segunda-feira, 18 de setembro de 2017



FÉRIAS DA COMPANHIA.
Até 10 de outubro.


PRIMAVERA DE MUSEUS

Um bom programa para o início da nova estação: o diretor cultural do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, Edson Santana do Carmo, fará palestra sobre "A História que os livros não contam". Será dia 21 às 16 horas. Endereço: Rua Frei Gaspar, 280, Centro, São Vicente (SP). 




domingo, 17 de setembro de 2017



Santos, 16 de setembro de 2017. Foi um dia muito especial. Reunião dos ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS (1967-1987) no Petit Verdot, a adega gourmet de José Rodrigues, grande jornalista que comandou durante anos a sucursal do Estadão em Santos. Muito bom reencontrar dois pioneiros – Flávio Ribas GAZETINHA e Itamar Miranda para contar histórias do início do jornal há 50 anos. E haja história. 



           Já vou dizendo que não sou saudosista, mas as lembranças são importantes para se ter parâmetros para o presente e para o futuro, para definirmos o que mudar ou o que manter em nossa vida. Hoje faz 30 anos que o jornal CIDADE DE SANTOS fechou e quis escrever alguma coisa no blog sobre o diário. A memória, entretanto, costuma pregar peças e mistura muitas vezes fatos e cria outros que nos surpreendem de forma assustadora ao percebermos que não foi bem assim que as coisas se sucederam. Então, se alguém discordar do que escrevi, não foi por querer, mas talvez um truque da memória. Devo confessar que nos últimos anos enjoei do jornalismo, como marinheiro de Mishima que enjoou do mar, mas de forma alguma me arrependo da escolha que fiz e a experiência no jornal CIDADE DE SANTOS foi fundamental na minha vida pessoal e profissional. Muitos colegas daquelas duas décadas já se despediram e entre eles minha homenagem especial a João Sampaio, Argemiro de Paula, Eduardo Leite, Roberto Peres e Reinaldo Sassi – grandes amigos, profissionais e mentores.Enfim, tudo tem o seu tempo e o do nosso querido diário passou. (Publicado no Facebook, 15 de setembro de 2017.)

HOMENAGEM 

Rubens Fortes ERRE é uma personalidade única na história do jornal. Assinava A TOCA, uma coluna com críticas bem humoradas dos fatos políticos e esportivos do momento. Ia à redação no final da tarde e seu bom humor, sua inteligência ágil sempre surpreendiam até os mais escolados com as peripécias que o tornaram famoso no CIDADE DE SANTOS. Continua afiado como sempre. Uma das vítimas foi Fernando Allende – repórter, cronista social e de automobilismo.  Mantinha em sua mesa um arquivo pessoal guardado a sete chaves. Numa folga, Allende fez uma limpeza geral e quando foi embora a lixeira estava repleta de material velho, inclusive um livro de patologias médicas ilustrado. ERRE recolheu parte dos rejeitos. “Depois, quando ele deixava a gaveta aberta, pastas, relises, livretos voltavam para a gaveta, discretamente” – conta o brincalhão, que observava as reações da vítima. “Dava para perceber quando achava a velharia, olhava, olhava... Sabe quando a pessoa tem a sensação estranha, pô, já não tinha jogado isso fora? Aí rasgava bem rasgado o material que teimava em sair do lixo e descartava. Algumas vezes, guardava de novo, carinhosamente!”. Allende percebeu a brincadeira, quando o office-boy lhe entregou o tal livro de patologias médicas. O que o garoto não esperava foi o palavrão... HELOISA COIMBRA, repórter novata, foi quem conseguiu enfrentar ERRE com muito garbo. Numa festa de fim de ano em que sorteou como amigo secreto o ilustre colunista, deu-lhe um presente inspirado. Teve o trabalho de recortar várias edições da TOCA e colar numa longa tira, formando um rolo de papel higiênico. ERRE jura que guarda até hoje para casos de emergência. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


Santos, 15 de setembro de 1987/2017.

