sábado, 7 de março de 2026

MONUMENTOS ITINERANTES

 


Nas andanças pelo Tatuapé, vi de longe um monumento em frente às bibliotecas municipais Cassiano Ricardo e Hans Christian Andersen e, achando que tinha algo a ver com música ou contos de fadas, fui até lá. Como roubaram a placa de identificação, não entendi o que significavam as figuras e ninguém por lá soube explicar. O jeito foi consultar os arquivos da prefeitura. A escultura se chama “Pátria e Família” e é uma das partes do monumento encomendado pelos estudantes de Direito para homenagear Olavo Bilac, e mais tarde desmembrado pela prefeitura e espalhado pela cidade. A escultura está no Tatuapé desde 2000. Eis uma história que vale a pena ser relembrada.

Olavo Bilac (I865-1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista, mas se destacou na poesia, sendo até eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” pela revista FON-FON em 1907. Carioca, frequentou e não concluiu o curso de Medicina no Rio nem o de Direito no Largo de São Francisco. O fato de não ter se formado não diminuiu o apreço dos estudantes da faculdade paulista por Bilac e, quando ele morreu em 1918, resolveram homenageá-lo com um monumento. Arrecadaram dinheiro e encomendaram a obra ao escultor sueco William Zadig (1884-1952) que na época lecionava no Liceu de Artes e Ofícios.

Zadig usou temas de poemas de Bilac para compor sua obra, instalada pela prefeitura na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias. A inauguração aconteceu durante as comemorações do centenário da Independência em 1922. Lá estavam figuras do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).  

O monumento virou uma polêmica: uns diziam que ele atrapalhava o trânsito, outros que era feio demais e havia os puritanos que achavam indecente o “Idílio ou Beijo Eterno”. A prefeitura, entretanto, só retirou o monumento em 1932 por causa de obras viárias e o dividiu em grupos que espalhou por diversos bairros, mas manteve o casal apaixonado no depósito de onde só foi resgatado muitos anos depois pelo prefeito Jânio Quadros que colocou a obra no Cambuci. Novos protestos, porém, desta vez os estudantes da Faculdade de Direito, resgataram o casal que levaram para o Largo de São Francisco para felicidade de todos.  

Quanto à “Pátria e Família”, antes de adornar a Praça José Moreno, passou pelo cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf, com a Avenida Celso Garcia e pela Praça Kennedy na Mooca.

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