segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SANTOS, 9 DE JANEIRO DE 1967.

          Foi mais um dia de verão ardente em Santos. Morávamos na Rua da Constituição, na Vila Nova. A tarde terminara com um jantar simples – apenas eu e minha avó. Às vezes, como naquela noite de domingo, aparecia Dona Henriqueta, amiga de longos anos, que morava na Rua Marechal Pego Júnior. Elas conversavam sobre os problemas domésticos; se fosse durante a semana, assistiam a alguma novela (acho que era “Angústia de Amar”, de Dora Cavalcanti, com Eva Vilma) ou nos domingos, como aquele, se entretinham com o programa da moda, enquanto se abanavam loucamente com seus leques coloridos.
Depois de passar mais uma tarde folheando os livros para o vestibular, eu ficava por perto e quando o programa terminava servia um café passado na hora com alguma coisa gostosa – uma fatia de bolo, alguma bolacha especial... Como sempre Dona Henriqueta se despediu por volta das 22 horas. Voltava a pé para casa que era grande como a nossa e com um quintal por onde circulavam cães, galos e galinhas amigavelmente. Vivia sozinha. A filha, o genro e os netos adolescentes moravam na praia.
           Minha avó recolheu seus badulaques – leque, crochê, livro de rezas... Hora de dormir. Teria sido mais uma noite que se perderia na memória, mas acordamos com um estrondo terrível que nos envolveu, sacudiu a casa. Foi tudo rápido – trovão? Mas logo em seguida (ou simultaneamente?) algo caiu sobre minha cama. O lustre! Então, o que acontecia? Fui para o quarto de minha avó. Ela já está de pé e se dirigia para as janelas que se abriram com a explosão e juntas espiamos a rua e à direita vimos o céu tingido de vermelho. “O Gasômetro?” – perguntou sem se preocupar com resposta, pois eu não fazia ideia do que poderia ter acontecido. Em minutos a rua estava cheia de gente que andava rapidamente, corria, gritava, chorava e falava sem parar. Muitos de pijama, outros com roupas de baixo e jamais vou me esquecer do homem enrolado na cortina do boxe.
          Não havia energia. No escuro tentei avaliar o que ocorrera. Havia vidro por todos os lados. Desci até a garagem. A porta de entrada estava deslocada e só não fora arrombada pelo impacto da explosão por causa da tranca de ferro que a protegia já que não se confiava nas fechaduras.
          Lembro que em meio de todo aquele caos resolvemos fazer um cafezinho e, munidas de vela, procuramos na despensa uma espiriteira para acender o fogo, pois a partir daquele dia não teríamos mais gás de rua...
          O Reservatório de Gás da Cidade de Santos – Serviços de Eletricidade e Gás S/A, composto de cinco tanques com capacidade de 1.658 m³ cada um, explodiu às três horas e três minutos do dia 9 de janeiro de 1967, destruindo dezenas de casas e danificando centenas de imóveis da vizinhança. O gasômetro ficava na Rua Marechal Pego Júnior, 114. A explosão teria sido causada por um conjunto de fatores: um cabo de alta tensão, uma faísca e um vazamento de gás causado por falta de manutenção. O resultado final: cerca de trezentos feridos. Surpreendentemente, não houve relato de mortes. O prédio do Comando da Artilharia de Costa e Antiaérea da 2ª Região Militar (CACAAe/2), na Avenida Conselheiro Nébias, 210, teve as estruturas abaladas e posteriormente foi demolido.
Dona Henriqueta sobreviveu, mas perdeu a casa e foi morar com a filha na orla da praia. Nós perdemos a visita agradável daquela senhora de cabelos branquinhos que sempre tinha uma história divertida do seu dia a dia. 




Fotos: José Dias Herrera, A Tribuna. 
http://www.novomilenio.inf.br/santos