terça-feira, 22 de setembro de 2026

PRIMAVERA

 

A Primavera começa hoje à noite no Hemisfério Sul, embora por aqui sempre haja flores para colorir a vida e amenizar o cinza do concreto urbano. 

Em algum lugar de São Paulo, anos atrás.

Jardim interno da Estação Sé do Metrô.


Uma boa ocasião para lembrar o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 

E ACONTECEU A PRIMAVERA

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…


II

“— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.


(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas

 

Le Jardin des Plantes de Paris, 2012.

Alberto Caieiro/ Fernando Pessoa (1888-1935)

“QUANDO vier a primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. (,,,)".

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

DIA DA ÁRVORE



 

Hoje é o Dia da Árvore, que antecede o início da Primavera. As árvores são os seres mais antigos da Terra e nos envolvem do nascimento à morte, mas quase sempre nos esquecemos que elas são imprescindíveis para nossa existência, pois são responsáveis pela produção e manutenção do padrão de oxigênio da atmosfera do Planeta e fornecem a maior parte da energia necessária para a vida.

“A árvore é um ser vivo que nasce, vive e morre, respira e se alimenta sem sair do lugar. É uma planta com tronco, ramos, folhas e, embaixo da terra, raízes que absorbem o alimento de que ela necessita. Para que uma árvore nasça é preciso uma semente. A semente do carvalho fica dentro do seu fruto, a lande ou glande. Ela cai da árvore no outono, germinando na primavera, quando o tempo é suficientemente úmido e quente. Absorve água, incha, seu invólucro estoura. Surge a raiz, que se finca ao solo. Um ano depois, o pequeno carvalho mede vinte centímetros. Aos cinco anos, seu tronco tem a espessura de um lápis. Ele não para de crescer e pode viver até mil anos!” – Da Coleção ORIGENS DO SABER – Natureza – Cia. Melhoramentos, 1995. Impresso na Itália por Società Editoriale Libraria. Tradução Yvonne M. de Campos Teixeira da Silva.















"Graft", obra do artista Roxy Paine (1966), em aço inoxidável, instalada no National Gallery of Art Sculture Garden, em Washington, DC. Setembro de 2017.


FOTOS de cima para baixo, da esquerda para direita:
Cinelândia. Rio de Janeiro, 2022. 
Abrigo de sonhos, Liberdade, São Paulo.
Jardim em Istambul, Turquia. 2019.         
Tessalônica, Grécia, 2019.
Jardim em Marraquexe, 2023.
A beleza em uma Rua de Regio Calabria. 2024.
Netuno, Itália, 2024.
Praia de Santa Mônica, Califórnia, 2015.
A sombra amiga: Honolulu, Havaí. 2017.
Jardin des Plantes de Paris, 2012.
Arboretum Kelvin Walkway, Jardim Botânico de Glasgow, 2015.










segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DUAS EXPOSIÇÕES IMPERDÍVEIS

Oportunidade imperdível: ver em São Paulo obras originais de dois artistas magistrais: “Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra" até o próximo dia 27 de setembro no Centro Cultural Caixa, e “Miró: Mestre das Formas”, no Museu de Arte Brasileira / FAAP até 12 de outubro de 2026.

A exposição da Caixa Cultural reúne 69 gravuras originais, produzidas entre 1620 de 1665, sobre temas variados – retratos, cenas cotidianas, paisagens e narrativas religiosas. Pintor e gravador neerlandês, reconhecido como um dos maiores nomes da arte europeia, Rembrandt van Rijn (1606- 1669) viveu no século de ouro dos Países Baixos, entre o final do século XVI e início do XVIII. O curador é o historiador italiano Luca Baroni, diretor da Rete Museale Marche Nord,

O público dispõe de áudio-guia, conteúdo em braile, vídeos em libras, ambiente sensorial, sala imersiva, além de lupas para ver detalhes das gravuras menores. Há ainda uma representação holográfica do holandês em tamanho real.

A entrada é gratuita. Praça da Sé, 111. Metrô Sé. Linha Azul.

Visitação: de terça a domingo, das 9h às 18h até 27 de setembro de 2026. Informações: (11) 3321-4400, 

 



O Museu de Arte Brasileira/FAAP exibe “Miró: Mestre das Formas”. São mais de cem obras do artista catalão – pinturas, gravuras, esculturas, tapeçarias e fotografias. A mostra cobre mais de seis décadas de produção de Joan Miró (1893-1983), muitas das quais inéditas no Brasil. A curadoria é do espanhol Jordi J. Clavero e a realização é do Instituto Totex.

Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia).

Museu de Arte Brasileira MAB FAA: Rua Alagoas, 903, Higienópolis.

Visitação: de terça a domingo, das 9h às 20h (última entrada às 19h) até 12 de outubro de 2026. 



quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CHUVA E LEMBRANÇAS

 

Ontem, numa conversa com minha amiga Ercília, falando das chuvas, lembrávamos dos dias de tormentas e enchentes na Baixada Santista, quando éramos escaladas para cobrir as consequências das inundações pela Baixada. Era um trabalho difícil, mas nunca deixamos de ir aos locais atingidos, conversar com a população e ouvir queixas sob chuva e em meio a torrentes de água suja.

