sábado, 19 de maio de 2018

OUTROS OUTONOS

CANÇÃO DE OUTONO 

No entardecer da terra,
O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa
Praça da República, Rio de Janeiro, 2015. 
Bonn, Alemanha, 2008.
Amsterdam, Países Baixos, 2008.
Berlim, Alemanha, 2008.



Praga, República Checa, 2008.
Jardins de Schönbrunn, Viena, Áustria, 2008.


Rua da Aclimação, São Paulo, 2013.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

UM POUCO DE ESCATOLOGIA.
Ou coprologia.
         Há algum tempo, ao visitar uma exposição na Biblioteca Brasiliana – USP, vi uma “obra de arte” feita com fezes de cupim! Nada excepcional, exceto o material. Outro artista nos Estados Unidos não usou cocô de elefante para produzir suas criações? E culminando essa moda descubro que em Castelbosco, província de Piacenza, na Itália, existe o Museu da Bosta. Oh! Céus! Creio que a ideia faz parte do humor corrosivo do italiano, pois o projeto tem um forte cunho ecológico. Lá vai a história. O Sr. Gianantonio Locatelli, de 61 anos, tem 3.500 vacas, que produzem 55 toneladas de leite para fabricação de queijos, enquanto inundam a propriedade com 150 toneladas de esterco. Um problemão, que ele resolveu de forma inteligente: investiu na produção de gás metano usado em motores e geração de eletricidade, que Locatelli vende para terceiros. Atende a cerca de quatro mil pessoas.
       Mas ainda sobra esterco que ele destina à produção de adubo e de objetos como telhas, tijolos, vasos e, pasmem, pratos! De acordo com o portal português SAPO, “os objetos são rústicos e elegantes”.  O empreendedor italiano diz que os produtos são revolucionários, algo “entre plástico e terracota” e que ele chama de “Merdacotta”. Esteja atento onde lhe servem comida. O símbolo da marca é um besouro, inseto que aduba a terra e controla parasitas.  

Mas isso ainda não é tudo. Se tiver tempo sobrando, sempre pode visitar o Museo della Merda (projeto de Luca Cipelletti). Criado por Locatelli em 2005, o museu reúne trabalhos inspirados no tema ou que tiveram esterco ou cocô como matéria-prima.  


   Para os desavisados que acham tudo isso de mau gosto, a coleção Merdacotta já foi premiada pelo Salão do Design de Milão e 2016 pela ideia de “transformar bosta em algo divertido”.
  Só para terminar, lembro-me do filme de Elio Petri (1929-1982) “A classe operária vai ao paraíso”, de 1971. Na cena inicial, o operário Lulu (Gian Maria Volonté – 1933-1994)) constata que somos “uma máquina (de produzir) merda”...  
   Enfim, hoje é o Dia Mundial dos Museus. Uma ótima oportunidade para visitar uma das muitas instituições paulistas como o Museu de Arte Contemporânea (MAC), Museu de Arte Moderna (MAM), Museu de Arte Sacra, Museu da Imigração, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu do Futebol (Pacaembu) entre muitos outros. 

*Há dois significados para escatologia. Um deles vem do grego skor, skatos, que significa excremento. O outro também tem origem do grego skathos, daí escatologia, que é parte da teologia que trata das últimas coisas(como morte temporal, juízo, céu, inferno). Dicionário Enciclopédico de Teologia, de Arnaldo Schüler.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O CARTEIRO CHEGOU

     No princípio, as pessoas enviavam mensagens por portadores de confiança que faziam longas caminhadas, usavam montarias ou carruagens quando podiam. E quando o destinatário recebia a notícia, ela já era bem antiga para os padrões atuais. Os faraós egípcios usavam o sistema de correio regular para divulgar a legislação nas diversas cidades, os persas aprimoraram o serviço e os romanos, graças à extraordinária rede de estradas que implantaram no império, tinham um ótimo serviço de correio.
     Quem não sabe da lenda do soldado grego que percorreu 40 km entre Maratona e Atenas para informar a vitória dos atenienses contra os persas e que deu origem à prova olímpica dos tempos modernos de 42,195 km? O soldado morreu de exaustão. Os atletas atuais, que não levam mensagem alguma, exceto a da boa forma física, ganham medalhas e dinheiro após a maratona.  A mitologia grega tem um deus que, entre muitas outras atividades, se dedica a ser o mensageiro dos deuses do Olimpo, Hermes.
Apesar de todas as dificuldades, as pessoas continuaram a se corresponder e, evidentemente, urgente tinha outra interpretação. Um bom exemplo é a administração das colônias americanas a partir do século XVI, quando uma carta ou documentos levava cerca dois ou três meses entre a Europa e as Américas, dependendo dos bons ventos, da pirataria e de bons pilotos. Uma decisão poderia levar mais de um ano...
Muitos e muitos séculos se passaram sem que a situação melhorasse. A invenção do telégrafo foi fundamental para a melhoria do sistema de comunicação, do telefone assim como o rádio. Entretanto, foi a aviação que impulsionou o serviço de correios no mundo e os primeiros voos transcontinentais carregavam malas postais.
Folhas de papel e uma caneta ou lápis bastavam para as pessoas derramarem seus sentimentos, preocupações e pensamentos mais íntimos, contar histórias e, sim, fazer fofocas. Bastava um envelope, um selo e o destinatário em algum lugar do mundo receberia a mensagem que leria com ansiedade, prazer e curiosidade. O portador era o carteiro, uma figura familiar para todos, especialmente no tempo em que os prédios de apartamentos ainda eram raros.
No final do século XX, a tecnologia dá novo impulso à era das comunicações que passam a ser em tempo real. As mensagens ganham um jeito de telegrama antigo – tudo abreviado, rápido, fugaz... Tudo sem graça, sem calor, sem paixão. As cartas? Ah! As cartas...


