quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUINTA-FEIRA COM ARTE




“Almoço dos remadores” – óleo sobre tela de Pierre-Auguste Renoir, que retrata um grupo de amigos almoçando no terraço do Restaurant Fournaise, em Chatou, a oeste de Paris, às margens do Sena. A obra data de 1880-1881 e pertence a Phillips Collection, Washington D. C. (USA). 

sábado, 15 de julho de 2017

SÃO PAULO E OS FRANCESES
  
São Paulo vista do mirante do Banespa, 2011. Foto: Hilda Prado Araújo.

Blaise Cendrars (1887-1961), escritor.
São Paulo
Adoro esta cidade
São Paulo é conforme meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Nem antigo nem moderno
Contam apenas esse apetite furioso essa confiança absoluta esse otimismo essa audácia esse trabalho esse labor essa especulação que fazem construir dez casas por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos norte sul egípcio ianque cubista
Sem outra preocupação além de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração
Todos os países
Todos os povos
Amo isso
As duas três velhas casas portuguesas que restam são azulejos azuis*

Claude Lévi-Strauss (1908-2009): etnólogo.
“[...] São Paulo nunca me pareceu feia: era uma cidade selvagem, como o são todas as cidades americanas, com exceção talvez de Washington, dc, nem selvagem nem domesticada, essa aí, mas antes cativa e morrendo de tédio na gaiola estrelada de avenidas dentro da qual Lenfant a encarcerou”. (Tristes Trópicos, 1955.)

Albert Camus (1913-1960), escritor.
“São Paulo e a noite que cai rapidamente, enquanto os letreiros luminosos se acendem um por um no topo dos arranha-céus espessos, enquanto das palmeiras-reais que se elevam entre os edifícios chega um canto ininterrupto, vindo dos milhares de pássaros que saúdam o fim do dia, encobrindo as buzinas graves que anunciam a volta dos homens de negócios. [...] A cidade de São Paulo, cidade estranha, Oran desmedida.” (Diário de Viagem, 1978.) Oran é um porto mediterrâneo argelino. Camus viajou pelo Brasil em 1949.

François Laplantine (1943) é antropólogo.
“Em São Paulo, tudo anda mais depressa e tudo é maior. [...] o excesso paulistano constitui ao mesmo tempo uma ruptura e uma continuidade em relação à obra dos primeiros conquistadores portugueses. Eles buscavam o Novo Mundo; os paulistanos o constroem com sua sensibilidade, que, para nós, pouco tem a ver coma delicadeza das rendas, mas opera dentro do gigantismo. Os franceses têm muita dificuldade para entender esse país que tem a dimensão de um continente e essa cidade que tem a dimensão de um país.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

Claude Olievenstein (1933-2008), psiquiatra.
“São Paulo já está alhures, em outros lugares, sob outras formas. São Paulo não é Nova York, mas, como Nova York, é a manhã de Paris, o hoje é já amanhã.” (Um olhar francês sobre São Paulo, 1993, Editora Brasiliense.)

 Praça João Mendes, 2011. Foto: Hilda P. Araújo.

          *Tradução: Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com.br. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DE ESTRASBURGO A MARSELHA

A beleza e a força da Marselhesa são indiscutíveis. (Há quem a considere sangrenta, mas não se fazem revoluções com meiguice.) Que ninguém se engane com o nome do hino francês. A Marselhesa não teve origem em Marselha, porto mediterrâneo, mas em Estrasburgo, no leste da França. O autor é Claude-Josephe Rouget de Lisle (1760-1836), um engenheiro militar nascido em Franche Comté que, nas horas vagas, compunha canções vendidas em Paris com sucesso.
          No auge da Revolução, a França declarou guerra à Áustria no dia 20 de abril de 1791, iniciando “a cruzada pela liberdade universal”, como dizia um dos líderes dos girondinos. Cinco dias depois, enquanto a guarnição de Estrasburgo preparava-se para partir para a guerra, nobres (sim), políticos e militares locais reuniram-se em um jantar regado a brindes e discursos belicosos. Nesse clima de entusiasmo alguém perguntou a de Lisle se ele não poderia compor uma canção que servisse de marcha patriótica para os soldados que partiam.
Lisle foi para casa e trabalhou durante toda a noite na composição do Chant de Guerre pour l’Armée du Rhin e pela manhã mostrou a obra ao barão Dietrich, prefeito da cidade, que a apresentou publicamente três dias depois. O compositor conseguiu um resultado brilhante, usando em seus versos invocações familiares, bélicas e patrióticas, que a música acompanha em nuances que variam do suave ao grandioso.
A música só se tornou um sucesso absoluto no ano seguinte, quando 500 voluntários marcharam de Marselha a Paris para defender a Revolução, cantando a canção de Lisle, que ficou desde então conhecida como ”la Marseillaise”, transformada em hino nacional em 1795. Entretanto, a marcha não escapou das artimanhas políticas e perdeu e reconquistou o status de hino várias vezes.
A Marselhesa, Arco do Triunfo, Paris, 8/05/2012.
Os revolucionários marselheses partiram da sede do Clube dos Jacobinos, que se tornou recentemente o Memorial da Marselhesa. A Rua Thubaneau, em Belsunce, em Marselha, está longe de ser um lugar agradável atualmente e o projeto faz parte da recuperação do bairro. O Memorial é dividido em várias salas, aonde diversos dispositivos multimídia permitem que o visitante faça uma viagem histórica, que culmina com a apresentação da canção revolucionária. Bela e arrepiante (assisti em 2012).
Rouget de Lisle salvou-se da guilhotina, no período do Terror, graças à composição. Mais tarde, quando Napoleão assumiu o poder, baniu o hino que só voltou a ser a reconhecido na Revolução de 1830 e até foi reorquestrado por Hector Berlioz. Napoleão III também aboliu a Marselhesa, que em 1879 voltou a ser reconhecida como o hino nacional francês.  
(Foto: H.P.P. Araújo.)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BRASIL FRANCÊS

