terça-feira, 30 de maio de 2017

MELHORE SEU VOCABULÁRIO.
Sua vida e a dos outros.

Há algumas expressões que estão esquecidas no cotidiano e fazem parte da sociabilidade, ou seja, das regras de boa convivência. Essas palavras fazem muito bem para quem usa e para quem ouve. São as palavras mágicas que ajudam a melhorar as relações sociais. Anote, por favor.
BOM DIA – não custa nada e é sempre muito agradável de ouvir. (Vale para BOA TARDE e BOA NOITE.)
OBRIGADO (A) – Para começar é bom esclarecer que homem diz OBRIGADO e mulher, OBRIGADA. Agradecimento superficial ou mais profundo, que firma um vínculo com aquele que me deu alguma forma de sua atenção em palavras ou atos.
DESCULPE-ME – ou suas variantes. É uma demonstração civilizada de que se está arrependido por alguma ação ou falta cometida contra alguém. De uma pisadela a um esbarrão.
POR FAVOR – nunca se esqueça de dizer porque é essencial nos relacionamentos. É uma expressão de cortesia que ameniza as ordens que damos e os pedidos que fazemos no cotidiano. Com certeza pesará muito na decisão da pessoa a quem se dirige o pedido e, no caso, de ordem, ela será mais bem acatada.
COM LICENÇA – Cabe na abordagem de alguém, numa interrupção, num simples pedido de passagem. A expressão “dá licença” deve ser evitada porque é rude.
Educação começa em casa. Cabe aos pais ensinar aos filhos o uso das palavras mágicas. Ao entrar no elevador cumprimentam-se as pessoas, os funcionários do prédio e os que prestam serviços públicos (carteiro, lixeiro, gari etc.), o motorista e o cobrador do ônibus... Enfim, o dia ficará muito melhor com um bom dia.
Costumo ouvir muita gente reclamando da má educação dos franceses. Discordo inteiramente. Eles são mestres no uso das cinco expressões e, provavelmente, quem se queixa não faz uso delas.
 
Cena de Verão, de Fréderic Bazille (1841-1870).



domingo, 28 de maio de 2017

FAROFA OU PAÇOCA?

Não sabia que a origem da palavra paçoca era Tupi. A paçoca, ensina Houaiss, é a farinha que resulta da mistura de vários ingredientes socados juntos no pilão. Raras crianças não se deliciaram com aquele doce de amendoim que esfarela todo quando o papel não é tirado com cuidado. Novidade mesmo para mim foi descobrir que um prato delicioso que minha avó preparava era paçoca: carne assada, desfiada, socada no pilão com farinha de mandioca. Ela chamava de farofa que comíamos com banana nanica. E a palavra farofa tem origem no quimbundo, língua falada em Angola. Mas voltando ao assunto, a farofa, dependendo da ocasião, podia ser bem simples: fritando a farinha na manteiga e adicionando pedacinhos de ovo cozido.
Nesses tempos em que impera a lei do menor esforço, o pilão com seu pistilo (mão de pilão) é pouco visto pelas lojas de utensílios culinários, embora seja muito antigo e essencial numa boa cozinha. Em casa tínhamos um de pedra com uns 30 cm de diâmetro. Bastante pesado. Interessante que em laboratórios, onde é muito usado, o pilão ganha o nome de almofariz, palavra de origem árabe.
Bem, toda essa farofa (conversa fiada) para chegar ao prato de domingo que em casa era carne assada com macarrão ou nhoque, acompanhado de salada, mas podia variar e então o centro da mesa era ocupado por galinha – sempre selecionada entre as que viviam no galinheiro, no fundo quintal, gordinhas e bem cuidadas.
Depois do almoço minhas tias tinham programa certo: as matinées do Cine Carlos Gomes (Avenida Ana Costa) ou Cine Bandeirantes (Rua Lucas Fortunato), dependendo do filme em cartaz. Eu ia de contrapeso. Domingos inesquecíveis.



