esquecidos e da prótese de perna em exibição na vitrine. O funcionário foi muito simpático. O museu resume-se à vitrine que se renovará periodicamente com objetos estranhos esquecidos no metrô, como a perna mecânica. Esta não foi a primeira. Já houve outros casos e ele lembrou de um rapaz que fora à AACD para reparos da perna mecânica e já retornara usando outra e esquecera a antiga no vagão. Achar dentaduras é muito comum, segundo ele. Ri e explica que para eles isso é rotina, mas não resiste e conta que já deixaram até móveis grandes no vagão. Hora de voltar para casa. (Preguiça de levantar para fazer a foto.)


terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR AÍ E POR ALI

Parece que o Inverno retornou. Hoje, um dia frio e gostoso. Bom para usar notas para escrever sobre curiosidades anotadas nos caminhos.


Nos semáforos há quase sempre pessoas que aproveitam para ganhar um dinheirinho – fazem malabarismo, vendem docinhos (cuja origem é um mistério) a preço de banana, como se dizia antigamente, porque agora a banana já subiu de patamar, panos de prato entre outras coisas. Pedestres como eu, entretanto, têm que se distrair com alguma coisa enquanto aguardam a luz verde. Foi assim que da Praça João Mendes notei os três magrinhos perdidos na paisagem do Centro Histórico de São Paulo. Devem ficar na Liberdade... Verde! Antes de atravessar sempre é recomendável olhar para não ser surpreendido por algum motoqueiro desvairado😊




Estava na estação Sé, quando vi a vitrine ao lado do setor de “Achados e Perdidos”, que passou por uma reforma recentemente. Criaram um museu com os objetos esquecidos por passageiros no percurso de viagens. A vitrine dá uma boa ideia do que esse povo distraído deixa nos vagões e estações. Lá estão um sombrero, uma ampulheta (lembrei-me do rapaz da USP que não sabia ver horas), duas dentaduras, a miniatura de uma antiga bomba de gasolina, um leque e um lindo elefantinho. O último item é uma prótese de perna mecânica!




Outro dia saí da estação Ipiranga de trem num lugar incomum. Parei na tentativa de descobrir que direção tomar. Rua Ilha Sergipe, onde à esquerda há um viaduto, que deve ser o Pacheco Chaves, e concluí de que não era este o caminho. Pequenas casas coloridas, outras inacabadas e um pequeno comércio popular movimentado. Uma favela. Segui o povo e para minha surpresa o caminho é cortado por uma via férrea. A placa não me deixou dúvida, mas fui perguntar se ainda passava trem por lá. Sim, passa. Nada de porteira. O jeito é ficar de ouvido atento. Enfim, cheguei à Avenida Henry Ford.





UM COLÉGIO INESQUECÍVEL

Não resisto e compartilho a crônica sobre o Instituto de Educação Canadá do escritor e jornalista santista Flávio Viegas Amoreira, membro da Academia Santista de Letras, curador da Casa das Culturas de Santos e cronista do jornal A TRIBUNA. Estudei no Canadá, como o chamamos carinhosamente, nos anos sessenta do século passado, e também fui aluna dos professores Itagiba, dona Ada e Maria Helena Caruso entre tantos outros. Hoje o colégio chama-se Escola Estadual Canadá (Rua Mato Grosso, 163, Boqueirão).



Foto de 2024.


sábado, 22 de agosto de 2026

FOLCLORE BRASILEIRO

Hoje é dia do Folclore Nacional. O folclore é o conjunto de atividades que compõem a cultura de um povo, ou seja, engloba música, dança, literatura, culinária, as superstições e as artes em geral. O folclore brasileiro reúne as tradições das três raças formadoras da nossa sociedade – indígenas, brancos e negros. Em termos regionais, o folclore do Norte e Nordeste é muito rico e cultivado com entusiasmo pela população em geral. O Estado e a cidade de São Paulo comemoram no dia 31 de outubro o dia do Saci, um dos personagens do folclore brasileiro. Ainda em São Paulo, o Curupira é considerado o guardião das florestas.

