domingo, 19 de abril de 2026

CAMINHADAS AZUIS DE ABRIL

Abril é um mês azul, mais azul do que os outros meses. Os dias são amenos – nem muito quentes nem muito frios. Um tempo apropriado para se caminhar sem destino, descobrir algumas particularidades da cidade. E não sou a única – hoje aguardava o ônibus para ir ao Centro Histórico quando passou um homem jovem, carregando um saco cheio de latinhas de alumínio, e num repente, olhou o céu, tirou o boné e falou para ninguém: “Que dia lindo!”. Lembrei de Vinicius de Moraes...

Amanhecer. (18/04/2026)

Canteiros da Av. São Luís - nesgas de azul. (10/04/2026)

Domingo azul na Av. São João. (12/04/2026)

Domingo azul na Av. São João. (12/04/2026)

Av. São João. (12/04/2026)


Outro domingo azul. (19/04/2026) 

Edifício Viadutos: um chapeuzinho para dias azuis e outros nem tanto. (19/04/2026)

Meandros urbanos, aproveitando o azul intenso do domingo.(19/04/2026)


Reflexos. Praça Pérola Byington (19/04/2026)

AS CORES DE ABRIL, de Vinicius de Moraes (1913-1980).

As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu em flor
E pássaros mil
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor

O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor

Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida em canção

Sou eu, o poeta, quem diz
Vai e canta, meu irmão,
Ser feliz é viver morto de paixão

sexta-feira, 17 de abril de 2026

OBRIGADA, LOBATO

 

Aos doze anos eu já havia lido muitos livros infantis, como os de J. M. Barrie e todas as histórias de Charles Perrault e de Hans Christian Andersen. Um dia minha tia Odete me trouxe um livro que marcou toda a minha vida – “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Pela primeira vez ali estavam crianças como eu, uma avó parecida com a minha e todo espaço para brincar. Eram gente como nós. Foi a primeira vez que ouvi falar na Grécia e em deuses que moravam numa montanha, alimentavam-se de ambrosia e bebiam néctar. Perfeição? Na verdade, tinham mais defeitos do que se poderia esperar de seres tão poderosos. A Mitologia era muito mais interessante do que os contos de fadas. E cresci querendo sempre saber mais sobre esse país e sua história. Com esse livro, aprendi também sobre bibliotecas, pois livro era de uma biblioteca circulante e devia ter muito cuidado com ele – eu sempre cuidei muito bem dos meus e dos que peguei emprestado em bibliotecas.  Li todos os livros infantis de Monteiro Lobato – esperava ansiosamente a Páscoa, o meu aniversário e o Natal, épocas em que eu ganhava presentes.

Qual deles é o meu preferido? Não sei dizer, porque todos são maravilhosos. Qual meu personagem preferido? Ah! Essa é fácil! Emília. Minha família era bastante rigorosa: havia regras em casa, os mais velhos mereciam todo respeito, professores eram pessoas muito especiais porque nos abriam as portas para o mundo – ensinando-nos a ler e escrever.

Emília foi uma revelação porque era mandona, boca dura, como se dizia, e dizia o que pensava. Mas ela era uma boneca, pensava eu. Emília por Emília: “Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo – só que não é de banana.”

"Emília nasceu como nascem as válvulas de segurança. Ou a seção livre dos jornais. Emília, mais do que um ser humano é uma ideia, um pensamento. É o Lobato criança. Mas é também o Lobato adulto”, escreveu Edgard Cavalheiro. 

       Claro que a Grécia estava no roteiro da minha primeira viagem à Europa, que eu achava que seria a única pois já estava na meia idade. Quando cheguei a Atenas, no meio da noite com um luar maravilhoso, lembrei-me dos livros da infância, indiretamente de Lobato. 

"... Nas histórias infantis do criador de Pedrinho e Emília nao se encontram, como escreve Edgard Cavalheiro, seu melhor biógrafo, 'o misticismo, a superstição, a fantasia mórbida que emboloraram o pensamento brasileiro através dos séculos. Há nelas completa libertação de velhos preconceitos; alegria de viver, saúde para o espírito, impulso para os voos da razão que desabrocha. Deixando de lado a falsa e inoperante moral do catecismo, Lobato enveredou por outro rumo, sem dúvida alguma bem mais consentâneo com as duras realidades da vida. Realidades que os meninos terão, um dia, de enfrentar, queiram ou não queiram'." 

Dia 18 de abril, Dia da Literatura Infantil.

