quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUINTA-FEIRA COM ARTE




“Almoço dos remadores” – óleo sobre tela de Pierre-Auguste Renoir, que retrata um grupo de amigos almoçando no terraço do Restaurant Fournaise, em Chatou, a oeste de Paris, às margens do Sena. A obra data de 1880-1881 e pertence a Phillips Collection, Washington D. C. (USA). 

sábado, 15 de julho de 2017

SÃO PAULO E OS FRANCESES
  
São Paulo vista do mirante do Banespa, 2011. Foto: Hilda Prado Araújo.

Blaise Cendrars (1887-1961), escritor.
São Paulo
Adoro esta cidade
São Paulo é conforme meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Nem antigo nem moderno
Contam apenas esse apetite furioso essa confiança absoluta esse otimismo essa audácia esse trabalho esse labor essa especulação que fazem construir dez casas por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos norte sul egípcio ianque cubista
Sem outra preocupação além de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração
Todos os países
Todos os povos
Amo isso
As duas três velhas casas portuguesas que restam são azulejos azuis*

Claude Lévi-Strauss (1908-2009): etnólogo.
“[...] São Paulo nunca me pareceu feia: era uma cidade selvagem, como o são todas as cidades americanas, com exceção talvez de Washington, dc, nem selvagem nem domesticada, essa aí, mas antes cativa e morrendo de tédio na gaiola estrelada de avenidas dentro da qual Lenfant a encarcerou”. (Tristes Trópicos, 1955.)

Albert Camus (1913-1960), escritor.
“São Paulo e a noite que cai rapidamente, enquanto os letreiros luminosos se acendem um por um no topo dos arranha-céus espessos, enquanto das palmeiras-reais que se elevam entre os edifícios chega um canto ininterrupto, vindo dos milhares de pássaros que saúdam o fim do dia, encobrindo as buzinas graves que anunciam a volta dos homens de negócios. [...] A cidade de São Paulo, cidade estranha, Oran desmedida.” (Diário de Viagem, 1978.) Oran é um porto mediterrâneo argelino. Camus viajou pelo Brasil em 1949.

François Laplantine (1943) é antropólogo.
“Em São Paulo, tudo anda mais depressa e tudo é maior. [...] o excesso paulistano constitui ao mesmo tempo uma ruptura e uma continuidade em relação à obra dos primeiros conquistadores portugueses. Eles buscavam o Novo Mundo; os paulistanos o constroem com sua sensibilidade, que, para nós, pouco tem a ver coma delicadeza das rendas, mas opera dentro do gigantismo. Os franceses têm muita dificuldade para entender esse país que tem a dimensão de um continente e essa cidade que tem a dimensão de um país.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

Claude Olievenstein (1933-2008), psiquiatra.
“São Paulo já está alhures, em outros lugares, sob outras formas. São Paulo não é Nova York, mas, como Nova York, é a manhã de Paris, o hoje é já amanhã.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

 Praça João Mendes, 2011. Foto: Hilda P. Araújo.

          *Tradução: Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com.br. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DE ESTRASBURGO A MARSELHA

