domingo, 24 de junho de 2018

SONHO DE PAPEL
Carlos Braga e Alberto Ribeiro

E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!
E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!

Sonho de papel a girar na imensidão
Soltei em seu louvor, um sonho multicor
Oh, meu São João!

Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou
Não vai mais voltar!
  
Festa de São João, óleo sobre tela de Heitor dos Prazeres (1898-1966).


Balões são bonitos, mas fazem parte do passado. Soltar balões é crime. Eles são também um sério risco para a aviação.

Lei de Crimes Ambientais
Lei nº 9.605/1998
Art. 42. Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano:
Pena - detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente.


sábado, 23 de junho de 2018

Quando Está Frio no Tempo do Frio

QUANDO ESTÁ FRIO no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, 
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é o agradável só por ser natural. 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, 
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno — 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, 
E encontra uma alegria no fato de aceitar — 
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece 
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida? 
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço, 
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime, 
Da mesma inevitável exterioridade a mim, 
Que o calor da terra no alto do Verão 
E o frio da terra no cimo do Inverno. 

Aceito por personalidade. 
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, 
Mas nunca ao erro de querer compreender demais, 
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência, 
Nunca ao defeito de exigir do Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos", heterônimo de Fernando Pessoa. 


"Le Boulevard de Clichy, par un temps de neige" (1876). de Norbert Goeneutte (1854-1894).

sexta-feira, 22 de junho de 2018


MATARAZZO, ANDRAUS E SCHAUMANN
Na Avenida Paulista.
O segundo morador da Avenida Paulista foi Francesco Antonio Maria Matarazzo (1854-1937), imigrante italiano que se tornou o homem mais rico do Brasil, graças ao seu talento empreendedor. Manteve-se nesse patamar por várias décadas. Francisco Matarazzo comprou em 1896 o lote 83 na esquina com a Rua Pamplona, contratou o engenheiro Giulio Saltini e o mestre de obras Luigi Mancini, ambos italianos, para fazer o projeto da casa. Com o passar dos anos ele foi adquirindo lotes vizinhos para ampliar a propriedade. Quando Francesco, mais conhecido como Francisco Matarazzo morreu, assumiu o comando da família Francisco Matarazzo Jr. (1900-1977), que comandou a grande reforma da casa. 
Depois de avaliar vários trabalhos apresentados, Francisco Matarazzo Jr. (Chiquinho Matarazzo) aprovou o projeto do arquiteto italiano Tomaso Buzzi (1900-1981), que ele conheceu durante uma visita de Buzzi ao Brasil. A reforma se processou durante o período da II Guerra e a comunicação entre ambos ocorreu por cartas. Assim, em 1940 em pleno conflito mundial o novo palacete em estilo neoclássico ficou pronto: tinha 4.400 metros quadrados de área construída em terreno de doze mil metros quadrados. Eram dezenove quartos, dezessete salas, uma biblioteca – em que se destacavam livros raros –, refeitórios e três adegas (Evoé Baco!). Havia ainda piscina e adega. O acabamento e a pintura combinavam com o mármore travertino, que revestia alguns cômodos da mansão – parte dele, sobras do edifício Matarazzo do Anhangabaú. O mobiliário incluía móveis venezianos, mesas chinesas e todas as preciosidades que o dinheiro dos Matarazzo podia comprar.
        Em 1917 Francesco recebeu do rei Vitor Emanuel III o título de conde como agradecimento pela ajuda financeira à Itália durante a I Guerra (1914-1918). Chiquinho Matarazzo herdou o título. Assim, nada mais natural que a família tivesse um brasão. E a mansão da Avenida Paulista ostentava no pórtico de entrada o brasão esculpido em mármore de Carrara. Pesava 150 kg.
        Com as grandes transformações econômicas e sociais, a família deixou o palacete e o destino da propriedade gerou muita discussão na cidade, o que não impediu a demolição da Vila Matarazzo em 1996. Uma polêmica que, na verdade, se repetia: na década anterior a “Casa Mourisca” já fora demolida.
O campineiro Henrique Schaumann (1856-1922) formou-se em Farmácia na Alemanha, país de origem de sua família, fundadora da famosa Botica “Ao Veado d’Ouro” (Rua São Bento) que ele ao retornar assumiu e anos depois vendeu, dedicando-se especialmente à política. Em 1906 Henrique Schaumann foi morar perto do cunhado Von Büllow à Avenida Paulista, esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. O projeto era dos engenheiros Augusto Fried e Carlos Ekman. Em 1934, o empresário Abraão Andraus, imigrante libanês e um dos sócios da Casa Três Irmãos, na Rua Direita, perto do Largo da Misericórdia, comprou o imóvel, contratou o construtor José Câmara para realizar o projeto de uma grande reforma que o transformou na famosa “Casa Mourisca”. O Oriente estava em todos os lugares do palacete: salas, quartos e banheiros. Uma visão europeizada do Oriente.
José Câmara já havia feito a reforma da casa 63a da Paulista, entre 1933 e 1934, introduzindo a moda do orientalismo na avenida. O cliente era o irmão de Abraão e sócio da Casa Três Irmãos: Amin Andraus. Amin foi mais comedido. O casarão tinha como destaque no interior um fumoir com pinturas ornamentais orientais e o mobiliário com incrustações de madrepérola, proveniente de Beirute, como narra Renato Brancaglionere Cristofi em sua dissertação de mestrado*, apresentada na FAU/USP em 2016.
Cristofi reuniu em seu trabalho várias fotos do interior da residência de Amin Andraus: “Nessas fotografias (...) percebemos como era novamente diversificado o conjunto de resultados criativos do que seria um palacete mourisco, concebido nessa tênue fronteira entre os elementos e sentidos da representação do Oriente e as expectativas  do viver ‘à francesa’”. A “Casa Mourisca” encantava a todos, mas em 1982 os proprietários (família Lotaif) não se comoveram com a repercussão negativa da decisão de por abaixo a mansão antes que ela fosse tombada pelo patrimônio histórico como um marco da arquitetura paulistana. Na calada de uma noite de julho de 1982, foi posta abaixo.