França e Brasil têm uma história regada a batalhas e amores, consolidada por laços culturais. Antes que Pedro Álvares Cabral desembarcasse aqui, os franceses já frequentavam estas terras tropicais para extrair bateladas de pau-brasil. Enquanto espanhóis e portugueses, no século XVI, se dedicavam ao processo “civilizatório” dos nativos a partir da cristianização, os franceses (e os holandeses) se empenhavam em planos mais refinados.
Villegaignon,  Mural de Oswaldo Carvalho,
 Palácio de São Joaquim (RJ).
O primeiro começou a ser implantado em 1555, com a fundação da França Antártica na baía de Guanabara, onde desembarcaram André Thevet (1534-1611) e Nicolas Durant de Villegagnon (1510-1571). Uma demonstração do bom gosto francês. Thevet escreveu a “História de uma viagem feita à terra do Brasil”, que se tornou um sucesso editorial – em cem anos teve sete edições em francês e algumas em latim. Os tupinambás caíram de amores pelo charme francês. E os franceses, pelas nativas. Belas e liberais. Afinal, ao contrário dos portugueses que os escravizavam, os franceses os tratavam bem e logo formaram uma aliança que rendeu muitos embates para os lusitanos. 
O segundo plano foi a implantação em 1612 da França Equinocial, no Maranhão, e que resultou na fundação da cidade São Luís. A expedição francesa foi comandada por Daniel de La Touche. Mais uma vez a aventura rendeu boa literatura: os padres capuchinhos Claude d’Abeville e Yves d’Evreux escreveram dois livros importantes – o primeiro, “História dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas” e o segundo, “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614”.
É difícil imaginar que o Brasil deve muito a Napoleão Bonaparte (1769-1821). Quando as tropas francesas ameaçaram a soberania portuguesa, o príncipe João reuniu a corte e parte da real biblioteca portuguesa e, numa moderna arca de Noé, mudou de Lisboa para Salvador; porém, logo mudou para o Rio de Janeiro. Na solidão dos trópicos, ele se tornou rei: D. João VI. Com a queda de Napoleão, restabeleceram-se as relações comerciais com a França e por que não convidar um punhado de ilustres franceses para abrilhantar a corte?
Debret:
O grupo que desembarcou no Rio em março de 1816 era mais poderoso do que o encabeçado por Thevet e Villegagnon – vinha para conquistar corações e mentes. A missão francesa, organizada e chefiada por Joachim Lebreton (1760-1819), era composta pelos pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay e o filho Félix, ainda aprendiz; arquiteto Auguste Montigny e seus assessores Charles Lavasseur e Louis Ueier; escultor Auguste-Marie Taunay; músico Sigismund Neukomm; gravador Charles-Simon Pradier; mecânico François Ovide; ferreiro Jean-Baptiste Leve; serralheiro Nicolas Magliori Enout. Vieram também dois peleteiros – Pelite e Fabre; dois carpinteiros – Louis-Jean Roy e o filho Hypollite. Alguns meses depois vieram o escultor Marc Ferrez e o gravador Zéphyrin Ferrez. O resultado da missão francesa foi bastante positivo e teve reflexos na formação dos artistas brasileiros mais importantes dos anos que se seguiram.
No século XX, nova leva de franceses invadiria o Brasil, mais precisamente São Paulo. Em 1906 o governo paulista fez um acordo com a França para a reformulação da Força Pública, o que deu origem à Missão Militar Francesa de Instrução da Força Pública, comandada pelo coronel Paulo Balagny. O militar ministrou o primeiro curso de armeiro do estado, foi responsável pela introdução oficial no Brasil do boxe, esgrima e ginástica sueca. A missão atuou entre 1906 e 19014 e 1919 e 1924.
São Paulo perdeu a guerra Constitucionalista em 1932, mas venceu politicamente quando Vargas cedeu e indicou para presidência do estado Armando de Salles Oliveira que investiu na criação da Universidade de São Paulo (USP) porque, na percepção do grupo constitucionalista do qual ele fazia parte, o desenvolvimento seria alcançado por meio da educação. “De São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas, e, sim, 'uma revolução intelectual e científica', suscetível de mudar as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”, nas palavras de Sérgio Milliet (1898-1966). Assim, o governo paulista não investiu em projeto privado, mas público e, portanto, democrático.  A USP foi fundada em 1934.
Como desenvolver essa universidade? Mais uma vez a inspiração foi a França de onde vieram o etnógrafo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), o historiador Fernand Braudel (1902-1995) e o sociólogo Roger Bastide (1898-1974), responsáveis pela formação de grandes pesquisadores, professores e intelectuais brasileiros. A USP, atualmente, é a mais importante universidade do país.
Mas foi em meados do século passado que um francês alto e narigudo deixou os brasileiros bem aborrecidos. Tudo começou em 1961, quando barcos pesqueiros franceses invadiram águas territoriais brasileiras em busca de lagostas, gerando um incidente internacional. Franceses e brasileiros indignados. Os dois países mobilizaram suas forças navais, o presidente Charles de Gaulle (1890-1970) empinou o nariz e decretou que “o Brasil não é um país sério”. E logo apareceu “A Marcha da Lagosta”, uma paródia do hino francês:

Larga esta lagosta
Deixa de areia
Senão vai dar coisa feia
Faço uma proposta pra você (pour quoi?)
Faço um acordo de irmão
Traga uma francesa pra mim
E leve tudo, leve até o camarão.

Outra paródia:

Você pensa que lagosta é peixe?
Lagosta não é peixe, não!
Peixe é bicho que nada,
Crustáceo não nada, não!
Pode faltar tudo ao brasileiro:
Arroz, feijão e pão.
Mas a lagosta é nossa,
De Gaulle não bota a mão.
Pode mandar vaso de guerra,
Disto até acho graça:
Por causa da lagosta,
Até eu vou sentar praça.

A imprensa tratou de criar a famosa guerra da lagosta, que na verdade nunca houve.
Et vive la France! E viva o Brasil!

 Semana francesa.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

UM COPO DE VINHO

Como lembrar a França sem mencionar o vinho, bebida que faz parte do cotidiano do povo? Em Paris há pelo menos dois lugares onde se pode aprender muito sobre a bebida: Musée du Vin (5 Rue des Eaux - Square Charles Dickens) e Les Caves du Louvre (2 Rue de l’Arbre Sec, 1er arrondissement).
Fui ao Museu do Vinho de Paris em 2010. Há um ingresso que dá direito a um copo de vinho. É possível também ir para o almoço, servido das 12h às 15h de terça a sábado. O Museu, próximo à Estação Passy do metrô, ocupa o prédio que abrigou o Convento da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, construído no século XV com o apoio da rainha Anne da Bretanha, mulher do Rei Luis XI. O convento era cercado por jardins, pomares e vinhas que  cobriam a colina descendo até rio Sena. Os frades produziam um vinho tinto saboroso. Bom o bastante para que o rei fizesse uma parada no convento para bebê-lo, quando retornava da caça no Bois Boulogne. As três salas abobadas, que abrigam o museu, eram usadas pelos religiosos para armazenar o vinho. Dessa época restou apenas o nome das ruas próximas – Rue Vineuse e Rue du Vin.
          Havia outro atrativo na região: as águas de Passy. Ferruginosas e laxativas, elas estiveram em moda no século XVII, e foram exploradas até o II Império, atraindo burgueses e nobres, artistas e intelectuais. O único vestígio desse tempo é o nome da rua (Rue des Eaux) onde se localiza o Museu e o poço em frente ao prédio.
Com a Revolução Francesa, o convento de Passy foi abandonado e destruído; a área reurbanizada é, atualmente, um bairro tranquilo, com forte presença islâmica. No século passado, as galerias foram utilizadas como cave pelo restaurante da Torre Eiffel. O Museu foi criado pelo Conseil des Echansons de France, uma confraria fundada em 1954 e um dos principais objetivos é cuidar das tradições relacionadas ao vinho francês. 

As galerias do convento foram escavadas na parte inferior de antigas pedreiras de calcário, exploradas entre os séculos XIII e XVIII para fornecer as pedras usadas na construção de Paris.  O visitante envereda pela história do vinho desde a mitologia greco-romana e conhece melhor a arte da vinicultura francesa, começando pelo vinicultor, passando pela vindima até os diversos tipos de vinho produzidos na França. Lá estão relacionados vendedores e consumidores, famosos ou anônimos.
O cientista Louis Pasteur (1822-1895) deu sua contribuição à vinicultura, com pesquisa para combater uma doença que atacou as vinhas francesas. O vinho preferido de Napoleão Bonaparte era o Chambertin. Com dezenas de ditos populares, quase sempre vinculando santos e meteorologia ao vinho, é possível avaliar a forte presença da bebida na cultura do país.
Na II Guerra Mundial, entre julho de 1942 e fevereiro de 1943, os alemães compraram cerca de dez milhões de garrafas de vinho no mercado negro, usando marcos supervalorizados. O governo de Vichy, seriamente preocupado com a situação, assumiu o controle de tudo que se relacionava com o comércio do vinho; porém, a medida, além de irritar os produtores, aumentou o mercado negro.
Os vinicultores também fizeram sua guerra para preservação do melhor vinho, emparedando parte das caves ou destinando aos alemães produtos inferiores. O champagne destinado ao inimigo tinha no rótulo o aviso: Reservado para a Wehrmacht.  