OBITUÁRIO DE UM JORNAL

Sempre que um jornal encerra suas atividades quem perde mais são os cidadãos – muito mais que os funcionários – porque os jornais são indispensáveis para a circulação de informação na sociedade. Há 30 anos, depois de fazer parte da vida da Baixada Santista por 20 anos, circulava pela última vez o jornal CIDADE DE SANTOS, propriedade do grupo FOLHA DA MANHÃ.
Um discreto anúncio na primeira página informava aos leitores a decisão do grupo FOLHA:
“Com a edição de hoje CIDADE DE SANTOS interrompe sua circulação. Os assinantes recebem com este exemplar uma carta pessoal sobre o ressarcimento do valor do saldo de sua assinatura. CIDADE DE SANTOS agradece aos seus leitores e anunciantes a atenção que sempre lhe foi dispensada. Aos nossos funcionários, o nosso agradecimento e a certeza de que todos os seus direitos trabalhistas serão inteiramente atendidos. A Direção.”
A reportagem de última página tinha um título ambíguo: “Esta cidade está abandonada. É o fim.” 

A decisão causou a dispensa de 120 funcionários entre os quais 64 jornalistas. O dia 14 de setembro foi bem estranho. Com um gosto amargo. Todos sabiam que preparavam a última edição do jornal e que o ponto final colocado na matéria tinha um significado mais profundo. Depois dele só haveria o silêncio das máquinas de escrever, das prensas, dos carros de distribuição e, sim, até do leitor que não teria mais como dar sua opinião (boa ou má) sobre o que lia.        
O dia 15 parecia normal. Todos compareceram como se fosse mais um dia de trabalho como tantos outros; contudo entre uma lágrima e outra, um sorriso tristonho, restava apenas esvaziar gavetas, reler recortes... Alguns desceram para o Alvorada, outros para o Paulista chorar as mágoas e tomar cerveja mais cedo. O que fazer? Sim, o que fazer? Uns poucos tinham 20 anos de casa, outros eram novatos e a maioria percorrera boa parte da história do jornal. Aquele foi um dia dedicado às recordações do que se havia feito e às avaliações sobre como o jornal contribuíra para a cidade. O vazio que deixaria...
Evidentemente, havia todo um lado sentimental construído no cotidiano da redação, das viaturas ou das reportagens. Construiu-se um folclore em torno de algumas pessoas e de lugares específicos da sobreloja do número 26 da Rua do Comércio, onde pontificou a Praça da Paz Universal – que em algumas ocasiões lembrava mais Berlim em 1945, mas em vez de bombas choviam caralhos – que me perdoem os mais sensíveis.
O arquivo, único local do jornal aberto ao público, era especial. Ali reinava Eduardo Leite e uma turma da pesada – Erasmo Luna, Marcílio Araújo e Júlio César. Eduardo tinha um dom especial – paciência num ambiente em que o estresse era o padrão. Havia pelo menos dois motivos que, em geral, levavam os jornalistas até lá: pesquisa e um papo com Edu. Apreciador de música erudita e bom cinema, dono de um humor refinado, ele tinha uma rotina que incluía a leitura de uns oito jornais, selecionava o material para o uso da redação e escrevia uma coluna de efemérides. O atendimento dos jornalistas e do público era feito pelos arquivistas. Era também no arquivo que o pessoal ia resolver seus problemas, acertar as diferenças e até namorar. Edu tudo via e nada via. Eduardo Leite foi um dos “pais fundadores”.

Mais adiante estava o Departamento Fotográfico – nome pomposo para um reduto estritamente masculino em que reinou por muitos anos Francisco Rubio PACO com seu inseparável charuto; mais tarde assumiu o pupilo Itamar Miranda, outra lenda do jornalismo fotográfico de Santos. No final do corredor, abriam-se as portas para a Redação com o “Aquário” dominando o salão, que também dava guarida à Secretaria
O jornal CIDADE DE SANTOS era democrático no sentido verdadeiro da palavra. Ali estavam representadas todas as tendências políticas, esportivas e religiosas, que conviveram sem rancores. Antônio Ággio Jr., em seu depoimento para Rubens Fortes ERRE há cinco anos, lembra que “Nunca pedimos atestado ideológico a ninguém. Nenhum colega jamais precisou dar explicação de atos e pensamentos pessoais, embora Santos fosse centro político-ideológico nevrálgico aos olhos da Revolução. Aliás, a militância de vários deles era notória, mas nada tinha a ver com suas obrigações profissionais, cumpridas religiosamente. Nenhum foi preso ou coagido por quem quer que seja, pelo menos enquanto Freddi e eu dirigimos o jornal, mesmo sob a plena vigência do famigerado Ato Institucional (AI-5) de triste memória”.


E que eu saiba em nenhuma ocasião as convicções ideológicas pessoais foram postas em questão. Costuma-se dizer que éramos uma família, mas que ninguém se iluda. Como em toda família houve brigas e desentendimentos; mágoas e ressentimentos, mas no frigir dos ovos havia um consenso sobre a importância da informação e do leitor porque a notícia estava acima de tudo. 
Enquanto em muitas empresas a cúpula incentiva atividades sociais para melhorar o relacionamento dos funcionários, na Rua do Comércio, as pessoas se encarregavam de organizar festas, viagens e passeios embora o esporte preferido fosse a derrubada de garrafas de cerveja pela cidade. Elaine Saboya criou um clube do livro e nos apresentou ao Clube de Cinema de São Vicente.
Da minha parte lembro-me de quatro históricas viagens ao Rio de Janeiro – uma das quais começou com um acidente de carro na Via Dutra que não impediu o trio a bordo de prosseguir para a Cidade Maravilhosa e terminar com muitas histórias para relembrar, não é, Zé? Havia as festas de aniversário do jornal (uma delas teve algumas cadeiradas) e de fim de ano. Houve uma época em que São João foi incluído no calendário, mas não vingou talvez por causa do vocabulário pouco convencional de alguns participantes.
Não faltaram paixões, romances, casamentos e até algumas separações. Ao todo foram cerca de catorze casamentos.

Como diz o poeta “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. (Fernando Pessoa)

BASTIDORES

“Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar”... (Chico Buarque)

Ao abrir o jornal todas as manhãs o leitor se informa do que ocorre no mundo, sente-se feliz ou não, às vezes expressa seus sentimentos em Cartas à Redação; alguns preferem telefonar, mas a maioria simplesmente joga o jornal no lixo ou guarda para alguma função menos nobre. O que o leitor ignora são as dificuldades que o jornalista enfrenta para conseguir a informação ou fazer reportagens. Bem, isso no tempo em que o profissional saía em campo para fazer o trabalho que hoje se faz quase sempre por telefone. E até por e-mail.
Quando os ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS se reúnem, há sempre uma infinidade de histórias contadas e recontadas, que podem até enjoar os mais jovens, porém, sempre trazem boas lembranças aos envolvidos, direta ou indiretamente. Selecionei apenas algumas que mostram o espírito da equipe do famoso periódico.

FLAVIO RIBAS é mais conhecido por GAZETINHA, apelido que recebeu porque era correspondente em Santos da Gazeta Mercantil (1920-2009). Formado em Direito, foi para o jornalismo a convite de amigos e se tornou um daqueles profissionais que cavam notícia e cultivam fontes. Foi também chefe de reportagem, período em que às 18 horas, quando as máquinas de escrever estavam a mil por hora e uma nuvem de fumaça pairava sobre a redação, costumava tirar o relógio da parede e passar entre as mesas “incentivando” a moçada: “olha a hora, olha a hora”.  ,