* “O orientalismo arquitetônico em São Paulo – (1895-1937)”, disponível para leitura na Internet.

segunda-feira, 18 de junho de 2018


A PAULISTA QUE DESAPARECEU
Von Bülow e a esposa Anna Luise Schaumann, 1905.
O primeiro morador da Avenida Paulista foi o cervejeiro dinamarquês Adam Ditrik Von Bülow (1840-1923). O cavalheiro em questão veio para o Brasil em 1865 e em 1867 mudou para São Paulo dar aulas em uma escola alemã. Mais dois anos e Von Bülow foi para Santos trabalhar na importadora Budich & Co. e mais tarde tornou-se sócio. Os negócios progrediram e em 1876 ele fundou a Zerrenener, Bülow & Cia. especializada em importação de cevada, lúpulo e equipamentos para beneficiamento de cerveja. O principal cliente dele era a Cia. Antárctica Paulista, cervejaria fundada em 1891 por Joaquim Salles, Luiz Campos Salles, José A. Cerqueira, Luiz de Toledo Pizza, Antonio Penteado e José Penteado Nogueira. Quando a Antárctica começou a ter problemas financeiros, Von Bülow assumiu a presidência da empresa.
Bem sucedido, o dinamarquês encomendou o projeto da casa (nº 91) para a nova avenida (entre as Alamedas Campinas e Joaquim Eugênio de Lima) ao arquiteto alemão Augusto Fried em 1895. De linhas elegantes e sóbrias, o palacete tinha um torreão que foi muito útil para o fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) tirar belas fotos da Paulista em franco crescimento. O palacete foi demolido em meados do século passado, sendo substituído pelo Edifício Pauliceia (1959).
Um dos vizinhos de Von Bülow foi o médico Nicolau Mendes Barros (1876). Ele era casado com dona Francisca Paulino Nogueira de Moraes Barros, filha do banqueiro José Paulino Nogueira, diretor da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Contratou o escritório de Ramos de Azevedo para execução do projeto em 1902. O terreno tinha frente para Paulista e fundos para a Rua São Carlos do Pinhal, cada uma com dois portões. A lateral dava para a Alameda Rio Claro.
A casa ficava em meio a um jardim, com um bosque ao lado. Havia dois alpendres e um deles dava acesso ao vestíbulo, seguindo-se uma saleta, o sala de visitas, sala de jantar e escritório. No vestíbulo também ficava a escada para o piso superior. Cozinha, copa, despensa e toilette separado do banheiro encontravam-se nos fundos atrás da sala de jantar. No andar de cima, o dormitório do casal, dois quartos de vestir, o quarto das moças com lavatório, o quarto dos moços. A governante dormia com as meninas. Havia um banheiro apenas. O mobiliário era importado de Londres e Paris ou feito pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. O enxoval da casa era francês. A edícula tinha dupla função: os quartos eram usados pelos empregados enquanto a sala de jantar foi transformada pelos rapazes em sala de ginástica. Interessante que o copeiro da família também era japonês. Quando os filhos casaram, Mendes Barros construiu uma casa para cada um na área dos jardins. A família permaneceu no mesmo endereço até 1972. 
Foto: fotógrafo desconhecido, Wikipedia. 

