segunda-feira, 30 de março de 2026

A VILLA KYRIAL

Rua Domingos de Morais, 300. Um prédio comum, sem encantos, construído na década de 1960, vendido na época como moderno e elegante. Seis décadas depois tem a entrada obliterada pela instalação de um supermercado. Nem sempre esse lugar foi tão prosaico.  No início do século XX, a cidade começava a se expandir e a Avenida Paulista era o lugar predileto dos muito ricos para instalar suas “casas de campo”. A Vila Mariana era subúrbio paulistano. Em 1904, o gaúcho José de Freitas Valle (1870-1958), que viera muito jovem para São Paulo para estudar Direito no Largo de São Francisco, preferiu comprar uma chácara no arrabalde – na Rua Domingos de Morais, 10, com cerca de sete mil metros quadrados, com fundos para a Rua Cubatão. Ali, Freitas Valle construiu com a herança do pai a lendária Villa Kyrial que, mais do que uma residência luxuosa, foi um polo cultural muito importante, frequentado por artistas e intelectuais nacionais e internacionais de todas as tendências. 



A casa de estilo eclético tinha uma parte térrea e dois blocos com piso superior de um lado e do outro havia uma pequena torre. A entrada era por uma varanda que dava acesso tanto ao hall quanto à Galeria, que tinha nichos no lugar de janelas com figuras representando a pintura, a dança, a escultura e a música. Era na Galeria que se realizavam os serões literários e a apresentação de artistas. O mobiliário constituía-se de poltronas e sofás de couro, junto à parede, ladeando a poltrona de Freitas Valle, apelidada de trono. As paredes eram cobertas por 113 quadros, quase a metade da coleção de Vale; mas o destaque era o piano Bechstein, marca de altíssima qualidade, que no século XIX tornara-se o preferido das casas reais europeias. Depois do vestíbulo, havia a biblioteca e o fumoir. Na biblioteca, muito bem abastecida de livros e revistas estrangeiras; a seguir chegava-se à sala de música onde havia um gramofone, um piano de armário e uma eolina – instrumento precursor do acordeom e da concertina. Da sala de música passava-se à sala de visitas.

             O espaço familiar estendia-se ao longo de um corredor com oito dormitórios à direita das salas; havia ainda uma de almoço, dois banheiros, duas copas, saleta de costura e cozinha. No final do corredor, uma escada de ferro em caracol levava a mais dois quartos. Em um deles Freitas mantinha o depósito de essências e produtos destinados à fabricação artesanal de perfumes. No subsolo, ficava a famosa adega que tinha a mesma metragem do térreo.

Um caseiro, um tratador de cães, arrumadeira, copeira e cozinheira compunham o quadro de empregados da casa. Freitas Valle nunca teve carro, tinha à disposição um automóvel de aluguel dirigido por um motorista português.

São Paulo crescia na direção Sul e a Vila Mariana foi perdendo seu jeito suburbano, as chácaras foram loteadas, atraindo novos moradores. Aos poucos, a tranquilidade da Villa Kyrial foi se diluindo no burburinho urbano e os frequentadores desaparecendo dos saraus. Freitas Valle morreu em 1958 e quando a Villa Kyrial foi vendida em 1960, a propriedade tinha menos da metade da área original.  

Quem foi esse Freitas Valle? Bom, isso é outra história.

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural.


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