sábado, 27 de maio de 2017

SÁBADO TEM FEIJOADA

É antiga a discussão sobre a invenção da feijoada. Aliás, perde-se no tempo o debate sobre a origem do feijão – alguns historiadores dizem que já era consumido há 11 mil anos na Ásia e outros relatam sua existência há sete mil anos no continente americano. Por aqui os silvícolas consumiam feijões e favas, segundo o português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), agricultor e dono de engenho estabelecido em Salvador entre 1565 e 1569.
O folclorista Câmara Cascudo conta que os naturalistas estrangeiros que passaram pelo Brasil no século XIX revelam em seus escritos a presença da leguminosa na alimentação diária da população em todo o país. Eles contam que geralmente o feijão era cozido com carne de vaca e toucinho e outros vegetais. Para o estudioso pernambucano “o que chamamos ‘feijoada’ é uma solução europeia elaborada no Brasil. Técnica portuguesa com o material brasileiro”.
Cascudo cita o cozido preparado com várias carnes (vaca, porco, carneiro, pato ganso), legumes e hortaliças, comum na Europa latina. É o conhecido cozido português; a olla podrida, puchero, paella e cocido espanhóis; pot pourri e cassoulet da França; bollito italiano; pilota catalã (com grão-de-bico) entre outros. “Com esses antecedentes era natural que o português alargasse as fronteiras da feijoada magra e pobre, do triste feijão na água e sal.”
Nas receitas antigas que o pesquisador compilou, nota-se a ausência das verduras que fazem parte dos cozidos tradicionais. E de modo geral usava-se o feijão mulatinho. A chamada feijoada completa surgiu no final do século XIX e início do século XX. Os ingredientes principais são feijão preto, carne seca, linguiça calabresa, paio, lombo defumado, orelha de porco, pé de porco, rabo de porco, língua de porco, costelinha de porco, cebola e alho. Geralmente, acompanham farinha de mandioca (sempre ela), couve manteiga. A laranja também é novidade recente.
Em São Paulo, a feijoada está no cardápio de quase todos os restaurantes às quartas-feiras e sábados. 
Cozinha Caipira, de Almeida Júnior (1850-1899). 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

PREFERÊNCIA NACIONAL
Feijão, farinha de mandioca, arroz e milho são base da comida do brasileiro. O feijão reina absoluto na preferência nacional desde o século XVII, mas a mandioca já era o principal alimento dos nativos, quando os europeus chegaram ao continente, como o próprio Pero Vaz Caminha relata em sua carta ao rei português. Com ela faziam farinha e beijus. Os portugueses logo se renderam à mandioca.
          O navegador Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) de Souza relatou que os navios voltavam para Portugal carregados de farinha de mandioca que ele considerava “muito sadia e desenfastiada, e molhada no caldo da carne ou do peixe fica branda e tão saborosa como cuscuz. Também costumam levar para o mar matalotagem de beijus grossos muito torrados, que dura um ano e mais sem se danarem como a farinha de guerra”. 
A farinha de mandioca acompanha feijão, peixes e carnes em geral. O hábito incorporado no período colonial persiste imbatível até hoje em diferentes formas, como tapioca ou polvilho em todo o país. Para o folclorista Luiz Câmara Cascudo a mandioca é a rainha do Brasil. “Havendo rede, farinha e cachimbo, está em termo...”, como diria frei João de São José, quarto bispo do Pará.
“O feijão, sobretudo o preto, é o prato nacional e predileto dos brasileiros; figura nas mais distintas mesas, acompanhado de um pedaço de carne de rês seco ao sol e de toucinho à vontade. Não há refeição sem feijão, só o feijão mata a fome. É nutritivo e sadio, mas só depois de longamente acostumado sabe ao paladar europeu, pois o gosto é áspero, desagradável.” A declaração é do alemão Carl Seidler em 1826, mas outros estrangeiros testemunham a preferência nacional. Entre eles o pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o mineralogista inglês John Mawe (1764-1829) e a conterrânea dele escritora Maria Graham (1785-1842).
Cascudo reproduz a descrição que Debret fez do jantar de um comerciante pobre. O prato é preparado com “(...) com um miserável pedaço de carne-seca, de três a quatro polegadas quadradas e somente meio dedo de espessura, cozinham-no a grande água com um punhado de feijões pretos, cuja farinha cinzenta, muito substancial, tem a vantagem de não fermentar no estômago. Cheio o prato com esse caldo, no qual nadam alguns feijões, joga-se nele uma grande pitada de farinha de mandioca, a qual, misturada com os feijões esmagados, forma uma pasta consistente que se come com a ponta da faca arredondada, de lâmina larga”.
É interessante a referência que Debret faz ao feijão boiando no caldo, pois a gíria boia surgiu nos quartéis, onde o rancho básico era feijão mal preparado cujos grãos boiavam na panela.
A variedade de feijões é grande: feijão-de-arrancar, feijão-de-corda, feijão-de-praia, feijão-manteiga, feijão-branco, feijão-fradinho, feijão-de-lima ou simplesmente pela cor – preto, branco, mulatinho, roxinho ou cavalo claro. Cresci saboreando o delicioso feijão preto preparado por minha avó, muito mais saboroso que o mulatinho.
Obra de Jean-Baptiste Debret .