E para terminar com bom humor duas quadras de autores desconhecidos.

CLIENT, MON AMI.

Souviens-toi que quatre verres font un litre, et deux litres font une tournée.
Deux tournées une discussion, et une discussion une querelle.
Une querelle, une bataille, et une bataille deux gendarmes.
Une juge de paix, un greffier, un huissier, font une amende ou quelques jour de prison, plus le frais.
Les frais mènent à la ruine, la ruine mène au suicide, le suicide mène à la mort.
La mort cause des veuves joyeuses, et des belles mères en joie.
A part cela, viens ici,
bois modérèment,
paie honorablement,
pars amicalement.
Rentrez chez toi tranquillement
et fais une tendre bise à ta femme
en pensant à celle des autres
.
    
PRIÈRE DU BORDELAIS
Mon Dieu,
Donnez moi la santé pour longtemps
De l'amour de temps en temps
Du boulot, pas trop souvent
Mais du bordeaux tout les temps.

 (Foto: site do Museu.)

Semana francesa.

terça-feira, 11 de julho de 2017

LE PONT ST. BÉNÉZET
Quem diria que um dia eu ainda iria conhecer a Pont St. Bénézet, nome oficial da célebre Pont d’Avignon cuja existência descobri nas aulas de francês do Liceu Feminino Santista... Nossa professora, Anne Marie Louise, era uma senhora alta de cabelos grisalhos e dona de olhos verdes perfurantes, capazes de ler o mais recôndito pensamento das alunas. Bem, pelo menos eu achava que podiam. Usava com maestria o sarcasmo para mostrar-nos a desaprovação à indisciplina ou ao desleixo nos estudos ou mesmo com a aparência.
Minha primeira professora de francês. Houve mais dois mestres – uma professora no Colégio Canadá e um professor particular; entretanto, Dona Anne Marie foi inigualável. Se os cadernos se perderam ao longo dos anos, os livros de Irma Aragonez Forjaz estão bem guardados no armário, amarelecidos pelo tempo e um deles me diz que foi em 1959 que ouvi falar pela primeira vez da Ponte de Avignon. Lá está o refrão de “Sur le pont d’Avignon”, música que  remonta ao século XV: 

Sur le pont d'Avignon,
L’ on y danse, l’on y danse
Sur le pont d'Avignon
L’ on y danse tout en rond.


O que ela nunca nos disse é que ninguém dançava sobre a ponte, que foi construída no século XII e tinha cerca de 900m de extensão e 22 arcos. Uma enchente do rio Rhône (Ródano) em 1660 destruiu praticamente toda a ponte, deixando apenas quatro arcos.  É uma visão estranha: uma ponte que não leva a lugar nenhum. Certamente, é encantadora.
Pont St. Bénézet ou D"Avignon. Foto: Hilda Araújo, 2012.



Avignon, conhecida como a cidade dos Papas, fica perto de Marselha. No século XIV era propriedade do rei de Nápoles. Quando o Papa Clemente V lá se instalou em 1309, a igreja católica passava por uma grande crise de poder que se estendeu até 1377, ano em que Roma voltou a ser sede da igreja. Nesse período, Avignon foi residência de sete papas: Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI, Urbano V, Gregório XI e Bento XIII.




Para sede da igreja foi construído um palácio em estilo gótico entre 1335 e 1364; em 1348, o Papa Clemente VI comprou a cidade, que permaneceu propriedade da igreja até 1791, quando foi incorporada à França. O Palácio dos Papas sobreviveu às turbulências políticas francesas e tornou-se um belo museu. O centro histórico da cidade faz parte do patrimônio mundial da UNESCO desde 1995. 
Assim, a visita a Avignon em 2012 foi também uma boa lembrança da adolescência e de uma ótima professora. 

O livro de francês, 1959.















Semana francesa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O ABAJUR LILÁS

Francês já foi a língua estrangeira mais falada no Brasil e só foi suplantada pelo inglês após a II Guerra, quando a predominância norte-americana se estabeleceu no Ocidente. Falar francês era elegante e os galicismos se infiltraram no Português, enlouquecendo professores como Dona Zulmira Campos (Liceu Feminino Santista), que os varria das redações com sua assustadora caneta vermelha.

Vamos galicismar:

Madama depois de fazer a maquilagem – batom vermelho vivo e um toque de ruge nas bochechas – vestiu o tailleur marrom, depois apanhou o mantô para enfrentar o frio incomum. Sonhou por um momento com o calor e se lembrou do maiô que vislumbrara em uma vitrina meses atrás. Toalete completa. Antes de sair desligou o abajur. O chofer, encostado ao chassi do carro, a esperava junto à porta do chalé.

Dona Zulmira teria me dado zero, depois de uma descompostura. A garota teimosa poderia ter continuado a descrição.

