domingo, 22 de outubro de 2017

Madonna del Lume 

Domingo, San Francisco. Saio sem roteiro para descobrir a cidade que é estrela de tantos filmes famosos e amada por quase todos que a conhecem. Assim, o som de uma banda musical pode nos levar para uma festa que celebra a participação de imigrantes sicilianos na formação da sociedade de San Francisco. Trata-se da festa da Madonna del Lume, protetora dos pescadores e marítimos em geral, e que tem origem em Porticello (Palermo, Sicilia).
Em 1935, as famílias dos pescadores sicilianos de San Francisco organizaram uma associação (Madonna del Lume Society) junto à paróquia de S. Pedro e S. Paulo em North Beach tanto para preservar essa herança cultural como homenagear a santa. A festa anual acontece na primeira semana de outubro, quando é eleita uma rainha entre as jovens da comunidade que desfila num cortejo precedido por uma banda, bandeiras, membros da paróquia. A imagem da Madona encerra o séquito.
Tudo muito diferente das procissões do meu tempo de criança em Santos, em que os participantes levavam expressões graves, usavam roupas escuras e falavam baixinho. Neste acompanhamento, todos estão alegres, descontraídos, usam roupas coloridas. Eles saem da igreja, passam pela Washington Square e seguem em direção ao Fisherman’s Wharf. No sábado, eles promovem uma procissão de barcos, que termina com uma cerimônia sob a ponte Golden Gate.

Eu vou para Chinatown. 




