sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

VIVA O BEXIGA!

Nas escadarias do Bixiga/Bexiga.

Ontem foi noite de caminhar pelo Centro. Destino: o Bexiga/Bixiga, um bairro sempre muito atraente, mas o que eu não imaginava era a maratona que nos esperava. O início, como sempre, é na frente da Biblioteca Mário de Andrade, mas eu começo pela Praça da República, onde o ônibus me deixa. Depois das apresentações dos convidados – o Rei Momo e a Rainha do Carnaval do Bexiga e o Candinho Neto, da banda que leva o nome dele – partimos. O público é sempre heterogêneo – turistas eventuais (ontem tinha um senhor do Espírito Santo, que desejava conhecer o verdadeiro Bixiga, não o das pizzarias), jovens, idosos, casais e os aventureiros de sempre que não esperam companhia para levantar da poltrona. Eu reencontrei a Zita, grande conhecedora do Centro e andarilha como eu.

O roteiro? Descobrimos caminhando e no caminho há sempre muitas paradas para ouvir histórias dos lugares – e há sempre muitas. Assim, da Rua da Consolação, fomos pela Major Quedinho, Major Diogo – parada na Casa de Dona Yayá, onde se fala da tragédia da moradora. Zita é uma admiradora de portões e se encanta com um que é do prédio do antigo Teatro Brasileiro de Comédia, inaugurado em 1948 e passa por recuperação. Em algum ponto vislumbro a exótica Rua (Vila) Jardim Heloísa, tombada pelo Patrimônio Histórico. E lá vai o grupo pela Conselheiro Carrão. (Eu me pergunto como voltarei para casa.) O Rei Momo e uma caminhante se desgarram – ah! ladeiras!  Pausa. Quantas coisa para ver – as casas antigas bem conservadas, um colorido especial... Atravessamos a Rua Rui Barbosa e logo chegamos à Treze de Maio – uma festa só! Pergunto ao organizador das Caminhadas, qual nosso destino. Surpresa: as escadarias do Bixiga para a Rua dos Ingleses onde se encontra o Museu do Bixiga. Pausa para fotos.

Na Rua dos Ingleses, me despeço do grupo (na verdade saí à francesa). Decido que devo ir para a Avenida Paulista. Zita resolve me acompanhar – ela mora nos Campos Elísios. Há muitos anos fiz uma caminhada por ali, mas à noite todos os gatos são pardos, como se dizia antigamente. Zita se encanta com as casas localizadas no topo do morro dotadas de escadarias. Na encruzilhada, temos que perguntar a direção – estamos na Rua dos Belgas, seguimos pela Joaquim Eugênio de Lima até a Avenida Paulista, onde nos despedimos.

Foi um ótimo passeio numa agradável noite de verão.

Pausa para conhecer um pouco da história de Dona Yayá.






quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A FORÇA DO TRABALHO

 

Dia desses tive que ir à Rua Espírito Santo que travesso frequentemente, mas nunca andara por ela. As casas prevalecem e algumas são bem interessantes. Passei pela Escola Irmã Catarina, por várias lojas de consertos de eletrodomésticos e até oficinas de carro. São apenas duas quadras e ela termina na Rua Almeida Torres por onde passam vários trólebus da linha Gentil de Moura, o que desconhecia. Um lugar bem tranquilo e agradável. Resolvido o problema – o primeiro foi descobrir que o endereço da empresa que me foi dado como Rua Espírito Santo é mesmo na Almeida Torres–, retornei pelo mesmo caminho. Pausa na esquina para observar o entorno. O motoqueiro para, me deseja boa tarde que respondi achando que ele ia me pedir alguma informação, mas ele manobrou em minha direção sorrindo e me perguntou se eu estava bem. Foi quando o reconheci e conversamos brevemente porque ele estava trabalhando.

Uma bela história de coragem, determinação e bons resultados. Ele é guineano da República de Guiné-Bissau, país africano com pouco mais de dois milhões de habitantes, e imigrou para o Brasil há alguns anos. Guiné-Bissau foi colônia portuguesa: o primeiro português que passou por lá foi Nuno Tristão em 1446, mas só houve interesse pelo território no século XVI. O Português é falado pela minoria da população embora seja a língua oficial do país, que se tornou independente de Portugal em 1973, mas oficialmente em 1974.

Ele trabalhou na melhor padaria do bairro, primeiro como faxineiro, depois passou para o atendimento na balança do restaurante. Foi nessa ocasião que conversei com ele sobre a comida e ele me disse que não conhecia os pratos servidos porque na terra dele a comida era diferente. Amendoim, peixe seco e quiabo são alguns dos ingredientes populares, segundo me disseram. Um dia ele sumiu e soube que estava trabalhando na padaria; logo depois aos domingos passou a comandar a venda de frango assado com batatas e farofa. Sempre atencioso e sorridente. Certa vez comentou que tinha me visto no Centro (que novidade!): “Mas a senhora não me viu” e contou que trabalhava à tarde com vendas.

Claro que perguntei o que fazia depois de sair do Recanto. Abriu um negócio, segundo ele, mas pelo que me descreveu é uma quitanda – vende frutas e verduras; como precisou, trouxe o filho (único) da Guiné-Bissau para ajudá-lo: durante a semana fica na loja enquanto ele faz entregas. Está todo feliz e me passou o endereço, que é perto do Parque. Qualquer dia irei lá comprar frutas.

Não sei de onde ele é, provavelmente de algum vilarejo, talvez da Capital – esta tem cerca de quinhentos mil habitantes. É preciso coragem para atravessar o Atlântico e se instalar nesta cidade de doze milhões de habitantes! E o melhor: já está por sua conta.