sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

CAPELA DO MORUMBI

 


O primeiro fato: o bairro do Morumbi fica na Zona Oeste da cidade, Segundo fato: a Capela do Morumbi, atualmente um espaço para exposições de arte contemporânea, não foi capela.

O loteamento da área ainda rural ocorreu na década de 1940 pela Cia. Imobiliária Morumby, onde ainda se encontravam a sede da Fazenda Morumby, e ruínas não identificadas numa elevação do terreno, ambas em taipa de pilão. A fazenda foi adquirida por Rudge Ramos para o cultivo do chá no início do século XIX e teve vários proprietários. Rudge Ramos era inglês e em 1808 acompanhou a Família Real na viagem para o Brasil. 

            As ruínas se tornaram um quebra-cabeça para a companhia imobiliária, pois havia muitas interpretações sobre suas origens, que variavam de uma capela dedicada a São Sebastião dos Escravos até uma capela do cemitério particular da fazenda. Que tal valorizar a área? A empresa contratou o arquiteto modernista Gregori Warchavchik (1896 –1972) para fazer a reconstrução das ruínas de taipa de pilão e ele optou por usar os remanescentes da construção de taipa de para fazer uma capela, que completou com alvenaria de tijolos.  Warchavchik convidou a pintora Lúcia Suanê (1922-2020) para fazer um afresco nas paredes do que seria o batistério.   

            Em 1975, a Cia. Imobiliária Morumby transferiu para a Prefeitura de São Paulo os terrenos remanescentes do loteamento e a Capela do Morumby que, depois de passar por algumas obras, foi aberta à visitação em 1980. 

 


A cena do batismo de Cristo idealizada por Lúcia Suanê, artista pernambucana.



Capela do Morumbi - Avenida Morumbi, 5.537. Visitas de Terça-feira a domingo, das 9 às 17 horas. Não tem estacionamento. O acesso é por escadas.

Casa da Fazenda: Avenida Morumbi, 5594. Propriedade privada.

Linha 4 Amarela do Metro. Estação Butantã. Ônibus: Água Espraiada.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

CASA DO BANDEIRANTE

 


O loteamento do Butantã teve início na década de 1930, quando a paisagem começou a mudar e o rio Pinheiros a perder suas curvas. Em meio a essa voracidade urbanística, houve uma resistência: a “casa velha” do Butantã manteve-se. Construída em taipa de pilão no século dezessete próximo à bacia dos rios Tietê e Pinheiros, fez parte de uma grande propriedade denominada Uvatata – “terra dura” em Tupi, pertencente a Alfonso Sardinha, que a deixou de herança para os jesuítas. Com a expulsão dos padres do Brasil em 1759 por determinação do Marquês de Pombal, a área foi a leilão. Desde essa época teve vários proprietários até 1875, quando foi comprada por Eugênio Vieira de Medeiros que a vendeu em 1912 à Cia City que doou o imóvel ao município em 1944 ao fazer o loteamento do Butantã. A escritura só foi lavrada em 1950. A casa, entretanto, continuou abandonada. Em 1953 ela já estava em péssimas condições e ocupada por diversas famílias,

Digamos que ela foi salva por causa da aproximação do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Guilherme de Almeida, que assumiu a presidência da segunda fase da Comissão dos Festejos, ciente da importância da Casa Velha do Butantã, foi quem se empenhou na restauração do imóvel. Ele teve o apoio de Luís Saia (1911-1975), responsável pela Delegacia do Patrimônio Histórico e Nacional, e Paulo Florençano (1913-1988), que teve papel importante na definição do uso da casa, que foi aberta em outubro de 1955 como museu referente à época das bandeiras.

Em setenta anos a região mudou muito como se pode observar pelas fotos antigas. Casa do Butantã fica na Praça Monteiro Lobato, um lugar muito agradável, tão arborizada que mais parece um parque e nem sinto o calor do meio-dia. Ah! Logo encontro um espaço com alguns brinquedos. Há bancos onde um grupo de jovens conversa enquanto faz um lanche. O barulho do trânsito pesado da Marginal Pinheiros não impede que se ouçam os passarinhos. Um diferencial é o moinho...




