segunda-feira, 20 de julho de 2026

HOJE É O DIA DA LUA

Lado oculto da Lua - foto NASA. 

E não é que hoje é o dia internacional da Lua? Explicado porque sou aluada! Nosso satélite é lindo. Esta madrugada parecia uma joia sobre veludo azul. (É, eu sei, nada original.) Hoje é o último dia de Lua nova. Amanhã, quarto crescente.

O aviador brasileiro Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho (1873-1932), mas a data refere-se ao dia em que o astronauta americano Neil Armstrong (1930-2012), no comando da missão Apollo 11, pousou na Lua: 20 de julho de 1969.

 “Ismália”

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…

Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Poema de Alphonsus de Guimaraes (1870-1921), considerado o melhor poeta do movimento simbolista no Brasil.

domingo, 19 de julho de 2026

CASINHA PEQUENINA

 

Casa bandeirista: Sítio da Ressaca, Jabaquara. Foto: Hilda Araújo.

A música de domínio público teve várias gravações, mas prefiro a interpretação de Sílvio Caldas (1908-1998).

https://www.youtube.com/watch?v=-KnPe35nRjc 


Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu, ai
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu

Tinha um coqueiro do lado
Que, coitado, de saudade, já morreu
Tinha um coqueiro do lado
Que, coitado, de saudade, já morreu

Tu não te lembras das juras, ó, perjura
Que fizeste com fervor, ai
Tu não te lembras das juras, ó, perjura
Que fizeste com fervor

Daquele beijo demorado, prolongado
Que selou o nosso amor
Daquele beijo demorado, prolongado
Que selou o nosso amor


sábado, 18 de julho de 2026

CHAMINÉS: MARCOS DE UMA ÉPOCA

As chaminés industriais também têm histórias para contar. A maioria desapareceu, outras estão abandonadas e algumas encontram-se bem preservadas, inseridas em espaços nobres. Construídas em alvenaria de tijolos, cujo tom brique se destaca na paisagem urbana, essas centenárias chaminés são marcos da industrialização de São Paulo. Altas e robustas, elas eram construídas de dentro para fora, com auxílio de barrotes de apoio para o assentamento de tijolos e argamassa, pois andaimes ainda não eram usados. Como as chaminés precisavam (precisam) de manutenção, uma abertura na base suficiente para a passagem de uma pessoa e no interior havia uma escada com varões de ferro com degraus de quarenta centímetros de altura.

Nas minhas caminhadas pela cidade, encontrei várias, inclusive as chaminés dos antigos incineradores de lixo. Elas têm altura que varia entre 30 e 50 metros por dois motivos: precisavam ser altas para evitar que a fumaça expelida não afetasse a vizinhança e para que a eficiência fosse garantida; contudo, a altura não era aleatória, tinha que ser adequada ao volume do fumo produzido. Com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em 1972, as chaminés foram desativadas aos poucos porque houve a conscientização da sociedade em geral sobre questões ambientais, além da modernização dos sistemas produtivos. 

Uma chaminé, entretanto, tem uma história especial. A Chaminé da Luz, que pertenceu à antiga Usina Elétrica da Luz, teve um papel importante no processo de eletrificação da cidade de São Paulo. Ela ficou pronta em 1896 e em 1924 foi alvo de bombardeios pelo governo federal durante a rebelião tenentista que ocorreu entre 5 e 28 de julho, matando cerca de mil pessoas, enquanto cerca de quatro mil ficaram feridas. O objetivo da revolta foi a deposição do presidente Artur Bernardes (1875-1955), fato que o levou a decretar estado de sítio até quase o final do governo. Há alguns anos o Ministério Público condenou o governo do Estado a restaurar a chaminé, que ainda mantém resquícios da revolta em suas paredes. (Rua João Teodoro, 155 - Bom Retiro).

Companhia Antarctica Paulista: Avenida Presidente Wilson, Mooca.


Chaminé da Companhia Refinação União integrada ao jardim do condomínio.
Rua Borges Figueiredo.

A Chaminé da Luz, no Bom Retiro.


A chaminé situada no Parque D. Pedro II, que aparece em muitas fotos que fiz pelo Centro, também pertenceu à antiga Usina Elétrica da Luz, de acordo com a IA (não confio muito nela). 

A chaminé vista do Palácio das Indústrias.


Vista da Rua Vinte e Cinco de Março.


E de outro ponto do Parque.


 Numa viela, uma chaminé ao lado do conjunto de galpões da antiga Serraria Americana, que funcionou na Rua Tagipuru, 709, na Barra Funda.