quinta-feira, 25 de maio de 2017

O MANJAR PROIBIDO

Já imaginou um manjar branco tão delicioso a ponto de um rei proibir que se divulgasse a receita? Conto de fada? Não. O fato verdadeiro aconteceu em Portugal em pleno século XVI. D. Sebastião, “considerando-o suntuoso e acima da economia fidalga e popular”, proibiu-o através de uma pragmática (qualquer lei diferente do direito) em 28 de abril de 1570.
Deveria ser a delícia das delícias e fiquei muito tempo tentando descobrir a receita desse doce e até tentada a ir para a cozinha materializar essa maravilha e ter a felicidade de provar tal iguaria. Encontrei, finalmente, a receita na obra de mestre Luis da Câmara Cascudo, que o coloca entre os quatro doces históricos na etnografia lusitana.
Mas como diz o poeta santista a “felicidade sempre está onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”. A verdade é que logo no inicio da receita, a magia da história se evaporara no cozimento da galinha, ingrediente principal do manjar. Doce que leva galinha? Nem pensar! Confesso que não gosto muito de galinha, mas li até o fim e descobri que prefiro o doce à moda do Porto, onde o pessoal substitui a galinha por amêndoas. A outra opção (para os dias em que não se comia carne) é trocar a penosa por peixe.
          A proibição real, entretanto, não impediu que o manjar branco se tornasse doce dos conventos ricos e chegasse ao Brasil por meio dos religiosos, já que o padre Cristóvão de Gouvêa o provou em 1583 na Bahia. 
          Se alguém estiver interessado em fazer o manjar branco, aí vai a receita que está na obra de Cascudo, transcrita do livro O doce nunca amargou, de Emanuel Ribeiro, publicado em Coimbra em 1928. Nos dias atuais o manjar branco é até acessível ao bolso popular.
         
               “Coze-se uma galinha e, depois de bem cozida, tira-se para um prato onde se deixa arrefecer; estando fria extrai-se-lhe toda a carne do peito sem a pele, e esta carne desfia-se a mão o mais completamente possível.
             Feito isso, em um tacho bem limpo deita-se um litro de leite e no leite, a carne desfiada da galinha. Mexe-se bem para a mistura ficar perfeita e, depois, reúne-se-lhe um quilo de açúcar refinado e 320 gramas de farinha de arroz.
            Mexe-se bem e leva-se ao lume onde se põe a cozer. Enquanto vai cozendo, deita-se no tacho, pouco a pouco, um litro de leite, onde se dissolveu meio quilo de açúcar refinado.
            Assim que tudo estiver cozido, o que se conhece quando, metendo no preparado a ponta da faca, esta despegar lisa, deita-se-lhe uma pouca de água-flor, dá-se-lhe uma mexedela, e tira-se do fogo, deitando-se o doce em pequenos pires ou em uma travessa grande, para, depois de frio, se cortar em pedaços.”

O manjar branco deu origem ao manjar real, o sucesso do século XVIII, e que é um pouco mais complicado de fazer. Recomendo também o uso de um dicionário para entender as recomendações do cozinheiro português e evitar que tudo desande enquanto se traduz a receita.