Várias manifestações culturais brasileiras são consideradas Patrimônio da humanidade pela UNESCO, como o Bumba-meu-boi e o Tambor de Crioula (Maranhão) e o Frevo (Pernambuco).

Como hoje é sábado a comemoração pode ter feijoada, caipirinha ou aluá e bolo de fubá. Para quem não conhece, o aluá é uma bebida fermentada de baixo teor alcoólico, feita de milho moído ou casca de abacaxi.

Exposição: Brecheret, no Centro Cultural FIESP.


Mostra da FAAP.

NA FAAP, a exposição “Arte da Nossa Gentereúne obras originais – pintura, escultura, gravura, bordado e cerâmica – de artistas brasileiros de diferentes regiões do país. 

Victor Brecheret: a imagem indígena como símbolo de brasilidade”  Centro Cultural FIESP, Avenida Paulista ,1313, Cerqueira César. Visitação: de terça a domingo das 10 às 20 horas. Até 30 de agosto de 2026. Gratuito.

domingo, 16 de agosto de 2026

RUA ROBERTO SIMONSEN

 

Rua Roberto Simonsen, 97. Por fora, o casarão centenário está em boas condições, mas por dentro encontra-se bastante danificado. Chocante mesmo é a destruição do elevador pantográfico. A boa notícia é que se transformará em um espaço cultural e o cartão de visitas é a exposição “Apocalipse”, que reúne obras do artista plástico paulistano Alex Fleming, que pode ser visitada até o final deste mês.

A Rua Roberto Simonsen, uma das mais antigas de São Paulo, é pequena – começa na Praça da Sé e termina no Pátio do Colégio. Cerca de 150 metros. Repleta de história e coisas pitorescas. Ela teve outros nomes: primeiro foi Rua de Santa Teresa por causa da casa de “Recolhimento de Santa Teresa”, construída em 1685 para abrigar moças. Em 1865, um vereador sugeriu que se alterasse o nome para Rua do Carmo, desta vez a causa era a Igreja do Carmo, pois naquela época a rua tinha ouro traçado. Em 1948, foi escolhida para homenagear o santista Roberto Simonsen (1889-1948), engenheiro, industrial, administrador, professor, historiador e político. Entre outras realizações, ele foi criador do Centro das Indústrias, atual FIESP.

A Casa nº 1 ou Casa da Imagem e Casa da Marquesa de Santos (1797-1867) são separadas pelo Beco do Pinto, uma escadaria de acesso à Rua Bitencourt Rodrigues que nos velhos tempos era o caminho feito pelos escravos para levar o lixo para despejo no rio Tamanduateí, logo adiante.  

Do outro lado morou Dutra Rodrigues (1844-188), presidente da Província (governador do Estado) de São Paulo, que ali recebeu a visita do Imperador D. Pedro II. O prédio foi restaurado e nele atualmente funciona o Restaurante Cama e Café, que também tem um programa cultural movimentado – saraus, exposições e shows. Na esquina com o Pátio do Colégio, outro restaurante: o Pateo Cuccina (nº 122). Nem precisa dizer que a comida italiana é especialidade da casa.

Vários sobrados antigos e em decadência têm o piso inferior usado como estacionamentos. Um deles destina-se a motos e tem um charme especial – um lustre pendente muito bonito. Na entrada de um dos estacionamentos, há um minúsculo café muito simpático – dois bancos dentro.

Este ano o Palacete do Carmo, que ocupa quase uma quadra (com um dos lados na Rua Roberto Simonsen) e se encontra em estado deplorável, foi desocupado para restauro. A construção é dos anos vinte do século passado.

Rua pequena, mas com trânsito intenso, especialmente, ônibus e trólebus que se dirigem ao Pátio do Colégio ou que transitam entre a Avenida Rangel Pestana e o Parque D. Pedro II.

O trabalho do rapaz é atrair carros para o estacionamento – ou seja – ele fica no meio da rua e indica a entrada para os motoristas. Parece que não, mas cansa.

sábado, 15 de agosto de 2026

COISAS DA INFÂNCIA

 

Quando era criança domingo era dia de ir à matinê de cinema no Cine Carlos Gomes ou Bandeirantes – dois filmes, com intervalo para algumas guloseimas que minhas tias compravam. E numa dessas sessões assisti a “O dia em que a Terra parou” (1951) e, apesar das explicações das tias, acabei ficando com um medo enorme de habitantes de outros planetas. Foi então que um dia folheando a revista O CRUZEIRO, que se comprava todas as semanas, me deparei com a reportagem sobre venusianos que tinham descido de um disco voador em Los Angeles e feito contato com um tal George Adamski (não lembrava o nome, tive que procurar).

Para mim, pior do que a notícia, foram os desenhos que Adamski fez dos viajantes do espaço. Apavorada, identifiquei um dos venusianos: havia um quadro com a fotografia dele numa das paredes do meu quarto. Minha avó Maria era uma mulher muito religiosa e nossa casa tinha uma fartura de imagens da corte celestial e de outros agregados como Antoninho da Rocha Marmo e Izildinha. O postal colorido de Izildinha ficava no quarto de minha avó e o meu fora brindado com uma gravura de Antoninho.

Fui correndo pedir à minha avó para retirar aquela foto do quarto porque tinha medo do menino que era de outro planeta. Ela continuou impassível no seu crochê e me informou que o quadro continuaria onde estava: era apenas uma foto e o menino era santo. Nem se preocupou com a questão dos extraterrestres (a expressão não era usada na época). Passei algumas semanas difíceis, imaginando que o viajante do espaço poderia aparecer a qualquer momento. Interessante (como diria Spock) porque esse o foi o único medo que me lembro de ter sentido na infância.

                Havia esquecido do fato até alguns anos atrás quando visitei o Cemitério da Consolação e vi entre as campas mais visitadas o nome de Antoninho da Rocha Marmo (1918-1930), embora os restos mortais tenham sido transladados em 2021 para a capela Nossa Senhora da Saúde, no hospital que tem o nome dele, em Campos de Jordão. A campa do cemitério paulistano foi conservada com seu nome. Coisas da infância.

                Os venusianos de Los Angeles sustentaram Adamski até a sua morte em 1965.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

NEUZA GUERREIRO DE CARVALHO

 

Neuza com participantes da oficina da memória, 2018.

Conheci a Neuza em uma das unidades da Universidade de São Paulo em eventos destinados à terceira idade, navegando pelos oitenta anos com galhardia. Baixinha, cabelos brancos e com uma disposição invejável – podia fazer um curso pela manhã, assistir a uma conferência ou a um bom filme à tarde e à noite ouvir música na Sala São Paulo ou no Teatro Municipal assistir a uma ópera ou ainda em algum teatro. Eu a via principalmente na USP, nos Encontros Culturais do prof. Terron, no Instituto Estudos Brasileiros, na Faculdade de Educação fazendo oficinas com a Elly Rozo, e até na Faculdade de Direito. Em todos esses lugares e muitos outros deixou amigos e admiradores. E ainda era uma leitora voraz, atenta aos escritores clássicos e aos contemporâneos.

Professora formada pela Faculdade de Filosofia da USP, na época em que a unidade funcionava na Alameda Glete. Lecionou Biologia no Colégio Campos Sales, na Lapa. Quando o prédio da instituição foi derrubado, iniciou uma batalha para salvar uma velha figueira da sanha imobiliária, afinal ela foi a testemunha de várias gerações que passaram pela Faculdade que originou a Universidade de São Paulo. A figueira da Glete continua firme e forte na paisagem triste de um terreno que hoje serve de estacionamento.