 

 Há ainda as três chaminés da Casa das Caldeiras, década de 1920, na Água Branca. Tombamento do conjunto pelo CONDEPHAAT: 1986.

Há duas chaminés dos antigos incineradores de lixo: Vergueiro (Rua Breno Ferraz do Amaral, 390 próximo à estação Santos-Imigrantes) e Pinheiros (Rua do Sumidouro., Parque Victor Civita). 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A MOOCA DOS BISCOITOS, PANETONES E ALPARGATAS


Vista parcial fábrica da Companhia Antarctica Paulista: Avenida Presidente Wilson.

A Mooca foi um dos grandes polos industriais da cidade. Um rápido olhar pela lista de empresas instaladas naquela região há um século é possível imaginar que quase tudo que se precisava era produzido ou passava por lá – desde velas e sabão, a fósforos, chuveiros, tecidos, biscoitos, açúcar, panetones, sapatos de qualidade e alpargatas e cerveja. O trajeto do trem da Linha 10 – Turquesa Brás-Ipiranga dá uma percepção do que era a região na primeira metade do século passado: uma longa sequência de galpões industriais, agora abandonados, a maioria semidestruída. A ferrovia foi o motivo da instalação das indústrias naquela área, pois facilitava o transporte dos insumos e das mercadorias.

A Mooca é um bairro de muitas origens – a italiana predominava, mas ali conviviam alemães, franceses, escoceses, libaneses, holandeses, espanhóis e portugueses entre outros. Uma das primeiras indústrias instaladas na Mooca foi a Cervejaria Bavária, fundada em 1892 pelo alemão Heinrich Stupakoff (1856-1920), numa área de 23 mil metros quadrados, na Avenida Bavária, atual Presidente Wilson, 307. As instalações da empresa incluíam um depósito de cevada, um edifício destinado a adegas, uma chaminé de cinquenta metros de altura e um conjunto de casas para operários. Havia ainda no local dois poços artesanais com 130 m de profundidade e capacidade de 250 mil litros de água para a fabricação do gelo e da cerveja – em caso de falta d’água no bairro, a população recorria à empresa.

Em 1904 a Companhia Antarctica Paulista – Fábrica de Gelo e Cervejaria, que nascera modesta, já havia crescido a ponto de adquirir o controle da Cervejaria Bavária. A Antarctica surgiu a partir da sociedade de outro alemão, Louis Bücher, proprietário de uma pequena cervejaria, com Joaquim Salles, dono de um matadouro e uma pequena fábrica de gelo subutilizada, na Água Branca, nas imediações das ferrovias SPR e a Sorocabana. O empreendimento foi um sucesso: em 1895, a companhia tornou-se sociedade anônima e em 1904 ao adquirir a Bavária, mudou para a Mooca.

Uma empresa tão poderosa que construiu uma área de lazer de trezentos mil metros quadrados para os funcionários, onde havia campo de futebol, quadra de tênis, pista de atletismo, parque infantil, restaurantes e, naturalmente, uma choperia.  Esse era o Parque Antarctica, que também desapareceu.

Estes foram alguns dos empreendedores que transformaram a Mooca num dos bairros mais importantes da história da cidade: Heinrich Stupakoff – Cervejaria Bavária, depois comprada pela Antarctica; Donato Di Cunto – padaria e confeitaria, firme e forte no mesmo endereço; Francisco Matarazzo – Indústrias Reunidas Matarazzo; Alessandro Lorenzetti – fábrica de parafusos; Pierre Duchen – biscoitos amanteigados; Vittorio Migliora – Fiat Lux; Egidio Pinotti Gamba– Moinhos Gamba ou Moinho Santo Antônio; Robert Fraser – Alpargatas; Irmãos Giuseppe e Nicola Puglisi Carbone – Companhia União dos Refinadores – Açúcar e Café entre muitos outros.


Parte do prédio ainda com os tijolos originais.





Largo São Rafael.

Rua Borges de Figueiredo, que concentrou grandes indústrias.



quinta-feira, 9 de julho de 2026

VIVA A MOOCA!



Nesses tempos de muita pressa, difícil reconhecer o Lirismo ou se perder em Alta Floresta, porém aqui se trata de duas ruas da Mooca, tradicional bairro paulistano, sede da Subprefeitura da Mooca. A caminhada pela Mooca foi muito agradável, entretanto, pouca coisa sobrou da história do bairro. É lamentável ver o abandono de espaços que poderiam ter sido preservados para uso comum ou empreendimentos comerciais. Mais triste ainda ver a demolição da antiga fábrica de sapatos da Clark. Mais um prédio muito bonito que desapareceu...