domingo, 17 de junho de 2018


O QUE NÃO SE VÊ MAIS NA PAULISTA
Os palacetes dos primórdios da Avenida Paulista garantiram o prestígio do endereço paulistano e, mesmo depois de vendidos e demolidos, continuam pairando por lá, acendendo a imaginação de várias gerações. A Vila de Horácio Belfort Sabino (1869-1950), por exemplo, no final da avenida, ocupava o quarteirão da Rua Augusta, Alameda Santos e Rua Padre João Manoel (Conjunto Nacional). Sabino contratou o arquiteto francês Victor Dubugras (1868-1933) para a realização do projeto de sua casa de campo, pois residia com a família na Rua General Jardim.
A casa em estilo art nouveau ficou pronta em 1904. As visitas entravam por uma varanda lateral com vitrais que dava acesso ao jardim de inverno e ao escritório. No térreo, ficavam as salas de jantar e de visitas – destaque para o piano de cauda Pleyel, a sala de almoço das crianças e de costura; um corredor conduzia à copa e à escada de serviço. A cozinha ficava separada, um anexo em que se encontravam também a despensa e o quarto de empregada. O porão abrigava adega, lavanderia, despensa, quarto de brinquedos e respiradouro. No piso superior, havia três quartos, três toilettes, um banheiro completo e dois terraços. A entrada de serviço era pela Alameda Santos, onde se achavam as edículas destinadas às famílias do copeiro japonês e do motorista, que conduzia um Mercedes-Benz. O luxo, naturalmente, estendia-se ao mobiliário, que era importado da França. Na sala de visitas, móveis dourados, mas no resto da casa imperava o estilo art nouveau. A tapeçaria era Aubusson. Sabino apreciava a natureza e gostava especialmente de carvalhos – havia plantado um na entrada principal (Avenida Paulista) e as folhas e frutos dessa árvore eram o principal ornamento dos lambris, escadas e móveis da propriedade. Sabino, antes de iniciar a construção do palacete, cuidara de formar o parque, a horta e um pomar, afinal, seria uma casa de campo.
A fortuna de Horacio Sabino, formado em Direito (Largo de São Francisco), foi consolidada por meio de transações imobiliárias – foi o primeiro a vender terrenos a prestações em São Paulo; herdou da sogra terras, que loteou formando o Jardim América em homenagem à esposa. A área foi negociada com a Cia. City da qual mais tarde tornou-se sócio. Ele era casado com América Milliet e o casal tinha quatro filhas – América, Marina, Helena e Sylvia.
O casarão foi o primeiro a ser demolido, dando início à nova avenida, no final da primeira metade do século passado.