A beleza e a força da Marselhesa são indiscutíveis. (Há quem a considere sangrenta, mas não se fazem revoluções com meiguice.) Que ninguém se engane com o nome do hino francês. A Marselhesa não teve origem em Marselha, porto mediterrâneo, mas em Estrasburgo, no leste da França. O autor é Claude-Josephe Rouget de Lisle (1760-1836), um engenheiro militar nascido em Franche Comté que, nas horas vagas, compunha canções vendidas em Paris com sucesso.
          No auge da Revolução, a França declarou guerra à Áustria no dia 20 de abril de 1791, iniciando “a cruzada pela liberdade universal”, como dizia um dos líderes dos girondinos. Cinco dias depois, enquanto a guarnição de Estrasburgo preparava-se para partir para a guerra, nobres (sim), políticos e militares locais reuniram-se em um jantar regado a brindes e discursos belicosos. Nesse clima de entusiasmo alguém perguntou a de Lisle se ele não poderia compor uma canção que servisse de marcha patriótica para os soldados que partiam.
Lisle foi para casa e trabalhou durante toda a noite na composição do Chant de Guerre pour l’Armée du Rhin e pela manhã mostrou a obra ao barão Dietrich, prefeito da cidade, que a apresentou publicamente três dias depois. O compositor conseguiu um resultado brilhante, usando em seus versos invocações familiares, bélicas e patrióticas, que a música acompanha em nuances que variam do suave ao grandioso.
A música só se tornou um sucesso absoluto no ano seguinte, quando 500 voluntários marcharam de Marselha a Paris para defender a Revolução, cantando a canção de Lisle, que ficou desde então conhecida como ”la Marseillaise”, transformada em hino nacional em 1795. Entretanto, a marcha não escapou das artimanhas políticas e perdeu e reconquistou o status de hino várias vezes.
A Marselhesa, Arco do Triunfo, Paris, 8/05/2012.
Os revolucionários marselheses partiram da sede do Clube dos Jacobinos, que se tornou recentemente o Memorial da Marselhesa. A Rua Thubaneau, em Belsunce, em Marselha, está longe de ser um lugar agradável atualmente e o projeto faz parte da recuperação do bairro. O Memorial é dividido em várias salas, aonde diversos dispositivos multimídia permitem que o visitante faça uma viagem histórica, que culmina com a apresentação da canção revolucionária. Bela e arrepiante (assisti em 2012).
Rouget de Lisle salvou-se da guilhotina, no período do Terror, graças à composição. Mais tarde, quando Napoleão assumiu o poder, baniu o hino que só voltou a ser a reconhecido na Revolução de 1830 e até foi reorquestrado por Hector Berlioz. Napoleão III também aboliu a Marselhesa, que em 1879 voltou a ser reconhecida como o hino nacional francês.  
(Foto: H.P.P. Araújo.)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BRASIL FRANCÊS

