quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SORRISOS

“E a minha alma alegra-se com seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.” Mote atribuído a Fernando Pessoa (1888-1935).


Meu amigo João Sampaio, que se foi há muitos anos, me presenteou no Natal de 1970 com um livro que nunca li, mas a dedicatória era sobre a importância do sorriso. Minha timidez era notória e a sisudez, uma forma de afastar as pessoas. Aos poucos fui mudando meu comportamento, sem mudar minha personalidade e, no anoitecer da vida, tenho distribuído alguns sorrisos ao longo da caminhada.

Chama-se Gianni. Quando as pessoas embarcam no veículo que ele conduz são recebidas com um bom dia e um sorriso. Se houver chance, logo inicia uma conversa animada e respeitosa. Pode ser sobre as compras que uma senhora fez na feira, o cardápio do almoço de outra ou o drama de um senhor cuja esposa está muito doente. Tudo isso com os olhos atentos no trânsito. Como durante algum tempo fazia o horário em que eu vou ao SESC do Carmo, várias vezes por sugestão dele, saí acompanhando outras passageiras que iam para o mesmo lado. Certa manhã uma passageira ao descer repetiu o que eu já havia dito a ele uma vez – seu bom dia, sorriso e seu entusiasmo melhoram o dia das pessoas. O posto do cobrador em geral é variável, mas seus companheiros de jornada, como Oscar e Caio, são geralmente silenciosos, mas sempre muito atenciosos.

Na mesma linha 408 A - 10, no horário noturno, viajei algumas vezes com Thiago, um jovem motorista que tem um comportamento bem parecido. A conversa começou por causa de um novo restaurante coreano no bairro, evoluiu para comida com fartos elogios para as refeições que a avó prepara, ressaltando que a da mãe era muito boa. Ao descer comentei que ia fazer a caminhada noturna no centro. Muitos dias depois à tarde, quando subi no ônibus distraída, o motorista perguntou se eu ia passear e então o reconheci. A conversa incluía a outra senhora que embarcara junto comigo, e continuou sempre agradável e bem conduzida por ele. Na última vez que o vi, o movimento de passageiros era maior e ele conhecia também vários. Uma senhora ao descer o presenteou com uma barra de chocolate que o deixou muito feliz. Depois que ela desceu, disse para o cobrador que iam comer o  chocolate após o jantar – uma atitude que diz muito sobre o caráter de uma pessoa. Tiago, me informam, está em outra linha da empresa.

Quantas histórias eles têm para contar! E eu que gosto de alinhavar fatos vistos e ouvidos, relato alguns, mas sei que deve haver milhares. 

Muito obrigada a eles e a todos os que têm o dom de sorrir e fazer sorrir entre os quais o Cristiano. Desejo a eles uma vida longa e feliz. 

 A primeira linha de trólebus do Brasil foi a 408 A - 10, que liga Aclimação a Perdizes.

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