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O MUNDO DE TÁXI
Se na Europa o viajante tem o conforto dos trens conectados a linhas de metrô para ir ou sair de aeroportos, nos Estados Unidos, a situação é diferente. Felizmente, os norte-americanos inventaram o shuttle, serviço de transporte bem mais barato do que táxi (geralmente vans), e que deixa o passageiro no hotel. Entretanto, em alguns lugares o serviço é disponível em horários que não são adequados (às 6 horas, às 13h etc.) e o jeito é usar táxi ou similares. Não se esqueça de que a praxe nos Estados Unidos é pagar a corrida e acrescentar de 15 a 20% de gorjeta.
Esse momento pode ser desfrutado como uma parte bem interessante do passeio seja qual for a cidade. Desta vez peguei vários táxis (algo incomum nos roteiros europeus) e me vi sendo conduzida por motoristas de diferentes nacionalidades e todos muito satisfeitos com a nova vida que encontraram nos Estados Unidos, embora o trabalho seja exaustivo. O segredo é a oportunidade, que encontram nesse país feito de imigrantes. Assim, conheci um chinês, um vietnamita, um camaronês, um iraquiano, um indiano e um armênio.
O chinês mostrou-se o mais nervoso de todos e resmungou muito com os percalços do trânsito (muito bom por sinal) em Honolulu. O vietnamita falou com saudade das belezas do Vietnã. Nenhum ressentimento com o passado trágico entre o país de nascimento e o adotivo. O indiano surpreendeu-se quando elogiei o cinema da Índia. O iraquiano, quando soube que ia de San Francisco para Las Vegas de avião, me aconselhou a economizar dinheiro, usando o shuttle que servia os hotéis da região. O camaronês acha Las Vegas uma fantasia no meio do deserto, comentou a derrota da seleção nacional para o Brasil em 2014 e ainda estava estarrecido com a chacina que matara 59 pessoas no início da semana.
Um deles quando soube que eu era do Brasil suspirou nostálgico pela Xuxa. Xuxa? Foi-se o tempo em que falavam de Pelé ou de Reinaldo, mas Xuxa? Céus!
O armênio? Este não era de falar muito. Trânsito livre até o aeroporto, onde encontramos um imenso congestionamento para chegarmos ao terminal da empresa aérea que me traria de volta a São Paulo. Foi só então que perguntou para onde eu ia e pude perguntar a nacionalidade dele.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O MAGO
Ele chegou ao hotel às 6h30 a bordo de um yellow cab. Um senhor negro, talvez 50 anos. Dei a direção, ele disse OK e partimos. Acho que a conversa começou quando ele percebeu que eu estava admirando o nascer do sol em Los Angeles. “Belo dia”, comentou e, então, a jornada que prometia ser enfadonha tornou-se inesquecível. Perguntou de onde eu era e, como todos ao saberem da minha procedência, exclamou: “Hum, Brazil!”. Fico curiosa para saber o que querem dizer, mas temo a resposta. Em seguida quis saber da situação econômica do país. Disse que não era muito boa, mas o problema maior eram os políticos e emendei comentando que também não entendia como os Estados Unidos elegeram Donald Trump. O “homem” é louco e foi uma estupidez a eleição dele, uma pessoa despreparada. Elogiou Obama e demonstrou confiança na volta dele à presidência, já que é jovem.
Perguntei se ele era da Califórnia. Não, de uma pequena cidade do Texas. Gosta de Los Angeles, mas pretende voltar para a terra natal quando se aposentar, porque lá todos se conhecem e se cumprimentam nas ruas, vão à mesma igreja, às festas com boa música e ótima comida. Eu observei que em New Orleans as pessoas também se cumprimentam quando passam umas pelas outras. Ele se entusiasmou: “Ah! Conhece New Orleans! Lugar maravilhoso! Ótima música, ótima comida!”
Caímos num congestionamento matinal mesmo numa hight way. Volta a elogiar a vida na cidade pequena e diz que o problema das pessoas resume-se a três coisas – SGU, iniciais em inglês de pressa, ganância e coisas desnecessárias. Ele diz que é preciso repensar o estilo de vida, que deve ser simples para se usufruir melhor da existência. E para se viver melhor são essenciais disciplina, paixão e tolerância. Quando peguei a caneta para anotar, ele se surpreendeu: “Vai escrever o que eu disse?” Ele parecia satisfeito.
Ele morou em muitas cidades e se entusiasma quando descobre que meu destino é San Francisco. Adora a cidade, relembra a canção de Tony Bennet – cantor que ele aprecia e, de repente, me diz que também canta e para provar solta a voz no melhor estilo de Bennet. Vegas? Vai sempre por lá visitar o irmão. “A senhora sabe aproveitar a aposentadoria. Quero fazer o mesmo quando me aposentar.” E ele sonha, imitando os sotaques de cada lugar... Quer ir à Itália (“buon giorno”), França (“bon jour”), à Espanha (“buenos dias”) e então quer saber o que tem de bonito no Brasil. Sinuca de bico – mas cito a Floresta Amazônica e, naturalmente, Rio de Janeiro. Ah! Ele se entusiasma para valer (“mulheres muito bonitas”), mas é nesse momento que ele me surpreende e me conquista definitivamente ao cantar “Garota de Ipanema”.

Nem precisa dizer que foi a melhor viagem de táxi que fiz na vida – e já fiz muitas! Quando chegamos ao meu destino, ele me deu várias dicas de San Francisco e desejou boa viagem. Agradeci e fiz questão de saber o nome dele. Joel, disse modestamente. Espero que Joel tenha uma ótima aposentadoria, volte para a cidade natal, frequente muitas festas e viaje bastante. Aliás, ele foi o único taxista norte-americano que encontrei nas minhas duas estadas naquele país. Não senti o tempo passar nem me preocupei com o valor da corrida. Valeu cada centavo de dólar. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


ESTRANHO ENCONTRO


        Terry Allen (1943) assina a escultura do executivo que não consegue tirar a cabeça do escritório e o poeta Philip Levine (1928-2015) escreveu o poema "Corporate Head" que completa a obra, que fica no prédio no Ernst & Young Plaza, 725 S. Figueroa Street, Los Angeles. 