França e Brasil têm uma história regada a batalhas e amores, consolidada por laços culturais. Antes que Pedro Álvares Cabral desembarcasse aqui, os franceses já frequentavam estas terras tropicais para extrair bateladas de pau-brasil. Enquanto espanhóis e portugueses, no século XVI, se dedicavam ao processo “civilizatório” dos nativos a partir da cristianização, os franceses (e os holandeses) se empenhavam em planos mais refinados.
Villegaignon,  Mural de Oswaldo Carvalho,
 Palácio de São Joaquim (RJ).
O primeiro começou a ser implantado em 1555, com a fundação da França Antártica na baía de Guanabara, onde desembarcaram André Thevet (1534-1611) e Nicolas Durant de Villegagnon (1510-1571). Uma demonstração do bom gosto francês. Thevet escreveu a “História de uma viagem feita à terra do Brasil”, que se tornou um sucesso editorial – em cem anos teve sete edições em francês e algumas em latim. Os tupinambás caíram de amores pelo charme francês. E os franceses, pelas nativas. Belas e liberais. Afinal, ao contrário dos portugueses que os escravizavam, os franceses os tratavam bem e logo formaram uma aliança que rendeu muitos embates para os lusitanos. 
O segundo plano foi a implantação em 1612 da França Equinocial, no Maranhão, e que resultou na fundação da cidade São Luís. A expedição francesa foi comandada por Daniel de La Touche. Mais uma vez a aventura rendeu boa literatura: os padres capuchinhos Claude d’Abeville e Yves d’Evreux escreveram dois livros importantes – o primeiro, “História dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas” e o segundo, “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614”.
É difícil imaginar que o Brasil deve muito a Napoleão Bonaparte (1769-1821). Quando as tropas francesas ameaçaram a soberania portuguesa, o príncipe João reuniu a corte e parte da real biblioteca portuguesa e, numa moderna arca de Noé, mudou de Lisboa para Salvador; porém, logo mudou para o Rio de Janeiro. Na solidão dos trópicos, ele se tornou rei: D. João VI. Com a queda de Napoleão, restabeleceram-se as relações comerciais com a França e por que não convidar um punhado de ilustres franceses para abrilhantar a corte?
Debret:
O grupo que desembarcou no Rio em março de 1816 era mais poderoso do que o encabeçado por Thevet e Villegagnon – vinha para conquistar corações e mentes. A missão francesa, organizada e chefiada por Joachim Lebreton (1760-1819), era composta pelos pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay e o filho Félix, ainda aprendiz; arquiteto Auguste Montigny e seus assessores Charles Lavasseur e Louis Ueier; escultor Auguste-Marie Taunay; músico Sigismund Neukomm; gravador Charles-Simon Pradier; mecânico François Ovide; ferreiro Jean-Baptiste Leve; serralheiro Nicolas Magliori Enout. Vieram também dois peleteiros – Pelite e Fabre; dois carpinteiros – Louis-Jean Roy e o filho Hypollite. Alguns meses depois vieram o escultor Marc Ferrez e o gravador Zéphyrin Ferrez. O resultado da missão francesa foi bastante positivo e teve reflexos na formação dos artistas brasileiros mais importantes dos anos que se seguiram.
No século XX, nova leva de franceses invadiria o Brasil, mais precisamente São Paulo. Em 1906 o governo paulista fez um acordo com a França para a reformulação da Força Pública, o que deu origem à Missão Militar Francesa de Instrução da Força Pública, comandada pelo coronel Paulo Balagny. O militar ministrou o primeiro curso de armeiro do estado, foi responsável pela introdução oficial no Brasil do boxe, esgrima e ginástica sueca. A missão atuou entre 1906 e 19014 e 1919 e 1924.
São Paulo perdeu a guerra Constitucionalista em 1932, mas venceu politicamente quando Vargas cedeu e indicou para presidência do estado Armando de Salles Oliveira que investiu na criação da Universidade de São Paulo (USP) porque, na percepção do grupo constitucionalista do qual ele fazia parte, o desenvolvimento seria alcançado por meio da educação. “De São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas, e, sim, 'uma revolução intelectual e científica', suscetível de mudar as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”, nas palavras de Sérgio Milliet (1898-1966). Assim, o governo paulista não investiu em projeto privado, mas público e, portanto, democrático.  A USP foi fundada em 1934.
Como desenvolver essa universidade? Mais uma vez a inspiração foi a França de onde vieram o etnógrafo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), o historiador Fernand Braudel (1902-1995) e o sociólogo Roger Bastide (1898-1974), responsáveis pela formação de grandes pesquisadores, professores e intelectuais brasileiros. A USP, atualmente, é a mais importante universidade do país.
Mas foi em meados do século passado que um francês alto e narigudo deixou os brasileiros bem aborrecidos. Tudo começou em 1961, quando barcos pesqueiros franceses invadiram águas territoriais brasileiras em busca de lagostas, gerando um incidente internacional. Franceses e brasileiros indignados. Os dois países mobilizaram suas forças navais, o presidente Charles de Gaulle (1890-1970) empinou o nariz e decretou que “o Brasil não é um país sério”. E logo apareceu “A Marcha da Lagosta”, uma paródia do hino francês:

Larga esta lagosta
Deixa de areia
Senão vai dar coisa feia
Faço uma proposta pra você (pour quoi?)
Faço um acordo de irmão
Traga uma francesa pra mim
E leve tudo, leve até o camarão.

Outra paródia:

Você pensa que lagosta é peixe?
Lagosta não é peixe, não!
Peixe é bicho que nada,
Crustáceo não nada, não!
Pode faltar tudo ao brasileiro:
Arroz, feijão e pão.
Mas a lagosta é nossa,
De Gaulle não bota a mão.
Pode mandar vaso de guerra,
Disto até acho graça:
Por causa da lagosta,
Até eu vou sentar praça.

A imprensa tratou de criar a famosa guerra da lagosta, que na verdade nunca houve.
Et vive la France! E viva o Brasil!