Na casa há uma exposição sobre o trabalho do botânico e horticultor suíço Alfred Usteri (1869-1948), que após obter o doutorado imigrou para o Brasil em 1905. Em São Paulo foi professor de Botânica Geral e Descritiva do curso de Engenharia Agrícola da Escola Politécnica, onde estudou a flora dos arredores da cidade, identificando cerca de 800 espécies. Em 1911 publicou em alemão um livro descrevendo as formações vegetais da cidade e em 1919 fez um Guia Botânico do Jardim da Luz e da Praça da República. Retornou à Suíça em 1920. Graças à mostra soube do Parque Ecológico Campo de Cerrado Dr. Alfred Usteri, na Jaguaré, destinado à pesquisa e fechado ao público.  (16/12/2025)


FOTOS: Hilda Araújo.

Praça Monteiro Lobato, Butantã. 
Estação Butantã, Linha 4 Amarela do Metrô. Terminal de ônibus: linhas 8082, 8083/8084 e 8085. Ultimo ponto da Avenida Afrânio Peixoto (antes da Cidade Universitária - USP).  

FONTE: Guia da Casa do Bandeirante. Ensaio de recomposição do ambiente rural doméstico paulista de primórdios do século XVIII. Prefeitura do Município de São Paulo, Secretaria de Educação e Cultura (Coleção da Casa Guilherme de Almeida).

https://www.museudacidade.prefeitura.sp.gov.br/

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CASA BANDEIRISTA

 

Um cenário bucólico...

O Itaim tem origem rural como quase todos os bairros paulistanos. O nome é de origem Tupi e significa pedrinha. A ocupação da área ocorreu no século dezessete, mas a data é desconhecida; o loteamento, entretanto, começou nos anos de 1930. No processo de urbanização sobrou a casa seiscentista, encravada numa das áreas mais valorizadas da cidade, a Avenida Brigadeiro Faria Lima. Encontra-se abrigada à sombra do Edifício Pátio Victor Malzoni (projeto de Bottu Rubin Arquitetos), no meio de um jardim.

            Hora de almoço. Calor de 34 graus. Um movimento intenso de pessoas que se dirigem aos restaurantes e lanchonetes do entorno e passam indiferentes pela casa que faz parte do seu cotidiano. Observo a paisagem – o antigo e o moderno, o viver penoso dos primeiros paulistas e as facilidades dos dias que vivemos. A casa rústica e os majestosos prédios de vidro que dispõem de todo conforto... Na verdade, ela também é o resultado do esforço das equipes do DPH e o CONDEPHAAT, com acompanhamento do Ministério Público, para evitar seu desaparecimento. Tombada em 1982, ela foi praticamente reconstruída a partir das ruinas e com base em trabalhos de pesquisa para que se conseguisse o resultado almejado.

            Em 1896, o general José Vieira Couto de Magalhães, herói da Guerra do Paraguai e último presidente da Província de São Paulo, comprou o Sítio do Itaim que mais tarde vendeu para o irmão mais novo, Leopoldo ou Bibi, como era conhecido. Explicada, pois, a origem do Bibi no nome do bairro. Arnaldo Couto de Magalhães, filho de Bibi, foi quem fez o loteamento da propriedade dando origem ao Itaim Bibi. A Casa Bandeirista foi sede do sítio e tombada em 1982.

    Em 2008, a incorporadora Company / Brookfield assumiu a propriedade da casa, situada no meio do terreno de 19.366,00 m² e modificou o projeto original do centro comercial, criando o vão central de 44m e 30m de altura, que possibilita a visão livre da casa de taipa a partir da Avenida Faria Lima. 

Endereço: Avenida Faria Lima, 3.477. 



A Casa e o vão do edifício Malzoni.

A capela: parede de taipa do altar.

