“Pode-se dizer que a trajetória de Freitas Valle como mecenas, líder cultural e homem público (...) não apenas contribuiu para formar elites artísticas, mas teve iniciativas importantes no campo da instrução elementar e média, na formação artesanal, no estímulo a museus e bibliotecas.” ANTONIO CANDIDO*.
José de Freitas Valle nasceu em família rica; era bonito, tinha
olhos azuis, cabelos claros e muito inteligente. Os pais de Freitas Valle eram
de Ilhabela (SP), mudaram em 1838 para Alegrete, onde ele nasceu em 1870 – o
oitavo de uma prole de dez. Para um rapaz rico e bon vivent, Valle nunca
deixou de trabalhar. Começou a escrever poesia ainda na adolescência; aos
quinze anos foi aprovado nos exames preparatórios para ingresso nos cursos
superiores do Império; aos 15 anos mudou sozinho para São Paulo, ingressou na
Faculdade de Direito, onde foi contemporâneo de Washington Luís, Carlos de
Campos, Paulo Prado, Alfredo Pujol e Alphonsus Guimarães entre outros. Aos
dezessete publicou “Rebentos”, seu primeiro livro de
poesias – muito mal recebido pela crítica, tornou-se seu calcanhar de Aquiles, pois
seus opositores sempre o lembrariam dele; aos dezoito antes de terminar o curso casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, neta da
viscondessa de Campinas, uma das maiores fortunas do estado.
Antes
de fazer 24 anos, foi aprovado em concurso para dar aulas de francês e
literatura francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou por 43 anos; logo
depois foi nomeado subprocurador do Estado, aposentando-se em 1937. No início
do século passado, ingressou no Partido Republicano Paulista – PRP, sendo
eleito deputado e senador estadual por várias legislaturas, centralizando sua
ação em educação e cultura. Desligou-se da política após a revolta paulista de
1932.
Este é um breve currículo de Freitas Valle,
homem apaixonado pelas artes – música, literatura, teatro e escultura e que,
apesar de ter um gosto conservador, abriu a Villa Kyrial para artistas de todas
as tendências. Nesse espaço, circularam o tenor italiano Enrico Caruso, a atriz
francesa Sarah Bernhardt, os músicos franceses Darius Milhaud e Marcel Journet,
os maestros Marinuzzi (italiano) e Xavier Leroux (francês), e o poeta e
escritor francês Blaise Cendrars. Frequentavam o salão Alphonsus de Guimarães,
Martins Fontes, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Mário de Andrade,
Lasar Segall, Heitor Villa-Lobos; os maestros Sousa Lima, Francisco Mignone e
Félix Otero entre muitos outros. Além de Washington Luís e Júlio Prestes, ambos
do PRP. Coelho Neto e Olavo Bilac,
quando vinham a São Paulo, hospedavam-se na Villa Kyrial.
Freitas Valle, depois do fiasco do livro de sua
adolescência, amadureceu e passou a escrever em francês com o pseudônimo de
Jacques d’Avray, mas não vendia seus livros, que recebiam esmerada editoração –
ele costumava presentear os amigos com eles. Era um homem de muitas facetas –
poeta, químico, gourmet. E para cada uma dessas atividades ele tinha uma
persona – Freval era o perfumista e Jean-Jean o chef. Uma contradição – se não
vendia os livros, fazia questão de vender seus “parfums exquis”
Foi o
fundador da Pinacoteca do Estado, juntamente com Carlos de Campos, Ramos de
Azevedo, Sampaio Viana e Adolfo Pinheiro, instalada e 1905 nas dependências do
Liceu de Artes e Ofícios, aberta à visitação pública em 1911 com a I Exposição
Brasileira de Belas Artes. Foi sócio fundador da Sociedade Cultura Artística,
incentivou a criação de bibliotecas públicas. A primeira exposição de Segall,
recém chegado ao Brasil, foi patrocinada por ele; indicou Sousa Lima e
Francisco Mignone para as bolsas no exterior, assim como Anita Malfatti e
Brecheret entre muitos outros.
José de Freitas Valle foi o grande nome da
Belle Époque em São Paulo e teve a sorte de ter sua trajetória narrada pela
professora e escritora Márcia Camargos (1965), doutora em História Social pela
USP. “Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana” (Editora SENAC-São Paulo,
2001) é um livro indispensável para se conhecer um período efervescente na vida
cultural paulistana e nele o papel desempenhado por Valle.
*“Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque
Paulistana”.
“Tinha qualquer coisa de príncipe da Renascença”, segundo Menotti Del Picchia.


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