Rua
Domingos de Morais, 300. Um prédio comum, sem encantos, construído na década de
1960, vendido na época como moderno e elegante. Seis décadas depois tem a
entrada obliterada pela instalação de um supermercado. Nem sempre esse lugar
foi tão prosaico. No início do século
XX, a cidade começava a se expandir e a Avenida Paulista era o lugar predileto
dos muito ricos para instalar suas “casas de campo”. A Vila Mariana era
subúrbio paulistano. Em 1904, o gaúcho José de Freitas Valle (1870-1958), que
viera muito jovem para São Paulo para estudar Direito no Largo de São
Francisco, preferiu comprar uma chácara no arrabalde – na Rua Domingos de
Morais, 10, com cerca de sete mil metros quadrados, com fundos para a Rua
Cubatão. Ali, Freitas Valle construiu com a herança do pai a lendária Villa
Kyrial que, mais do que uma residência luxuosa, foi um polo cultural muito
importante, frequentado por artistas e intelectuais nacionais e internacionais
de todas as tendências.
A casa de estilo eclético tinha uma parte
térrea e dois blocos com piso superior de um lado e do outro havia uma pequena
torre. A entrada era por uma varanda que dava acesso tanto ao hall quanto à
Galeria, que tinha nichos no lugar de janelas com figuras representando a
pintura, a dança, a escultura e a música. Era na Galeria que se realizavam os
serões literários e a apresentação de artistas. O mobiliário constituía-se de
poltronas e sofás de couro, junto à parede, ladeando a poltrona de Freitas
Valle, apelidada de trono. As paredes eram cobertas por 113 quadros, quase a
metade da coleção de Vale; mas o destaque era o piano Bechstein, marca
de altíssima qualidade, que no século XIX tornara-se o preferido das casas
reais europeias. Depois do vestíbulo, havia a biblioteca e o fumoir. Na biblioteca,
muito bem abastecida de livros e revistas estrangeiras; a seguir chegava-se à
sala de música onde havia um gramofone, um piano de armário e uma eolina –
instrumento precursor do acordeom e da concertina. Da sala de música passava-se
à sala de visitas.
O espaço familiar estendia-se ao longo de um
corredor com oito dormitórios à direita das salas; havia ainda uma de almoço,
dois banheiros, duas copas, saleta de costura e cozinha. No final do corredor,
uma escada de ferro em caracol levava a mais dois quartos. Em um deles Freitas
mantinha o depósito de essências e produtos destinados à fabricação artesanal
de perfumes. No subsolo, ficava a famosa adega que tinha a mesma metragem do
térreo.
Um
caseiro, um tratador de cães, arrumadeira, copeira e cozinheira compunham o
quadro de empregados da casa. Freitas Valle nunca teve carro, tinha à disposição
um automóvel de aluguel dirigido por um motorista português.
São Paulo crescia na direção Sul e a Vila
Mariana foi perdendo seu jeito suburbano, as chácaras foram loteadas, atraindo
novos moradores. Aos poucos, a tranquilidade da Villa Kyrial foi se diluindo no
burburinho urbano e os frequentadores desaparecendo dos saraus. Freitas Valle
morreu em 1958 e quando a Villa Kyrial foi vendida em 1960, a propriedade tinha
menos da metade da área original.
Quem foi esse Freitas Valle? Bom, isso é outra história.

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