Ela já se chamou Alameda dos
Bambus, mas o nome foi mudado para Rio Branco pela prefeitura em 1907 por sugestão
dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Eles
consideravam que esta seria uma merecida homenagem ao diplomata José Maria da
Silva Paranhos Júnior (1845-1912), o Barão do Rio Branco, a figura mais
admirada pelos brasileiros e que estudara nas arcadas, embora tenha se formado
na faculdade de Recife. Para se ter uma ideia do prestígio do Barão basta
contar que no Distrito Federal (Rio de Janeiro), o Carnaval de 1912 foi adiado
porque ele morreu exatamente durante a festa. O Barão foi o responsável pelas
negociações diplomáticas que configuraram as fronteiras Oeste do Brasil,
negociando com Peru e Bolívia, e no Sul, Argentina. É o patrono da diplomacia
brasileira.
Voltando
à avenida: ela começa entre o Largo do Paissandu e a Rua Antônio de
Godoi e dali segue paralela à Avenida São João, da qual vai se afastando para
terminar no Viaduto Orlando Murgel. Nem é preciso lembrar que no princípio aquela
era uma área rural, com característica de várzea e ocupada por chácaras. No período
entre o final do século XIX e início do século XX, as grandes fortunas estavam
mudando de ares e se instalando na região Oeste. Entre eles Antônio da Silva
Prado, que adquiriu a chácara de Francisco de Assis Carvalho, Henrique Dumont,
irmão de Alberto Santos-Dumont, e Elias Antônio Pacheco e Chaves entre outros. A avenida tem prédios bem conservados, mas há
muitos que mesmo em decadência guardam resquícios do apogeu. O trecho mais
abandonado é o inicial. (Antônio Prado tornou memorável a Chácara do Carvalho por
sua contribuição à vida cultural da cidade.)
O prédio da Igreja Evangélica Luterana
de São Paulo é de 1909. Foi o primeiro em estilo neogótico da cidade. O projeto
é do arquiteto Guilherme Von Eye. Os belos vitrais foram produzidos pela
tradicional Casa Conrado. O órgão, construído pela Casa Walcker, tinha doze
registros e 620 tubos; após algumas reformas, em 1995 passou a 1.146 tubos.
Tive a oportunidade de conhecer a igreja graças a um programa do SESC Carmo que
promovia música nas principais igrejas do Centro Histórico. No dia 1º de maio
de 2028, um incêndio no edifício Wilson Paes de Almeida, seguido de desabamento,
destruiu parcialmente a igreja que promoveu uma campanha para levantar fundos
para restauro. Ela é tombada pelo CONPRESP
(1992) e pelo CONDPHAAT (2012). Um muro
todo pichado é a única lembrança do prédio Paes de Almeida.
Numa esquina, fico sabendo que a Rua
General Osório é a rua das motos (nenhuma à vista) porque desde os anos 1940
tem um comércio voltado para peças e acessórios (novos e usados) e equipamentos
para motocicletas. Há inclusive oficinas especializadas em conserto e restauro das
máquinas. Não há muito o que ver até chegar à Praça Princesa Isabel que foi recuperada
e encontra-se bem cuidada. Mulheres com crianças, pessoas passeando com seus
cães aos pés do monumento a Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), Duque de
Caxias. Criação de Brecheret (1894-1955), vencedor do concurso internacional para
a realização do trabalho. A estátua equestre foi inaugurada em 1960. No
pedestal de granito há um resumo da carreira de Caxias.
Passo pelo palacete do cafeicultor Elias
Antônio Pacheco e Chaves (1842-1903), que atualmente é sede da Secretaria
Estadual de Justiça e Cidadania. Trata-se do Palácio dos Campos Elíseos, projeto
do arquiteto alemão Matheus Häusler,
inaugurado em 1899 e tomado pelo CONDEPHAAT em 1970. Na calçada oposta, um casarão
chama atenção. É dos anos 1920 e pertence ao Estado. Já foi sede do Centro de Referência
em Educação “Mário Covas”. A casa ao lado deve ter sido muito bonita, mas
encontra-se em decadência.
A grande referência do bairro,
entretanto, é o Hospital da Mulher (SUS), inaugurado em 2022, que atende “especialidades
como oncologia ginecológica e mamária, ginecologia de alta complexidade,
cuidados paliativos e reprodução humana assistida, além de atuar no ensino e
pesquisa do programa de residência médica em Ginecologia e Mastologia”. Avenida
Rio Branco, 1080, em frente ao Terminal de Ônibus Princesa Isabel.
Estico a caminhada até o SESC Bom Retiro na Alameda Nothmann para um cafezinho. E no caminho uma boa surpresa: vejo um trem passando por um viaduto. Adoro trens. E em todos esses anos em São Paulo nunca havia observado essa cena. Enquanto saboreio o café, observo o pessoal fazendo alongamento no saguão. Penso com meus botões que segunda-feira começa com ginástica. Afasto a lembrança e saio em direção ao terminal onde pegarei o ônibus de volta à Aclimação.