“A mensagem”, de Aldo Cabral e Cícero Nunes. 
Isaurinha Garcia (1923-1993). 

domingo, 13 de maio de 2018


MELHOR DIA DEPOIS DO NATAL 
PARA O COMÉRCIO

A data não poderia ser mais comercial, porém, as pessoas acabam se rendendo aos apelos do mercado e vão às compras. As mães mudaram muito nos últimos anos e a criação dos filhos também. 

Norman Rockwell (1894-1978) foi um dos grandes ilustradores norte-americanos do século passado. Trabalhou por mais de quarenta anos na revista The Saturday Evening Post









 ARTE EPISTOLAR

Cena do filme de Stephen Frears.
E por falar em cartas, vários autores escreveram obras sob a forma de cartas, contando histórias bem fascinantes. “Ligações Perigosas”, do escritor francês Choderlos de Lacros (1741-1803), é um clássico da literatura epistolar. De Lacros, que era militar, escreveu sobre um grupo de nobres inescrupulosos que, por meio das cartas que trocavam entre si, estabeleciam planos de manipulação e intrigas para destruir reputações de pessoas que escolhiam ao bel prazer. O livro mereceu várias adaptações para o cinema e entre elas destacam-se as de Roger Vadin, em 1959; de Stephen Frears em 1988 e de Milos Forman, em 1989.


Outro clássico da literatura baseada em epistolografia é “Os sofrimentos do jovem Werther”, escrito por Johan Wolfgang Von Goethe em 1784. É uma das primeiras obras do escritor alemão e tem alguns toques autobiográficos. As cartas escritas pelo jovem Werther a um amigo narram o amor trágico dele por uma jovem que está comprometida com outro homem. Há também um filme baseado no livro – “Werther (Le Roman de Werther)”, de 1938, com direção do alemão Max Ophüls (1902-1957).
Ótima leitura. Ótimo cinema.

















Mulher de Azul Lendo uma Carta", de Johannes 
Vermeer (1632-1675). 
Acervo do Rijksmuseum, em Amsterdã.   

sexta-feira, 11 de maio de 2018


VAMOS ESCREVER CARTAS

“Venho por meio destas mal traçadas linhas...” Era assim que os professores ensinavam as crianças a escreverem cartas. O aprendizado incluía preencher o envelope, que sempre dizia muito sobre o remetente. Boa caligrafia era essencial para que o carteiro não se confundisse e o destinatário ficasse vaidoso por ter um correspondente com uma bonita letra. Escrevi muitas cartas em minha vida, felizmente sem o chavão de abertura; porém, enviei poucas por ter preguiça de ir ao Correio. O tempo passava, o assunto perdia o interesse e a carta ia para o lixo em vez de seguir seu destino. Lembrei-me do fato por causa do Concurso Internacional de Redação de Cartas para Jovens é promovido anualmente pela União Postal Universal (UPU), sediada em Berna, na Suíça, para incentivar a criatividade de crianças e adolescentes enquanto melhoram os conhecimentos linguísticos. O público alvo: estudantes de até 15 anos idade. O tema deste ano é desafiador: “Imagine que você é uma carta que viaja no tempo. Que mensagem você quer deixar para seus leitores?”. 
A história do Brasil registra duas cartas fundamentais para a nação: uma escrita por um homem e outra por uma mulher. A primeira é de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel em 1500 e que se constitui numa certidão de nascimento do Brasil. A segunda foi escrita pela princesa Leopoldina a D. Pedro (1798-1834), incentivando-o a proclamar a independência do Brasil em setembro de 1822.
Centro Cultural do Correio SP.
Entretanto, as pessoas preferem coisas mais amenas como, por exemplo, as cartas de amor. As cartas de amor, contudo, podem ser muito reveladoras quando lidas por olhos estranhos e curiosos muito tempo depois que o escrevinhador (a) e a amada (o) morreram.