Uma das primeiras reportagens que eu fiz foi na antiga Rodovia da Banana, que liga Peruíbe à Ana Dias, e que se chama desde 2021 Rodovia Coronel Rodolpho Pettená. Foi em 1970. Era foca. Nunca tinha ouvido falar em Ana Dias. Eu e o fotógrafo estávamos com sorte; fomos numa caminhonete F 100– nos dias ruins teria sido ou Kombi ou Fusca. Não lembro mais dos detalhes apenas que a pista da estrada era um lamaçal só e os caminhoneiros estavam isolados em uma área além de alguma curva. Claro que hesitei, mas tirei os sapatos e enfiei os pés na lama literalmente. Curioso, o motorista do jornal foi junto. O fotógrafo registrou o fato e a foto foi publicada no dia seguinte na primeira página ilustrando a reportagem.

Da primeira enchente não esqueci. Das outras tantas e tantas me lembro vagamente. Lembro de duas enchentes na Zona Noroeste: uma em que eu e o outro jornalista escalados navegamos por uma avenida a bordo de um barquinho; e a outra com a amiga Ercília, quando empurramos uma Kombi atolada e eu perdi um pé da babucha que usava. (Repórter nunca sabe onde será o seu próximo trabalho e esse é o encanto da profissão.) No dia seguinte comprei uma galocha que ficava no jornal para essas coberturas. Um dia escreverei sobre a última, que foi em Cubatão já nos anos 1980.

Bons tempos.

Estrada da Banana: Jornal CIDADE DE SANTOS.

Avenida na Zona Noroeste de Santos. Ano: 1970.


FERNANDO PESSOA E A CHUVA

 

"CHOVE. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente..."

 

Fernando Pessoa (1888-1932) / Cancioneiro.



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SETE DE SETEMBRO

 

No dia 7 de setembro as atenções voltam-se para o Alto do Ipiranga, onde o príncipe regente D. Pedro (1798-1834) proclamou nossa Independência às margens do riacho do Ipiranga, hoje tão abandonado. Entretanto, o bairro Penha de França, ou apenas Penha, também teve um papel importante nessa História que aconteceu em 1822  O príncipe e comitiva partiram do Rio de Janeiro, no dia 14 de agosto, com destino à Província de São Paulo que vivia uma crise política: em maio daquele ano houve uma revolta de militares e civis, liderada por Francisco Inácio de Souza Queiroz, que culminara com a destituição do governo e criara uma situação de instabilidade política.

Foi uma longa viagem a cavalo e em mulas, com paradas para pernoites até que no dia 24 de agosto, uma sexta-feira, chegou à Penha de França: “A 24 de agosto chegou o príncipe à povoação da Penha de França, a légua e meia da capital, onde pernoitou, expedindo daí o decreto que dissolveu o governo provisório, e ordenou que saíssem obrigatoriamente da capital os principais fomentadores dos movimentos subversivos (ocorridos entre maio e julho)”.

No dia seguinte, D. Pedro assistiu missa antes de partir para São Paulo. A entrada do regente teve caráter oficial – foi recepcionado por vereadores, religiosos e pelo povo em frente à Igreja da Ordem Terceira de N. Sra. do Carmo (Av. Rangel Pestana, 230). Foi hospedado pelo coronel Antônio da Silva Prado. Barão de Iguape, e depois na casa de Manoel Rodrigues Jordão, o brigadeiro Jordão, na cidade. Ele ficou dez dias em São Paulo em articulações políticas até a partida para Santos, cidade natal de José Bonifácio de Andrade e Silva, no dia 5 de setembro. Na volta de Santos, às margens do riacho do Ipiranga, houve o encontro com o mensageiro Paulo Bregaro, oficial do Tribunal Militar, com as cartas que definiram o momento da Independência.

Era 7 de setembro de 1822. Um sábado. Na mesma noite, D. Pedro compareceu à Casa da Ópera que ficava na região do Pátio do Colégio, onde foi aclamado espontaneamente pela população que lotou o teatro. 

Placa localizada na Basílica de Nossa Senhora. da Penha.

A Basílica ainda pode ser vista da estação Penha do Metrô.


O Museu Paulista do Ipiranga e o busto de José Bonifácio, o Patriarca da Independência.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

DESENCONTROS E ENCONTROS

 Quando eu digo que São Paulo é cheia de surpresas, não acreditam. Hoje, conheci o túmulo de Marlene Dietrich.

Fui ao Cemitério da Consolação para conversar com Popó, o responsável pelas visitas guiadas; porém, fiz um caminho diferente: desci na Avenida Angélica e entrei pela portaria da Rua Mato Grosso. Claro que me perdi porque da rua vi o topo do maior mausoléu da América Latina, que pertence à família Matarazzo, e fui lá dar uma olhada (acho que não havia visto ainda). E logo estava indo para lá e para cá observando esses resquícios da vaidade humana. Tive que pedir ajuda ao funcionário que passava soprador de folhas nas alamedas. Popó não estava. Terei que retornar outro dia. Na saída, fui até a Rua Sergipe pegar o ônibus, quando avistei o Cemitério dos Protestantes cuja história conhecia sem tê-lo visitado. Não perdi a oportunidade. Fui entrando. Muito bonito. Simples e pequeno. Sem ostentação. Caminhei observando pelos nomes inscritos nos mausoléus a origem das famílias que formam nossa sociedade. E foi assim que me deparei com Marlene Dietrich – ela nasceu em 1934, quando a atriz alemã, naturalizada estadunidense, já era um imenso sucesso – e faleceu em 2011. A estrela de “O Anjo Azul” nasceu em 1901 em Berlim e faleceu em 1992 em Paris. Espero que esta sra. Marlene Dietrich, que descansa aqui, não tenha passado por situações desagradáveis por ter sido xará da estrela.


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