quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

SURPRESAS PAULISTANAS

São Paulo e suas surpresas. Marco encontro com uma amiga que não via há muito tempo para o café da tarde e muita prosa. Ela dá o endereço de uma padaria, perto da residência dela e avisa que fica num beco. Quando cheguei, vi a placa e lembrei-me de que já tinha ouvido uma referência ao lugar. Trata-se da Árvore do Pão, padaria artesanal que tem  uma alcunha criativa: Padaria Secreta, pois fica no fundo do beco. Um lugar simples, bonito e repleto de coisas gostosas, com um ótimo atendimento. Depois de uma tarde muito agradável num lugar “escondido” pensei com meus botões que estes são o grande segredo da padaria. 

https://www.arvoredopao.com.br/ 











sábado, 25 de janeiro de 2025

CRONISTAS PAULISTANOS

Para marcar o aniversário da fundação da cidade de São Paulo escolhi dois apaixonados por São Paulo: o sociólogo José de Souza Martins (1938), professor emérito da USP aposentado, detentor de três Prêmios Jabuti, e o jornalista e poeta Paulo Bomfim (1926-2019). Tive o imenso prazer de entrevistar os dois. As caminhadas de Souza Martins pela cidade resultaram em crônicas fascinantes, que conduzem o leitor da realidade cotidiana para a história, as tradições e as lendas de São Paulo. É, na minha opinião, o melhor cronista de São Paulo. Paulo Bomfim fez declarações de amor pela cidade em prosa e verso, sempre impecáveis. Escolhi o poeta, porque gosto demais do que ele nos deixou, mas há um fato curioso que une os dois escolhidos. Na dedicatória de seu livro “O coração da Pauliceia ainda bate” (2017), Souza Martins afirma que foi a poesia de Bomfim que o ensinou a compreender e amar São Paulo. O texto abaixo é excerto de uma das crônicas dele.

SOUZA MARTINS

HÁ POUCO MAIS DE CEM ANOS, a cidade de São Paulo começou a ganhar sua feição social e culturalmente pluralista, o que acabou fazendo dela uma das emblemáticas cidades cosmopolitas do mundo. Acolheria não só estrangeiros que aqui se tornariam brasileiros sem perder a poesia de sua origem, mas brasileiros de todos os cantos que aqui se abrasileirariam nos horizontes de um novo Brasil. A humanidade mora aqui, lugar de encontro e diversidade. Tanto há espaço para os que buscam refúgio nos nichos de conservadorismo político e cultural, quanto há espaço para os que buscam o agito colorido das inovações, mesmo as que parecem sem pé nem cabeça. Tudo acaba dando certo na tolerância inevitável de uma metrópole em que a diversidade social e cultural é tão grande que não há como resistir a ela e não há como não aprender com ela.

    O povoado de São Paulo do Campo nasceu em 25 de janeiro de 1554 como uma escola, tendo como um dos mestres um dos maiores criadores de cultura da história da invenção do Brasil, que foi o jovem padre, teatrólogo, linguista e poeta José de Anchieta, descendente de judeus pelo lado materno. (...)” Jornal O ESTADO DE S. PAULO, 25 de janeiro de 2010: “O espírito de São Paulo”.

PAULO BOMFIM

"Minha insólita metrópole, capital de todos os absurdos!

Música eletrônica em fundo de serenata, paisagem cubista com incrustações primitivas, poema concreto envolto em trovas caboclas.

Cidade feita de cidades, bairros proclamando independência, ruas falando dialetos, homens com urgência de viver.

Oceano feito de ilhas. Ilhas chegando, ilhas sangrando, ilhas florindo.

Os céus cansados do concreto que arranha. Cresce o mar das periferias.

No barco dos barracos navega um sonho. No fundo de cada um dos cidadãos do mundo, dorme a província.

Ali a velha igreja com seu campanário esperando a mantilha da noite.

Anúncios luminosos piscam obsessões. O asfalto é irmandade de credos.

No centro, todos os vícios e todas as virtudes convivem nas esquinas da São João.

Os domingos são quadrados. Cabem dentro da tela de cinema, do aparelho de televisão, da página do jornal, do campo de futebol.

O metrô é mergulho no inconsciente urbano. Nele o mesmo silêncio dos elevadores. Convívio de sonâmbulos, de antípodas da fila de ônibus e do trem de subúrbio onde há tempo para o cansaço florir num sorriso.

Aqui o verde é esperança cobrindo o frio de existir.

Teatros e o ballet da multidão, museus contemplando o quadro dos que se agitam, orquestras e a sinfonia de uma época em marcha.

Nestes tempos modernos, Carlito operário ou estudante, comerciário ou burocrata, é técnico em sobreviver.

Planalto dos desencontros, porto dos aflitos, rosa de eventos onde até o futuro tem pressa de chegar.

Mal-amada cidade de São Paulo, EU TE AMO!"

FONTE: https://www.paulobomfim.com.br/

São Paulo: julho de 2023.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

CALOR HISTÓRICO

Avenida S. João em dia de chuva, 2022.

Em 24 de janeiro de 1928 o poeta e cronista Guilherme de Almeida escrevia em sua coluna diária no DIÁRIO NACIONAL sobre as “vaidades ingênuas” do paulistano e, dentre várias, considerava a mais esquisita a vaidade da temperatura. “São Paulo é muito frio... ‘Europeu pra burro!’,  exclama o homem de julho, que não tem fogo no seu living-room e anda pela rua, afogado em cache-cols, soltando fumacinhas pela boca”.  

Depois de tratar da esquisitice paulistana, ele se queixa das temperaturas dos últimos dias: “A cousa está simplesmente africana: 32, 34. 36, 38 graus... à sombra dos plátanos e dos arranha-céus Luís XVI! Mas o paulista, o velho e teimoso paulista, emperra como uma garrucha enferrujada. Não quer dar o braço a torcer. Não sente – finge não sentir – este hálito de forno; e continua suando nas suas limousines calafetadas, tomando cafezinhos escaldantes nas suas casas nórdicas de telhados oblíquos e janelas estreitas; gemendo, nas suas cheviotes e nas suas fourrures abrasadoras... – E o que é mais engraçado –achando ‘cafajeste’ o aventureiro gordo, transpirado e ousado que saiu pela avenida numa automóvel aberto, de esporte; que chupou uma limonada e desabotoou a camisa diante de um ventilador elétrico, na varanda de jasmins da sua casa inconfessável; que cobriu de linhas brancos e mousselines ligeiras a sua torturada nudez... Vaidades!”

Guilherme de Almeida escreveu a coluna “Pela Cidade” no DIÁRIO NACIONAL de 14 de julho de 1927 a 8 de novembro de 1928 e assinava com o pseudônimo de Urbano. O jornal era órgão oficial do Partido Democrático e circulou de 14 de julho de 1927 até 30 de setembro de 1932.

Fourrure – em francês é pele de animal usada em vestimentas, como casaco de pele. 
Cheviote – casaco ou sobretudo de lã escocesa, procedente de carneiros do monte Cheviot. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

CARLOS OSWALD

 

Os brasileiros em geral podem não conhecer CARLOS OSWALD (1882-1971), mas certamente admiram o Cristo Redentor, monumento situado no topo do morro do Corcovado e que é cartão postal do Rio de Janeiro e do Brasil. Oswald foi o responsável pelo desenho final do Cristo que possibilitou a execução da obra pelo escultor francês Paul Landowski. Carlos Oswald, filho do compositor e diplomata Henrique Oswald, foi um importante pintor e gravador. Ele nasceu em Florença, mas foi registrado no consulado brasileiro daquela cidade. Em 1913, criou a primeira oficina de gravura brasileira em metal no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e teve, entre seus discípulos, alguns dos nomes que se destacaram na gravura artística brasileira, como Poty Lazarotto, Hans Steiner e Daret Valença Lins. Ele faleceu em Petrópolis. A filha Maria Isabel Oswald Monteiro escreveu o livro “Carlos Oswald, 1882-1971: Pintor da luz e dos reflexos”, publicado em 2000 pela Casa Jorge Editorial. E em 2007 foi lançado o documentário “Carlos Oswald - O Poeta da Luz”, dirigido por Regis Faria, com Fernando Eiras, no papel Oswald.

    Há alguns anos vi na Caixa Cultural a exposição: "CARLOS OSWALD, o resgate de um mestre", com curadoria de Paulo Leonel Vergolino.

