sábado, 1 de julho de 2017

PEQUENAS HOMENAGENS
O AMIGO DAS ESQUINAS
A homenagem vai para o velho Noronha, jornaleiro com quem durante 20 anos o pessoal do jornal CIDADE DE SANTOS conviveu. Todo dia quando chegávamos para trabalhar o primeiro bom dia era para o Noronha que, aliás, chamava-se mesmo José Bravo. Mas de bravo não tinha nada; pois atendia a todos de forma cortês. Ele chegava às 5h30 à banca junto à porta da sucursal da FOLHA DE S. PAULO, na Rua do Comércio, esquina com Rua XV de Novembro, e só ia embora ao anoitecer.
Noronha era argentino e, quando chegou ao Brasil com a família, tinha dois anos. Aos oito começou a ajudar o pai no jornal A NOITE, na Praça da República. Quando o pai montou uma banca na Praça Rui Barbosa, o garoto foi vender jornais no ponto da Avenida Conselheiro Nébias, com Rua Alexandre Martins. Enfim, em 1948, pegou a estrada como ajudante de caminhão. Mas três anos depois voltou e comprou a banca da Rua do Comércio.
Apesar de ter começado cedo a trabalhar, sempre houve tempo para o garoto jogar futebol de várzea e cultivar uma paixão para toda vida por um time chamado Sociedade Esportiva Barreiros (que existe até hoje e vai bem, obrigado). O jornalista Nilson Duarte conta, na matéria que fez para o jornal CIDADE DE SANTOS, que o apelido vinha desses tempos de várzea quando Brava era muito parecido com o jogador Noronha, do São Paulo Futebol Clube. Blandy conta que ele foi o responsável pela ida do garoto Clodoaldo (Tavares Santana) para o Santos Futebol Clube.

Muito bom ler a matéria do Nilson e encontrar lá a referência ao Nego Guiso, cujo nome verdadeiro era Walmir Andrade Santos, e que é citado como ajudante do Noronha. Na verdade, Nego Guiso não tinha eira nem beira e muito menos juízo, lavava carro na rua para sobreviver e todo mundo ajudava como podia.
A banca do Noronha era um lugar, onde o pessoal sempre encostava para ver as novidades, comentar as notícias e discutir futebol. “Você precisa ver. Mal eu chego sempre tem alguém esperando por mim para dar uma notícia e às vezes até me dar uma mordida (pedir dinheiro emprestado). Só de cigarros gasto uns dois maços por dia na base do empréstimo para os filadores. Mas na minha profissão, tudo é normal e tomara que continue assim porque sem amigos ninguém vai pra frente.”
Tudo mudou pelo pedaço: o jornal fechou, o Noronha morreu. A banca está lá no lugar de sempre, mas fechada e à venda. É verdade que o bonde voltou e o centenário Café Paulista resiste magnificamente.

O FRANCÊS
 Impossível escrever sobre o jornal CIDADE DE SANTOS sem mencionar Maurice Armand Marius Legeard (1925-1997), o francês que chegou ao Brasil com a mãe em 1932, mas eles só se instalaram em Santos dois anos depois. Maurice Legeard trabalhou em várias atividades, mas paixão mesmo só teve uma: o cinema. Fundou o Clube de Cinema de Santos em 1948 e a Cinemateca de Santos em 1980. Na década de 1980 passava todos os dias de manhã pelo jornal para um cafezinho, a leitura da edição do dia e um papo rápido com Roberto Peres, editor de Variedades, e às sextas-feiras deixava a programação de fim de semana da Cinemateca, clássicos do cinema, naturalmente.

OS ESPANHÓIS

Ao lado do jornal fica o restaurante Alvorada, na época, propriedade de dois ilustres espanhóis – Joaquim e Pepe, que tiveram um papel importante no jornalismo local – fornecendo lanches, bebidas (principalmente), ouvindo muitas histórias e acompanhando novelas românticas ao vivo e em cores. Fornecendo é força de expressão, porque os preços eram bem salgados. Como em toda sociedade, havia o sério (Pepe) e o Dom Juan (Joaquim). As janelas internas do prédio abrem-se para um pátio interno, onde funciona a cozinha do restaurante e por isso todo mundo sabia o que se preparava nos caldeirões do Alvorada. Um dia para azar dos espanhóis um cidadão que passava pela Rua do Comércio caiu morto na porta do restaurante. Um gaiato correu para fotografar o corpo (devidamente coberto). No dia seguinte, estampada na primeira página, Joaquim viu – muito bem enquadrada na cena – a placa com o cardápio do dia... Nem é preciso dizer que ele subiu aquelas escadarias furioso, decidido a esganar alguém... (Minha homenagem ao Manolo e ao Pepe.)