Há alguns anos, quando teve problemas de locomoção, embora um tanto abatida, ela continuou suas atividades com auxílio de uma bengala. Foi por essa ocasião que, numa tarde, ao embarcar na Estação Vergueiro do metrô, a vi sentadinha no banco preferencial. “Que faz você tão longe de casa?” – perguntei, brincando. Ia visitar uma prima que morava perto estação Ana Rosa, meu destino. Fomos conversando até lá. Não conhecia a região e me mostrou um papelzinho com o endereço. Ora, a rua onde moro! Mas do lado oposto. Numa subida de tirar o folego dos mais ousados e com calçadas deformadas pelas raízes das árvores. Eu a acompanhei e nos despedimos na porta da prima.

Neuza se recuperou do problema de locomoção e rejuvenesceu com a volta à intensa programação. Em 2018, me convenceu a participar da oficina “Resgate de Memória Autobiográfica”, organizado, coordenado e aplicado por ela na USP. Convenceu porque era às 8 horas da manhã no Hospital Universitário, na Cidade Universitária. Para quem mora na Aclimação, trata-se de uma viagem e tanto. Foi uma ótima experiência conviver e aprender com ela, além de conhecer pessoas com belas histórias de vida.

Muito obrigada por tudo, Neuza Guerreiro de Carvalho (1930-2026), mas pensando bem, antes de encontrá-la pessoalmente, conheci o “Blog da Vovó Neuza”, onde ela publicava crônicas deliciosas.

Figueira da Rua Glete. Foto: 5/2/2026.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O QUE VI NO CAMINHO

 

Muitas vezes passo por um lugar com algo especial ou diferente, fotografo para não esquecer, pois caneta e papel descansam em casa. Na bolsinha levo apenas o essencial. Aqui, vão algumas coisas que vi pelos caminhos feitos recentemente.





SEGURANÇA – O Abrigo Amigo, por exemplo, é uma iniciativa louvável. Há três anos em funcionamento das 20h às 5h, em 200 pontos de ônibus da cidade, já atendeu neste período dezessete mil chamadas e registrou 285 ocorrências documentadas, segundo o site da prefeitura de São Paulo. Se a pessoa que aguarda condução se sentir em situação vulnerável, aperta um botão que inicia uma vídeo-chamada, atendida por uma funcionária da equipe treinada para acionar serviços de segurança pública e saúde de acordo com a situação de emergência. O equipamento está conectado à internet e conta com câmeras de alta resolução, microfones e alto-falantes. O programa é resultado de uma parceria entre a Prefeitura, Eletromidia e a Claro. É gratuito para o usuário e sem custos para a prefeitura de acordo com o site.

AS FLORES DA SÉ – A estação mais movimentada do metrô de São Paulo é a Sé que registra em média cerca de 368 mil embarques diários. E no mezanino bem em frente às catracas esse buquê recepciona os passageiros, mas acho que bem poucos prestam atenção às flores que dão um colorido ao ambiente onde o cinza é predominante.

CAPELA DOS AFLITOS – A Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos está muito bonita, mas ainda não entrei para visitá-la. Como nos fins de semana, o bairro da Liberdade fica intransitável, o jeito é ir durante a semana. Domingo passado fui bem cedo a uma loja na Rua dos Estudantes e aproveitei para fotografar a fachada da igrejinha que já comemorou 247 anos.


FIM DO CAVEIRÃO – O prédio abandonado há seis décadas vai desaparecendo. Erguido para ser uma garagem não foi concluído e se tornou um problema para a Rua do Carmo. A demolição foi finalmente conseguida na justiça e o trabalho começou em fevereiro deste ano e já está terminando para alívio da vizinhança.


