Quando
cheguei ao ponto de ônibus, com os pés pedindo descanso, no banco já havia uma
senhora muito elegante, tanto na postura quanto no vestir. Ela procurava algo
na bolsa, provavelmente, o isqueiro para acender o cigarro que segurava numa
das mãos. Havia umas pessoas no outro banco e espaço para mais uma, mas preferi
ficar ao lado da fumante. Antes que ela desistisse de fumar, avisei que não me
importaria nem um pouco com o cigarro: “Não fumei, mas por décadas fui fumante
passiva”. Ela sorriu polidamente e logo estava me contando as desventuras com o
dentista que desmarcara a consulta, quando ela estava a caminho do consultório,
com a tempestade que a surpreendera no Largo Ana Rosa e o pânico que sentiu com
a multidão no metrô.
Ela
era magrinha, falava pausadamente e baixinho. Foi contando aos poucos alguns
fatos dos 82 anos de vida que ela dedicou à música – sua primeira grande paixão,
o que levou a casar-se tardiamente. Foi feliz com as duas paixões. Tocou em grandes orquestras de São Paulo. Perguntei se
era pianista. Não, harpista. E já fui confessando que doro harpa, um instrumento elegante e delicado. E complementei lamentando que nem sempre ela fizesse parte do repertório das orquestras. Essa ausência, explicou-me ela, ocorre nos repertórios anteriores ao
século dezenove, pois foi só em 1810 que sete pedais foram introduzidos na
harpa, permitindo que ela abrangesse todas as tonalidades maiores e menores e
assim passasse a fazer parte das orquestras modernas. Fiquei sabendo também que
a harpa era o instrumento musical preferido da rainha Maria Antonieta (1755-1793),
da França, que também tocava cravo.
De
repente me dei conta de estava em plena Avenida Bernardino de Campos, num final
de tarde nublada, ouvindo a história da harpa, um dos instrumentos mais antigos
de que se tem notícia. E agora me ocorreu que aquela senhora combinava com a
harpa.
Meu ônibus chegou🚌. “Foi um grande prazer conversar com a senhora.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário