sábado, 30 de junho de 2018

MEMÓRIAS DO JORNAL CIDADE DE SANTOS


MEMÓRIAS DO JORNAL CIDADE DE SANTOS

“O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente”, já dizia Mário Quintana. O tempo presente oferece sempre novas descobertas que aproveitamos bem ou mal conforme construímos nossas vidas ou fazemos nossas escolhas. Assim, escrever sobre o Jornal CIDADE DE SANTOS, que circulou pela primeira vez em 1º de julho de 1967, não é saudosismo. Folhear a coleção do jornal que fechou há 31 anos permite uma avaliação das mudanças que ocorreram nessas décadas e nos lembremos dos amigos que fizemos entre uma reportagem e outra, ao som do batuque das pretinhas, aspirando toneladas de fumaça de cigarro, charuto ou cachimbo, bebericando litros de café requentado, enquanto os telefones enlouquecidos contribuíam para a poluição sonora. Às chefias cabia se torturar com o fechamento da edição e cobrar as matérias dos repórteres – era o balanço das horas no início da noite.

Sem dúvida as mudanças no ambiente de trabalho foram para melhor. As máquinas de escrever desapareceram, substituídas pelos computadores silenciosos, rápidos, dotados de corretores de texto (que às vezes também fazem barbaridades); as laudas sumiram junto com o papel carbono. Latas de lixo cheias de laudas amassadas, denunciadoras da ânsia por um texto mais bem acabado, são coisa do passado. Imprime-se apenas o texto final, redondinho, se tanto... Ao silêncio das máquinas de escrever, some-se o fim das baforadas furiosas entre um parágrafo e outro. As novas gerações aspiram ar puro. Será? Fumar tornou-se um estigma. Creio que restou o cafezinho. Talvez descafeinado Quem sabe?

Há muitas especulações sobre o motivo que levou a Empresa Folha da Manhã (proprietária de Notícias Populares, Folha da Tarde e Folha de S. Paulo) fechar o jornal santista. Duas, entretanto, se destacam e se complementam: o projeto de fortalecer o principal título do grupo e o envolvimento de Carlos Caldeira Filho com política ao se tornar prefeito nomeado de Santos (1979-1980) por nove meses e alguns dias. O fato criou uma situação difícil para jornalistas tinham o patrão ocupando o Executivo.

Em 1979, o governador Paulo Maluf exonerou o prefeito Antonio Manoel de Carvalho antes de ter o nome do substituto aprovado pelo presidente João Batista Figueiredo (1918-1999). O deputado federal Athié Jorge Coury mostrava-se perplexo com a situação da cidade sem prefeito, como informou o jornal na ocasião. Carlos Caldeira Filho (Carlos Augusto Navarro de Andrade Caldeira Filho) foi o quinto e penúltimo prefeito nomeado de Santos no período da ditadura militar.

E o que vejo ao repassar páginas amareladas e ressecadas pelo tempo? O jornalismo mudou muito nas últimas décadas e não ousaria dizer que foi para melhor. Selecionei algumas notícias de 1986.



Quando se tratava do Santos F. C., o jornal não escondia seu favoritismo, embora não se eximisse de críticas, quando necessárias. Carlos Caldeira Filho era um ardente torcedor do “leão do mar”. Caldeira tornou-se sócio do clube em novembro em 23 de novembro de 1928, com a matrícula nº 1074 e adquiriu cadeira cativa (101ª) em 1948 e em 1969 tornou-se sócio benemérito. Cunhou a frase (nada original): “Eu passo, o Santos continua”. 




O vereador santista Gilberto Tayfour (1941-1996), por exemplo, foi ridicularizado quando teve a ideia de incluir cemitérios em roteiro turístico da cidade de Santos. Não entenderam que um cemitério pode ser um museu a céu aberto com obras tumulares belas, mas principalmente o lugar que reúne a historia da cidade por meio dos personagens importantes e interessantes que viveram em épocas diferentes. O Cemitério do Paquetá, com 26 mil metros quadrados, é o mais antigo da cidade: data de 1854. Lá se encontram os despojos do escritor Júlio Ribeiro, dos poetas Martins Fontes e Vicente de Carvalho, e do ex-governador do Estado de São Paulo Mário Covas entre muitos outros nomes de interesse. Em São Paulo, o Cemitério da Consolação há muitos anos tem visitas guiadas. Em Paris o cemitério Père Lachaise, fundado em 1804, tem filas na entrada e os visitantes disputam folhetos com roteiro dos túmulos de interesse.




