quinta-feira, 22 de junho de 2017

RUA DO COMÉRCIO

No passeio pela Rua do Comércio (Santos, SP), surgem várias perguntas. Quem seria esse singelo José Ricardo? Trata-se do santista José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada (1787-1846), sobrinho do Patriarca José Bonifácio; formou-se em Ciências Jurídicas pela Universidade de Coimbra e combateu as forças napoleônicas em Portugal. Ao retornar ao Brasil, atuou como juiz em várias regiões do país. Trabalhou arduamente pela independência do Brasil e foi deputado geral por São Paulo na primeira legislatura (1826 a 1829). Morreu no Rio de Janeiro, onde foi sepultado.
Conde D’Eu
A próxima pergunta é fácil. Qualquer criança que frequentou escola sabe (ou deveria saber) quem foi o Conde D’Eu. Nem é preciso saber o nome dele completo que é um exagero: Louis Philippe Marie Ferdinand Gaston (1842-1922). Luís Filipe era sobrinho do rei da França e renunciou aos direitos sucessórios para casar-se com a princesa Isabel em 1864. Os seus feitos estão relacionados à participação do Brasil na Guerra do Paraguai e os historiadores, para variar, têm interpretações diversas sobre a atuação dele nesse evento.  
Manuel Joaquim Ferreira Neto, o Comendador Neto, é o menos ilustre dos homenageados. Foi comerciante bem sucedido, filantropo e vereador contra vontade. Explica-se. Ele era suplente quando em 1865 foi convocado para assumir o cargo. Ele se recusou, informando que estava mudando para Campinas e em seguida faria uma viagem para a Europa. O presidente da Câmara, Inácio Wallace da Gama Cochrane (1836-1912), informou-o de que ele não tinha direito à licença porque não era vereador efetivo. O comendador, enfim, assumiu o posto e exerceu a vereança em 1866, 1867 e 1888. Ele era o proprietário do prédio do Largo Marques de Monte Alegre, onde no início do século XX por alguns anos funcionaram a Câmara e a Prefeitura de Santos. Incendiados, restaurados, sediam desde 2014 o Museu Pelé. 

Quando será que os ilustres vereadores tão ligeiros para fazer homenagens irão fazer seu trabalho adequadamente? Placa de rua apenas com o nome de uma pessoa ou data não significa nada. É preciso dar alguma indicação para que o cidadão se oriente e aprenda a história do município e se lembre de quem fez diferença. Rua Fulano de Tal. Fulano de Tal, médico (sambista, dentista, professor, operário etc.) e data de nascimento e morte. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Quando Está Frio no Tempo do Frio
Neve é um exagero por aqui, mas a paisagem é muito bonita.
Quando está frio no tempo do frio
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa 