Não foi duradouro, por exemplo, o amor do advogado e político romano Cícero (106 a.C-43 a.C) por sua esposa Terência: “... eu na verdade desejo vê-la quanto antes, vida minha, e morrer nos seus braços...”
O rei da Inglaterra Henrique VIII, um verdadeiro barba azul, assinou uma carta de amor à Ana Bolena (a amante que transformou em esposa após repudiar a rainha) dizendo que “A mão que lhe escreve é a de um homem que, por vontade própria, foi, é e sempre será seu”. A mesma mão que assinou a sentença de morte por decapitação de Ana algum tempo depois.
Enfim, todos em algum momento expõem os sentimentos (paixão ou amor?) por um homem ou uma mulher. Nada demais. Quem imaginaria um lado romântico em Voltaire cuja paixão de juventude por Olympe o levou a fugir para Paris? Ou no sisudo Franz Kafka, que amou Felice Banes embora não tenham se casado. Olavo Bilac teve sua Amélia com quem não casou. Rui Barbosa (1849-1923), um noivo apaixonado como mostram suas missivas para a jovem Maria Augusta (1855-1947), levou a moça ao altar e viveram felizes (quem sabe?).
Por falar em D. Pedro I em sua correspondência resplandece uma carta (mais um bilhete) à amante Domitila de Castro (1797-1867) que vale a pena transcrever:
“Cara Titília
Foi inexplicável o prazer que tive com as suas duas cartas.
Tive arte de fazer saber a seu pai que estava pejada de mim (mas não lhe fale nisto) e assim persuadi-lo que a fosse buscar e a sua família, que não há de cá morrer de fome, muito especialmente o meu amor, por quem estou pronto a fazer sacrifícios. Aceite abraços e beijos e fo...
Deste seu amante que
Suspira pela ver cá o
Quanto antes,
O demonão.”
O amor também não resistiu aos deveres de Estado e D. Pedro I, viúvo, a repudiou para casar-se com dona Amélia de Leutchtenberg (1812-1873).
        Mas como escreveu o poeta Fernando Pessoa/Álvaro de Campos:
TODAS AS CARTAS de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(...)

terça-feira, 8 de maio de 2018

DIA DO ARTISTA PLÁSTICO BRASILEIRO

José Ferraz de Almeida Júnior é um dos grandes pintores brasileiros e a data de seu nascimento foi escolhida para homenagear com um dia especial o artista plástico brasileiro. Almeida Júnior nasceu em Itu (SP) em 8 de maio de 1850. O talento do jovem foi percebido pelo sacerdote da igreja de Nossa Senhora da Candelária, onde o rapaz era sineiro. O padre promoveu uma coleta que permitiu que Almeida Júnior fosse estudar no Rio de Janeiro e no final do curso retornou à cidade natal. Em 1876, em viagem pelo interior de São Paulo, o imperador D. Pedro II ao ver a obra do artista ofereceu-lhe uma bolsa de estudos em Paris e no seguinte.
Almeida Júnior então com 27 anos embarcou para a França, onde aprimorou sua arte; nesse período participou de quatro edições do Salon de Paris e realizou algumas de suas obras mais importantes “O Derrubador brasileiro” (1879), “O Remorso de Judas” (1880), “A fuga para o Egito” (1881) e “O Descanso do modelo” (1882). O artista retornou ao Brasil em 1882 e apresentou suas produções parisienses na Academia Imperial de Belas Artes e logo em seguida estabeleceu-se em São Paulo.
Mais tarde Almeida Júnior voltou-se para a temática regionalista, que ele já abordara em Paris com o quadro “Derrubador brasileiro”. Nessa fase se destacam, entre outros, o “Caipira picando fumo” (óleo sobre tela) e “O Violeiro” (óleo sobre tela), ambos pertencentes ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. 
O artista manteve por vários anos um relacionamento com Maria Laura do Amaral, casada com o primo dele que o assassinou em 13 de novembro de 1899. O crime ocorreu em Piracicaba. Almeida Junior tinha 49 anos. 

O VIOLEIRO, óleo sobre tela de 1899. Acervo: Pinacoteca do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 7 de maio de 2018


PASSANDO O TEMPO

No sofá, enquanto espero que minha voz retorne e a tosse me deixe em paz, leio sobre as atividades do vulcão havaiano Kilauea e depois assisto ao vídeo que lembra aqueles filmes de monstros comuns nos anos de 1960, com a diferença de serem em preto e branco. Fascinante ver a lava vagarosamente destruindo o carro! Li apenas uma reportagem em que uma das entrevistadas comenta que a erupção do Kilauea provocou o cancelamento de muitas reservas de propriedades destinadas a férias, mas a corretora não está preocupada porque logo chegarão os “turistas da lava”, aqueles que desejam conhecer os vulcões ativos do Havaí. A notícia me fez lembrar a história do advogado e jornalista Antônio da Silva Jardim (1860-1891), que foi com o amigo Joaquim Carneiro de Mendonça a Nápoles, Itália, e aproveitou para conhecer o Vesúvio. Curioso demais para ouvir os alertas do guia, acabou sendo tragado por uma fenda que se abriu na cratera do vulcão. O guia conseguiu salvar o amigo de Silva Jardim. Estive em Pompeia onde se tem uma bela vista do Vesúvio e no Havaí me contentei com a visita ao Diamond Head em Oahu, cratera de um vulcão adormecido a uns 150 milhões de anos... 


O início da jornada. Um belo domingo de setembro de 2017.