Biblioteca Monteiro Lobato.

Biblioteca Monteiro Lobato.



Fonte: "Tempo de Contar", de Joel Silveira, Editora Record. 1986.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

BIBLIOTECA INFANTOJUVENIL "MONTEIRO LOBATO"

Foi Mário de Andrade quem criou a primeira biblioteca pública Infantil da cidade, que atualmente se chama “Monteiro Lobato”. Ela foi inaugurada em 14 de abril de 1936, quando era diretor do Departamento Municipal de Cultura, como parte de um amplo plano de incentivo à cultura.  É a mais antiga biblioteca infantil em funcionamento no Brasil e foi a precursora de outras criadas no município.

E aqui entra um personagem importante nessa história: a bibliotecária Lenyra Camargo Fraccaroli (1906-1991), que dirigiu a Biblioteca Monteiro Lobato desde a criação até 1960, sempre incentivando e supervisionando a construção de outras bibliotecas em diversos bairros de São Paulo, em várias cidades paulistas e de outros Estados. O convite de Mário de Andrade foi baseado na experiência dela na direção da Biblioteca Infantil da escola primaria anexa à Escola Normal Caetano de Campos.  Em 1991, a Prefeitura deu o nome dela para a Biblioteca Infantil da Vila Manchester, na Vila Carrão, fundada em 1956.

            A primeira sede da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato foi em uma casa da Rua Major Sertório, onde além dos livros havia várias atividades para atrair as crianças – como coleções de selos (filatelia) e moedas antigas (numismática), salas de jogos e de revistas, e para sessões de cinema falado. As crianças também elaboravam um jornal “A Voz da Infância”, que foi feito de 1936 até 1948. Monteiro Lobato costumava frequentar a biblioteca e contar histórias para as crianças (Que privilégio!). Nesse espaço criou-se uma sessão em braile, que atualmente funciona no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000).

            Com o crescimento do público, a biblioteca mudou para a chácara do senador Rodolfo Miranda (1882-1954), na Rua General Jardim, onde foi construído o prédio atual, de linhas modernas e ambientes claros, inaugurado em 24 de dezembro de 1950. O projeto é do arquiteto Hentz Gorham, da Divisão de Arquitetura da Prefeitura. Somente em 1955 Monteiro Lobato tornou-se o patrono da biblioteca, pois ele continuava o autor preferido dos frequentadores. A casa onde o senador viveu, bem em frente à biblioteca, é a sede da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ela é também a mantenedora do acervo Monteiro Lobato, com cerca de 4500 itens referente à vida e obra do autor, é basicamente formado por doações da família do escritor.

A biblioteca Monteiro Lobato tem um encanto especial: além do ambiente colorido, o visitante encontra pelo caminho Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde, o Marquês de Rabicó. Apoiada no parapeito do balcão do primeiro andar, a Cuca observa os recém-chegados, que ao subir as escadas, são recepcionados por Dona Benta e Tia Nastácia. Trata-se de bonecos de pano gigantes. No térreo, duas vitrines reúnem uma coleção de mamulengos, bonecos de pano de mais ou menos setenta centímetros, que representam personagens históricos e de histórias infantis. Lá estão também antigas edições dos livros  da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicados pela Editora Brasiliense, a editora exclusiva dos livros de Monteiro Lobato e o que me deixou mais feliz foi ver ali todos os livros de Lobato que ganhei na infância.


Fotos: Prefeito Fábio da Silva Prado, Mário de Andrade e Lenyra Fraccaroli. Acervos culturais e artísticos da Prefeitura de São Paulo. Fotógrafo desconhecido, 1946.


Ah! Esse laço de fita!💓

Endereço da Biblioteca Monteiro Lobato: Rua General Jardim, 485 - Vila Buarque.
Tel.: (11) 3256-4438 e (11) 3256-4122

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O MINARETE DO BELENZINHO

 


Era em abril o aniversário de José Renato Monteiro Lobato: exatamente no dia 18. O garoto nasceu em Taubaté (SP), que deixou com apenas dezessete anos para cursar a Faculdade de Direito em São Paulo, onde ingressou após um susto: a reprovação na prova oral de Português. O sonho do rapaz era estudar Artes Plásticas, mas o avô materno nem quis ouvir falar no caso. Há algum tempo Lobato já mudara o nome para José Bento, tudo por causa da bengala do pai que trazia as iniciais JB no castão de prata, que ele admirava e, num futuro distante, pretendia usar.  