Foto: Hilda Prado Araújo, 19/10/17.
They said
I had a head
for business.
They said
to get a head
I have to lose
my head.
They said
Be concrete
& I became
concrete.
They  said,
go, my son,
multiply,
divide, conquer.
I did my best.

domingo, 15 de outubro de 2017

DIA DO PROFESSOR

            Dona Branca foi minha primeira professora (Escola Portuguesa/Santos). Foram tantos os mestres ao longo da vida escolar que seria impossível, depois de tantos anos, lembrar-me de todos – e todos tiveram importância na minha formação de um modo ou de outro. Minha homenagem Zina de Castro Bicudo (Geografia), Lígia Fava Fonseca (Português e Latim), Ana Maria Luisa (Francês), Itagiba (Filosofia), Monsenhor Manuel Pestana (Cultura Religiosa) e José de Sá Porto (Cultura Brasileira).

Excerto do poema de Álvaro de Campos

“Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!”

Tela de Almeida Júnior (1850-1899): Pinacoteca do Estado de São Paulo.

sábado, 14 de outubro de 2017

REPRESA HOOVER E O GRAND CANYON

De repente vejo a Represa Hoover, construída entre 1931 e 1936, entre os estados de Nevada e Arizona. Aliás, vejo um pequeno pedaço porque desde 11 de setembro de 2001 é área de segurança.  Foi o maior projeto do governo dos Estados Unidos e teve dupla finalidade: controlar o regime do rio Colorado, que no final de seu percurso corta uma região desértica, e dar emprego aos americanos afetados pela Grande Depressão. O Colorado é um dos principais rios do sudeste dos Estados Unidos, nasce nas montanhas Rochosas, percorre 2.330 km, banha sete estados americanos e dois mexicanos. Há evidências de que foi ocupado pelo homem há oito mil anos; mas os europeus só o encontraram no século XVI.
 
 Quando a construção do reservatório foi autorizada, um contingente de 10 a 20 mil trabalhadores mudou para Nevada, onde o governo criou um acampamento. Quando a obra começou as companhias envolvidas construíram Boulder City, próxima a Las Vegas. Aliás, Boulder City é a única cidade de Nevada em que o jogo é proibido. Outro lugar destinado aos trabalhadores foi Williamsville –que os operários chamavam de Ragtown. Em julho de 1934 havia 5.251 pessoas trabalhando na obra. Durante todo o período de construção registraram-se 112 mortes associadas à represa.
A represa fica no caminho para o Grand Canyon, um desfiladeiro esculpido pelo rio Colorado e afluentes ao longo de dois bilhões de anos. Foi encontrado pelo explorador espanhol García Lopes de Cárdenas em 1540 e, pelo que se sabe, a expedição de John Wesley Powell foi a primeira a vencer as corredeiras do Colorado no Grand Canyon, considerado uma das sete maravilhas naturais do mundo (a baía da Guanabara é uma delas) desde 1991.

 O desfiladeiro tem 443 km de extensão e em alguns pontos 29 km de largura; faz parte do Parque Nacional do Grand Canyon, criado em 1919, e é uma das primeiras áreas protegidas dos Estados Unidos. O presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) foi um dos seus defensores:
 "O Grand Canyon me enche de admiração, está além de comparação, além da descrição, absolutamente sem paralelo no vasto mundo... Deixe esta grande maravilha da natureza permanecer como agora é e não faça nada para estragar a sua grandeza, sublimidade e beleza. Você não pode melhorá-la... Mas o que você pode fazer é mantê-la para os seus filhos, filhos de seus filhos e todos os que virão depois de você, como a grande visão que cada americano deve ver”.
Realmente, uma visão única de grandeza aliada à beleza.  
Arizona, 5 de outubro de 2017. 


