domingo, 12 de abril de 2026

MONTEIRO LOBATO E O PINGUIM

 

Monteiro Lobato era apaixonado pelo mar e algumas vezes passou férias na Baixada Santista (SP), onde morava o cunhado, Heitor de Morais. Em cartas ao amigo Godofredo Rangel, reunidas no livro “A Barca de Gleyre”, ele conta seus encontros com pinguins nas praias do litoral sul de São Paulo. Numa delas, ele tenta confundir o motorneiro português, que é mais esperto do que ele imaginava. Interessante o uso que Lobato costumava fazer do advérbio “jamais” na linguagem coloquial das cartas.

Santos, 15 de julho de 1915.

(...) Nas pedras de São Vicente peguei outro pinguim, de asinha machucada. E por causa deste coitadinho tive de brigar no bonde. Eu o trazia no colo. O condutor, um português bem merecedor de que Cunhambebe o houvesse comido, implicou. ‘O regulamento purive conduzir aves nos bondes.’ Eu quis discutir calmamente. ‘Ave tem penas, meu senhor, e onde estão as penas deste vivente?’, aleguei. Ele teimou que era ave. Eu jurei que pinguim era filhote de foca, segundo a opinião de todos os zoólogos ou exploradores ao tipo de Amundsen etc. etc. – uma coisa comprida. Minha ideia era manter a discussão até que me aproximasse da casa do Heitor, mas o raio do mondrongo teve uma ideia luminosa. Fazer parar o bonde. ‘Com a ave o bonde não segue.’ Eu ainda fiz chicana: ‘E se o Rui estivesse aqui: Seguia ou não seguia o bonde?’. ‘Que Rui?’, perguntou o alarve. ‘Rui, a águia de Haia. Ele desconfiou que eu estava a mangaire e fez parar o bonde e foi a um telefone ‘falar à Companhia e pedir pruvidências’. Voltou. Continuou o estúpido bate-boca. O bonde estava se atrasando. Havia mais gente dentro. Tive de ceder. Insultei-o à portuguesa e desci. A casa de Heitor não estava longe. Depois de exibido lá o meu pinguim, soltei-o de novo no mar. Com que gosto se meteu a nado! Quando vinha uma onda, enristava o bico e furava-a. E lá foi nadando e sumiu ao longe. Talvez tenha sido o único pinguim do mundo que jamais andou de bonde.”


A BARCA DE GLEYRE - Monteiro Lobato, São Paulo, Editora Globo. 2010.


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