O nome do bairro é quatrocentão. Remonta aos tempos em que os silvícolas viviam no planalto e, diz a lenda, observando os homens brancos preenchendo com barro amassado o arcabouço de varas amarradas para fazer paredes, diziam “moo-Ka” (moo-oca) – o que significa, segundo alguns, “eles estão fazendo casas”; porém, de acordo com outros, a expressão seria mũoka, que significa "casa de parente.

A ocupação da área foi lenta até que no final do século XIX a cidade se expandiu graças à ferrovia inaugurada em 1867, à industrialização que se seguiu e à chegada dos imigrantes que se estabeleceram pela região, especialmente italianos. A Mooca tornou-se um bairro operário. Em 1958 Adoniran Barbosa revelava o sonho de um trabalhador: “Lá no alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente dez de fundo, construí minha maloca*.”

Depois de um período em que a população diminuiu, o bairro voltou a crescer. A Mooca tem uma área 7,95 km², onde moram cerca de 81 mil pessoas (2017). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é dos mais altos:  0,909! A base da economia local é comércio e serviços. Na área de educação – além da educação infantil, ensino fundamental e médio público e privado, dispõe de duas universidades particulares. Quando o tema é cultura e entretenimento, há muito o que fazer. O Museu da Imigração do Estado de São Paulo, instalado no prédio da antiga Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo (1885), é um dos principais museus da cidade. Foi criado em 1993. A Biblioteca Municipal Mooca “Affonso Taunay” (1954) mantém várias atividades; se os cinemas de rua acabaram, o Shopping Mooca dispõe de salas modernas e confortáveis. O Teatro Arthur Azevedo, fundado em 1952, é tombado pelo CONPRESP.

Dois clubes da Mooca se destacam na história da cidade: o Jockey Club de São Paulo e o Clube Atlético Juventus. Antes da urbanização da Mooca, Rafael Aguiar Paes de Barros (1835-1889) fundou em sua fazenda Oratório um clube de corridas de cavalos nos mesmos moldes dos clubes ingleses. Reuniu 73 sócios e um capital de $ 9.990 réis e fundou em 14 de março de 1875 o Hipódromo da Mooca ou Club de Corridas Paulistano com capacidade para 1200 pessoas. A primeira corrida aconteceu em outubro de 1876 e estavam inscritos apenas dois cavalos: Macaco e Republicano. Vencedor: Macaco.

Logo o Hipódromo tornou-se uma atração e as pessoas que visitavam a cidade iam conhecer o “Prado”. A iniciativa incentivou o comércio da Mooca. A São Paulo Railway (SPR) tinha um ramal para atender especialmente aos frequentadores do Hipódromo. Desses tempos sobraram as ruas do Hipódromo e dos Trilhos, porque 1941 foi inaugurada a nova sede em Cidade Jardim com o novo nome:  Jockey Club de São Paulo. Aos poucos o hipódromo da Mooca foi se adaptando a novos usos: primeiramente como escola e oficina de preparação de cadetes da Aeronáutica e mais tarde a Prefeitura de São Paulo assumiu a área que abriga a Subprefeitura da Mooca e o Centro Esportivo Salim Farah Maluf.


Os funcionários do Cotonifício Crespi, que jogavam futebol de várzea, tinham dois clubes que se uniram em 1924 e formaram o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube. No ano seguinte, o conde Crespi cedeu uma propriedade entre as Ruas Javari e dos Trilhos para a construção do campo de futebol. A entidade nasceu modesta, mas se destacou nas competições e em 1930 mudou o nome para Clube Atlético Juventus – uma homenagem ao clube italiano. Cresceu e continua firme e forte na mesma Rua Javari. Nem é preciso dizer que o clube da Mooca é um dos mais queridos da cidade até hoje.

Em 1922 chegou o primeiro cinema do bairro “Palácio Moderno”, mais tarde Cine Teatro Moderno. Foi o primeiro de uma longa lista. Os amantes de teatro tiveram que esperar mais tempo. O Teatro Arthur de Azevedo (Av. Paes de Barros, 955) foi inaugurado em 1952 e tombado em 1992. A casa passou por obras de modernização e está em pleno funcionamento.




 
Rua Javari.

Foto do meu arquivo pessoal. Provavelmente, 2018.

 Continua: As indústrias que embalaram a Mooca.