terça-feira, 26 de janeiro de 2016

SANTOS, 470 ANOS.
                                 Santos vista do Monte Serrat. Foto: Hilda Araújo.

O português Brás Cubas, que chegou à Ilha de São Vicente muito jovem, trabalhou arduamente – plantou cana, construiu curtume e engenho, mas enxergou mais longe e com os homens que confiaram nele mudou o porto para o lado próximo do continente e acreditou que um hospital seria importante para todos – habitantes e visitantes. Que a obra foi importante, ninguém duvida: 470 anos depois o Porto e a Santa Casa de Misericórdia estão em pleno funcionamento. É certo que amou Santos porque retornou a Portugal apenas uma vez para concluir negócios e, apesar de ter ficado muito rico, nunca mais voltou. Santos é assim: conquista as pessoas.

    E para terminar, Fernando Pessoa.

ODE MARÍTIMA

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a
Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.


Poesias de Álvaro de Campos, in Fernando Pessoa/ Obra Poética.