Escadas
também podem trazer boas lembranças. No início dos anos 1990, fui assistir ao show
de Luciano Pavarotti no Pacaembu. Para ir nenhum problema porque o trólebus
passava na esquina de casa; mas para evitar o caos da saída, resolvi subir as
escadas de acesso à Rua Itápolis e caminhar até a Avenida Paulista. Assim,
quando pensei em escadas, logo me veio à lembrança Pavarotti e as escadas e por
isso aproveitei o sol de maior e fui à Praça Charles Miller. Dessa vez o som
deveria ser das máquinas que operam na construção da estação FAAP da linha 6
Laranja do metro.
As
obras transformaram a área em canteiro de obras. Hora do almoço e os operários
estavam espalhados pela praça: uns acomodados nos degraus das escadarias almoçavam,
outros batiam papo com colegas pelo gramado. Havia até um lendo livro, sem
contar o que se deitara ao longo de um banco com o capacete sobre o rosto, mãos
cruzadas sobre a barriga. Parecia morto.
No
centro da praça olho em torno. No início do século passado ali era um local
ermo, um matagal conhecido como Águas Férreas, onde os mais corajosos
costumavam caçar e nas profundezas do barranco, a garotada ia, sem que os pais
soubessem, tomar banho na fonte que formava um lago e que dava nome ao lugar. Quem
conta é Zélia Gatai em seu livro de memórias “Anarquistas, graças a Deus”. Ali
se formou o elegante bairro do Pacaembu. Casario e prédios de alto padrão cercam
a Praça Charles Miller, onde o Estádio Paulo Machado de Carvalho ainda é o destaque
– verdadeiro baú de memórias do futebol paulista.
Fico
em dúvida se devo subir as escadas da esquerda ou da direita para a Avenida
Paulista. O tempo passou... Bobagem perguntar a alguém porque nenhum deles é da
região, mesmo assim tento. Um rapaz me garante que é o escadão da esquerda, mas
acha melhor eu chamar um Uber. Agradeço a sugestão, mas explico que vou a pé.
E
dito e feito. Subi as escadas e continuo a subir até a Rua Capivari, passo pela
Praça Fagundes Varela (que faz um poeta romântico nestas plagas esportivas?) e
sigo em frente até sair na... Na Avenida Dr. Arnaldo! Meu desapontamento só
arrefece quando lembro da estação Clínicas do metrô.
Ah! As escadas têm pouco menos de cem degraus.
Quando
o sol voltar a brilhar, voltarei para subir as escadarias do outro lado e fazer
o caminho para a Avenida Paulista.





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