O lado artístico se manteve e, graças a ele, podemos saber como era a república na Rua 21 de Abril, no Belenzinho, onde Lobato se instalou, pois ele fez uma aquarela da residência que ficou conhecida como o Minarete. O chalé em vez de muro tinha uma cerca viva e um portão de ferro; telhado de duas águas em ponta; no térreo residia uma família e no piso superior havia dois salões, onde moravam os estudantes. Godofredo Rangel foi o primeiro morador e quando Ricardo Gonçalves foi visitá-lo se encantou com a vista: “Mas é uma torre, Rangel! Veja que amplidão de vista se descortina! Uma torre - um minarete!...”

Era ali que se reunia o Cenáculo – que tanto pode ser a sala de refeições como o local onde se reúnem pessoas com o mesmo ideal – no caso, todos eram “candidatos a intelectual”. O, mas nem todos os oito residentes no Minarete eram estudantes da São Francisco. Os rapazes e seus pseudônimos eram: Albino Carvalho Neto (NA), Cândido Negreiros (CN), Godofredo Rangel (Rangel), José Antônio Nogueira (Nogueira), Lino Moreira (LM), Martinho Dias (Tito Lívio), Monteiro Lobato (YEWSKY) e Ricardo Gonçalves (Bruno de Cádiz). O primeiro encontro do grupo foi em 1902, na Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo), ainda no quarto de Cândido Negreiros. Lobato lembraria tempos depois que: “Foi a noite dos projetos grandiosos, essa. O Cenáculo ia reformar o mundo, modificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma filosofia inéditas.” Nada como a juventude. Eles trilharam caminhos diferentes, continuaram amigos ao longo dos anos e alguns mantiveram-se escrevendo. Lobato em São Paulo e Rangel em Minas corresponderam-se durante quarenta anos.

Em setembro de 1943, quando Lobato escreveu: “Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vele alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época. Leitura, história e mais coisas”. No mês seguinte, aborda novamente o assunto. “Verdadeiras memórias dum novo gênero – escritas a intervalos e sem nem por sombras a menor ideia de que um dia fossem publicadas. Que pedantismo o meu no começo! Topete incrível! Emília pura.”

Foto: Godofredo Rangel. Wikipedia.                                 O Minarete, aquarela de Monteiro Lobato.

 


domingo, 12 de abril de 2026

MONTEIRO LOBATO E O PINGUIM

 

Monteiro Lobato era apaixonado pelo mar e algumas vezes passou férias na Baixada Santista (SP), onde morava o cunhado, Heitor de Morais. Em cartas ao amigo Godofredo Rangel, reunidas no livro “A Barca de Gleyre”, ele conta seus encontros com pinguins nas praias do litoral sul de São Paulo. Numa delas, ele tenta confundir o motorneiro português, que é mais esperto do que ele imaginava. Interessante o uso que Lobato costumava fazer do advérbio “jamais” na linguagem coloquial das cartas.

Santos, 15 de julho de 1915.

(...) Nas pedras de São Vicente peguei outro pinguim, de asinha machucada. E por causa deste coitadinho tive de brigar no bonde. Eu o trazia no colo. O condutor, um português bem merecedor de que Cunhambebe o houvesse comido, implicou. ‘O regulamento purive conduzir aves nos bondes.’ Eu quis discutir calmamente. ‘Ave tem penas, meu senhor, e onde estão as penas deste vivente?’, aleguei. Ele teimou que era ave. Eu jurei que pinguim era filhote de foca, segundo a opinião de todos os zoólogos ou exploradores ao tipo de Amundsen etc. etc. – uma coisa comprida. Minha ideia era manter a discussão até que me aproximasse da casa do Heitor, mas o raio do mondrongo teve uma ideia luminosa. Fazer parar o bonde. ‘Com a ave o bonde não segue.’ Eu ainda fiz chicana: ‘E se o Rui estivesse aqui: Seguia ou não seguia o bonde?’. ‘Que Rui?’, perguntou o alarve. ‘Rui, a águia de Haia. Ele desconfiou que eu estava a mangaire e fez parar o bonde e foi a um telefone ‘falar à Companhia e pedir pruvidências’. Voltou. Continuou o estúpido bate-boca. O bonde estava se atrasando. Havia mais gente dentro. Tive de ceder. Insultei-o à portuguesa e desci. A casa de Heitor não estava longe. Depois de exibido lá o meu pinguim, soltei-o de novo no mar. Com que gosto se meteu a nado! Quando vinha uma onda, enristava o bico e furava-a. E lá foi nadando e sumiu ao longe. Talvez tenha sido o único pinguim do mundo que jamais andou de bonde.”