O destino de madama era um cabaré ou boate, onde sonhava saborear um champanhe, aproveitar o bufê e flertar com o aviador de brevê novo e pincenê antigo, muito chique em seu paletó de percalina, que ela conhecera dias antes. O garçom a receberia com um buquê de rosas e a levaria para a mesa especial de onde poderia admirar a cantora que fazia jus ao cachê e à corbelha com que era saudada ao fim de cada apresentação.

A essa altura a mestra teria realmente desmaiado – tanto pelos galicismos quanto pelo cabaré, ambiente pouco recomendado para adolescentes. Ao se recuperar, certamente, enviaria a fedelha para a diretoria, recomendando uma séria conversa com os responsáveis. Dona Zulmira costumava verificar todos os dias a lição de casa das garotas, que abriam os cadernos sobre as carteiras para ela colocar o visto enquanto ia dizendo que seus olhos sempre batiam nos erros. Ameaça apavorante para todas. Foi uma ótima professora. Hoje estaria assombrada com os anglicanismos que invadem a vida de todos nós...

(Semana francesa.)

domingo, 9 de julho de 2017

SÃO PAULO, NOVE DE JULHO.
Marcha, soldado paulista,
Marca o teu passo na história!
Deixa na terra uma pista:
Deixa um rastilho de glória!
Vê, soldado, que grande tu és!
Tua terra se atira aos teus pés!*

“Não se trata de um movimento separatista como caluniosamente propalam, e São Paulo jamais cogitou de quebrar a integridade nacional. Está de pé pelo Brasil unido e com o Brasil.” Pedro de Toledo. Entretanto, é verdade que houve um grupo radical que propôs a separação, mas a ideia não foi sequer considerada pela liderança do movimento. Para os céticos: basta observar que o Brasil nunca deixou a bandeira paulista.

*CANÇÃO do Soldado Constitucionalista, de Guilherme de ALMEIDA.

terça-feira, 4 de julho de 2017

E ASSIM FOI...
Redação: em busca de notícia em plantão de domingo (1972).
O jornal CIDADE DE SANTOS circulou pela primeira vez há 50 anos. No dia 1º de julho de 1967, a cidade ganhou um grande presente de Carlos Caldeira Filho (1913- 1993) que, mais tarde, se tornaria prefeito nomeado de Santos por um curto período. Fiz uma breve história do jornal, que encerrou suas atividades no dia 15 de setembro de 1987, a partir do depoimento do jornalista Antonio Ággio Jr., que foi responsável pela implantação do periódico. A história foi contada ao jornalista Rubens Fortes ERRE, que fez um belo trabalho reunindo histórias daqueles vinte anos.  A memória falha e prega peças, por isso é possível que faltem nomes na lista de funcionários, mas basta acrescentá-los.
Ao longo dessas duas décadas o CIDADE DE SANTOS acompanhou (como A TRIBUNA) os momentos críticos que a cidade e o país vivenciaram e que resultaram na perda de autonomia de Santos e Cubatão em 1968 até 1984 quando se realizaram eleições novamente. Como muito bem disse o ERRE em A TOCA (8/2/2000* – póstuma segundo ele): “quando o povo não tinha a arma do voto, tinha a arma do CIDADE. Agora tem o voto, mas não tem o CIDADE”. As portas do jornal estavam abertas para todos e os repórteres das diversas editorias, sempre disponíveis para ouvir as reclamações (GERAL/SINDICATO), as reivindicações (BAIRROS), os sonhos e decepções (A PESSOA). O ESPORTE encontrou grande apoio no jornal, que promoveu campeonatos de futebol de várzea e dente de leite agitando os fins de semana na praia ou na periferia. Era sempre possível saber do movimento do Porto – idas e vindas de navios, cargas e descargas, encalhes, incêndios e o que mais por lá houvesse. O SAMBA tinha voz na pena do colaborador J. Muniz Jr. (LORDE BATUCADA), que entre um carnaval e outro pesquisava a história da região. Ao folhear as páginas de VARIEDADES observa-se A agitada vida cultural da cidade – onde não faltavam os festivais de teatro e cinema. À editoria de POLÍCIA cabia mostrar com tintas fortes o lado marginal da cidade que assistia à agonia da famosa Boca do Lixo, que Plínio Marcos tão bem retratou em sua obra... E assim “la nave va”... Tudo tem seu tempo e o do jornal CIDADE DE SANTOS passou. Deixou saudade, sim, mas a vida continua. Os tempos são outros. C’est la vie... 
            (Texto publicado no Facebook no dia 1º de julho.)

ÁLBUM de fotos pessoais do que trabalhei no jornal CIDADE DE SANTOS - 1970/1977 e 1984-1987).

Abaixo, algumas fotos do período em que trabalhei no CIDADE DE SANTOS. A foca que entrevistou Leila Diniz até a fase mais experiente com o ator norte-americano, que viajava no Queen Elizabeth.
             
Entrevistando Leila Diniz na praia
 do Gonzaga, 1970 (Santos).
 