"Teresópolis": água forte, água tinta e ponta seca (1925), Museu Nacional de Belas Artes. 





domingo, 19 de janeiro de 2025

MAGDA TAGLIAFERRO

 Magdalena Maria Yvonne Tagliaferro (1893-1986), ou simplesmente Magda Tagliagerro, nasceu em 19 de janeiro em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde os pais passavam férias. Seus pais eram franceses – o pai era professor de piano e canto em São Paulo. Magda começou a estudar piano ainda criança e tornou-se uma das mais premiadas pianistas do século XX: talento excepcional reconhecido aos 13 anos quando ela recebeu o Primeiro Prêmio e medalha de ouro do Conservatório Nacional de Paris onde estudou; em 1928 recebeu a Legião de Honra da França e em 1937 foi nomeada catedrática do Conservatório de Música de Paris. Apresentou-se regularmente na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Na década de 1940 criou o curso de interpretação e apreciação musical e mais tarde fundou em São Paulo a Escola Magda Tagliaferro. A concertista foi também a idealizadora das aulas públicas, que visavam a educação dos alunos e a formação do público. No YouTube, 

Fonte: https://revistapesquisa.fapesp.br/magda-tagliaferro-2/

https://www.youtube.com/watch?v=eddGznhQ9fY



quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

SANTO AMARO, SP.

 

Matriz de Santo Amaro, inaugurada em 1924.

Destino: Santo Amaro. Não, não fui visitar a difamada estátua do Borba Gato, que vi apenas uma ou duas vezes em todos esses anos que moro em São Paulo. Ela é realmente feiosa, mas já vi uma bem pior em Roma, do papa João Paulo II. Do que pouca gente lembra é que Santo Amaro já foi uma cidade importante, com uma história que remonta aos tempos da fundação da São Paulo – ali viveu Caiubi, irmão do cacique Tibiriçá; o padre Anchieta foi quem teve a ideia de criar uma vila na região. Tudo começou com a construção de uma capela nas terras do português João Paes, que doou também a imagem de Santo Amaro. O Largo Treze de Maio é o local em que a história do vilarejo começou. E aqui vale parêntese: dizem que o santo Amaro não existiu; ele seria fruto de uma lenda portuguesa. Seja como for, a vila foi elevada à freguesia em 1686. (Freguesia é uma igreja com vários povoados no entorno e quando a população cresce ganha o status de paróquia.)

            A freguesia tornou-se importante ponto de abastecimento de São Paulo; em 1827 chegaram os primeiros alemães ao Brasil e lá se instalou um núcleo da colônia alemã. Em abril de 1832 Santo Amaro foi emancipado de São Paulo e em 1886 ganhou uma estrada de ferro inaugurada com a presença do Imperador D. Pedro II. O trajeto da maria-fumaça começava pelas atuais avenida Liberdade, ruas Vergueiro e Domingos de Moraes e avenida Jabaquara – o mesmo percurso da linha Azul do metrô – até Santo Amaro.

Faltava, entretanto, um hospital para o atendimento da população, pois Santo Amaro era bem distante do Centro Histórico, onde ficava a Santa Casa. Um grupo de pioneiros fundou a Sociedade Beneficente N. S. da Conceição, cujo primeiro presidente foi o tenente-coronel Carlos da Silva Araújo. Dona Benta Bernardina de Morais não fez por menos: contribuiu com o terreno. A inauguração da Santa Casa da Misericórdia de Santo Amaro aconteceu em 8 de dezembro de 1899.

    Em 1907 a Light iniciou a construção da represa de Guarapiranga, dando um impulso turístico para a região. A linha ferroviária foi substituída pelo bonde com um novo itinerário. Houve dois motivos para a incorporação de Santo Amaro à cidade de São Paulo novamente: o forte endividamento do município e a inauguração do aeroporto de Congonhas, que ficava no caminho para Santo Amaro. Assim, em 22 de fevereiro de 1935 Santo Amaro foi reintegrado ao município de São Paulo. O bairro desenvolveu-se e já foi um importante polo industrial de São Paulo.

    Atualmente, Santo Amaro tem uma população de 272 332 habitantes (Censo 2022) e tem um alto Índice de Desenvolvimento Humano (0,939). Os principais bairros são Alto da Boa Vista, Chácara Flora, Chácara Monte Alegre, Chácara Santo Antônio, Chácara São Luís, Granja Julieta, Jardim Cordeiro, Jardim Dom Bosco, Jardim Petrópolis, Jardim Promissão, Jardim Santo Amaro, Várzea de Baixo, Vila Cruzeiro, Vila Elvira, Vila União. O acesso a Santo Amaro pode ser por metrô (Linha 5 Lilás), trem (linha 9 Esmeralda), além de ônibus:  só no Terminal de Ônibus encontram-se 62 linhas!