A BARCA DE GLEYRE - Monteiro Lobato, São Paulo, Editora Globo. 2010.


sábado, 4 de abril de 2026

VIAGEM À LUA

“ERA EM abril. O mês do dia de anos de Pedrinho e por todos considerado o melhor mês do ano. Por quê? Porque não é frio nem quente e não é mês das águas nem de seca – tudo na conta certa!... E por causa disso inventaram lá no Sítio do Pica-pau Amarelo uma grande novidade: as férias-de-lagarto. (...) Já que o mês de abril é o mais agradável de todos, escolheram-no para o grande ‘repouso anual’ – o mês inteiro sem fazer nada, parados, cochilando como lagarto ao sol! Sem fazer nada é um modo de dizer, pois que eles ficavam fazendo uma coisa agradabilíssima: vivendo! Só isso. Gozando o prazer de viver.”

É assim que gosto de viver nesta fase da vida – lagarteando ao sol.

Assim começa a história da VIAGEM AO CÉU feita pela turma do Sítio do Pica-pau Amarelo escrita por Monteiro Lobato em 1932. E neste abril de 2026, quatro astronautas seguem em direção à Lua, quase 57 anos após a caminhada de Neil Armstrong por lá...


Livro guardado com carinho e ...


Foto da Terra tirada pelo astronauta da NASA e comandante da Artemis II, Reid Wiseman, de uma das janelas da espaçonave Orion. NASA.


NA TRILHA DO COELHO

 


Nada como uma loja com uma decoração criativa para animar a caminhada... 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

FREITAS VALLE

“Pode-se dizer que a trajetória de Freitas Valle como mecenas, líder cultural e homem público (...) não apenas contribuiu para formar elites artísticas, mas teve iniciativas importantes no campo da instrução elementar e média, na formação artesanal, no estímulo a museus e bibliotecas.” ANTONIO CANDIDO*.

José de Freitas Valle nasceu em família rica; era bonito, tinha olhos azuis, cabelos claros e muito inteligente. Os pais de Freitas Valle eram de Ilhabela (SP), mudaram em 1838 para Alegrete, onde ele nasceu em 1870 – o oitavo de uma prole de dez. Para um rapaz rico e bon vivent, Valle nunca deixou de trabalhar. Começou a escrever poesia ainda na adolescência; aos quinze anos foi aprovado nos exames preparatórios para ingresso nos cursos superiores do Império; aos 15 anos mudou sozinho para São Paulo, ingressou na Faculdade de Direito, onde foi contemporâneo de Washington Luís, Carlos de Campos, Paulo Prado, Alfredo Pujol e Alphonsus Guimarães entre outros. Aos dezessete publicou “Rebentos”, seu primeiro livro de poesias – muito mal recebido pela crítica, tornou-se seu calcanhar de Aquiles, pois seus opositores sempre o lembrariam dele; aos dezoito antes de terminar o curso casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, neta da viscondessa de Campinas, uma das maiores fortunas do estado.

            Antes de fazer 24 anos, foi aprovado em concurso para dar aulas de francês e literatura francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou por 43 anos; logo depois foi nomeado subprocurador do Estado, aposentando-se em 1937. No início do século passado, ingressou no Partido Republicano Paulista – PRP, sendo eleito deputado e senador estadual por várias legislaturas, centralizando sua ação em educação e cultura. Desligou-se da política após a revolta paulista de 1932.

Este é um breve currículo de Freitas Valle, homem apaixonado pelas artes – música, literatura, teatro e escultura e que, apesar de ter um gosto conservador, abriu a Villa Kyrial para artistas de todas as tendências. Nesse espaço, circularam o tenor italiano Enrico Caruso, a atriz francesa Sarah Bernhardt, os músicos franceses Darius Milhaud e Marcel Journet, os maestros Marinuzzi (italiano) e Xavier Leroux (francês), e o poeta e escritor francês Blaise Cendrars. Frequentavam o salão Alphonsus de Guimarães, Martins Fontes, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Lasar Segall, Heitor Villa-Lobos; os maestros Sousa Lima, Francisco Mignone e Félix Otero entre muitos outros. Além de Washington Luís e Júlio Prestes, ambos do PRP.  Coelho Neto e Olavo Bilac, quando vinham a São Paulo, hospedavam-se na Villa Kyrial.