Vicente Saldanha da Cunha (1933-2006) tinha um sonho: ser radialista. A vida, entretanto, não é justa e Vicente se contentou com uma lata de velha para entrevistar muita gente importante que desconhecia o personagem e falava bonito para os senhores ouvintes inexistentes. Era conhecido como Zé Macaco e, por obra de um gaiato que lançou a candidatura dele à Câmara Municipal, tornou-se o vereador mais votado daquela legislatura. Anos depois os funcionários do gabinete do Prefeito Oswaldo Justo se cotizaram para doar um carro de som novo (nome chique para um triciclo) para Zé Macaco fazer seu trabalho: propaganda de casas comerciais do Centro Histórico, seu reduto.

Athié Jorge Coury (1904-1992) foi jogador Santos Futebol Clube, soldado constitucionalista em 1932, um Romeu inveterado sempre, dirigente do Santos Football Club, político, e emérito loroteiro. A vaidade do cavalheiro em questão e a inexperiência do repórter acabaram causando um reboliço na redação no dia em que foi publicada a minibiografia dele na coluna A PESSOA, um espaço dominical em que figuras de destaque da Baixada Santista contavam um pouco da vida e das realizações. O editor fez as contas e constatou que Athié ainda seria criança quando defendeu o primeiro gol no clube santista. O repórter que o entrevistara conferiu as anotações, constatando que o ilustre deputado e ex-goleiro do Santos mentira descaradamente sobre a data de nascimento.


E por falar em Athié Jorge Coury vem à lembrança o fechamento do Salão Crystal, que funcionou por 72 anos no mesmo endereço da Rua do Comércio, 10. Era lá que Athié e todo o pessoal da velha-guarda – políticos como ele, corretores de café, tabeliães e profissionais liberais – da cidade ia cuidar da aparência – ou seja, além de fazer as unhas, tingiam cabelo, bigode e sobrancelhas. O estabelecimento de Antônio Lopes Pia havia sido fundado em 1914 e sempre manteve uma distinta clientela, atendida em ambiente elegante, decorado com móveis de madeira maciça e espelhos de cristal. Pia morreu em 1984 e os herdeiros venderam o imóvel com o mobiliário em 1986.
“Athié: Diga ao povo que eu fico”. Outra manchete bem-humorada envolveu o velho Athié Jorge Coury, presidente do Santos, que simulou a renúncia do cargo para camuflar a saída “sem glória” de um dirigente. (novembro de 1968)


  
A edição de 22 de maio de 1986 saiu com manchete divertida. Pelo menos para o leitor. Os protagonistas da notícia devem ter se arrependido amargamente da história que divulgaram. “Invasão de São Paulo por discos voadores mobiliza Força Aérea”. Na página interna, a reportagem conta como os pilotos da FAB perseguiram 21 objetos voadores não identificados e até Osíris Silva (1931), então presidente da Petrobrás, se manifestou dizendo que vira “algumas luzes”. 

No dia 24, dois pilotos participaram de uma coletiva e em vez de OVNIS falaram em “pontos luminosos persistentes, luzes intensas que se deslocavam, rapidamente, eco-radares ou sinais luminosos não identificados”. Na foto, observa-se a situação constrangedora em que os oficiais se envolveram. E para a Aeronáutica, caso encerrado. (Ufa!)





No dia 25 de maio, o jornal publicou uma entrevista de página inteira com o Sr. Paulo Maluf, candidato ao governo do Estado de São Paulo, que “promete obras e a moralização do governo”. UAU! 






sexta-feira, 29 de junho de 2018

HERANÇA PORTUGUESA




Festa portuguesa sem comida não existe. E os festejos juninos que se encerram hoje são uma herança portuguesa com certeza. Junho, mês dedicado aos santos do povo: Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). As festas são ecos das antigas comemorações pagãs do solstício de verão no hemisfério Norte. No ambiente urbano dos tempos atuais, as comemorações foram transferidas do arraial para as escolas e igrejas e entidades afins. Sem balão nem fogueira, as mesas enchem-se com milho verde, caldo verde, sardinha na brasa, batata doce, pipoca, pé de moleque, canjica, bolo de fubá, maçãs do amor e outras guloseimas que o patrocinador da festança ache bom incluir.
Como dizem os portugueses “sardinha de são João já pinga no pão”. Não escapa nem o carneiro do santo: “O são João do convento/ tem aos pés um carneirinho;/ Vamos comê-lo assado,/ que S. João paga o vinho”. Enquanto a criançada fica com os sucos, os adultos se empapuçam de quentão ou vinho quente. Naturalmente, a música é componente importante e sanfoneiros e violeiros fazem parte do cenário tradicional, mas nos dias de hoje na falta dos artistas, um aparelho de som resolve o problema.
Lamartine Babo (1904-1963) é o autor da marchinha que reúne os três santos e que Carmem Miranda (1909-1955) e Mário Reis (1907-1981) gravaram em 1934.