sábado, 16 de junho de 2018


AVENIDA PAULISTA E O VERDE
Nesse mostruário de arquitetura contemporânea, em que se transformou a Avenida Paulista, há muitas surpresas para apreciadores da natureza. Como o belo jardim do Hospital Santa Catarina que tem 3 925 metros quadrados, com uma pequena área aberta ao público entre a entrada do estacionamento e a capela; porém, com o agendamento de uma visita é possível conhecer a área principal. Nesse espaço cheio de tranquilidade, existem 100 tipos de plantas: além de rosas e orquídeas, há hortênsias, gardênias, jasmim, antúrios e camélias entre cerca de 180 árvores – ciprestes, cerejeiras e pinheiros –, e palmeiras. Uma delicada escultura de São Francisco de Assis se destaca em meio ao verde e mais adiante há um insólito grupo de anõezinhos. Nos fundos, encontram-se uma gruta e um lago com carpas coloridas. Sabiás, periquitos, bem-te-vis, beija-flores, rolas, pardais e papagaios se encarregam de alegrar o ambiente com seus gorjeios e cantorias. Inaugurado em 6 de fevereiro de 1906, como Sanatório, o Hospital Santa Catarina foi criado por iniciativa da Irmã Beata Heinrich, do médico austríaco Walter Seng e de Dom Miguel Kruse. A visita agendada inclui o acervo histórico da instituição, como fotos de época, mobiliário, objetos usados pelas equipes médicas e mesmo artigos pessoais. Avenida Paulista, 200. Telefone para agendamento: 11-3016-4155.  Metrô Brigadeiro.
Do outro lado da avenida, há o famoso jardim que se sobrepõe ao Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura mais conhecido como “Casa das Rosas”. O palacete de 1935, que leva assinatura de Ramos de Azevedo, está bem preservado e a iniciativa de tornar o jardim em passagem da Avenida Paulista para a Alameda Santos foi muito bem sucedida. Na edícula, funciona um café sempre cheio. Avenida Paulista, 37. Metrô Brigadeiro.
            Vale a pena observar o prédio da esquina da Avenida Paulista (altura do nº 1230) com a Rua Pamplona até a Rua São Carlos do Pinhal, onde a calçada se destaca pela beleza do ajardinamento simples. O pedestre pode caminhar pela calçada junto da pista de carros ou subir alguns degraus para desfrutar de tranquilidade, sentando-se em um dos bancos para uma pausa, uma leitura ou um sorvete amigo. Metrô Trianon-MASP.
         Mais adiante, do lado esquerdo da avenida, encontra-se o Parque Municipal Prefeito Mario Covas, criado em 2010.  Com 5.396 m², a área fazia parte da propriedade do advogado René Thiollier (1882-1968) – organizador da Semana de Arte Moderna e um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Ao vender o imóvel a família exigiu, em escritura pública, que toda a área verde fosse preservada. A cidade agradece. O visitante desfruta de um bosque agradável em que se destacam o pinheiro-do-paraná, figueira-da-índia, cafeeiro, cedro, mangueira, paineira etc.
Avenida Paulista, 1853. Metrô Trianon-MASP.  
Quem jura que o Trianon fica na Avenida Paulista, engana-se. O endereço é Rua Peixoto Gomide, 949. Mas não faz mal, porque ninguém escreve para o Fauno, escultura de Victor Brecheret que se encontra no Parque. A obra é de 1941/42. Trianon era a denominação do belvedere que existia na área que o MASP ocupa como escrevi antes; o bosque em frente ao belvedere já estava destinado por Joaquim Eugênio de Lima (pai da avenida) para ser um parque, que foi criado pelo paisagista Barry Parker e era uma complementação do Trianon. Em 1931 a área ganhou o nome de Parque Tenente Siqueira Campos, em homenagem ao militar, que participara a Revolta do Forte de Copacabana (1922) e acabara de morrer em acidente de avião. Ninguém ligou para o nome novo. Assim, o Trianon resistiu. E resistiu bravamente a todas as mudanças da Avenida Paulista. As autoridades desistiram.
Ele tem 48.600 m² de vegetação remanescente de Mata Atlântica (há algumas exóticas). Existem 135 espécies registradas – destas oito estão ameaçadas como a cabreúva e o chichá. Vale a pena conhecer o araribá-rosa, o cedro e o jequitibá entre várias outras árvores nativas. A fauna é pobre, afinal, bem mais difícil para os animais se adaptarem a um ambiente tão urbano quanto a Avenida Paulista. A Prefeitura registra principalmente a presença de “seres alados”: sete espécies de morcegos e duas de borboletas (só, felizmente) e 28 de aves – entre as quais alma-de-gato, pitiguari, quiri-quiri, saíra-amarela e tico-tico. Há também a rãzinha-piadeira, característica de Mata Atlântica. O parque ocupa duas quadras da Avenida Paulista à Alameda Jaú. Uma passarela sobre a Alameda Santos mantém a sua unidade.    

