“Daqui vejo as janelas dos vizinhos da frente.
Estão escancaradas. Faz muito calor, é verão. Estou com meu binóculo de
observar pássaros... Olha só!, vejo uma silhueta conhecida. Será? O perfil é
dele, como se estivesse numa de suas enigmáticas pontas. Mas o que estará
fazendo por aqui em Nova York, neste bloco de apartamentos tão absolutamente
comum? Focalizo agora a janela de cima. Lá está um homem numa cadeira de rodas,
com a perna quebrada. Também tem um binóculo e uma câmera. E pode muito bem
estar olhando a minha vizinha de baixo, a voluptuosa Miss Torso. Sei que ela
faz sensuais exercícios diários. Certamente não miraria para a janela do
monótono e inexpressivo casal Thorwald... Agora o homem recebe visita. Uma mulher
loira, elegante, saída de alguma revista de moda. Deste mundo é que não é... Que
linda, até parece a Grace Kelly! Sua namorada? Vão jantar... Parece que sim, um
garçom paramentado acaba de entrar com pacotes. Ela tenta abrir a garrafa de
vinho... Focalizo bem, quero ver o rótulo... Sim, como suspeitava, um Montrachet!
Não há dúvidas: é amor. E o cardápio, de sedução.”
(“O Montrachet de Grace Kelly – Arma de
sedução e de Hitchcock”, in VINHOS NO MAR AZUL, de José Guilherme R. Ferreira,
Editora Terceiro Nome.)


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