“Depene-se uma galinha em água quente, limpe-se, e lave-se, e ponha-se a cozer em água com pouco sal. Em estando quase cozida, passe-se o caldo pelo peneiro, tire-se-lhe a gordura, deitem-lhe de molho o miolo de dois vinténs de pão; em estando bem ensopado, esprema-se por um pano lavado, deite-se em um grol em que esteja já um arrátel (459 g) de amêndoas doces bem pisadas, e pisando tudo outra vez, passe-se depois pelo peneiro, desfiando-lhe o peito da galinha; deite-se depois tudo em quatro arráteis de açúcar em ponto de espadana, chegue-se a lume brando, e mexendo-se sempre com uma colher, até se incorporar em consistência conveniente, deite-se em pratos, ou em covilhetes e sirva-se neles quando parecer.”


(Publicado no site anterior em janeiro de 2010.)

Castelo de Villandry, Tours, França, 23 de maio, 2012. Foto: HPPA.



terça-feira, 23 de maio de 2017

MMDC
           No dia 23 de maio de 1932 recrudesceram as tensões políticas entre São Paulo e o governo federal, especificamente contra a ditadura estabelecida por Getúlio Vargas em 1930 e exigia uma constituição para reger o Brasil. No confronto que ocorreu na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República na Capital, morreram Euclides Miragaia e Antônio de Camargo Andrade; os manifestantes se apossaram de um bonde e se dirigiram para a Rua Barão de Itapetininga e foram recebidos a tiros. Mário Martins de Almeida morreu e vários foram feridas.  Foram quatro horas de batalha e mais um manifestante morto: Dráusio Marcondes de Souza, um garoto de 14 anos. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo tornaram-se MMDC – sigla que nomeou a sociedade secreta criada no dia 24 para organizar a guerra paulista por uma Constituição e que eclodiu em 9 de julho. 
“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre."
Versos de Antônio Benedicto Machado Florence, mas também atribuídos a Guilherme de Almeida.

O movimento nunca foi separatista.

Obelisco de São Paulo: Mausoléu aos Heróis de 32. Projeto do escultor Galileo Ugo Emendabili (1898-1974), executado pelo engenheiro alemão Urich Edler. O Obelisco tem 70 metros de altura. Inauguração: 9 de julho de 1955. A entrada está voltada para a Avenida Vinte e Três de Maio, perto da Praça Ibraim Nobre (1888-1970), o tribuno do Movimento Constitucionalista.

domingo, 21 de maio de 2017


A QUARTA ARTE
(Minhas esculturas preferidas)


Ao entrar no Museu do Louvre pela primeira vez perdi o fôlego ao vê-la no alto das escadas simplesmente flutuando. E quando voltei em outras ocasiões a sensação se renovou. A beleza da Vitória da Samotrácia é indescritível. O artista grego desconhecido a esculpiu, provavelmente, para a comemoração de uma vitória naval por volta de 190 a. C. A escultura foi descoberta em 1863 por Charles Champoiseau (1830-1909), arqueólogo e cônsul francês que a enviou para Paris. Anos mais tarde Champoiseau encontrou a proa da embarcação. O conjunto tem 5m57 de altura. Só para concluir: Samotrácia é uma ilha grega de 178 m² situada no mar Egeu.








Beleza provocante. Sensibilidade à flor da pele. O que se pode dizer da obra-prima de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) “Êxtase de Santa Teresa”? A escultura que representa o momento em que o anjo trespassa Santa Tereza d’Ávila (1515-1582) com a seta do amor divino, se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. A obra foi realizada entre 1647 e 1652. (Foto: Wikipedia.)





Davi é perfeito. Não há como descrevê-lo. Michelangelo (1475-1564) concluiu a obra em 1504 para decorar a fachada de Santa Maria del Fiore em Florença (Itália), mas por problemas técnicos, a escultura foi colocada na Piazza della Signoria em frente ao Palazzo Vecchio de onde foi removida em 1857 para o interior da Galleria Dell’Accademia. Na praça foi colocada uma réplica da obra. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017