ZEZÉ GONÇALVES – profissional de primeira linha, querida e respeitada entre os colegas. A grande paixão: Chico Buarque. Podia reclamar, mas nunca deixou de cumprir as missões que lhe eram atribuídas. O melhor exemplo de profissional que vai além dos limites: recebeu a pauta para cobrir um campeonato de xadrez e o fato de desconhecer o jogo não a intimidou, só a incentivou. O resultado foi tão satisfatório, que ganhou uma coluna de xadrez que se tornou popular. Os enxadristas a adoravam e a convidaram para participar de um campeonato. Declinou do convite com garbo sem que nenhum deles desconfiasse que ela não jogava. Esse é o verdadeiro espírito do jornalismo – escrever bem sobre tudo, mesmo que não domine a matéria.


JOSÉ ALBERTO PEREIRA SHEIK cobriu sindicato, porto e comércio exterior. Foi convidado pelo comandante Waldir da Costa Freitas para ir ao Polo Sul com a equipe do navio oceanográfico Professor Besnard do Instituto Oceanográfico da USP. O editor aprovou a viagem na companhia do fotógrafo Itamar Miranda. Tudo pronto, quando na véspera o editor deixou o cargo e o substituto cancelou a expedição, apesar de todas as argumentações apresentadas não apenas pela dupla. Resultado: motim a bordo do CIDADE DE SANTOS. Inconformados, os dois embarcaram para a Antártica. Foram demitidos. Aliás, a demissão se deu via rádio, em pleno Atlântico Sul, quando Pereira foi passar a primeira matéria. Na hora, decepção e tristeza; mas, cá entre nós, quantos jornalistas têm no currículo uma demissão via rádio em pleno Atlântico?

HILDA PRADO ARAÚJO  Plantão de sábado à noite (talvez 1975). Fui à assembleia do Sindicato de Trabalhadores em Pedreiras cuja sede era em um sobrado da Avenida São Francisco, perto da Rua D. Pedro II. Quando o comércio fechava, a prostituição corria solta em toda a região. O carro do jornal me deixou no local e subi até o auditório repleto de trabalhadores. Enquanto buscava um lugar para me acomodar, ouço o secretário gritar lá da mesa: “Dona, queira se retirar. Isso aqui é uma casa de respeito. Saia já.” Todos se viraram para ver quem era a ousada “trabalhadora da noite” que invadira a reunião. Nem me abalei; identifiquei-me, observei o constrangimento da diretoria e sentei antes mesmo de ouvir o pedido de desculpas, renovado mais tarde quando conversávamos sobre as decisões da assembleia. Foi inusitado e bem engraçado. 

HILDA, AGORA VAI! – Não lembro em que ano aconteceu – talvez 1976. O jornal preparava uma edição especial de Carnaval e lá fui eu entrevistar a diretoria do Bloco Agora Vai – que saía no sábado anterior à festança nacional. Marquei entrevista com o presidente em uma noite de ensaio para conversar com os foliões – era um bloco masculino. Eles se reuniam em um sobrado da Rua Senador Feijó, na Vila Matias. O segurança não me deixou entrar. Expliquei que tinha entrevista com o diretor, mas ele não se impressionou com o fato. O cronista social (Emanuel Leon) que estava no carro veio ver o que acontecia e se dispôs a subir para falar com o diretor sem que o segurança se opusesse. Quando voltou, disse que eu estava autorizada a entrar. As escadas terminavam no canto do salão imenso onde os foliões me recepcionaram com uma vaia fantástica. Parei surpresa e chocada porque não via nenhum motivo para aquela falta de educação. Uma porta se abriu e o diretor pediu silêncio; explicou que eu era jornalista e estava lá para escrever sobre o bloco. Depois de se desculpar, informou-me que mulheres eram proibidas nos ensaios. O AGORA VAI!  se tornara um bloco gay.