    A matriz fica no Largo Treze de Maio e o entorno, por onde perambulei, me lembrou muito o Brás: um comércio de rua forte. Parece até uma imensa feira livre. Mal sobra calçada para os pedestres que não são poucos. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

QUESTÃO DE LÓGICA

 

“Apesar da inegável utilidade da lógica para o desenvolvimento do conhecimento, da ciência e da tecnologia, o público em geral não tem muita clareza sobre a sua importância. A proclamação de um dia mundial da lógica pela UNESCO, em associação com o Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH), responde ao desejo de chamar a atenção dos círculos científicos interdisciplinares e do público em geral para a história intelectual, a importância teórica. e repercussões práticas da lógica.” (UNESCO)

A data foi instituída pela UNESCO em 2019 para ser celebrada anualmente no dia 14 de janeiro, em homenagem aos dois mais importantes filósofos, matemáticos e lógicos do século passado: o austríaco Kurt Gödel (1906-1978) e o polonês Alfred Tarski (1901-1983). Gödel nasceu em 14 de janeiro de 1906 e Tarski morreu em 14 de janeiro de 1983. Ambos tornaram-se cidadãos norte-americanos.

A lógica é o estudo normativo e filosófico do raciocínio e trata do uso do raciocínio em nas atividades em geral. O primeiro trabalho sobre lógica rigoroso e sistematizado foi realizado por Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Filósofo e polímata grego, criador da lógica formal, ele tratou a matéria como ciência especial e o conjunto de seus escritos lógicos foram denominados mais tarde “Órganon” e “o nome corresponde muito bem à intenção do autor, que considerava a lógica instrumento da ciência”.

Se o público não tem clareza sobre a importância da lógica, certamente, é por falta de bons professores de Filosofia, se é que a matéria ainda faz parte do currículo escolar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

UM PASSEIO CHEIO DE EQUÍVOCOS

 

A Zona Cerealista de São Paulo fica próxima do Rio Tamanduateí. À direita, o Mercado Municipal.

Sexta-feira. Penso em um programa. Que tal explorar a Zona Cerealista? Procuro informações no metrô: o funcionário me diz que tenho que descer na estação da Luz. Na estação da Luz, me encaminham para a saída da rua das noivas (entenda-se rua São Caetano) e aí as coisas se complicam porque conheço o pedaço e sei que nem passa perto da zona cerealista. Um senhor me indica o “caminho certo”: rua Paula Souza (se quiser montar um restaurante ou lanchonete, endereço certo para comprar todos os equipamentos – fogões, panelas, louças e que tais) e quase no final respiro: lá está o Mercado Municipal, lindo todo restaurado. Torno a perguntar a um trabalhador em horário de repouso, sentadinho em uma mureta. Ele diz que a rua Santa Rosa é no outro lado da avenida que eu acabara de atravessar, mas resolvo ir mais para a frente. “Senhora!” Em caso de dúvida me volto. É um guarda municipal (deve ter ouvido a conversa) e me dá todas as informações necessárias. Só faltou fazer o mapa (que seria bem-vindo). Agradeço, mas ele ainda não terminou: “Pergunte sempre para um guarda municipal”. Pode deixar. Realmente acabei na avenida Mercúrio, junto a uma favela sob o viaduto (acho que é o Viaduto Diário Popular). Ufa!

            Ainda sobrou algum fôlego para bisbilhotar pelas lojas. Há o “atacadão do natural” (não me interessou), tem a Loja do Arroz e o Empório do Arroz Natural; depois vem uma loja de ervas que fica ao lado da casa de chás (achei muito britânica a ideia). Um luxo mesmo é a casa que só vende milho de pipoca!  Mas já cansada de andar, visitei duas – em uma delas pega-se uma senha e aguarda-se o funcionário que atenderá o freguês (ou freguesa) da vez. Na outra os funcionários aproximam-se espontaneamente e oferecem ajuda.

Curiosidade satisfeita pergunto a uma senhora da loja qual a estação mais próxima do metrô: D. Pedro. E assim fui caminhando pela rua da Figueira, endereço da Casa das Retortas, usina de gás e carvão inaugurada no final do século XIX e que em 1967 deixou de funcionar. Um prédio histórico que deveria sediar o Museu da História do Estado de São Paulo, mas parece que a ideia não se consolidou por uma série de problemas técnicos, inclusive contaminação do solo, que inviabilizaram o projeto.  