O GAROTO

Família amiga há muitos anos. Quando a filha entrou na adolescência, nasceu o garoto, agora companhia do pai, eletricista de primeira. Quando algum esperto nativo decidiu mudar o padrão das tomadas, ele veio ao apartamento fazer a troca e trouxe o filho. Não sou fã de crianças. Leo tem olhos cinza, cabelo encaracolado e não sofre de inibição. Sentiu-se em casa e começou a ajudar o pai, mas logo se entediou e começou a sessão de perguntas. Na sala da TV, quis saber se eu dormia ali; depois observou a janela, mais alta do que ele, e quis saber se podia ver a piscina. Informei que o prédio não tinha esse equipamento e a janela dava para a rua. Quis sentar-se. Coloquei-o na poltrona. Quantos anos você tem? Mostrou cinco dedos, mas o pai que trabalhava nas tomadas, o corrigiu. Ainda não tinha cinco. Perguntei por perguntar, pois já sabia a resposta, se ele estava na escola. E para minha surpresa disse que não. Então quis saber se eu tinha pai e levou uma bronca do pai dele que achou a pergunta impertinente. Não ficou sem resposta, mas Leo não é de se contentar com facilidade. Olhou em torno e quis saber por que o calendário estava em março. Era fevereiro. Como explicar que os primeiros 28 dias de março coincidem com os de fevereiro (exceto nos anos bissextos)? Sai pela tangente. Você sabe ler? Disse que não estava na escola... E ele explica muito sério que não está na escola porque está de férias. Quando estão saindo, lembro-me de uma cadernetinha colorida nova esquecida numa gaveta. Vou buscar e dou a ele. Leo fica deslumbrado com ela, sorri e pergunta se tenho outra. Fico um pouco decepcionada, mas logo percebo que a segunda seria para a irmã ou para a mãe. Fiquei devendo, mas foi embora feliz com a lembrança inesperada. 


Ilustração: "Pipas", obra de Cândido Portinari (1903-1962).  

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O PENSADOR
        
Há tempo para tudo, diz um antigo livro. Agora estávamos em tempo de pensar. Para quem não está acostumado, pensar significa “submeter (algo) ao processo de raciocínio lógico; ter atividade psíquica consciente e organizada; exercer a capacidade de julgamento, dedução ou concepção; refletir sobre, ponderar, pesar” (Dicionário Houaiss).
          E nesses tempos em que vivemos, vale a pena refletir sobre o “Sermão do bom ladrão” proferido pelo padre Antônio Vieira (1608-1697) na Igreja da Misericórdia de Lisboa há 362 anos, na presença de D. João IV, ministros e cortesãos. Vieira é um dos grandes mestres da língua portuguesa; dono de um estilo rebuscado, ele foi um brilhante pregador. Segue um excerto do sermão:


SERMÃO DO BOM LADRÃO” 
(...) O que eu posso acrescentar pela experiência que tenho é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também da parte de aquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato nem Despautério.
Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, e, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente – que é o seu tempo colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.(...)

Para ler o texto integral:

quarta-feira, 17 de maio de 2017

TARDE COM POESIA
de 
Fernando Pessoa.

         O PAPAGAIO do paço             
Não falava – assobiava.
  Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.


Ilustração:Retrato de Madame de Chateaurenard, do francês Joseph Andre Cellony (1696-1746).

segunda-feira, 15 de maio de 2017

AS GAROTAS DO ALCEU
Alceu Penna (1915-1980) foi um dos grandes ilustradores brasileiros. Começou na revista O CRUZEIRO (1928-1975) em 1933 e em 1938 passou a assinar a seção “As Garotas”, que se tornou não só uma referência de moda e estilo, mas de comportamento feminino. Um sucesso que se prolongou por 28 anos. As Garotas do Alceu eram muito elegantes e divertidas – os textos bem-humorados eram assinados por alguns nomes importantes da revista, como Vao Gogo (Millôr Fernandes) e A. Ladino (?). Alceu de Paula Penna, entretanto, foi mais que um ilustrador, destacou-se como figurinista, contribuindo com criações para os espetáculos dos cassinos cariocas. Graças a uma parceria entre O Cruzeiro e a Rhodia, tornou-se o responsável pela criação dos figurinos de apresentação das coleções anuais da marca até 1975.
Saudade das Garotas. 

domingo, 14 de maio de 2017

HOMENAGENS

O poeta santista Vicente Augusto de Carvalho (1866-1924) lecionou no Liceu Feminino Santista, fundado em 1902. Ele é o autor da letra do hino da escola, que foi musicado por Oscar Augusto Ferreira (1881-1921). O “Hino às Mães” foi publicado no livro “Versos da Mocidade”, em 1909. Frequentei o Liceu de 1959 a 1962.

