Foi
uma viagem atribulada pela Europa. Já estava quase na metade da viagem quando,
em Berlim, quase levei um tombo, machuquei bastante o pé e fui mancando para República
Checa. O fato ocorreu em Praga, onde fazia
um frio fantástico e ainda era outubro. No último dia de estada programei a ida
à biblioteca de um mosteiro medieval. Tomei o bonde, desci no local mais próximo
e, com o mapa da cidade na mão, fui localizar o mosteiro. Quando cheguei ao
local, olhei da calçada e achei que estava enganada. Na época (não sei se ainda
é assim), era difícil encontrar pessoas que falassem inglês e, portanto, andei
um pouco seguindo o muro e achei um caminho ladeado por gramado e entrei.
Parecia o caminho para um parque. Havia poucas pessoas, tentei falar com uma
senhora, mas nada feito e assim continuei andando por uns dez minutos até que cheguei
a um cruzamento – outra passagem no muro que ligava os terrenos vizinhos. Foi
quando ouvi um cachorro latindo. O som vinha da direção em que eu ia e percebi
que ele vinha se aproximando. Não tenho medo de cães e... E foi então que eu
descobri porque ele latia tanto – surgiu no caminho um animal enorme, com
orelhas grandes e saltava como se tivesse molas nos pés. Parei na hora e
entendi que ele fugia do cachorro que continuava latindo. Felizmente, o animal
viu a passagem e saiu aos saltos. O cão –
um pastor alemão – em desabalada carreira (adoro essa expressão) apareceu e foi
na mesma direção. Espantada com o bicho que parecia um coelho gigante (Mas nem
o Pernalonga seria tão grande.), fui atrás dos dois para ver o que acontecia. Entretanto,
quando cheguei à passagem, só vi o cão latindo junto a um arbusto perto da
cerca.
Outro
mistério: por onde o bicho saíra. Isso tinha que ficar para depois. Decidi ir
procurar o mosteiro e vi que a passagem oposta levava à margem de um rio e foi
lá que achei o mosteiro. É verdade que entrei pelos fundos.
Enfim,
nunca esqueci do encontro inusitado. Anos se passaram e eu, curiosa para saber
que bicho esquisito era aquele! Até que anos depois, assistindo a um desenho
animado (quem diz que desenho não é cultura?) achei que o poderia ser um
canguru, mas descartei a possibilidade. O que faria um canguru em Praga? E solto
num parque! Até onde sei são bem perigosos.
Hoje
resolvi pesquisar no Google. E não é que a República Checa usa cangurus para
reabilitação de prisioneiros, mas parece que o programa não funciona bem porque
de vez em quando eles fogem da prisão, o que não é um bom exemplo para os
detentos. Assim, no meu currículo de
viagem posso registrar um encontro com um canguru em Praga. (Praga, outubro de
2008)
2 comentários:
Estou curiosa pra conhecer o programa de recuperação de preso com canguru. Sei q são bons de soco
Realmente, são bons de soco. Fui em busca dos detalhes do programa. Os detentos da Prisão de Jiřice em regime aberto cuidam de uma pequena fazenda que abriga cangurus, lhamas, galinhas e coelhos. “O cuidado com esses animais exige paciência e responsabilidade, servindo como uma ferramenta antiestresse”. A prisão fica a 40 km de Praga. Em 2024 dois cangurus escaparam, mas um voltou espontaneamente para “o trabalho”. O que eu vi foi em 2008 e não sei se fazia parte do grupo de “cangurus terapeutas”.
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