sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

SALVEM AS FLORESTAS

 

Forèt Viérge Près Manqueritipa. dans la province de Rio de Janeiro
Johann Moritz Rugendas (1827-1835). 

A floresta foi o primeiro refúgio do homem. Ali, ele encontrou abrigo das intempéries, colheu alimento, conviveu com as outras espécies, caçou e foi caçado. Descobriu que podia usar as mãos, criou as ferramentas, aprendeu a fazer fogo e iniciou a agricultura e o pastoreio. Aos poucos deixou a floresta, criando pequenos povoados, que foram crescendo, virando vilas, tornando-se pequenas cidades que foram se ampliando na medida em que a agricultura e a pecuária se consolidavam e proporcionavam o aumento das populações.

E desde então o mundo foi mudando de aparência, transformado pelo homem. Hoje, estamos pagando o preço dessas conquistas importantes: as florestas cobrem apenas 40% da superfície total de todos os continentes. É importante lembrar que dois terços de todas as espécies de plantas e animais desenvolvem-se nas florestas tropicais úmidas. Com a destruição de uma floresta ou parte dela, desaparecem ecossistemas completos, pois todos estão interligados pela cadeia alimentar e cada um tem um papel fundamental nesse elo vital: as plantas alimentam os animais herbívoros, que são comidos pelos carnívoros – sem contar os onívoros que não fazem cerimônia na hora da fome. E quando todos morrem, alimentam os agentes de decomposição – cogumelos, formigas, vermes e um mundo microscópico.

Mas o progresso afastou o homem da floresta. Ele não consegue mais entendê-la. Urbanizada, a maioria das pessoas não consegue sequer identificar simples verduras em supermercados se não houver uma etiqueta salvadora.

Há um ótimo livro sobre as relações do homem com a floresta no Brasil: “A ferro e fogo – A história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira”, de Warren Dean (1932-1994), editado pela Companhia das Letras. Professor de História na Universidade de Nova York, Dean é considerado o principal historiador do meio ambiente brasileiro. Nesta obra, traça um panorama sobre a forma como se processou a colonização brasileira em relação ao meio ambiente, o que aconteceu após a independência e a proclamação da república na área de Mata Atlântica, especialmente com a industrialização do País.

A ficção também pode ser um bom caminho para refletir sobre a forma como tratamos o meio ambiente, especialmente, as florestas. Um deles é "As Botas do Diabo", de Kurt Falkenburger (São Paulo, Brasa, 1971). Falkenburger, escritor e economista, formado pela Universidade de Viena, em uma viagem ao Brasil, ele descobriu os restos da ferrovia Madeira-Mamoré perdida na Amazônia em meio à floresta. Fascinado com que viu, ele pesquisou a história e resolveu que a melhor forma de contá-la era “colocar a verdade dentro de um quadro de novela, na qual ele revive um momento da grande empreitada”. Na época, o governo brasileiro dedicava-se à construção da Rodovia Transamazônica (BR 230). Vivia-se em 1971 sob o regime militar.

Márcio Souza relata a história da Madeira-Mamoré em sua obra “Mad Maria”, que a TV Globo transformou em uma minissérie. O escritor mostra a insanidade e falta de escrúpulos que marcaram a abertura dessa estrada – que acabou destruindo milhares de vidas humanas e parte da floresta.

A verdade é que desde que abandonou a floresta o homem iniciou um processo de devastação – lento a princípio e assustadoramente rápido nos últimos anos.

É preciso que as pessoas se conscientizem com urgência de que, apesar de todo o avanço tecnológico, seria muito difícil para nós vivermos sem florestas.