     Para conhecer detalhes do restauro da Casa do Itaim ver:
 https://revistarestauro.com.br/resgatar-das-ruinas-a-casa-bandeirista-do-itaim-bibi/ 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

CASA DO SERTANISTA

O distrito do Butantã tem cerca de dezesseis bairros e um deles é o Caxingui onde se encontra a Casa do Sertanista Casa do Sertanista em meio a uma ampla praça arborizada. A construção do século XVII em taipa de pilão, telhado de quatro águas, cômodos interligados à sala e alpendre nos fundos – as características das casas bandeiristas de acordo com os pesquisadores. Um detalhe importante é a proximidade da margem direita do córrego Pirajuçara, o que permitia a locomoção fluvial dos moradores.

Não há registro dos primeiros proprietários, porém, o mais antigo de quem se tem informação foi Belchior de Pontes. No final do século dezenove, o sítio pertencia à família Beu, que o vendeu à família Penteado de quem a Companhia City de Melhoramentos comprou. Em 1958 a City doou o imóvel para a Prefeitura de São Paulo, que em 1966 providenciou o restauro da casa. O tombamento aconteceu em 1983, pelo CONDEPHAAT e em 1991 pelo CONPRESP. 

A Casa teve vários usos. Em 1970 abrigou o Museu Sertanista dedicado à cultura indígena, mas fechou em 1987 para obras de restauro, reabrindo em 1989 como Núcleo de Cultura Indígena, que também durou pouco, pois em 2007 reabriu como Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima, até 2007. Após mais uma obra de restauro, a Casa do Sertanista foi incluída no acervo do Museu da Cidade tornando-se um espaço de Educação Patrimonial e história da cidade de São Paulo.

CASA DO SERTANISTA – Praça Ênio Barbato, Caxingui, Zona Oeste.

Linha 4 Amarela, Estação Morumbi. Funciona de terça-feira a domingo das 9h às 17h. 








Praça Dr. Ênio Barbato, s/nº, Caxingui. Linha 4 Amarela, Estação Morumbi. 





domingo, 11 de janeiro de 2026

SÍTIO DA RESSACA

 

Não se engane caro leitor, pois não se trata de um local para cura do mal-estar causado por uma noite de muitos brindes a Baco, mas de uma casa de taipa de pilão construída, provavelmente em 1719 (século XVIII), no antigo caminho de Santo Amaro. O nome tem origem em um córrego conhecido por vários nomes (o que devia ser bem complicado) – Fagundes, Barreiro ou Ressaca. O bairro é Jabaquara, Zona Sul da cidade.

            A Casa do Sítio da Ressaca tem seis cômodos, incluindo o alpendre não centralizado na fachada principal, e telhado de duas águas. As portas e janelas são de canela preta. Presume-se que a casa tenha sido construída em 1719 porque este é o ano que está inscrito no batente da porta principal; as telhas da casa também têm o ano de fabricação (1713, 1714 e 1715), mas podem ter sido colocadas em ocasiões de consertos. O primeiro proprietário foi o Sargento Mor Lopes de Medeiros e o último,  Antônio Cantarella, que transformou o sítio em chácara e também foi o responsável pelo loteamento da propriedade em 1969. (Ver o quadro.) Na mesma época, o metrô chegava à região e para a instalação do pátio de manobras mais de um terço da área foi desapropriada.

Foi Mário de Andrade (1893-1945), quando dirigiu a delegacia do IPHAN em São Paulo entre 1937 e 1945, quem providenciou a documentação do Sítio da Ressaca para o reconhecimento do valor histórico. Luís Saia (1911-1975), arquiteto e etnógrafo, assistente de Mário de Andrade, foi quem deu entrada no CONDEPHAAT do processo de tombamento do Sítio, o que aconteceu em 1972 e logo em seguida, ele recomentou o restauro do imóvel e da área do entorno. 

