Dia desses tive que ir à Rua Espírito Santo que travesso frequentemente, mas nunca andara
por ela. As casas prevalecem e algumas são bem interessantes. Passei pela
Escola Irmã Catarina, por várias lojas de consertos de eletrodomésticos e até
oficinas de carro. São apenas duas quadras e ela termina na Rua Almeida Torres
por onde passam vários trólebus da linha Gentil de Moura, o que desconhecia. Um
lugar bem tranquilo e agradável. Resolvido o problema – o primeiro foi
descobrir que o endereço da empresa que me foi dado como Rua Espírito Santo é mesmo
na Almeida Torres–, retornei pelo mesmo caminho. Pausa na esquina para observar
o entorno. O motoqueiro para, me deseja boa tarde que respondi achando que ele
ia me pedir alguma informação, mas ele manobrou em minha direção sorrindo e me perguntou
se eu estava bem. Foi quando o reconheci e conversamos brevemente porque ele
estava trabalhando.
Uma
bela história de coragem, determinação e bons resultados. Ele é guineano da
República de Guiné-Bissau, país africano com pouco mais de dois milhões de
habitantes, e imigrou para o Brasil há alguns anos. Guiné-Bissau foi colônia
portuguesa: o primeiro português que passou por lá foi Nuno Tristão em 1446,
mas só houve interesse pelo território no século XVI. O Português é falado pela
minoria da população embora seja a língua oficial do país, que se tornou independente
de Portugal em 1973, mas oficialmente em 1974.
Ele
trabalhou na melhor padaria do bairro, primeiro como faxineiro, depois passou para o
atendimento na balança do restaurante. Foi nessa ocasião que conversei com ele
sobre a comida e ele me disse que não conhecia os pratos servidos porque na
terra dele a comida era diferente. Amendoim, peixe seco e quiabo são alguns dos
ingredientes populares, segundo me disseram. Um dia ele sumiu e soube que estava trabalhando
na padaria; logo depois aos domingos passou a comandar a venda de frango assado
com batatas e farofa. Sempre atencioso e sorridente. Certa vez comentou que tinha
me visto no Centro (que novidade!): “Mas a senhora não me viu” e contou que
trabalhava à tarde com vendas.
Claro
que perguntei o que fazia depois de sair do Recanto. Abriu um negócio, segundo
ele, mas pelo que me descreveu é uma quitanda – vende frutas e verduras; como
precisou, trouxe o filho (único) da Guiné-Bissau para ajudá-lo: durante a
semana fica na loja enquanto ele faz entregas. Está todo feliz e me passou o
endereço, que é perto do Parque. Qualquer dia irei lá comprar frutas.
Não
sei de onde ele é, provavelmente de algum vilarejo, talvez da Capital – esta tem
cerca de quinhentos mil habitantes. É preciso coragem para atravessar o
Atlântico e se instalar nesta cidade de doze milhões de habitantes! E o melhor:
já está por sua conta.
2 comentários:
E você que se diz arredia a interações sociais....
Nilton, às vezes estou distraída.
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