segunda-feira, 13 de abril de 2026

O MINARETE DO BELENZINHO

 


Era em abril o aniversário de José Renato Monteiro Lobato: exatamente no dia 18. O garoto nasceu em Taubaté (SP), que deixou com apenas dezessete anos para cursar a Faculdade de Direito em São Paulo, onde ingressou após um susto: a reprovação na prova oral de Português. O sonho do rapaz era estudar Artes Plásticas, mas o avô materno nem quis ouvir falar no caso. Há algum tempo Lobato já mudara o nome para José Bento, tudo por causa da bengala do pai que trazia as iniciais JB no castão de prata, que ele admirava e, num futuro distante, pretendia usar.  

O lado artístico se manteve e, graças a ele, podemos saber como era a república na Rua 21 de Abril, no Belenzinho, onde Lobato se instalou, pois ele fez uma aquarela da residência que ficou conhecida como o Minarete. O chalé em vez de muro tinha uma cerca viva e um portão de ferro; telhado de duas águas em ponta; no térreo residia uma família e no piso superior havia dois salões, onde moravam os estudantes. Godofredo Rangel foi o primeiro morador e quando Ricardo Gonçalves foi visitá-lo se encantou com a vista: “Mas é uma torre, Rangel! Veja que amplidão de vista se descortina! Uma torre - um minarete!...”

Era ali que se reunia o Cenáculo – que tanto pode ser a sala de refeições como o local onde se reúnem pessoas com o mesmo ideal – no caso, todos eram “candidatos a intelectual”. O, mas nem todos os oito residentes no Minarete eram estudantes da São Francisco. Os rapazes e seus pseudônimos eram: Albino Carvalho Neto (NA), Cândido Negreiros (CN), Godofredo Rangel (Rangel), José Antônio Nogueira (Nogueira), Lino Moreira (LM), Martinho Dias (Tito Lívio), Monteiro Lobato (YEWSKY) e Ricardo Gonçalves (Bruno de Cádiz). O primeiro encontro do grupo foi em 1902, na Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo), ainda no quarto de Cândido Negreiros. Lobato lembraria tempos depois que: “Foi a noite dos projetos grandiosos, essa. O Cenáculo ia reformar o mundo, modificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma filosofia inéditas.” Nada como a juventude. Eles trilharam caminhos diferentes, continuaram amigos ao longo dos anos e alguns mantiveram-se escrevendo. Lobato em São Paulo e Rangel em Minas corresponderam-se durante quarenta anos.

Em setembro de 1943, quando Lobato escreveu: “Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vele alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época. Leitura, história e mais coisas”. No mês seguinte, aborda novamente o assunto. “Verdadeiras memórias dum novo gênero – escritas a intervalos e sem nem por sombras a menor ideia de que um dia fossem publicadas. Que pedantismo o meu no começo! Topete incrível! Emília pura.”

Foto: Godofredo Rangel. Wikipedia.                                 O Minarete, aquarela de Monteiro Lobato.

 


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