terça-feira, 20 de junho de 2017

RUA SANTO ANTÔNIO

A Rua do Comércio é uma das mais antigas da cidade de Santos (SP), fundada em 1546 junto ao Outeiro de Santa Catarina. A ocupação da vila ocorreu, lentamente, se espraiando para Oeste no início. Ao longo desses anos, ela teve quatro nomes. O primeiro foi Rua de São Francisco por causa do convento que se erguia próximo ao mar. Era essa a denominação em 1765. Parece que em 1822 ela já era conhecida como Rua de Santo Antônio, mas em 1899 passou a se denominar Rua Quintino Bocaiuva. A população, contudo, continuou a chamá-la pelo antigo nome até que a Câmara, na sessão de 13 de janeiro de 1919, aprovou uma homenagem à Associação Comercial de Santos, desbancou o santo casamenteiro e a denominou Rua do Comércio. A oficialização, entretanto, só aconteceu em 1921.
            Ela é pequena e estreita. Começa numa praça e termina num largo. Tem como transversais as ruas XV de Novembro, Conde D’Eu, Gonçalves Dias, José Ricardo e a Comendador Neto. Nem é preciso dizer que é cheia de história e de histórias. A praça é a Rui Barbosa (antiga Praça do Rosário) e o largo, Marquês de Monte Alegre, onde se destacam a Igreja de Santo Antonio do Valongo (século XVII) e a antiga Estação Ferroviária da São Paulo Railway. Com a inauguração da Estação Ferroviária em 1867, a região foi tomada pelos exportadores, tornando-se o centro mercantil mais importante da cidade, com todos os tipos de estabelecimentos comerciais. Ela era a rua do café.
Hoje um passeio por ela mostra o belo prédio onde funciona o Camiseiro, uma construção de 1927, bem conservada. Do lado oposto o centenário Café Paulista, ponto de encontro de políticos, jornalistas, exportadores e corretores de café. Ali, sabia-se de tudo. E de todos. Os destaques da quadra são os edifícios Pedro dos Santos e Barão de Carvalhaes, que ficam frente à frente na esquina com a Rua XV de Novembro. O edifício Pedro dos Santos foi inaugurado na primeira década do século XX. Infelizmente, uma parte foi demolida e o terreno virou estacionamento.
Em 1939, quando se comemorava o centenário da elevação de Santos à categoria de cidade, a Sul América Capitalização (SULACAP) anunciou a construção de um moderno edifício com fachadas para as ruas do Comércio, Conde D’Eu e XV de Novembro. A SULACAP, fundada em 1929, foi a primeira empresa de capitalização do Brasil e a terceira do mundo.  Para a realização da obra, foram necessárias várias demolições – entre os quais o prédio da Repartição de Saneamento, abrindo a Rua Conde D’Eu até a Rua do Comércio.
Na segunda quadra, há uma simpática mistura de prédios antigos e modernos. Alguns restaurados, outros deteriorados. O destaque é o belo edifício de tijolos vermelhos da empresa Hamburg Sud. Na esquina da Rua José Ricardo, outro prédio histórico bem conservado e que abriga a Delegacia da Receita Federal. A estrela da quadra, entretanto, é a Casa Azulejada em estilo neoclássico. O comendador português Manoel Joaquim Ferreira Neto encomendou o imóvel para usa-lo como residência e armazém; entretanto, alguns historiadores acreditam que serviu apenas de moradia. Os azulejos da fachada teriam sido colocados após a morte do comendador pelo sócio dele, Luis Guimarães.
Com a revitalização do centro histórico (lenta, mas contínua), ressurgiu um velho e amado personagem da cidade: o bonde. Ele trilha com galhardia várias vezes por dia a rua de paralelepípedos para delícia dos saudosistas e espanto dos mais jovens. (Foto: Novo Milênio, acervo Waldir Rueda.) 

R. do Comércio: placa indica local do futuro prédio da SULACAP*.

domingo, 18 de junho de 2017

 HISTÓRIAS DO BRASIL

O noticiário nacional nos entristece e, frequentemente, nos provoca suspiros enquanto imaginamos como tudo isso começou... Lamartine Babo (1904-1963) fez um esboço da construção da nacionalidade para o Carnaval de 1934. Na marchinha “História do Brasil”, ele atribui a Cabral a invenção do Brasil no dia 21 de abril dois meses depois do Carnaval.  Se você está pronto para apontar erros, esqueça. É carnaval e nada é oficial. É a festa da desconstrução; de Momo, personificação do sarcasmo e da crítica. Assim, Cabral não descobriu, inventou o Brasil e, portanto, por que não em 21 de abril?
O compositor carioca junta os personagens do romance de José de Alencar (1829-1877), Ceci e o índio Peri, transpostos para a ópera “O Guarani” por Carlos Gomes (1836-1896), tempera tudo com feijoada numa referência à contribuição do negro para a cultura brasileira, sem deixar de mencionar a questão da escravatura.


Enfim, Lamartine salta para 1933 e afirma que tudo mudou. “Passou-se o tempo da vovó/ Quem manda é a Severa/ E o cavalo Mossoró”. Severa? Pois é. Severa foi a mascote da Portuguesa de Desportos desde 1920 até 1994. A imagem da portuguesinha em trajes típicos teria sido inspirada na vedete portuguesa Dina Teresa (1902-1984), que protagonizou o filme “A Severa”, baseado na obra de Júlio Dantas e com direção de Leitão de Barros em 1931. Dina Teresa visitou o Brasil em 1933.