Atualmente, no Sítio da Ressaca funciona o Centro Cultural do Jabaquara, num prédio moderno onde está a Biblioteca Municipal Paulo Duarte, que completou 45 anos em julho passado. A biblioteca mantém documentação sobre o bairro do Jabaquara e conta com o Centro de Documentação do Idosos que dispõe de livros, artigos de jornais e revistas; há também um acervo temático sobre cultura afro-brasileira.

Fonte: Museu da Cidade de São Paulo.

O Sítio da Ressaca funciona de terça a domingo das 9h às 17h. Visitas de grupos devem ser agendadas: educativomuseudacidade@gmail.com






Fotos: 18 dezembro de 2025.

Linha Azul, Estação Jabaquara do Metrô.

Rua Nadra Raffoul Mokodsi, 3. Cerca de dez minutos a pé.




sábado, 10 de janeiro de 2026

TAIPA E PAU A PIQUE

A cidade de São Paulo comemora 472 anos no próximo dia 25 de janeiro. Nessa data os padres jesuítas Manuel da Nóbrega, Manoel de Paiva e José de Anchieta instalaram o Colégio nos Campos de Piratininga, com apoio do cacique tupiniquim Tibiriçá que, no batismo, recebeu o nome de Martim Afonso – homenagem ao fundador da primeira cidade brasileira, São Vicente (SP).

Em vez de repetir a história desta cidade que se expande cada vez mais, preferi escrever sobre o modo como os primeiros moradores se estabeleceram, pois não faltou dificuldade. E uma delas foi a construção das moradias.

Em dezembro passado visitei as casas de taipa de pilão e de mão do século XVII, XVIII e XIX que ainda restam na cidade de São Paulo e fazem parte do acervo do Museu da Cidade de São Paulo. O acervo consta da Casa do Tatuapé, Casa do Bandeirante, Casa do Sertanista, Casa do Grito, Sítio da Ressaca e Sítio Morrinhos (fechado); além da Capela do Morumbi. A Casa do Itaim e a Capela dos Índios em São Miguel, que visitei em 2024, não fazem parte do Museu da Cidade, mas são tombadas.

Engana-se quem imagina que num país tropical construir à base de barro seja uma temeridade por causa das chuvas torrenciais. Esses imóveis são um testemunho das primeiras construções feitas em São Paulo. A taipa de pilão é uma técnica bastante simples. Primeiro faz-se uma armação de madeira, com caibros ou estacas, e depois preenche-se a estrutura com barro amassado para fazer as paredes. Essa foi a técnica usada na construção do colégio de Piratininga. O pau a pique ou taipa de mão é mais utilizado nas paredes internas. A estrutura é de madeira roliça, disposta vertical e horizontalmente, amarrada com cipó ou cravo e depois preenchida com barro socado.

Essa prática tem origem milenar – embora os estudiosos não tenham uma data definida, acredita-se que tenha surgido em torno de 7.000 e 12.000 anos a.C. A Grande Muralha da China, por exemplo, foi construída em taipa e posteriormente revestida com alvenaria de pedra; a Pirâmide do Sul, no México, tem um núcleo de dois milhões de metros cúbicos de terra compactada. 

Foi uma ótima experiência percorrer de ônibus e metrô de Norte a Sul e de Leste a Oeste esta cidade para visitar estes sítios históricos. Muitas vezes tive que procurar ajuda de motoristas e pessoas que encontrei no caminho. O mais surpreendente é que as casas ficam em locais bastante próximos de avenidas importantes e de estações de metrô. O ingresso é livre. Há educadores para contar a história e explicar as técnicas. Aproveite o verão e as férias para conhecer esse patrimônio da cidade de São Paulo. 

Amanhã, Jabaquara.

Parede de taipa de pilão de uma das casas bandeirantista.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

FIM DE FESTAS

Ontem trabalhadores ainda faziam a remoção dos enfeites natalinos.
Na esquina da Rua Barão de Itapetininga com Praça Ramos de Azevedo, Papai Noel e os pinguins esperavam por transporte.