Enchente no Vale do Ribeira, 1970.

        
Porto de Santos: entrevista com Vincent Prince (1911-1993),
que desembarcara do Queen Elizabeth. 1985.
E o palhaço o que é? O circo chegou à cidade e o palhaço 
foi ao jornal falar do programa sem marmelada. Talvez 1972... 


segunda-feira, 3 de julho de 2017


GALERIA
MEMÓRIAS DO JORNAL CIDADE DE SANTOS

O diário santista  circulou de 1º de julho de 1967 a 15 de setembro de 1987. 






  
                                             

Athié Jorge Coury (1904-1992) foi jogador de futebol, presidente do Santos Futebol Clube e deputado federal.  

Cobertura do incêndio na Vila São José em Cubatão recebeu prêmio "Saturnino de Brito", concedido pela SABESP. Jornal noticiou os riscos alguns anos antes. 

  
 


sábado, 1 de julho de 2017


SANTOS, 1º DE JULHO DE 1967.

Há 50 anos Santos (SP) ganhava um presente especial: o jornal CIDADE DE SANTOS. O novo diário trouxe na primeira edição um histórico do município e seus vizinhos queridos. Uma edição com 104 páginas (oito cadernos), que frustrou o leitor do dia seguinte, quando foi para as bancas com um número de páginas bem menor, porém não menos instigantes.
Santos teve dois jornais com o título CIDADE DE SANTOS. O primeiro foi fundado no início do século XX e teve vida curta; o segundo circulou entre 1º de julho de 1967 e 15 de setembro de 1987 e foi editado pela FOLHA DA MANHÃ S.A., propriedade dos empresários Otávio Frias (1912-2007) e Carlos Caldeira Filho (1913- 1993). O jornal CIDADE DE SANTOS surgiu em um momento conturbado do país; contribuiu para o rejuvenescimento do jornalismo santista e se caracterizou pela combatividade e incomodou bastante certos círculos. Teve uma história rica e foi um inovador em tecnologia e ocupou um lugar importante na história da Baixada Santista.
O COMEÇO. Em 1967 éramos quase 96 milhões de brasileiros sob a ditadura militar. O Brasil estava sob o comando do general Artur Costa e Silva (1899-1969). À frente do Estado de São Paulo encontrava-se o governador indicado Roberto Costa de Abreu Sodré (1917-1999). O município de Santos tinha 345.630 habitantes. O prefeito era Sílvio Fernandes Lopes (1924-2005) e Álvaro Fontes (1922-1995) presidia a Câmara (19ª Legislatura). A Diocese estava sob o manto de D. David Picão (1923-2009). O mundo dividia-se entre a Guerra Fria e a Guerra (quentíssima) do Vietnã.
Nesse ano Antonio Ággio Jr. era repórter especial da FOLHA DE S. PAULO, então sob o comando do jornalista Cláudio Abramo (1923-1987). Entre os repórteres daquela folha destacava-se Paulo Sérgio Freddi. “Pastor da Igreja Presbiteriana, Freddi era imbatível na elaboração das ‘matérias humanas’ então em moda”, afirma Ággio Jr. Em janeiro daquele ano, Otávio Frias pediu-lhe para organizar uma equipe destinada a preparar um “presente-surpresa” para o sócio, Carlos Caldeira Filho cujo sonho era fazer um jornal em sua cidade natal: Santos.
Freddi, que sabia do carinho e admiração de Ággio Jr. por Caldeira, convidou-o para o projeto. Ággio Jr. aceitou e chamou para a aventura Lenine Severino, amigo e parceiro de grandes reportagens. Lenine trabalhara em O ESTADO DE S. PAULO com Abramo e mudara para o grupo FOLHA, no final da década de 1950.
“Lenine era um pouco mais velho, porém, muito mais sábio e corajoso do que eu. Excedia as obrigações de sua função de repórter de fotográfico, pois ajudava os parceiros de reportagem em campo e na redação das matérias. Era o meu alter ego.” Ággio Jr. conta que Lenine, como em tudo o que fez na vida, entregou-se ao projeto CIDADE DE SANTOS de corpo e alma. “Não tenho dúvida de que suas ideias superaram as minhas e as do Freddi sob vários aspectos e as reforçaram em outros. Sinceramente, eu não iria para Santos sem ele.”
Com o apoio de Cláudio Abramo o triunvirato (Freddi, Lenine e Ággio Jr.) abriu um voluntariado na redação da FOLHA DE S. PAULO para quem se interessasse em participar da criação do novo jornal em Santos. O processo deveria ser sigiloso para não estragar a surpresa de aniversário de Carlos Caldeira. Ou seja, o jornal tinha data marcada para circular: 1º de julho.  Segredo de Polichinelo.