O cavalo Mossoró, por sua vez, tornou-se a paixão nacional ao vencer o primeiro Grande Prêmio Brasil, realizado em 6 de agosto de 1933, no Hipódromo Brasileiro (hoje Hipódromo da Gávea), no Distrito Federal. Mossoró era um tordilho puro sangue inglês, propriedade de Frederico Lundgren, fundador das Casas Pernambucanas. A vitória do cavalo pernambucano tornou-se um acontecimento nacional – ele venceu outras competições importantes naquele ano.
Tudo mudou?


HISTÓRIA DO BRASIL
Lamartine Babo

Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral!
Foi seu Cabral!

No dia vinte e um de abril
Dois meses depois do carnaval

Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som...
Ao som do Guarani!

Do Guarani ao guaraná
Surgiu a feijoada
E mais tarde o Paraty 

Depois
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô

De lá...
Pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda é a Severa
E o cavalo Mossoró


segunda-feira, 12 de junho de 2017

AOS AMANTES
Para marcar a data (comercial) nada como o soneto de Luis de Camões e a obra de Auguste Rodin (O Beijo).

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

domingo, 11 de junho de 2017

VIAGEM NO TEMPO

O dia dos namorados pode ser uma boa ocasião para se lembrar de personagens que povoaram a imaginação da turma que nasceu no século passado (e ainda sobrevive, claro!).

Mandrake, por exemplo, foi um personagem criado por Lee Falk (1911-1937) em 1934. O desenhista foi Phil Davis (1906-1964), que conheceu pessoalmente o verdadeiro Leon Mandraque. Chamava-se Leon Giglio (1911-1993) e era ítalo-americano. Começou muito jovem e ficou famoso como mágico, ventríloquo, mentalista e ilusionista. Apresentava em teatros canadenses nos anos de 1920 usando uma cartola, capa, bengala e um fino bigodinho. O personagem de Lee Falk namora a princesa Narda e a primeira esposa de Leon Giglio chamava-se Narda. O mágico da ficção mora em um castelo no alto de um morro em Xanadu de onde sai para combater o crime com a ajuda de Lothar – um príncipe africano. A princesa Narda é proveniente da Europa Oriental. Onde é Xanadu? Talvez Shangdu, na China, citada por Marco Polo.  

Lee Falk foi o criador de outro casal famoso no mundo das histórias em quadrinhos: Fantasma e Diana Palmer. As tiras começaram a ser publicadas em 1936. Tudo começa em 1536, quando piratas mataram o pai do marinheiro britânico Christopher Walker. Inconformado, Walker jura vingança e, depois de cumprir a promessa, resolve combater o mal, criando um legado que passa de geração a geração, o que confere ao personagem uma espécie de imortalidade. Fantasma vive na caverna do Crânio em Bangalla, um país africano fictício; tem um lobo chamado Capeto, um cavalo que atende por Herói. Nos tempos em que lia a revista o Fantasma namorava Diana Palmer, mas depois casaram o “espírito que anda” e eles têm dois filhos. Phil Davis também foi o autor do desenho original que trouxe duas características importantes ao personagem: a roupa justa e a máscara que não revela os olhos.
   


    Super-homem é uma criação de Jerry Siegel e Joe Shuster e apareceu pela primeira vez em 1938. Foi um grande sucesso. O danado do extraterrestre, nascido no planeta Krypton, conquistou logo o planeta terra. Nem é preciso contar a saga de Clark Kent e sua vida dupla. Quando não sai voando para combater o crime e as injustiças nas suas roupas colantes, ele é um tímido jornalista do Planeta Diário, apaixonado pela dinâmica colega Lois Lane, repórter.
      











sábado, 10 de junho de 2017

DIA DE CAMÕES
Luis de Camões, considerado um dos maiores poetas de Portugal e do Ocidente, morreu no dia 10 de junho de 1580 em Lisboa. A data marca também o Dia de Portugal e das comunidades portuguesas. Camões narra a epopeia portuguesa que ampliou o mundo, se lançando “por mares nunca dantes navegados”.



Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
 Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
 Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas [...]. (“Os Lusíadas”,1572.)


O Português é a língua oficial de oito países, além de Portugal. Cerca de 250 milhões de pessoas se expressam nesse idioma – só no Brasil, são 207 milhões. O Português é a língua oficial também em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.