sexta-feira, 13 de outubro de 2017


 A CAMINHO DA FAMA
       Chega-se a Hollywood de metrô. Para a fama o caminho é mais longo e muitas vezes sem saída. Quando se desembarca na Estação Hollywood Vine, encontra-se o cenário pronto: o ambiente inclui um palco de cada lado, duas câmeras prontas para entrar em ação e rolos de filmes forrando as paredes. Tudo muito criativo. Ao sair já se pisa na calçada da fama que cobre toda extensão do Hollywood Boulevard. Dez passos e a brincadeira torna-se maçante. Difícil achar seu astro predileto. É preciso ser muito fanático para sair procurando. E assim você caminha distraída sobre uma constelação de estrelas quase tão extensa quanto a Via Láctea.
Há cerca de vinte anos um grupo de empresários e moradores de Hollywood tem se dedicado à revitalização da região. Pelas calçadas do bulevar uma multidão se acotovela enquanto os veículos com turistas passam de um lado para o outro. Meu destino: Museu de Hollywood. Um caminho repleto de lugares marcantes da história do cinema norte-americano. Como o Teatro Egípcio construído em 1922 por Sid Grauman, um showman, e Charles E. Toberman, empresário ligado aos negócios imobiliários. Fez tanto sucesso que em 1926 Grauman investiu na construção do Teatro Chinês, inaugurado em 1927. Famoso por seu pátio com assinatura e a impressão de mãos de grandes astros de Hollywood. Carmen Miranda está lá. É bom saber que ela não foi esquecida. Há até a Carmen Miranda Square.
Enfim, o Hollywood Museum! Ele funciona no prédio que pertenceu a Maksymilian Faktorowicz (1872-1938), um imigrante polonês que chegou a Nova York com a família em 1904, quando adotou o nome de Max Factor. Em 1908 se estabeleceu em Los Angeles, com uma barbearia e usou sua experiência europeia em cosméticos primeiro para atender às necessidades de atores e depois ampliou para o show business. Entre seus clientes destacavam-se Pola Negri, Gloria Swanson, Mary Pickford, Claudette Colbert, Jean Harlow, Joan Creawford, Lucille Ball e Marilyn Monroe, frequentadoras do salão que ficava próximo do Hollywood Boulevard.


Nem é preciso dizer que fez um grande sucesso. Max Factor com suas pesquisas e desenvolvimento de produtos revolucionou o conceito de maquiagem. Max Factor tornou-se uma das maiores marcas no mundo dos cosméticos. Em 1991 a empresa foi adquirida pela Procter & Gamble que, há alguns anos, deixou de comercializar a marca nos Estados Unidos.
O Museu de Hollywoodocupa a casa que ele mandou construir em 1928. O arquiteto S. Charles Lee assinou o projeto. O edifício art-déco só ficou pronto em 1935.
Na recepção, uma senhora com ares de Gloria Swanson (“Deuses vencidos”) vende os ingressos e explica o roteiro a ser seguido. A visita é um passeio pela história do cinema e da televisão, através de objetos, roupas, manequins, fotos e filmes. São dez mil itens. Duas estrelas se destacam: Jean Harlow e Marylin Monroe – ambas são obra de Max Factor. Uma joia inestimável: o maravilhoso carro de Jean Harlow.
Várias salas reproduzem os ambientes em que as estrelas eram maquiadas ou simplesmente descansavam. Os equipamentos usados para torná-las deusas nas telas são também uma oportunidade para descobrir o quanto a indústria de cosméticos evoluiu.
Roupas usadas por artistas de ontem e de hoje nas telas ou em cerimônias do Oscar também se espalham pelos três pavimentos do museu. Numa vitrine reluzem os sapatinhos vermelhos de Dorothy – personagem de Judy Garland no filme O Mágico de Oz. No porão, reúnem-se os heróis e vilões dos filmes de suspense e terror, inclusive “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme.

        O Museu fica em 1660 N Highland Ave, Hollywood. Funciona das 10 às 17 horas. Fotos em cor: HPPA, setembro 2017. 
Foto internet: J. Harlow e o carro que se encontra no Museu.