CACHORRADA  Recebi a pauta para uma matéria sobre a apresentação da Banda dos Fuzileiros Navais em algum lugar da cidade. O problema é que o jornal do dia já trazia uma reportagem completa sobre a banda: entrevista com o maestro, músicos; tratou do repertório e do roteiro de apresentações.  A mim coube ir ao local, certificar-me que o espetáculo acontecera, fora um sucesso ou não e que ninguém morrera no decorrer do evento. Para isso poderiam ter escalado um foca – pensei com meus botões. Cheguei, vi e ouvi. Um ótimo espetáculo, um sucesso enorme, mas pouca coisa para escrever que já não estivesse na edição do dia. Até que percebi um membro estranho entre os militares, bem comportado e tratado com muito respeito, digamos, até com carinho. Fui lá tomar satisfações com o comandante sobre aquela presença inusitada. Tratava-se do PASEP, o cachorro de estimação da Banda que aparecera um dia no quartel (Ilha das Cobras) e fora adotado imediatamente, com direito ao rancho e lugar garantido nas viagens. Só não tinha direito a soldo. Assim, PASEP salvou meu dia e fiz uma matéria que escapou da mesmice; entretanto, um amigo ex-fuzileiro não me perdoa até hoje; mas a vida é sempre assim, um dia é da banda e outro, do cão. É bom que se diga que a Banda dos Fuzileiros Navais é excelente; em 2009, apresentou-se em Paris nas comemorações doo Ano França-Brasil e em 2011, no Festival de Edimburgo, Escócia.

ESTRANHO VÍCIO Diagramadora, ela até hoje não suporta a história ouvir falar da história. A página de Variedades já estava fechada (pronta) quando o editor chegou com uma matéria com foto. “Tinha que entrar” porque era sobre uma homenagem ao jornal e o prêmio fora entregue a ele. Corre-corre para refazer tudo, substituindo a matéria com foto de um filme que ia estrear naquela semana, enquanto o motorista aguardava para levar o material para São Paulo. No dia seguinte, o resultado até poderia ter agradado, caso ela não tivesse se esquecido de trocar a legenda e, assim, sob a foto do garboso editor segurando o troféu lia-se: O estranho vício da Sra. Wardt (1971) – referente à foto do filme. Suspensão para a amiga. 

ADALBERTO MARQUES, repórter fotográfico, chegou entusiasmado à redação porque descobrira que índios do Litoral Norte de São Paulo realizavam uma festa tradicional em segredo (quase). Em português claro: festa pagã. Durante dias ele tentou convencer o editor a cobrir o evento. João Sampaio não gostava de dizer não e saiu pela tangente: se achar um repórter disposto a passar o réveillon no mato... Foi assim que Adalberto, eu e João Gonçalves (motorista) deixamos Santos na véspera de Ano Novo em direção à Ubatuba para a tal festa. Nem precisa dizer que ninguém na região sabia do que se tratava. Afinal, ela era secreta. Não voltamos de mãos vazias. Outra matéria com uma resistente comunidade indígena justificou nossa viagem.

ANTONIO AGGIO JR. – “Uma das visitas ao CIDADE, que mais emocionaram Lenine, Freddi e a mim foi a de Edgard Frederico Leuenroth (1881-1968) em 1968. Figura mítica, autor da primeira greve operária registrada no Brasil nos idos de 1917 e fundador dos únicos jornais anarquistas que aqui já existiram, nós o considerávamos a expressão máxima do libertário nestas plagas. Aos nossos olhos, ele, sim, era o paradigma do idealismo, pois não lutava para substituir uma ditadura por outra mais feroz e sanguinária. Mesmo enfermo, viajou de São Paulo a Santos para dar um abraço que nos levou às lágrimas. Deve ter sido de despedida, pois Leuenroth não demorou a falecer.” (Depoimento ao ERRE em 2012)




Portas fechadas. O Arquivo do jornal, onde o público podia ler os jornais da semana.  (Foto: mais de 2017.)