Freitas Valle, depois do fiasco do livro de sua adolescência, amadureceu e passou a escrever em francês com o pseudônimo de Jacques d’Avray, mas não vendia seus livros, que recebiam esmerada editoração – ele costumava presentear os amigos com eles. Era um homem de muitas facetas – poeta, químico, gourmet. E para cada uma dessas atividades ele tinha uma persona – Freval era o perfumista e Jean-Jean o chef. Uma contradição – se não vendia os livros, fazia questão de vender seus “parfums exquis

 Foi o fundador da Pinacoteca do Estado, juntamente com Carlos de Campos, Ramos de Azevedo, Sampaio Viana e Adolfo Pinheiro, instalada e 1905 nas dependências do Liceu de Artes e Ofícios, aberta à visitação pública em 1911 com a I Exposição Brasileira de Belas Artes. Foi sócio fundador da Sociedade Cultura Artística, incentivou a criação de bibliotecas públicas. A primeira exposição de Segall, recém chegado ao Brasil, foi patrocinada por ele; indicou Sousa Lima e Francisco Mignone para as bolsas no exterior, assim como Anita Malfatti e Brecheret entre muitos outros.

José de Freitas Valle foi o grande nome da Belle Époque em São Paulo e teve a sorte de ter sua trajetória narrada pela professora e escritora Márcia Camargos (1965), doutora em História Social pela USP. “Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana” (Editora SENAC-São Paulo, 2001) é um livro indispensável para se conhecer um período efervescente na vida cultural paulistana e nele o papel desempenhado por Valle.

*“Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana”.

“Tinha qualquer coisa de príncipe da Renascença”, segundo Menotti Del Picchia.


segunda-feira, 30 de março de 2026

A VILLA KYRIAL

Rua Domingos de Morais, 300. Um prédio comum, sem encantos, construído na década de 1960, vendido na época como moderno e elegante. Seis décadas depois tem a entrada obliterada pela instalação de um supermercado. Nem sempre esse lugar foi tão prosaico.  No início do século XX, a cidade começava a se expandir e a Avenida Paulista era o lugar predileto dos muito ricos para instalar suas “casas de campo”. A Vila Mariana era subúrbio paulistano. Em 1904, o gaúcho José de Freitas Valle (1870-1958), que viera muito jovem para São Paulo para estudar Direito no Largo de São Francisco, preferiu comprar uma chácara no arrabalde – na Rua Domingos de Morais, 10, com cerca de sete mil metros quadrados, com fundos para a Rua Cubatão. Ali, Freitas Valle construiu com a herança do pai a lendária Villa Kyrial que, mais do que uma residência luxuosa, foi um polo cultural muito importante, frequentado por artistas e intelectuais nacionais e internacionais de todas as tendências. 



A casa de estilo eclético tinha uma parte térrea e dois blocos com piso superior de um lado e do outro havia uma pequena torre. A entrada era por uma varanda que dava acesso tanto ao hall quanto à Galeria, que tinha nichos no lugar de janelas com figuras representando a pintura, a dança, a escultura e a música. Era na Galeria que se realizavam os serões literários e a apresentação de artistas. O mobiliário constituía-se de poltronas e sofás de couro, junto à parede, ladeando a poltrona de Freitas Valle, apelidada de trono. As paredes eram cobertas por 113 quadros, quase a metade da coleção de Vale; mas o destaque era o piano Bechstein, marca de altíssima qualidade, que no século XIX tornara-se o preferido das casas reais europeias. Depois do vestíbulo, havia a biblioteca e o fumoir. Na biblioteca, muito bem abastecida de livros e revistas estrangeiras; a seguir chegava-se à sala de música onde havia um gramofone, um piano de armário e uma eolina – instrumento precursor do acordeom e da concertina. Da sala de música passava-se à sala de visitas.

             O espaço familiar estendia-se ao longo de um corredor com oito dormitórios à direita das salas; havia ainda uma de almoço, dois banheiros, duas copas, saleta de costura e cozinha. No final do corredor, uma escada de ferro em caracol levava a mais dois quartos. Em um deles Freitas mantinha o depósito de essências e produtos destinados à fabricação artesanal de perfumes. No subsolo, ficava a famosa adega que tinha a mesma metragem do térreo.

Um caseiro, um tratador de cães, arrumadeira, copeira e cozinheira compunham o quadro de empregados da casa. Freitas Valle nunca teve carro, tinha à disposição um automóvel de aluguel dirigido por um motorista português.