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PIONEIRISMO PORTUGUÊS
Há 96 anos os militares portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959) e Artur Sacadura Freire Cabral (1881-1924) concluíam com sucesso a primeira travessia aérea do Atlântico Sul ao amerissarem no Rio de Janeiro, procedentes de Lisboa, tornando-se heróis nos dois países. A viagem, que fazia parte das comemorações do centenário da independência do Brasil, não foi exatamente tranquila. A grande aventura começou, no dia 30 de março de 1922, às 7 horas da manhã, em Lisboa, onde eles embarcaram no “Lusitânia”, um hidroavião monomotor Fairey F III-D MKll, equipado com um motor Rolls-Royce. Sacadura Cabral pilotava enquanto Gago Coutinho se encarregava da navegação, com auxílio de um aparelho que ele inventara e denominara horizonte artificial. O invento revolucionou a navegação aérea que estava apenas no início.
Os aviadores e seu voo pioneiro. 
A dupla chegou no mesmo dia a Las Palmas (Ilhas Canárias); no dia 5 de abril partiu para a Ilha de São Vicente (Arquipélago de Cabo Verde), onde os dois ficaram para manutenção do hidroavião; os aviadores partiram para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, já em águas brasileiras, onde chegaram no dia 18. O hidroavião sofreu danos durante a amerissagem e Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram recolhidos por um cruzador português que os levou até Fernando de Noronha. A marinha portuguesa enviou o “Pátria”, outro hidroavião Fairey para conclusão da viagem, entretanto, quando voltavam ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo no dia 11 de maio para reiniciar o voo a partir do trecho interrompido, houve uma pane no motor que os obrigou a amerissar. Os dois ficaram 9 horas no mar até serem resgatados por um cargueiro inglês e levados novamente para Fernando de Noronha. Novo hidroavião foi enviado para o arquipélago. Desta vez, o “Santa Cruz”, que funcionou adequadamente, permitindo que os portugueses chegassem em segurança a Recife e, após escalas em Salvador, Porto Seguro, Vitória e, finalmente, chegaram Rio de Janeiro no dia 17 de junho, amerissando na Guanabara.
        Gago Coutinho e Sacadura Cabral percorreram 8.383 quilômetros em sessenta e duas horas e vinte e seis minutos na travessia, descontado o tempo com os imprevistos. O povo brasileiro homenageou os dois com muitas festas, que continuaram em Portugal, quando os aviadores retornaram. Eles estiveram em Santos e, na Praça Rui Barbosa, participaram do lançamento da pedra fundamental do monumento, em homenagem a outro pioneiro, o padre santista Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), inventor da passarola e responsável por diversas experiências com balões.