Os primeiros voluntários e os jornalistas que, em seguida, por eles foram convidados ou indicados, eram de São Paulo. “O nome principal foi HORLEY ANTÔNIO DESTRO, homem de banca, tarimbado em redação, copidesque e diagramação. Um verdadeiro mestre em editoria gráfica, com os pés no chão” – conta Ággio Jr. Do núcleo-base participaram JOÃO CARLOS MARADEI, ARLINDO PIVA, ALCI DE SOUZA, FRATERNO VIEIRA, MARINO MARADEI, ANTÔNIO CARLOS SCHIAVETTO, NORIVALDO PIDONE, ROBERTO SOMOGYL, ANTÔNIO UBALDINO, EDUARDO LEITE, ALCIDES DE MOURA TORRES.
  Fraterno Vieira aceitou imediatamente o convite para participar da equipe do jornal CIDADE DE SANTOS. Liderava um grupo integrado por OLAVO DE CARVALHO (aquele mesmo), ADILSON AUGUSTO (“Brasinha”) e ROCO BONFIGLIO. “Defendia uma linha editorial que priorizava o aspecto gráfico através do uso e abuso de espaços em branco para destacar textos e ilustrações. Esse canto de sereia privilegiava a aparência em detrimento do conteúdo. Mas, o que fazer? Era moda, inventada pelo Murilo Felisberto quando trocou a FOLHA pelo JORNAL DA TARDE. Se desse certo, influenciaria a FOLHA DE S. PAULO. Assim, o destino do jornal CIDADE de SANTOS estava traçado como palco de experimentos que, exceto aquele, deram certo e foram usurpados pela Folhona para enriquecer a sua história oficial”, afirma Ággio Jr.
Os participantes da aventura seguiram para Santos entre fevereiro e maio, instalando o quartel general na sucursal da FOLHA, na Rua do Comércio, 32, onde atuavam JOSÉ ALBERTO DE MORAES ALVES BLANDY, EROM BRUM, CARLOS ALBERTO MANENTE, ANTÔNIO MASCARO e ITAMAR MIRANDA, personagens fundamentais para o projeto. EGYDIO ALIBERTI COSTA, dono de uma loja de automóveis e amigo de Blandy, conseguiu que o Sindicato dos Trabalhadores em Distribuidores de Frutas emprestasse o auditório para reuniões de trabalho dos jornalistas.
Em junho Caldeira parou de fingir que ignorava o que se passava na empresa e assumiu parte do projeto, o que foi importante porque ele era santista e conhecia muito bem a Baixada. Ággio Jr. conta que Otávio Frias não gostou da quebra do “sigilo”.  
À medida que se idealizava o novo jornal, se estabeleciam a área administrativa e comercial. PAULO VERGARA foi um dos nomes indicados por Caldeira e, embora inicialmente sem cargo, tornou-se mais tarde diretor da publicação. Ággio Jr. cita Severin, muito competente na área administrativa; entretanto, ela deixou a empresa antes de o jornal ser lançado.
Os diretores de Publicidade e Circulação escolhidos foram CARLOS EDUARDO DE SOUZA PIRES e ADOLFO DIAS DE BARROS, profissionais que se destacaram na função. Entre os contatos e corretores de publicidade destacava-se CARLOS AUGUSTO CALDEIRA, meio irmão de Carlos Caldeira Filho. Adolfo comandava a distribuição dos jornais da empresa pela Baixada Santista e Litoral Sul. Formaram ótimas equipes e contribuíram para transformar o jornal CIDADE DE SANTOS rapidamente numa grande família (e como em toda família teve desentendimentos também).
Nos meses que antecederam o lançamento do diário reuniram-se ao grupo paulistano (por assim dizer) REINALDO MUNIZ, ALCÍDIO LIMA BARBOSA e FRANCISCO SANCHEZ FILHO (“Chiquinho”) entre outros.
Em maio de 1967, Lenine montou o Departamento Fotográfico, com os laboratoristas de São Paulo e os fotógrafos contratados ou já atuantes na Sucursal – ITAMAR MIRANDA, FRANCISCO RUBIO PACO, YASUO KINJO, TATEO IKURA E JOSÉ ESCANDON. Simultaneamente Eduardo Leite e ERASMO LUNA (também da Sucursal) organizavam o Arquivo nos moldes modernos praticados na FOLHA.
Dois meses antes do lançamento do jornal realizaram-se testes de seleção entre estudantes de jornalismo e de Direito. Ággio Jr. conta que a maioria não tinha ideia de como funcionava um jornal.
Nas duas fotos abaixo, Alci, Sampaio e Vergara com o gov. Laudo Natel na redação. No Natal de 1971, a equipe já tem como editor-chefe José Alberto Blandy.  


Plantão de domingo na Redação do jornal. 