Encontro com facilidade a estação e sei que, em uma próxima vez, será por lá que irei à Zona Cerealista.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

OLHA A CHUVA!

 


Está difícil passear nesta época. Espio pela janela, tempo encoberto, mas agradável. Desço e ao abrir o portão do prédio, está começando a chuviscar. Volto para pegar o guarda-chuva. Saio e ao chegar na esquina constato que era apenas uma nuvem passageira. Sou obrigada a carregar o peso inútil. Para evitar futuras “pancadas de chuva ocasionais” tenho ido a exposições: tomei cafezinho na casa de Mário de Andrade, fui ver Oswald de Andrade para saber se havia algo de novo sobre ele, e quis conhecer o trabalho da fotógrafa japonesa Tokuko Ushioda (1940) sobre geladeiras de que gostei muito.  Ainda há muito o que ver e fazer entre uma chuvarada e outra. Como fisioterapia, por exemplo, feita numa varanda simpática, coberta, por onde sopra um vento que ameniza o calor e ajuda as nuvens a se agruparem de forma ameaçadora e ainda acompanhadas por trovoada. Não demora e despenca o aguaceiro. Quando termina a sessão, me acomodo para esperar a chuvarada estiar. Lá fora o trânsito é pouco – tanto de veículos quanto de pedestres. Os pombos voam de um telhado para outro aproveitando o aguaceiro. Nem cinco minutos e já se veem nesgas de azul que vão crescendo.

Aproveito a chance e lá vou eu ladeira acima. É um caminho agradável. Passo apressada (por assim dizer) pelo Conjunto dos Bancários, formado por 44 prédios de dois andares, construídos pelo extinto Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários – IAPB para trabalhadores do setor bancário nos anos de 1940. O projeto, fui pesquisar depois, é do arquiteto Marcial Fleury de Oliveira. Os prédios são servidos por ruas particulares ajardinadas e arborizadas. Em 2019, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – Conpresp aprovou estudo para tombamento do conjunto. Depois do INSS, passo por uma sorveteria que me atrai faz tempo, mas resisto bravamente. O Parque Modernista já visitei várias vezes – é a sede da primeira casa modernista de São Paulo e que fica em frente ao Hospital Japonês Santa Cruz. Enfim, chego à estação do metrô. Nada de chuva.

Foto: rua particular do conjunto dos Bancários. Novembro de 2024.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

SÃO VICENTE

 

                       A partida de Martim Afonso de Souza de Portugal. Autor: Alfredo Roque Gameiro.

Imagino como o lugar parecia paradisíaco, mas sei que os habitantes guerreavam entre as diferentes tribos, algumas das quais tinham o costume de fazer supimpas refeições dos inimigos vencidos. Um dia na praia alguns viram no horizonte algo estranho, como se fossem barcos gigantes, se aproximando. E ficaram lá olhando... Não podiam supor que era o fim de um tempo, inicio de uma vida desconhecida que começaria com a apropriação da terra e da liberdade que desfrutavam em Pindorama, a terra das palmeiras, nome que os tupis-guaranis davam àquelas praias sem fim. Eles nem tinham noção de que era o dia 22 de abril de 1500. Memorável de forma oposta para os dois povos.

“Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha vestido o português” (Oswald de Andrade)

Assim, Pindorama logo virou Terra de Vera Cruz, passou a Santa Cruz e mais tarde Brasil – uma referência ao pau-brasil, árvore que por seu grande interesse econômico acabou quase extinta.

“O Zé Pereira chegou de caravela / E perguntou pro guarani da mata virgem/

– Sois cristão? / – Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte/ –Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!

 (...)” BRASIL, Oswald de Andrade.

A ocupação (hoje palavra da moda) sistemática da terra só começou pouco mais de três décadas depois, com a chegada da expedição de Martim Afonso de Souza, fundador de uma vila onde já viviam alguns brancos antes mesmo de ele aparecer por lá. E tinha até nome: São Vicente, denominação dada por Américo Vespúcio a uma ilha, que localizara em uma viagem de reconhecimento da costa brasileira em 1501. A Celula Mater da Nacionalidade foi fundada no dia 22 de janeiro de 1532. São Vicente é a cidade mais antiga do Brasil – este ano comemora 493 anos. Fotos: Hilda Araújo.

São Vicente, Marco Padrão do 4º Centenário da cidade. Praia do Gonzaguinha.