São Paulo crescia na direção Sul e a Vila Mariana foi perdendo seu jeito suburbano, as chácaras foram loteadas, atraindo novos moradores. Aos poucos, a tranquilidade da Villa Kyrial foi se diluindo no burburinho urbano e os frequentadores desaparecendo dos saraus. Freitas Valle morreu em 1958 e quando a Villa Kyrial foi vendida em 1960, a propriedade tinha menos da metade da área original.  

Quem foi esse Freitas Valle? Bom, isso é outra história.

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural.


quarta-feira, 18 de março de 2026

COBRA NO CAMINHO

 

Tinha sido um daqueles dias complicados. Final da tarde, passa um pouco das seis horas, ameaça de chuva. No ponto, apenas uma moça preocupada com a demora dos ônibus. Consulta o celular a todo instante. Sabe os horários dos ônibus que já deveriam ter chegado. Está atrasada e conta que tem três gatos que devem estar aflitos com a ausência dela, pois já devem estar com fome. Mesmo sem que eu pergunte, acaba me contando que se separou do marido, mas manteve os bichanos. Conta as gracinhas, que são lindos etc. e tal.  Ela é simpática, fala com desenvoltura e vez por outra vai até o meio fio espiar se vem algum ônibus. Não tenho muito a contribuir com a conversa e ela continua até que se entusiasma e fala do projeto de ampliar seu mundo pet: entrou com pedido no IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente para adotar uma serpente Píton, gênero nativo da Ásia e África que, embora não seja venenosa, é uma das maiores cobras conhecidas. Vai colocá-la num cubículo envidraçado que vai mandar fazer na casa do Litoral. Suspirei aliviada por saber que o bicho não será meu vizinho na Aclimação. Salva pelo ônibus que apareceu. Ah! Ela parecia tão normal...




domingo, 15 de março de 2026

PADARIA E PADARIAS

 

“Levava eu um jarrinho

P’ra ir buscar vinho

Levava um tostão

P’ra comprar pão;

E levava uma fita

Para ir bonita.

(...)”*

Nasci em meados do século passado em um mundo bem diferente. Na rua em que morávamos havia uma padaria enorme, a Cirilo, que vendia apenas pão, biscoitos de polvilho e leite. No balcão, a freguesia escolhia o pão fresquinho e o balconista embrulhava numa folha de papel, fazia duas orelhinhas no embrulho que fechava dando uma cambalhota no pacote. Agora vem em saquinhos fechados com a etiqueta do peso e valor a ser pago, mas em alguns lugares, o balconista ainda faz as orelhinhas nas pontas do pacote.

Em nossa casa, o pão era entregue em casa todas as manhãs... As padarias mudaram aos poucos, incluindo o balcão do cafezinho com a média (pão francês em Santos) com manteiga, sanduíches... Na primeira vez que fui à Europa, senti falta das padarias que por lá continuavam vendendo apenas pão. Hoje, como bem lembra o texto da mostra, tornaram-se centros de convivência – as pessoas (especialmente aposentados) se encontram no final da tarde para o café, o bate-papo, assistir a jogos, fazer comemorações e até para ler, pois encontro sempre uma senhora empunhando livros em meio ao burburinho.

            Lembrei-me de tudo isso quando vi a exposição sobre padarias na estação Paraíso do metrô. Pequena, porém, bem ilustrativa do salto do setor na economia. De acordo com dados de 2024, a panificação no Brasil rendeu USD$ 5,12 bilhões! Nosso país é o maior mercado de padarias do mundo com cerca de setenta mil estabelecimentos distribuídos pelo país. Em média o consumo anual é de 29,3 kg de pão por pessoa!

            Em São Paulo, a padaria mais antiga de São Paulo é a Santa Tereza em funcionamento desde 1872 – Praça João Mendes, 150. Ainda em São Paulo, frequentei durante alguns anos a Padaria Dengosa, na esquina de casa, que incluía refeições no cardápio; mas foi vendida e todos debandaram porque os serviços já não eram os mesmos. Atualmente, costumo ir ao Recanto Doce, que é uma das melhores padarias da Aclimação, tem uma equipe muito simpática e também é perto de casa.


*Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

POMAR URBANO








Abacate, amora, figo, goiaba, jabuticaba, jaca, mamão, manga, nêspera, pitanga e romã são algumas frutas que podem ser encontradas pelos caminhos paulistanos. Só aqui na Aclimação, na Praça Manuk Koumerian, temos jaqueira, mangueira, pitangueira e amora! Um pouco mais adiante há uma linda jabuticabeira (Paula Ney) e subindo a Rua Nicolau Sousa Queirós existem abacateiros e mais adiante, uma goiabeira. E cacau, um fruto muito especial.

    Yes, nós temos banana, mas não para dar e vender. Basta pegar! Recentemente, alguém resolveu plantar uma bananeira na Praça Maria Thereza Martins Chaibub, que fica na Rua Topázio bem em frente à Rua Batista Cepelos.

                                                                                                                                                                                                                                                                             Jabuticabeira

.     
  Amoreira 



A nespereira da Rua Piauí e uma das jaqueiras da Praça Clóvis Bevilaácqua.

Mangueira da Praça M. Koumerian.


A pequena goiabeira na esquina com a R. Vergueiro.


Seguro morreu de velho...


Cacaueiro no Parque das Bicicletas, Vila Clementino.




A centenária figueira da Alameda Glete...



E seus frutos.




Bananeiras na pracinha da Aclimação.



terça-feira, 10 de março de 2026

BOBAGEM DO DIA

 

 Hoje o planeta Urano está cheio de dedos: comemora a descoberta de nove dos seus anéis em 1977, mas alguns anos depois revelaram-se outros – ao todo são vinte de acordo com o professor João Steiner (IAG/USP). Os primeiros anéis foram descobertos por James L. Elliot, Edwatd W. Dunham e Douglas Mink. Na verdade, desde a Antiguidade o corpo celeste era observado, mas erroneamente identificado como uma estrela até que, em 13 de março de 1781, o astrônomo alemão William Herschel (1738-1822) descobriu o erro: tratava-se de um planeta e não de uma estrela. Como Herschel, que se radicou na Inglaterra, era músico e vai ver “ouvia estrelas”, como diria Olavo Bilac, quando fez a descoberta.

Foto: Wikipedia.

SAPATOS ESPECIAIS

Revi “Um corpo que cai” do Alfred Hitchcock. Um bom filme, mas há uma cena dramática que me fez rir novamente. A personagem de Kim Novak tenta o suicídio jogando-se no mar e James Stewart a salva. entretanto, ela acabou de dar um mergulho e continua com o elegante par de sapatos. Fantástico!😀



sábado, 7 de março de 2026

MONUMENTOS ITINERANTES

 


Nas andanças pelo Tatuapé, vi de longe um monumento em frente às bibliotecas municipais Cassiano Ricardo e Hans Christian Andersen e, achando que tinha algo a ver com música ou contos de fadas, fui até lá. Como roubaram a placa de identificação, não entendi o que significavam as figuras e ninguém por lá soube explicar. O jeito foi consultar os arquivos da prefeitura. A escultura se chama “Pátria e Família” e é uma das partes do monumento encomendado pelos estudantes de Direito para homenagear Olavo Bilac, e mais tarde desmembrado pela prefeitura e espalhado pela cidade. A escultura está no Tatuapé desde 2000. Eis uma história que vale a pena ser relembrada.

Olavo Bilac (I865-1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista, mas se destacou na poesia, sendo até eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” pela revista FON-FON em 1907. Carioca, frequentou e não concluiu o curso de Medicina no Rio nem o de Direito no Largo de São Francisco. O fato de não ter se formado não diminuiu o apreço dos estudantes da faculdade paulista por Bilac e, quando ele morreu em 1918, resolveram homenageá-lo com um monumento. Arrecadaram dinheiro e encomendaram a obra ao escultor sueco William Zadig (1884-1952) que na época lecionava no Liceu de Artes e Ofícios.

Zadig usou temas de poemas de Bilac para compor sua obra, instalada pela prefeitura na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias. A inauguração aconteceu durante as comemorações do centenário da Independência em 1922. Lá estavam figuras do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).  

O monumento virou uma polêmica: uns diziam que ele atrapalhava o trânsito, outros que era feio demais e havia os puritanos que achavam indecente o “Idílio ou Beijo Eterno”. A prefeitura, entretanto, só retirou o monumento em 1932 por causa de obras viárias e o dividiu em grupos que espalhou por diversos bairros, mas manteve o casal apaixonado no depósito de onde só foi resgatado muitos anos depois pelo prefeito Jânio Quadros que colocou a obra no Cambuci. Novos protestos, porém, desta vez os estudantes da Faculdade de Direito, resgataram o casal que levaram para o Largo de São Francisco para felicidade de todos.  