 Semana francesa.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

UM COPO DE VINHO

Como lembrar a França sem mencionar o vinho, bebida que faz parte do cotidiano do povo? Em Paris há pelo menos dois lugares onde se pode aprender muito sobre a bebida: Musée du Vin (5 Rue des Eaux - Square Charles Dickens) e Les Caves du Louvre (2 Rue de l’Arbre Sec, 1er arrondissement).
Fui ao Museu do Vinho de Paris em 2010. Há um ingresso que dá direito a um copo de vinho. É possível também ir para o almoço, servido das 12h às 15h de terça a sábado. O Museu, próximo à Estação Passy do metrô, ocupa o prédio que abrigou o Convento da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, construído no século XV com o apoio da rainha Anne da Bretanha, mulher do Rei Luis XI. O convento era cercado por jardins, pomares e vinhas que  cobriam a colina descendo até rio Sena. Os frades produziam um vinho tinto saboroso. Bom o bastante para que o rei fizesse uma parada no convento para bebê-lo, quando retornava da caça no Bois Boulogne. As três salas abobadas, que abrigam o museu, eram usadas pelos religiosos para armazenar o vinho. Dessa época restou apenas o nome das ruas próximas – Rue Vineuse e Rue du Vin.
          Havia outro atrativo na região: as águas de Passy. Ferruginosas e laxativas, elas estiveram em moda no século XVII, e foram exploradas até o II Império, atraindo burgueses e nobres, artistas e intelectuais. O único vestígio desse tempo é o nome da rua (Rue des Eaux) onde se localiza o Museu e o poço em frente ao prédio.
Com a Revolução Francesa, o convento de Passy foi abandonado e destruído; a área reurbanizada é, atualmente, um bairro tranquilo, com forte presença islâmica. No século passado, as galerias foram utilizadas como cave pelo restaurante da Torre Eiffel. O Museu foi criado pelo Conseil des Echansons de France, uma confraria fundada em 1954 e um dos principais objetivos é cuidar das tradições relacionadas ao vinho francês. 

As galerias do convento foram escavadas na parte inferior de antigas pedreiras de calcário, exploradas entre os séculos XIII e XVIII para fornecer as pedras usadas na construção de Paris.  O visitante envereda pela história do vinho desde a mitologia greco-romana e conhece melhor a arte da vinicultura francesa, começando pelo vinicultor, passando pela vindima até os diversos tipos de vinho produzidos na França. Lá estão relacionados vendedores e consumidores, famosos ou anônimos.
O cientista Louis Pasteur (1822-1895) deu sua contribuição à vinicultura, com pesquisa para combater uma doença que atacou as vinhas francesas. O vinho preferido de Napoleão Bonaparte era o Chambertin. Com dezenas de ditos populares, quase sempre vinculando santos e meteorologia ao vinho, é possível avaliar a forte presença da bebida na cultura do país.
Na II Guerra Mundial, entre julho de 1942 e fevereiro de 1943, os alemães compraram cerca de dez milhões de garrafas de vinho no mercado negro, usando marcos supervalorizados. O governo de Vichy, seriamente preocupado com a situação, assumiu o controle de tudo que se relacionava com o comércio do vinho; porém, a medida, além de irritar os produtores, aumentou o mercado negro.
Os vinicultores também fizeram sua guerra para preservação do melhor vinho, emparedando parte das caves ou destinando aos alemães produtos inferiores. O champagne destinado ao inimigo tinha no rótulo o aviso: Reservado para a Wehrmacht.  

E para terminar com bom humor duas quadras de autores desconhecidos.

CLIENT, MON AMI.

Souviens-toi que quatre verres font un litre, et deux litres font une tournée.
Deux tournées une discussion, et une discussion une querelle.
Une querelle, une bataille, et une bataille deux gendarmes.
Une juge de paix, un greffier, un huissier, font une amende ou quelques jour de prison, plus le frais.
Les frais mènent à la ruine, la ruine mène au suicide, le suicide mène à la mort.
La mort cause des veuves joyeuses, et des belles mères en joie.
A part cela, viens ici,
bois modérèment,
paie honorablement,
pars amicalement.
Rentrez chez toi tranquillement
et fais une tendre bise à ta femme
en pensant à celle des autres
.
    
PRIÈRE DU BORDELAIS
Mon Dieu,
Donnez moi la santé pour longtemps
De l'amour de temps en temps
Du boulot, pas trop souvent
Mais du bordeaux tout les temps.

 (Foto: site do Museu.)

