sexta-feira, 8 de maio de 2026

RUA DOS FRANCESES

 

Como chegar à Bela Vista, o popular Bexiga/Bixiga? O mais rápido exige boas pernas: a escadaria da Rua Treze de Maio que termina ao lado do Teatro Ruth Escobar (Rua dos Ingleses). Eu fui de metrô até a estação Brigadeiro, caminhei duas quadras da Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao Centro e já estava na Rua dos Ingleses. Detalhe: ela termina ali e vai descendo o morro. No início, fica a Igreja Presbiteriana da Bela Vista e virando à esquerda chega-se à Rua dos Franceses. A História mostra que ingleses e franceses não se amam muito, mas têm laços fortes, portanto, não é de estranhar que se encontrem mais uma vez. E no reduto dos italianos! E, imaginem só, entre franceses e ingleses está entalada a Rua dos Alemães, velho oponente de tempos antigos.

Desta vez comecei pelo princípio, por sinal, numa encruzilhada formada pelas ruas Conselheiro Carrão, Dr. Luís Barreto, Franceses e Ingleses. Quantas casas bonitas na rua dos Franceses! Estilos diferentes, coloridas e com um jeito aconchegante. Ali quase tudo remete à França. Como o simpático prédio de apartamentos Petit Paris e a Pousada dos Franceses. O que não combina é o edifício L’Hermitage – que significa lugar em que vivem eremitas e é o nome do Museu de São Petersburgo, na Rússia.

O ponto alto das homenagens aos franceses fica quase no final da rua: o Condomínio Praça dos Franceses (claro), construído entre 1973 e 1985 e constituído de sete prédios: Diderot (filósofo e escritor), Flaubert (escritor), La Fayette (militar), La Fontaine (poeta e fabulista), Ravel (pianista e compositor), Renan (filósofo e historiador) e Verlaine (poeta). O terreno pertencente ao incorporador Otto Meinberg, que faliu, em meados de 1960, foi oferecido ao Banco Safra para quitar dívidas. Como a área de ribanceira na Rua Almirante Marques Leão não tinha grande valor, o consultor do banqueiro Joseph Safra sugeriu que ele adquirisse alguns terrenos na Rua dos Franceses, o que valorizaria o empreendimento. Assim, foi feito. O projeto foi desenvolvido pelo escritório de Jacob Lerner e seus sócios Ermanno Siffredi e Maria Bardelli – o casal que projetou as mais bonitas galerias do Centro Histórico. Em frente às sete torres foi construída uma praça desenhada pelo arquiteto Ugo di Pace, o arquiteto iluminador Livio Levi e Domenico Calabrone, o artista plástico autor da escultura gigante, que arremata o conjunto. A praça é privativa do condomínio.

Do lado par da rua vejo uma ruela em declive onde há algumas casas bonitas. Resolvo ir bisbilhotar e não me arrependo. Um lugar muito gracioso. Como a descida continua e faz uma curva, fico em dúvida se devo prosseguir e por sorte aparece um adolescente a quem pergunto se a rua tem saída. Ele é tímido, gagueja um pouco e me informa que a rua continua. Insisto se ela tem saída. Ele não entende e me indica a Rua dos Franceses se eu quero ir para a avenida Paulista. Conversa difícil. Ele não entende a pergunta, acha que estou perdida. Sim, já perdi o interesse na rua, que se chama Veloso Guerra. Resolvo demonstrar que sei muito bem onde estou: aponto a direção da Paulista – mostro as torres de comunicação – e aponto para o outro lado, dizendo que para lá fica o Centro. Ele fica surpreso – não sabia que o Centro era por ali. Agradeço a atenção e me despeço. Acho que ele era ele quem estava perdido; suspeito que ele trabalha por ali e nada sabe do lugar.

Satisfeita com o que vi, resolvo descer a Conselheiro Carrão para ver o lado mais popular do bairro – a Rua Almirante Marques Leão (continuação da Santo Antônio) e que se estende até a Alameda Ribeirão Preto. Na esquina tem uma feira. Pausa para hidratação. Uma escada leva à rua Dr. Leôncio Granato – que não tem encantos. Retorno. Vejo a torre de uma igreja sobressaindo dos telhados: Achiropita? Como é perto, vou até lá conhecer a igreja, que é bonitinha. Paro para um cafezinho na Padaria Camões – uma discrepância. Que faz o poeta lusitano nas plagas de Virgílio? O balconista comenta que me viu na porta da Igreja, faz elogios ao chapéu e comenta que devo ser uma senhora muito ativa. Fala pelos cotovelos!  Felizmente chega outro freguês. Lá fora tomo o rumo da Avenida Paulista. (Fotos: maio de 2026)






Condomínio Praça dos Franceses.

A escultura de Calabrone.


3 comentários:

Nilton Tuna disse...

Muito instrutivas suas visitas. Conheço bem a rua Marques Leão e sua ladeira ingrata. Lá fica a UBS aqui do bairro, aonde devo ir todos os anos para tomar vacinas. Confesso que desde o ano passado tive de pedir carona para cuidar da saúde. A bem da verdade, é preciso explicar que o caminho até a esquina com a Ribeirão Preto, onde começa a descida da Marques Leão, também é cheia de subidas e descidas. Cruel, mesmo, é (ou melhor, era) a volta. Agora, só de carro. Beijos.

Hilda Araújo disse...

Olá, Nilton. Essa UBS – passei por ela–, me lembra a que tem aqui no Cambuci, na Rua Lacerda Franco. É perto de casa, mas a subida da Rua Robertson é assustadora e as calçadas têm degraus. Felizmente, estou inscrita na UBS Santa Cruz, aonde posso ir de metrô e ônibus ou metrô Santos-Imigrantes a pé. Achei a subida para a avenida Paulista pela Rua dos Ingleses a mais íngreme.

Nilton Tuna disse...

O poder público acha que só pessoas jovens e saudáveis frequentam as UBSs........