EDITORA TRÊS – Na saída da estação ferroviária pela Rua William Speers (Lapa), me deparo com o prédio da Editora Três...Fundada por Domingo Alzugaray em 1972, publicou entre outras revistas a Planeta e lançou a IstoÉ. Teve a falência decretada ano passado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

NA TRILHA DA LINHA OURO

 



Com uma área de 1.521.202 km²é muito difícil dizer que se conhece a cidade de São Paulo. Quando trabalhava, passei várias vezes de carro pela Zona Sul da cidade, mas isso não quer dizer muita coisa, porque nessas ocasiões os interesses eram outros, mais específicos e práticos. A inauguração do monotrilho – Linha Ouro 17 do metrô, no mês passado, foi a oportunidade para ver esse lado de São Paulo. Assim, semana passada fui com o amigo Nilton conhecer o trecho do monotrilho da linha Ouro, que funciona provisoriamente de segunda à sexta-feira das 9 às 16 horas em operação assistida. O monotrilho é totalmente automático, ou seja, sem operador.

Na estação Klabin (Lilás), embarcamos para o Campo Belo onde se faz a transferência para o Aeroporto de Congonhas. No caminho, poucas pessoas, a maioria sem mala como nós, mas cheias de curiosidade. Na plataforma de embarque/desembarque a sensação agradável que a iluminação natural oferece e lá fora o panorama visto do alto – a altura média do percurso do monotrilho é de vinte metros.

Funcionários explicam o trajeto – embora os painéis eletrônicos funcionem adequadamente. Enquanto esperamos, vamos observando o panorama desse pedacinho do Campo Belo, onde fui anos atrás para visitar a Casa Modernista do arquiteto Vilanova Artigas (1915-1985). Chega o trem e, embora sobrem lugares, preferimos ir em pé para não perder os detalhes do percurso. Nilton vai identificando para mim as avenidas que cruzamos. Um caminho em que o destaque é a diversidade arquitetônica dos edifícios comerciais e residenciais antigos e modernos; há núcleos de casas que resistem. O contraste é o remanescente da favela do Buraco Quente, incrustada numa área cercada por prédios de apartamentos. Formada por casas de tijolinhos vermelhos, construídas provavelmente aos poucos e com soluções pouco convencionais, mas que atendem às necessidades dos moradores dentro de suas possibilidades, já que foram eles os arquitetos.  

A viagem é curta, a velocidade, média. Na parada Congonhas resolvemos ir até a estação Morumbi. Nesse trecho, a principal atração da paisagem é sem dúvida a Ponte Octavio Frias de Oliveira, a famosa Ponte Estaiada, que liga a avenida Roberto Marinho à Marginal Pinheiros. Eu que sempre quis vê-la de perto!

Foi uma ótima tarde de inverno desse inverno atípico, mas eu fiquei com vontade de fazer algumas partes do percurso a pé... E voltei ontem começando o passeio pela avenida Washington Luís, onde fica o Aeroporto de Congonhas. Ao desembarcar da Linha 17 fui informada que não precisava atravessar a avenida Washington Luís, bastava usar a passagem subterrânea, onde há uma exposição de fotos dos visitantes que ficaram felizes por conhecerem "uma avenida no céu". Outra surpresa, pois saí exatamente no térreo do aeroporto para minha caminhada. 

FOTOS: O texto de apresentação da exposição de fotos no túnel de ligação entre o metrô e o aeroporto. Vista do acesso ao aeroporto de Congonhas.





FOTOS: Área de embarque e desembarque na estação Campo Belo.





domingo, 2 de agosto de 2026

SEMINÁRIO DAS EDUCANDAS

 

Por volta de 1825 a cidade de São Paulo tinha cerca de vinte mil habitantes e já apresentava problemas sociais como crianças vivendo pelas ruas ou recém-nascidos abandonados. Esse foi um dos motivos que levaram o Governo Imperial a instalar na Chácara da Glória uma instituição assistencialista, aproveitando a infraestrutura existente – um sobrado largo com três módulos centrais (uma sala central e quartos nas laterais), uma capela e terras próprias. No mesmo ano começou a funcionar a Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que encerrou as atividades apenas em 1950 – nesse período, a entidade recebeu 4.180 crianças.