Igreja matriz de São Vicente (SP).


sábado, 4 de janeiro de 2025

BOND, ESPIÃO DE PASSARINHOS

 

E não é que James Bond nasceu no dia 4 de janeiro de 1900? Se pensou no agente secreto, personagem criado por Ian Fleming ou Sean Connery, errou. Este Bond era um premiado ornitólogo norte-americano, formado na Inglaterra e especialista em pássaros do Caribe. O escritor britânico Ian Fleming (1908-1964), que também gostava de observar pássaros e conhecia Bond porque na época morava na Jamaica, pediu autorização ao ornitólogo para usar o nome dele em um personagem do romance “Casino Royale”. O motivo da escolha Fleming explicou em uma carta à esposa: "ocorreu a mim que esse nome breve, não-romântico, anglo-saxão e mesmo assim muito masculino era exatamente o que eu precisava”. Em 1964, Fleming presenteou Bond com um exemplar da primeira edição de “You only live twice” autografado e com uma dedicatória especial: “ao verdadeiro James Bond, do ladrão de sua identidade”. O livro foi leiloado por 84 mil dólares em 2008. Bond morreu em 1989.

James Bond, o verdadeiro, em 1974.
    (Em 1965 Bond descobriu um raro maçarico ou pesca-em-pé, espécie considerada extinta há mais de uma década.)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

MÁRIO DE ANDRADE E O CARNAVAL



Então resolvi ir tomar café na Casa de Mário de Andrade logo no dia 2 de janeiro pois, após semanas nubladas, tinha um sol de verão. Com a desculpa do cafezinho, que eu nem sabia se haveria, queria ver a exposição “Eu mesmo, Carnaval” e a residência do escritor depois da anexação da casa do irmão dele, que era ao lado. Vivi em Santos onde estudei em escolas particulares muito boas (primário e ginásio) e frequentei o colegial no Instituto de Educação Canadá, escola pública em que se entrava após passar em concorridíssima prova seletiva. A principal diferença é que as primeiras eram conservadoras e o Canadá, mais sintonizado com os anos 1960.  O que me choca é que os escritores modernistas não fizeram parte da grade de ensino de nenhum deles. Fato que constatei, provavelmente, na faculdade e, confesso que, na minha ignorância, achei que Mário e Oswald eram irmãos. Meu primeiro contato foi Mário de Andrade (1893-1945). Como já havia ouvido falar de Macunaíma, fui assistir ao filme de José Pedro de Andrade (1932-1988) e me apaixonei pelo personagem (“ai que preguiça”) e por Mário de Andrade. Oswald de Andrade (1890-954) é outra história – foi o “enfant terrible” e ousou na literatura e no comportamento.

            Ontem, o dia era de Mário, que nasceu na rua Aurora, morou no Paissandu e viveu desde 1921 na rua Lopes Chaves, na Barra Funda, “espaço vibrante de samba e Carnaval”. Mário contou que descobriu o samba por acaso, no Carnaval de 1931: uma roda de samba diferente de tudo o que já tinha visto e ouvido. Começou a pesquisar e o resultado foi o ensaio sobre “O samba rural paulista”, de 1937. Em 1923 ele passou o Carnaval no Rio de Janeiro e a experiência gerou o poema “Carnaval Carioca”; e em 1924 ele presenciou o Carnaval fora de época em São João Del-Rei (MG) que ele cita no poema “Noturno de Belo Horizonte”. Já a experiência no Recife, em vez de maracatu vivenciou um porre histórico (mas isso é outra história).

            “Em sua busca por um país, Mário de Andrade identificou nessa festa uma síntese original da nacionalidade. E confundindo a si mesmo com os destinos do brasil, tornou-se, ele mesmo, Carnaval” – diz a apresentação da mostra, que tem curadoria de  Arthur Major e Fábio Parra, logo na entrada.

            A Barra Funda, onde Mário e família viveram, foi reduto Grupo Carnavalesco da Barra Funda, formado por Benedito Barbosa e um grupo de amigos, que teve um período de interrupção até que em 1953  ressurgiu como Cordão Camisa Verde e Branco por obra de Inocêncio Tobias, e mais tarde o cordão virou Escola de Samba Camisa Verde e Branco. Mário teria gostado. Como teria amado a homenagem da escola no Carnaval passado

            Vale muito uma visita à Morada do Coração Perdido – e a entrada é gratuita.

Casa Mário de Andrade, rua Lopes Chaves, 540, Barra Funda, Metrô Marechal Deodoro.