PAUTEIROS E PAUTAS

 Repórter vive de pautas de pautas que ele recebe, cria ou que outros sugerem, inclusive o público (leitor, ouvinte e telespectador). Evidentemente, grandes matérias podem simplesmente cair no colo dele.
Assim, o dia do repórter pode ser bom ou mau de acordo com a pauta. Quando comecei no jornal CIDADE DE SANTOS (1967), eu era brindada quase todos os dias com pautas sobre casas de benemerência. Mas logo passei a repórter especial, com missões mais importantes, inclusive uma coluna sobre os bairros da cidade que dava grande visibilidade ao jornal. Subi morros, frequentei favelas, ouvi queixas e reivindicações de todos os tipos da população desafortunada. Recebi pautas de todos os tipos. Entrevistei políticos, artistas, atletas, intelectuais e, principalmente, gente anônima que me deu muito mais prazer do que “celebridades”.
Havia aquelas pautas fatídicas que saltavam da gaveta quando o calendário marcava 1º de Janeiro, Dia das Mães, Finados e Natal.  (O primeiro bebê do ano, a mãe do ano, limpeza dos cemitérios e os velhinhos dos asilos.)
Minha primeira cobertura de enchente foi no Vale do Ribeira, onde a chuva intensa provocara deslizamentos e o fechamento da “rodovia da banana”. Estávamos eu e Mário Taddei, o repórter fotográfico, em uma F-100 que não conseguia chegar ao local em que os motoristas se encontravam atolados. Foi a primeira e única vez em que hesitei, mas só até ouvir Mário resmungar que o jeito era ir andando. Então tirei as sandálias e, com nojo, mergulhei os pés na lama. Depois disso cobri inúmeras enchentes na Zona Noroeste de Santos e em Cubatão – com água na cintura em plena Avenida Nove de Abril ou na Vila Parisi, à margem da rodovia Piaçaguera – Guarujá, acompanhando bombeiros ou o pessoal da Defesa Civil. Ercília Feitosa, grande repórter e amiga, foi parceira dessas matérias aquáticas. O que me aborrecia mais era ouvir as declarações de autoridades sobre a situação que se repetia sempre. Algumas vezes, no final do dia, os socorristas ofereciam um copinho de cachaça para espantar o frio e esquecer as roupas encharcadas. (Acho que foi um bom remédio porque nunca tive sequelas por causa daquelas águas contaminadas.)

ZOOLÓGICO – Os animais tiveram um papel interessante na história do jornal, que era a menina dos olhos de Carlos Caldeira Filho. Caldeira tinha outra paixão: cães pastores alemães. Muitas vezes as chefias tinham que atender requisições de veículo da empresa para levar os pastores para algum concurso canino. As notícias que esperassem. E, claro, um repórter era destacado para cobrir o evento. O diretor do jornal adorava curiós e, pasmem, coberturas especiais para os concursos de cantoria das aves. 
No arquivo, Eduardo Leite e companhia viviam às voltas com pombos que arrulhavam e faziam ninhos junto à janela, o que obrigava a manter os vidros fechados. Na redação a situação era diferente. Havia uma população clandestina que se movimentava à noite, quando as luzes se apagavam, deixando vestígios de sua passagem quando novo dia clareava. Eram os ratos, figuras típicas de casarões antigos. Certo dia (contam-me), um líder sindical da região, conhecido pela falta de caráter, foi ao jornal e, no momento em que ele entrava, um roedor (ignorando as regras sobre tráfego diurno) atravessou o salão calmamente. O repórter gaiato não deixou por menos e foi avisando “Rato na redação!”. A bem da verdade eram dois.  

Enfim, vivemos grandes emoções, como disse uma vez um compositor que não muda de penteado há 50 anos.  
GALERIA 

Francisco Rubio PACO, Flávio Ribas, Laudo Natel, Ricardo Schiavetto,
 José Escandon e Blandy.
Carnaval (s/d)- "camarote" da imprensa santista.

Prefeito Oswaldo Justo se exibindo para o nosso editor.





Momento de grandes decisões. 

Confraternização na praia do Gonzaga.