O presidente da Província (Estado) Lucas Antônio Monteiro de Barros, visconde de Congonhas do Campo, se encarregou da organização do Seminário das Educandas da Glória.  É bom lembrar que o educandário ficava na zona rural de São Paulo, praticamente isolado do Triângulo (Rua Direita, XV e São Bento), numa época em que as estradas eram precárias tanto para o trânsito de charretes como de cavaleiros.

O programa educacional refletia a época: as meninas eram preparadas para o casamento, ou seja, aprendiam prendas domésticas – costurar, cozinhar e criar filhos. As meninas aprendiam a ler e escrever, caligrafia, as quatro operações aritméticas, princípios de moral e religião; arte culinária, bordado e engomado; mais tarde foram incluídas música e dança. O casamento era permitido a partir dos 15 anos; o candidato passava por uma avaliação da diretora e do síndico da instituição – precisava ter bom caráter e um ofício. Para aquelas que não conseguiam um marido, a opção era trabalhar como empregada doméstica.

Com o tempo, o casamento deixou de ser a meta e criou-se uma escola normal para que as moças se preparassem para o magistério; mas a escola não chegou a funcionar por falta de professores. A solução foi encaminhar as jovens com melhor desempenho para a Escola Normal (atual Escola Estadual Caetano de Campos).

Em 1844, o Seminário mudou para a Rua Açu, atual Rua Brigadeiro Tobias, na época ainda distante do Centro Histórico do qual era separada pelo rio Anhangabaú. O seminário ocupou um sobrado amarelo de dois andares, janelas protegidas por grades e muros altos. Com problemas de administração, o governo federal fez um acordo com a ordem religiosa francesa das irmãs de que administrou a instituição entre 1870 e 1932, com o objetivo de capacitar as moças para o exercício do magistério.

Com o tempo, usos e costumes mudam e a tendência é a correção dos erros do passado e tudo transforma-se em história ou História.

Walter Pires: “Configuração territorial, urbanização e patrimônio: Colônia da Glória (1876-1904)”.

Fontes: Alana Marchioro Drapcynski: “SEMINÁRIO DA GLÓRIA: RAÇA, GÊNERO E EDUCAÇÃO NO COTIDIANO DE UMA INSTITUIÇÃO ASSISTENCIAL (SÃO PAULO, 1825-1872)”.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

NADA FEITO

 


Ontem, saí com quatro objetivos – coisa rara, geralmente, um é o suficiente e muitas vezes ainda mudo de ideia e faço algo completamente diferente; entretanto, decidi aproveitar o caminho que me possibilitava cumprir as metas de uma vez só. As duas primeiras não deram certo; quanto à terceira, era essencial para cumprir a última. E foi aí que as coisas desandaram. Orientação de um motorista de táxi foi para seguir determinada rua que terminava onde eu queria ir. 

Ruas com casas de alto padrão são desertas. Vê-se apenas a parte superior das residências, porque os muros maciços escondem o resto. Toda a área fartamente arborizada, o que dá um frescor ao início da tarde; porém, as calçadas, surpreendentemente, deixam muito a desejar. Os moradores devem usar carro e não os pés para se locomoverem. Não ouço passarinhos – creio que nem eles aguentam tal marasmo. Seis quadras de tédio e nada de chegar ao final dessa triste rua. Avisto uma guarita com um rapaz que me garante que estou chegando. Nesse ponto, ouço gorjeios...

Calculei que havia andado ao todo uns três quilômetros – contando a minha saída do metrô até aquele momento. Bom senso disse que devia desistir dos dois últimos objetivos. Voltar? Nem pensar. Pedir informações seria uma boa iniciativa. Por sorte vi um rapaz apressado (como eu devia ser estrangeiro no bairro), com fones nos ouvidos, que me indica o metrô. Mais adiante, dois valetes sob um guarda-sol conversam; passo por uma igreja onde mesas cobertas com toalhas brancas parecem esperar os fiéis para um café da tarde. Será que os valetes são ligados ao evento?