ISTO É LÁ COM SANTO ANTÔNIO

Eu pedi numa oração
Ao querido são João
Que me desse um matrimônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com santo Antônio!

Implorei a são João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado

São João não me atendendo
A são Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Disse o velho, num sorriso:
- minha gente, eu sou chaveiro!
Nunca fui casamenteiro!

São João não me atendendo
A são Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com santo Antônio

Balões são bonitos, mas fazem parte do passado. 
Soltar balões é crime. Eles são também um sério risco para a aviação.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

GOSTEI MUITO, EMBORA SEJA OUTRA PESSOA.

Rua da Consolação. Depois de uma visita à Chácara Lane, que frequentei bastante, desci até o farol e, enquanto esperava o verde, eis o que encontrei! Amei, embora seja outra Hilda,naturalmente. Provavelmente, Hilda Hist (1930-2004), já que Hilda Maia Valentim (1930-2014) dedicava-se a outras escritas que a fizeram famosa como Hilda Furacão.


segunda-feira, 25 de junho de 2018

INVERNO FLORIDO
Praça da Liberdade


Não gosto de fotografar pessoas, mas quando saí da estação do metrô, os dois jovens conversavam sob esse buquê natural e deixei para fotografar a árvore na volta; entretanto, meia hora depois eles continuavam no mesmo lugar, talvez indiferentes ao belo cenário. Assim, resolvi incluí-los sem identificá-los. 

domingo, 24 de junho de 2018

SONHO DE PAPEL
Carlos Braga e Alberto Ribeiro

E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!
E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!

Sonho de papel a girar na imensidão
Soltei em seu louvor, um sonho multicor
Oh, meu São João!

Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou
Não vai mais voltar!
  
Festa de São João, óleo sobre tela de Heitor dos Prazeres (1898-1966).


Balões são bonitos, mas fazem parte do passado. Soltar balões é crime. Eles são também um sério risco para a aviação.

Lei de Crimes Ambientais
Lei nº 9.605/1998
Art. 42. Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano:
Pena - detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente.


sábado, 23 de junho de 2018

Quando Está Frio no Tempo do Frio

QUANDO ESTÁ FRIO no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, 
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é o agradável só por ser natural. 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, 
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno — 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, 
E encontra uma alegria no fato de aceitar — 
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece 
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida? 
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço, 
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime, 
Da mesma inevitável exterioridade a mim, 
Que o calor da terra no alto do Verão 
E o frio da terra no cimo do Inverno. 

Aceito por personalidade. 
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, 
Mas nunca ao erro de querer compreender demais, 
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência, 
Nunca ao defeito de exigir do Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos", heterônimo de Fernando Pessoa. 


"Le Boulevard de Clichy, par un temps de neige" (1876). de Norbert Goeneutte (1854-1894).

sexta-feira, 22 de junho de 2018

MATARAZZO, ANDRAUS E SCHAUMANN.

