sábado, 25 de abril de 2026

AVENIDA SÃO JOÃO

 

Num final de semana ensolarado, saí sem destino e no caminho lembrei-me de que ainda não havia caminhado pela Avenida São João. Conheço o início e o final da avenida; ano passado, no passeio pelo Minhocão, a vi de cima e quantas vezes passei por ela de carro (geralmente táxi ou veículo de empresa onde trabalhava). Passar de carro e caminhar por uma rua são duas coisas bem diferentes. Assim, aproveitei o domingo para andar por essa avenida fascinante.

        Ela começa num ponto histórico: a praça Antônio Prado e tem dois guardiões emblemáticos – o edifício Antônio Arantes – Banespa (atual Farol Santander) e o Martinelli. Um detalhe: o primeiro fica na Rua João Brícola e o segundo entre a São Bento e a Líbero Badaró. Da praça tem-se uma vista muito bonita da avenida que atravessa o Vale do Anhangabaú e segue para o poente até terminar perto de um castelinho – o tristemente famoso castelinho da Rua Apa. Entre um ponto e outro encontra-se a Galeria do Rock, a mais bonita de São Paulo; a Galeria Olido, que já foi endereço da Companhia Siderúrgica Paulista; a centenária igreja dos Homens Pretos e do tradicional restaurante Ponto Chique, ambos no Largo do Paissandu, a um passo da avenida.

E nessa ronda diurna, sem procurar nada e ninguém, chego à esquina das Avenidas São João com a Ipiranga, onde encontro o professor e compositor Paulo Vanzolini (1924-2013) sentado num banco observando a vida passar. Quase sempre tem companhia, mas tenho dúvidas se ele é reconhecido. Na calçada em frente, abrigado no bar famoso, está Adoniran Barbosa (1910-1982), frequentador do pedaço, com seu inseparável Peteleco. Vanzolini descreveu a cena de sangue num bar da São João. “Tiro ao Álvaro”? Não! Essa é de Adoniran Barbosa (1910-1982). Épocas e estilos diferentes. Grandes compositores. Esta é a esquina dos velhos boêmios.

E o decorador da rua colocou num ponto estratégico um paparazzi com sua câmera apontada para o Bar da Bhrama como se esperasse a chegada dos famosos para registrar flagrantes indiscretos. Mais à frente um engraxate – outra lembrança de um tempo em que crianças trabalhavam e os tênis eram para esportistas.

E lá vou eu! Gosto muito do relógio estilizado que adorna o prédio de esquina onde funciona uma farmácia. Passo pela Rua Aurora, onde nasceu Mário de Andrade. À esquerda, vejo o prédio branco de quatro andares que faz parte da história do cinema paulistano: em 1938 ali foi inaugurado Cine Metro, considerado um dos cinemas mais elegantes de São Paulo. O glamour durou até a década de 1960. Em 1997 encerrou as atividades. Atualmente, é sede de uma igreja evangélica.

E na esquina com a Rua Pedro Américo, encontra-se o Edifício Andraus, 32 andares, 115 m de altura e um heliporto. Ficou pronto em 1962 e era o endereço de várias empresas e da Pirani, uma loja popular que ocupava o subsolo, o térreo e mais alguns andares. Em 24 de fevereiro de 1972, um incêndio provocado pela sobrecarga do sistema elétrico causou a morte de dezesseis pessoas e 345 ficaram feridas. A situação não foi pior porque o heliporto possibilitou o resgate de cerca de quinhentas pessoas.

Entre as ruas Aurora e Vitória fica a Praça Júlio de Mesquita que é adornada por um dos mais belos monumentos da cidade: a “Fonte Monumental” em mármore branco de Carrara e bronze. A obra inaugurada em 1927 é da artista campineira Nicolina do Couto (1874-1941).

Não me esqueci do tradicionalíssimo “Rei do File”, no ponto desde 1914 – Praça Júlio de Mesquita, quando se chamava Esplanadinha, mas ficou conhecido como “Filé do Moraes” por conta do cozinheiro que assim se chamava.

Destaque para o Prédio dos Estudantes, que pertence ao Centro Acadêmico XI de Agosto dos alunos da Faculdade de Direito da USP: funciona como moradia estudantil para os jovens que não têm meios de se manter em São Paulo durante o curso.

Há prédios muito bonitos ao longo da Avenida São João e bem conservados. Vale uma caminhada.



Uma soneca ao lado de Vanzolini. (30/12/2025)





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