Hino às Mães

Maria Luíza de Araújo, em 1950, a bordo do MAUÁ.
Salve Mães! Sede benditas
Como sois amadas!
Nós amamos e bendizemos
Como aprendemos de vós!

Nossa ternura infinita,
Vossa infinita afeição,
Caíram em nossas almas
Como a semente no chão!

Mães! Que as nossas tensas almas
Da vida ao primeiro alvor,
Abristes e borrifastes

Das orvalhadas do Amor!

sábado, 13 de maio de 2017

PORQUE HOJE É SÁBADO...
(E amanhã dia das mães...)
        
           O nova-iorquino Norman Rockwell (1894-1978) foi o principal ilustrador da revista semanal norte-americana “The Saturday Evening Post”, que circulou entre 1894-1978. Criou cerca de 300 capas ao longo de quatro décadas. Nestas duas capas ele retrata as mães entre a estafa e o enlevo que os pimpolhos lhes proporcionam. 




sexta-feira, 12 de maio de 2017

A BOLSA, OS ÓCULOS E O SOFÁ.
(E uma xícara de chá)
O que não falta na TV são seriados policiais. As histórias são quase sempre as mesmas – uma delegacia, uma equipe, um crime, as pistas e, enfim, a prisão do criminoso. O desafio dos produtores é encontrar variações em torno do mesmo tema. Alguns conseguem introduzindo algumas pequenas coisas que amenizam a violência ou a falta de talento de alguns atores.

CSI Miami (2002-2012) é a pior das três séries sobre cientistas forenses. Todas as esquisitices ficam por conta de David Caruso (1961), um canastrão de primeira, cheio de maneirismos, porém, o destaque fica com os óculos escuros que ele tira e põe o tempo todo. Product placement, naturalmente. Da trilogia, a melhor, em minha opinião, é CSI New York, que reúne ótimas histórias.


Ela carrega a bolsa para todos os lugares a que vai e tudo o que cai nela desaparece – especialmente os óculos de perto. Trata-se da personagem Brenda Leigh, interpretada pela atriz Kyra Sedgwick (1965) na série The Closer (2005-2012).  Brenda Leigh é infantil e mimada na vida pessoal, mas transforma-se numa profissional determinada e encrenqueira quando entra na delegacia que comanda. A personagem, quase quarentona, ainda tem medo do pai, mas enfrenta bandidos horripilantes e se movimenta de uma sala para outra sempre com a bolsa preta pendurada no ombro e, naturalmente, a leva a todas as cenas de crime. No último episódio da série a bolsa tem uma participação especial. The Closer é um drama policial com momentos de bom humor.



The Mentalist (O mentalista) é uma série que usou com inteligência os chavões dos dramas policiais, incluindo um romance à moda antiga. Patrick Jane (Simon Baker, 49) é o mentalista que ajuda (mas arruma muitas encrencas) a polícia nas investigações usando seu poder de observação do comportamento humano para encontrar os culpados dos crimes. É um charlatão recuperado graças a um drama pessoal e busca uma vingança. Como não é policial, tem regalias: na delegacia passa a maior parte do tempo deitado num sofá ou preparando chá na copa, mas não hesita em preparar a bebida na casa dos suspeitos ou das vítimas. A série teve sete temporadas (2008-2015), mas continua sendo exibida nos canais por assinatura.

Linda Hunt (1945), inesquecível no papel de Billy Kwan, o fotógrafo anão, interpretação lhe valeu o Oscar de atriz coadjuvante no filme australiano “O ano em que vivemos perigosamente”, dirigido por Peter Weir (1982). Encontra-se em plena forma como se pode ver na série NSCI Los Angeles em que rouba todas as cenas. Invariavelmente, o personagem dela (Hetty) está saboreando uma xícara de chá e não perde oportunidade de elogiar a bebida e falar dos segredos do seu preparo para os eventuais visitantes que aparecem em sua sala.