quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A FORÇA DO TRABALHO

 

Dia desses tive que ir à Rua Espírito Santo que travesso frequentemente, mas nunca andara por ela. As casas prevalecem e algumas são bem interessantes. Passei pela Escola Irmã Catarina, por várias lojas de consertos de eletrodomésticos e até oficinas de carro. São apenas duas quadras e ela termina na Rua Almeida Torres por onde passam vários trólebus da linha Gentil de Moura, o que desconhecia. Um lugar bem tranquilo e agradável. Resolvido o problema – o primeiro foi descobrir que o endereço da empresa que me foi dado como Rua Espírito Santo é mesmo na Almeida Torres–, retornei pelo mesmo caminho. Pausa na esquina para observar o entorno. O motoqueiro para, me deseja boa tarde que respondi achando que ele ia me pedir alguma informação, mas ele manobrou em minha direção sorrindo e me perguntou se eu estava bem. Foi quando o reconheci e conversamos brevemente porque ele estava trabalhando.

Uma bela história de coragem, determinação e bons resultados. Ele é guineano da República de Guiné-Bissau, país africano com pouco mais de dois milhões de habitantes, e imigrou para o Brasil há alguns anos. Guiné-Bissau foi colônia portuguesa: o primeiro português que passou por lá foi Nuno Tristão em 1446, mas só houve interesse pelo território no século XVI. O Português é falado pela minoria da população embora seja a língua oficial do país, que se tornou independente de Portugal em 1973, mas oficialmente em 1974.

Ele trabalhou na melhor padaria do bairro, primeiro como faxineiro, depois passou para o atendimento na balança do restaurante. Foi nessa ocasião que conversei com ele sobre a comida e ele me disse que não conhecia os pratos servidos porque na terra dele a comida era diferente. Amendoim, peixe seco e quiabo são alguns dos ingredientes populares, segundo me disseram. Um dia ele sumiu e soube que estava trabalhando na padaria; logo depois aos domingos passou a comandar a venda de frango assado com batatas e farofa. Sempre atencioso e sorridente. Certa vez comentou que tinha me visto no Centro (que novidade!): “Mas a senhora não me viu” e contou que trabalhava à tarde com vendas.

Claro que perguntei o que fazia depois de sair do Recanto. Abriu um negócio, segundo ele, mas pelo que me descreveu é uma quitanda – vende frutas e verduras; como precisou, trouxe o filho (único) da Guiné-Bissau para ajudá-lo: durante a semana fica na loja enquanto ele faz entregas. Está todo feliz e me passou o endereço, que é perto do Parque. Qualquer dia irei lá comprar frutas.

Não sei de onde ele é, provavelmente de algum vilarejo, talvez da Capital – esta tem cerca de quinhentos mil habitantes. É preciso coragem para atravessar o Atlântico e se instalar nesta cidade de doze milhões de habitantes! E o melhor: já está por sua conta.




2 comentários:

Nilton Tuna disse...

E você que se diz arredia a interações sociais....

Hilda Araújo disse...

Nilton, às vezes estou distraída.