Na Avenida Paulista.
O segundo morador da Avenida Paulista foi Francesco Antônio Maria Matarazzo (1854-1937), imigrante italiano que se tornou o homem mais rico do Brasil, graças ao seu talento empreendedor. Manteve-se nesse patamar por várias décadas. Francisco Matarazzo comprou em 1896 o lote 83 na esquina com a Rua Pamplona, contratou o engenheiro Giulio Saltini e o mestre de obras Luigi Mancini, ambos italianos, para fazer o projeto da casa. Com o passar dos anos ele foi adquirindo lotes vizinhos para ampliar a propriedade. Quando Francesco, mais conhecido como Francisco Matarazzo morreu, assumiu o comando da família Francisco Matarazzo Jr. (1900-1977), que comandou a grande reforma da casa. 
Depois de avaliar vários trabalhos apresentados, Francisco Matarazzo Jr. (Chiquinho Matarazzo) aprovou o projeto do arquiteto italiano Tomaso Buzzi (1900-1981), que ele conheceu durante uma visita de Buzzi ao Brasil. A reforma se processou durante o período da II Guerra e a comunicação entre ambos ocorreu por cartas. Assim, em 1940 em pleno conflito mundial o novo palacete em estilo neoclássico ficou pronto: tinha 4.400 metros quadrados de área construída em terreno de doze mil metros quadrados. Eram dezenove quartos, dezessete salas, uma biblioteca – em que se destacavam livros raros –, refeitórios e três adegas (Evoé Baco!). Havia ainda piscina e adega. O acabamento e a pintura combinavam com o mármore travertino, que revestia alguns cômodos da mansão – parte dele, sobras do edifício Matarazzo do Anhangabaú. O mobiliário incluía móveis venezianos, mesas chinesas e todas as preciosidades que o dinheiro dos Matarazzo podia comprar.
        Em 1917 Francesco recebeu do rei Vitor Emanuel III o título de conde como agradecimento pela ajuda financeira à Itália durante a I Guerra (1914-1918). Chiquinho Matarazzo herdou o título. Assim, nada mais natural que a família tivesse um brasão. E a mansão da Avenida Paulista ostentava no pórtico de entrada o brasão esculpido em mármore de Carrara. Pesava 150 kg.
        Com as grandes transformações econômicas e sociais, a família deixou o palacete e o destino da propriedade gerou muita discussão na cidade, o que não impediu a demolição da Vila Matarazzo em 1996. Uma polêmica que, na verdade, se repetia: na década anterior a “Casa Mourisca” já fora demolida.
O campineiro Henrique Schaumann (1856-1922) formou-se em Farmácia na Alemanha, país de origem de sua família, fundadora da famosa Botica “Ao Veado d’Ouro” (Rua São Bento) que ele ao retornar assumiu e anos depois vendeu, dedicando-se especialmente à política. Em 1906 Henrique Schaumann foi morar perto do cunhado Von Büllow à Avenida Paulista, esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. O projeto era dos engenheiros Augusto Fried e Carlos Ekman. Em 1934, o empresário Abraão Andraus, imigrante libanês e um dos sócios da Casa Três Irmãos, na Rua Direita, perto do Largo da Misericórdia, comprou o imóvel, contratou o construtor José Câmara para realizar o projeto de uma grande reforma que o transformou na famosa “Casa Mourisca”. O Oriente estava em todos os lugares do palacete: salas, quartos e banheiros. Uma visão europeizada do Oriente.
José Câmara já havia feito a reforma da casa 63a da Paulista, entre 1933 e 1934, introduzindo a moda do orientalismo na avenida. O cliente era o irmão de Abraão e sócio da Casa Três Irmãos: Amin Andraus. Amin foi mais comedido. O casarão tinha como destaque no interior um fumoir com pinturas ornamentais orientais e o mobiliário com incrustações de madrepérola, proveniente de Beirute, como narra Renato Brancaglionere Cristofi em sua dissertação de mestrado*, apresentada na FAU/USP em 2016.
Cristofi reuniu em seu trabalho várias fotos do interior da residência de Amin Andraus: “Nessas fotografias (...) percebemos como era novamente diversificado o conjunto de resultados criativos do que seria um palacete mourisco, concebido nessa tênue fronteira entre os elementos e sentidos da representação do Oriente e as expectativas  do viver à francesa’”. A “Casa Mourisca” encantava a todos, mas em 1982 os proprietários (família Lotaif) não se comoveram com a repercussão negativa da decisão de demolir a mansão antes que ela fosse tombada pelo patrimônio histórico como um marco da arquitetura paulistana. Na calada de uma noite de julho de 1982, foi posta abaixo.