NOTÍCIAS VOAM PELAS RODOVIAS
Se as redações de jornal caracterizam-se pela corrida contra o tempo – coletar informação, redigir, preparar e enviar para a oficina (gráfica), imprimir, distribuir e chegar à banca com o novo dia – como um jornal poderia ser produzido em uma cidade, impresso em outra e voltar a tempo de competir com publicação local? Este talvez tenha sido o desafio maior para todos os envolvidos na criação do novo diário.
O plano montado funcionou perfeitamente nos vinte anos de existência do jornal. Uma equipe de repórteres e copies produzia uma parte do material até 13 horas e um carro levava o malote para São Paulo por volta das 14 horas. A produção da equipe da tarde era levada para a redação paulistana pelo malote das 20 horas. Após um acidente grave na Via Anchieta, por um período esse serviço foi feito pela empresa Expresso Luxo, vizinha do jornal, que fazia o transporte de passageiros e de encomendas entre Santos e São Paulo em automóveis modernos em 40 minutos! A maior parte do frete era coberta com permuta de publicidade, graças a um acordo obtido por Caldeira.
A empresa FOLHA DA MANHÃ mantinha em Santos uma grande frota de veículos para a distribuição dos jornais do grupo no Litoral Paulista. Caminhões partiam de São Paulo de madrugada com as edições da Folha de S. Paulo, Notícias Populares, Gazeta Esportiva, Ultima Hora e CIDADE DE SANTOS e retornavam para a Capital com o encalhe. Os jornais eram descarregados na Rua do Comércio de manhã bem cedo e distribuídos por outros veículos que zarpavam para o Litoral Sul, Guarujá e Bertioga a toda velocidade. Tornaram-se famosos os carros amarelos da FOLHA DE S. PAULO e do CIDADE DE SANTOS que cruzavam as estradas do estado de São Paulo.
Fundamental nesse esquema diário de ganhar tempo eram a telefoto e o telex. Fotografias urgentes eram passadas para São Paulo por linhas telefônicas – num aparelho precursor do fax – num processo demorado. O telex começava a funcionar no início da tarde, transmitindo matérias para a secretaria paulistana, que funcionava a partir das 18 horas com um pequeno, mas importante, time: secretário, subsecretário, diagramadores, copies e office-boys. Cabia ao grupo preparar as páginas nacional e internacional, e acompanhar o fechamento do jornal junto à gráfica.
OFFSET DE PRIMEIRA
Em matéria de tecnologia, o jornal CIDADE DE SANTOS foi privilegiado. Com a decisão dos proprietários do grupo FOLHA de rodar o jornal em São Paulo, o novo diário dispôs do que havia de melhor em tecnologia de comunicação. No complexo da Alameda Barão de Limeira, 425 (Campos Elíseos), na Foto-mecânica, destacavam-se as rotativas GOSS URBANITE compradas nos Estados Unidos com financiamento do programa “Aliança para o Progresso”. Com elas o CIDADE DE SANTOS tornou-se o primeiro jornal brasileiro em offset. Na década de 1970, as GOSS URBANITE passaram a rodar ao lado da GOSS METROPOLITAN, última palavra no gênero offset. “Era fenomenal. Ela foi importada e a FOLHA DA TARDE teve a honra de estrear. Eram máquinas sem similar no Brasil, capazes de imprimir com excelência centenas de páginas em cores ao mesmo tempo” diz Ággio Jr.
O CIDADE DE SANTOS estreou a revolucionária “composição a frio” e, na década de 1970, seguiu a FOLHA DA TARDE na informatização da redação com os terminais de grandes “mainframes” importados.
No início de junho de 1967, o quadro de funcionários estava completo. JOÃO SAMPAIO DE MOREIRA NETO (“João Gordo”) fora selecionado nos testes coletivos. Apesar de recém-saído da Faculdade de Comunicações, era excelente e foi escolhido para a editoria de Política. O primeiro Secretário de Redação foi Fraterno Vieira, que teve carta branca para praticar suas concepções gráficas inovadoras.
Contrário a pautas por considerar uma camisa de força, Ággio Jr. conta que sugeriu dezenas de temas de reportagem. “Eram ideias e indicações simples, que a minha vivência profissional me permitia dar.” A equipe começou a preparar a edição inaugural. “Não lembro bem quantas páginas rendeu, mas foi inacreditável para uma equipe que, um mês antes, ouvira explicações até sobre o que era uma lauda.” As matérias locais foram elaboradas em Santos, enquanto as nacionais e internacionais correram por conta da Secretaria de São Paulo, graças à Agência Folha, Associated Press (AP), United Press International (UPI) e France Presse (AFP) e mais tarde a Reuters. “Custavam uma fortuna” – comenta Ággio Jr.
Textos e fotos (Geral e Porto) eram entregues à Chefia da Reportagem e aos editores de seções (Sindical, Esportes, Polícia, Variedades). Na Secretaria, o material passava pela copidescagem (norma: textos curtos e objetivos) e em seguida ia para a diagramação na banca integrada pelo Horley.
 “Depois de apenas 30 dias e sem rodar sequer um número zero, conseguimos por nas ruas a primeira edição do jornal CIDADE DE SANTOS.” A foto aérea da primeira página mostrava a orla da praia a partir da Ponta da Praia com a legenda: “Você está acostumado a ver Santos como nesta foto. Mas a partir de hoje vamos mostrá-la de todos os ângulos.” O exemplar custava NCR$ 0,15 ou Cr$150. Ággio Jr. não se lembra da tiragem, mas a venda foi um recorde superado apenas na edição de 1.º aniversário.
Ággio Jr. e Freddi com Esmeraldo Taquínio.