Quanto à “Pátria e Família”, antes de adornar a Praça José Moreno, passou pelo cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf, com a Avenida Celso Garcia e pela Praça Kennedy na Mooca.

quarta-feira, 4 de março de 2026

PINGO-DE-OURO

 

Foto: véspera de Natal de 2025.

Ela está numa pracinha atrás do prédio em que moro. Reparei nela na véspera de Natal, quando a fotografei, mas hoje pesquisei no Google e soube que é conhecida como pingo-de-ouro e que os frutos são tóxicos. O uso é ornamental. Lembrei-me da moça coreana que, naquele dia, colheu vários frutos enquanto eu estava fotografando os cachos dourados. Como falava mal português, acho que ela já havia provado dos frutos e me pareceu que elogiava o sabor, pois me mostrava à medida que ia comendo. Eu desconhecia a toxidade do fruto, só me preocupei com a higiene – comer sem lavá-los. Só hoje pesquisei para identificar a árvore e soube da toxidade. Espero que ela tenha sobrevivido.

    Em Portugal (depois na Grécia) vi laranjeiras carregadas de frutas maduras. Lindas! “Por que as pessoas não comem?” – perguntei a uma senhora, que me explicou serem muito azedas. Não prestavam para consumo, só como ornamentação.

Foto: 3 de março de 2026.



segunda-feira, 2 de março de 2026

A FALSA SERINGUEIRA

 


Condução nos finais de semana é como jogo – depende de “sorte”. Sábado depois de esperar um ônibus por 40 minutos, embarquei um tanto aborrecida. Sentei no banco preferido, o solitário de frente para o cobrador, e que me livra de vizinhos contadores de casos; entretanto, não tem funcionado muito. Houve um dia em que o cidadão ficou de pé de frente para mim, mas felizmente minha carranca não o animou a puxar conversa; no sábado, acabei enredada numa prosa que no final até foi interessante.

Um senhor sentou-se, no banquinho do acompanhante de cadeirante já que não havia nenhum dois – nem o cadeirante nem o acompanhante. Não sei quando a senhora se acomodou no banco do corredor da outra fileira. O trânsito estava igualzinho à hora do rush, como se dizia antigamente.

Foi uma glória conseguirmos chegar à Rua da Glória para acessar a Conselheiro Furtado e foi ali, na esquina onde paramos mais uma vez, que o senhor suspirou ao ver a árvore que tomou conta de um canteiro que divide as duas ruas com a São Joaquim. Suspirou e comentou em voz alta para ninguém em especial que ao chegar a São Paulo há mais de cinquenta anos a árvore já estava ali. Como crescera e estava tão bonita! A árvore – uma falsa-seringueira – também era velha conhecida da senhora do corredor ao lado. Veio para São Paulo há quarenta anos e também se lembrava bem da árvore.

Assim, a falsa-seringueira acendeu as lembranças dos dois passageiros. Ele morou muitos anos na região que aprecia muito e onde ainda trabalha; morar, ele mora em São Mateus. A senhora continua no bairro e, lá pelas tantas, interrompe as recordações do senhor para perguntar se não é ele quem deixa o carro na rua (não lembro) todo dia. Sim, ele mesmo. Ela já vai dizendo que ele deve ter conhecido o Bigode, marido dela. Ele não ouviu e continuou apontando lugares que existiram por ali e que desapareceram com o passar dos anos.

Ele fala do desaparecimento dos postos de gasolina e, essa foi a minha deixa para entrar na conversa, pois estávamos passando pela Praça Almeida Júnior: “Ali havia um enorme posto de gasolina substituído por um prédio de quatro andares que foi construído aos poucos e onde há um mercado de peixe e um hortifruti”. Ele suspira um tanto sorumbático com tantas coisas que ele viu em seus 72 anos de vida. Eu procuro animá-lo: “o senhor tem o que recordar porque viveu e tem uma história na cidade”.

Quem mandou abrir a boca? Ele diz que eu também tenho histórias e só não quero contar. Vira-se para a esposa do Bigode e avalia que ela tem uns cinquenta e poucos anos. Ela ri e confessa os 81. Ele me encara e digo que pode contar com mais oitenta da minha parte.

Os dois descem na Sé, esquecidos da falsa-seringueira, originária da Ásia e usada em ajardinamentos. Ontem à tarde fui fotografar a falsa-seringueira.

As pessoas não respeitam a natureza e despejam o lixo no canteiro.