terça-feira, 30 de dezembro de 2025

VINHO SEDUTOR

 

“Daqui vejo as janelas dos vizinhos da frente. Estão escancaradas. Faz muito calor, é verão. Estou com meu binóculo de observar pássaros... Olha só!, vejo uma silhueta conhecida. Será? O perfil é dele, como se estivesse numa de suas enigmáticas pontas. Mas o que estará fazendo por aqui em Nova York, neste bloco de apartamentos tão absolutamente comum? Focalizo agora a janela de cima. Lá está um homem numa cadeira de rodas, com a perna quebrada. Também tem um binóculo e uma câmera. E pode muito bem estar olhando a minha vizinha de baixo, a voluptuosa Miss Torso. Sei que ela faz sensuais exercícios diários. Certamente não miraria para a janela do monótono e inexpressivo casal Thorwald... Agora o homem recebe visita. Uma mulher loira, elegante, saída de alguma revista de moda. Deste mundo é que não é... Que linda, até parece a Grace Kelly! Sua namorada? Vão jantar... Parece que sim, um garçom paramentado acaba de entrar com pacotes. Ela tenta abrir a garrafa de vinho... Focalizo bem, quero ver o rótulo... Sim, como suspeitava, um Montrachet! Não há dúvidas: é amor. E o cardápio, de sedução.”

(“O Montrachet de Grace Kelly – Arma de sedução e de Hitchcock”, in VINHOS NO MAR AZUL, de José Guilherme R. Ferreira, Editora Terceiro Nome.)

James Stewart e Grace Kelly: "Janela Indiscreta"(1954), Hitchcock.




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