Chego à terra prometida, mas nada me lembra a estação a que cheguei. Trabalhadores em uma obra em pausa de lanche garantem que a estação é do outro lado da rua, mas recomendam que use a passarela (que passarela?). Subo e desço escadas e me deparo com uma estação da CPTM. Trem? Eu perguntei pela estação do metrô e me indicaram a ferroviária? Fica a dúvida: as pessoas não distinguem um tipo de transporte do outro? Ou não ouvem o que se pergunta?

Na bilheteria, a moça me orientou gentilmente e embarquei de mãos vazias como cheguei por lá. As árvores e suas flores compensaram uma tarde complicada.

domingo, 26 de julho de 2026

UM CAFÉ EXPRESSO, POR FAVOR.


O poeta Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos no dia 26 de julho de 1895 – exatos 131 anos. Advogado, poeta, crítico literário e jornalista, ele foi um dos grandes nomes do movimento Modernista de 1922.

                                                            


CAFÉ-EXPRESSO*

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...


Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!


*Mantive a grafia original. O poema é de 1928.

sábado, 25 de julho de 2026

A VIDA NUM PISCAR DE OLHOS

 

“– A vida das gentes nesse mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos; por fim pisca uma última vez e morre.”

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”

MEMÓRIAS DA EMÍLIA (1936), 1936.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

COLÔNIA DA GLÓRIA


Vez por outra passo por lá de ônibus e o nome da rua chamou minha atenção. O que seria essa Colônia da Glória que mereceu ser denominação de uma rua na Vila Mariana? Lá fui eu pesquisar. No século dezoito, a área urbana da cidade restringia-se ao atual Centro Histórico e o entorno consistia em zona rural. A área da Chácara da Glória pertenceu a Antônio da Silva Brito, que vendeu a propriedade em 1737 e a partir daí foi sendo vendida até que foi adquirida pela Fazenda Nacional e comprada pelo bispo de São Paulo, Dom Mateus de Abreu Pereira (1742-1824). O que me espantou foi o tamanho da chácara que, segundo o Waldir Pires, arquiteto da SMC, “corresponde aos atuais bairros do Cambuci, Glória, parte da Aclimação e Vila Mariana”. Quando o bispo morreu, a propriedade foi a leilão, sendo arrematada pela Fazenda Nacional. O Governo Imperial resolveu então aproveitar a infraestrutura da propriedade para instalar o Seminário das Educandas de Nossa Senhora da Glória destinado à educação de meninas órfãs. O seminário ficou por lá até outubro de 1825 a 1844, quando foi transferido para a região central da cidade e a chácara passou para o Ministério da Agricultura pelo governo imperial para estabelecer o serviço de colonização estrangeira.

Em 1862, o jornal Correio Paulistano publicou o folhetim “Ruinas da Glória – conto fantástico” do escritor Fagundes Varela (1841-1875) que usou como cenário da história a chácara, dando a entender que ela estava abandonada.

Na segunda metade do século dezenove, foi organizada uma comissão para demarcar e organizar a implantação de quatro colônias para imigrantes em São Paulo – Glória e Santana (julho), São Caetano (agosto) e São Bernardo (setembro) de 1877. A implantação do projeto dos Núcleos teve vários problemas – financeiros, salubridade e organização. Se a Colônia da Glória falhou como área agrícola, teve um papel importante “no processo de ocupação territorial intenso, voltado para a explosiva expansão urbana que se iniciou em São Paulo na última década do século dezenove” (Walter Pires). No final do século, os negócios imobiliários na antiga colônia tornam-se intensos – uma das áreas vendidas foi usada para a implantação do jardim da Aclimação.

Fonte: “Configuração territorial, urbanização e patrimônio: Colônia da Glória (1876-1904)”, de Walter Pires. Dissertação de Mestrado, FAU/USP - 2003.