* “O orientalismo arquitetônico em São Paulo – (1895-1937)”, disponível para leitura na Internet.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PIONEIRISMO PORTUGUÊS
Há 96 anos os militares portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959) e Artur Sacadura Freire Cabral (1881-1924) concluíam com sucesso a primeira travessia aérea do Atlântico Sul ao amerissarem no Rio de Janeiro, procedentes de Lisboa, tornando-se heróis nos dois países. A viagem, que fazia parte das comemorações do centenário da independência do Brasil, não foi exatamente tranquila. A grande aventura começou, no dia 30 de março de 1922, às 7 horas da manhã, em Lisboa, onde eles embarcaram no “Lusitânia”, um hidroavião monomotor Fairey F III-D MKll, equipado com um motor Rolls-Royce. Sacadura Cabral pilotava enquanto Gago Coutinho se encarregava da navegação, com auxílio de um aparelho que ele inventara e denominara horizonte artificial. O invento revolucionou a navegação aérea que estava apenas no início.
Os aviadores e seu voo pioneiro. 
A dupla chegou no mesmo dia a Las Palmas (Ilhas Canárias); no dia 5 de abril partiu para a Ilha de São Vicente (Arquipélago de Cabo Verde), onde os dois ficaram para manutenção do hidroavião; os aviadores partiram para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, já em águas brasileiras, onde chegaram no dia 18. O hidroavião sofreu danos durante a amerissagem e Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram recolhidos por um cruzador português que os levou até Fernando de Noronha. A marinha portuguesa enviou o “Pátria”, outro hidroavião Fairey para conclusão da viagem, entretanto, quando voltavam ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo no dia 11 de maio para reiniciar o voo a partir do trecho interrompido, houve uma pane no motor que os obrigou a amerissar. Os dois ficaram 9 horas no mar até serem resgatados por um cargueiro inglês e levados novamente para Fernando de Noronha. Novo hidroavião foi enviado para o arquipélago. Desta vez, o “Santa Cruz”, que funcionou adequadamente, permitindo que os portugueses chegassem em segurança a Recife e, após escalas em Salvador, Porto Seguro, Vitória e, finalmente, chegaram Rio de Janeiro no dia 17 de junho, amerissando na Guanabara.
        Gago Coutinho e Sacadura Cabral percorreram 8.383 quilômetros em sessenta e duas horas e vinte e seis minutos na travessia, descontado o tempo com os imprevistos. O povo brasileiro homenageou os dois com muitas festas, que continuaram em Portugal, quando os aviadores retornaram. Eles estiveram em Santos e, na Praça Rui Barbosa, participaram do lançamento da pedra fundamental do monumento, em homenagem a outro pioneiro, o padre santista Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), inventor da passarola e responsável por diversas experiências com balões.  

quarta-feira, 13 de junho de 2018


SANTOS, CAPITAL DE SÃO PAULO.

Não errei. Uma vez por ano, exatamente, dia 13 de junho, Santos é a capital simbólica do Estado de São Paulo. Trata-se de uma homenagem ao Patriarca da Independência, o santista José Bonifácio de Andrade e Silva, nascido no dia 13 de junho de 1763. A homenagem foi instituída por pelo decreto nº 50.872, de 12 de junho de 2006, assinado pelo governador Cláudio Lembo.
Praça do Patriarca, Centro, São Paulo, 2009.
José Bonifácio foi o mentor da independência do Brasil, proclamada pelo príncipe D. Pedro em 1822: “é a figura central numa formulação que o Brasil teria de si mesmo como nação” (historiador Jorge Caldeira). Além de estadista, ele foi um renomado cientista (mineralogista) e pesquisador; ele demonstrou já no século XIX preocupações com o meio ambiente.
O santista é considerado fundador da Marinha do Brasil, que atribuiu o nome dele a três embarcações: Iate José Bonifácio (incorporado em 1915 e em ação até 1923); Cruzador José Bonifácio ou Cruzador Andrada (1894-1923) e Navio Hidrográfico/Auxiliar José Bonifácio, em operação de 1923 a 1963. Os restos mortais do Patriarca da Independência, que morreu em 1838, encontram-se no Panteão dos Andradas, em Santos (Praça Barão do Rio Branco, 16), junto com os irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco.




terça-feira, 12 de junho de 2018

DIA DOS NAMORADOS?

Com um pouco de humor.

“O amor é um não sei o quê, que vem de não sei onde e que acaba não sei como.” Mademoiselle (Madeleine) de Scudéry (1607-1701), escritora francesa.

 “Ama o teu próximo. Se ele for alto, moreno, bonitão, será mais fácil.” Atriz norte-americana Mae West (1893-1980).

“O amor é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.” Barão de Itararé, pseudônimo de Apparicio Torelly (1895-1971).

“Eu te amarei para sempre – eu disse. Ela se virou para a parede e disse aoenas: Basta me amar todos os dias.” Escritor francês (nascido em Marrocos) Daniel Pennac (1943).

“Para ser amado seja amável.” Poeta romano Ovídio (43 a.C.-17/18 d.C.)

“Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? Amar. O amor é a verdadeira sacanagem.” Maestro Tom Jobim (192701994).


Terminando com a música de Dolores Duran (1930-1959) e Carlos Lyra (1939): “O negócio é amar”, na interpretação de Leny Andrade )1943). 

segunda-feira, 11 de junho de 2018


O AMOR ACABA
“O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão (...)” Paulo Mendes Campos, anos 1960.   


Vincent van Gogh:Agostina Segatori em Le Tambourin, 1887-1888.