Semana francesa.

terça-feira, 11 de julho de 2017

LE PONT ST. BÉNÉZET
Quem diria que um dia eu ainda iria conhecer a Pont St. Bénézet, nome oficial da célebre Pont d’Avignon cuja existência descobri nas aulas de francês do Liceu Feminino Santista... Nossa professora, Anne Marie Louise, era uma senhora alta de cabelos grisalhos e dona de olhos verdes perfurantes, capazes de ler o mais recôndito pensamento das alunas. Bem, pelo menos eu achava que podiam. Usava com maestria o sarcasmo para mostrar-nos a desaprovação à indisciplina ou ao desleixo nos estudos ou mesmo com a aparência.
Minha primeira professora de francês. Houve mais dois mestres – uma professora no Colégio Canadá e um professor particular; entretanto, Dona Anne Marie foi inigualável. Se os cadernos se perderam ao longo dos anos, os livros de Irma Aragonez Forjaz estão bem guardados no armário, amarelecidos pelo tempo e um deles me diz que foi em 1959 que ouvi falar pela primeira vez da Ponte de Avignon. Lá está o refrão de “Sur le pont d’Avignon”, música que  remonta ao século XV: 

Sur le pont d'Avignon,
L’ on y danse, l’on y danse
Sur le pont d'Avignon
L’ on y danse tout en rond.


O que ela nunca nos disse é que ninguém dançava sobre a ponte, que foi construída no século XII e tinha cerca de 900m de extensão e 22 arcos. Uma enchente do rio Rhône (Ródano) em 1660 destruiu praticamente toda a ponte, deixando apenas quatro arcos.  É uma visão estranha: uma ponte que não leva a lugar nenhum. Certamente, é encantadora.
Pont St. Bénézet ou D"Avignon. Foto: Hilda Araújo, 2012.



Avignon, conhecida como a cidade dos Papas, fica perto de Marselha. No século XIV era propriedade do rei de Nápoles. Quando o Papa Clemente V lá se instalou em 1309, a igreja católica passava por uma grande crise de poder que se estendeu até 1377, ano em que Roma voltou a ser sede da igreja. Nesse período, Avignon foi residência de sete papas: Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI, Urbano V, Gregório XI e Bento XIII.




Para sede da igreja foi construído um palácio em estilo gótico entre 1335 e 1364; em 1348, o Papa Clemente VI comprou a cidade, que permaneceu propriedade da igreja até 1791, quando foi incorporada à França. O Palácio dos Papas sobreviveu às turbulências políticas francesas e tornou-se um belo museu. O centro histórico da cidade faz parte do patrimônio mundial da UNESCO desde 1995. 
Assim, a visita a Avignon em 2012 foi também uma boa lembrança da adolescência e de uma ótima professora. 

O livro de francês, 1959.















Semana francesa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O ABAJUR LILÁS

Francês já foi a língua estrangeira mais falada no Brasil e só foi suplantada pelo inglês após a II Guerra, quando a predominância norte-americana se estabeleceu no Ocidente. Falar francês era elegante e os galicismos se infiltraram no Português, enlouquecendo professores como Dona Zulmira Campos (Liceu Feminino Santista), que os varria das redações com sua assustadora caneta vermelha.

Vamos galicismar:

Madama depois de fazer a maquilagem – batom vermelho vivo e um toque de ruge nas bochechas – vestiu o tailleur marrom, depois apanhou o mantô para enfrentar o frio incomum. Sonhou por um momento com o calor e se lembrou do maiô que vislumbrara em uma vitrina meses atrás. Toalete completa. Antes de sair desligou o abajur. O chofer, encostado ao chassi do carro, a esperava junto à porta do chalé.

Dona Zulmira teria me dado zero, depois de uma descompostura. A garota teimosa poderia ter continuado a descrição.

O destino de madama era um cabaré ou boate, onde sonhava saborear um champanhe, aproveitar o bufê e flertar com o aviador de brevê novo e pincenê antigo, muito chique em seu paletó de percalina, que ela conhecera dias antes. O garçom a receberia com um buquê de rosas e a levaria para a mesa especial de onde poderia admirar a cantora que fazia jus ao cachê e à corbelha com que era saudada ao fim de cada apresentação.

A essa altura a mestra teria realmente desmaiado – tanto pelos galicismos quanto pelo cabaré, ambiente pouco recomendado para adolescentes. Ao se recuperar, certamente, enviaria a fedelha para a diretoria, recomendando uma séria conversa com os responsáveis. Dona Zulmira costumava verificar todos os dias a lição de casa das garotas, que abriam os cadernos sobre as carteiras para ela colocar o visto enquanto ia dizendo que seus olhos sempre batiam nos erros. Ameaça apavorante para todas. Foi uma ótima professora. Hoje estaria assombrada com os anglicanismos que invadem a vida de todos nós...

(Semana francesa.)