terça-feira, 29 de setembro de 2026

UM PASSEIO DIFERENTE

 

Hoje foi um dia dedicado a explorar a Avenida Senador Queirós, que começa na Avenida Ipiranga e termina na rua Mercúrio, próximo ao Viaduto que faz parte do conjunto viário da região do Parque D. Pedro II. Normalmente, a percorro a partir da Rua Mercúrio, no trajeto dos ônibus em ocasiões especiais, como eventos que impeçam a rota pela Rua Boa Vista. Achei melhor começar a caminhada pelo início da avenida, já que seria a primeira vez que andaria por ali. Eis um lugar estranho porque se o pedestre não prestar atenção pode perder o rumo, pois a Avenida Ipiranga é paralela à Rua Líbero Badaró e ambas dão acesso à Praça Dr. Alfredo Issa de onde parte a Senador Queirós. Sábia decisão, porque acabei mudando meus planos após terminar a caminhada.

A Avenida Senador Queirós tem duas pistas separadas por canteiro central com mão única em direção ao Centro Histórico. Há um certo encanto na avenida que já teve dias melhores. Movida por um comércio variado, acho difícil definir a Senador Queirós, que mistura pequenos prédios de três andares até edifícios com mais de dez pisos. Foi nas pesquisas que encontrei o delicioso depoimento de Henrique Pianco, um jovem estudante de arquitetura, que ao mudar para São Paulo morou naquela rua:  

 “Meu apartamento tinha apenas um cômodo, somente uma janela. A iluminação natural abraçava todo o espaço. O apartamento sentia tudo. Quando amanhecia, o som dos carros e da agitação aumentava. Era hora do café. Quando o chão de madeira era tingido por uma luz avermelhada, era o entardecer; hora de levantar da cadeira e alongar a coluna. Quando a escuridão tomava conta e ele parecia prestes a adormecer, algo diferente acontecia do lado de fora: a avenida despertava com força.”

“A Av. Senador Queirós foi para mim um palco de experiências. Para ser sincero, dizer que a avenida foi palco não me soa certo; na verdade ela foi jardim.”

Imagino o que pensaria dela Francisco Antônio de Souza Queiroz, o Senador Queirós em questão, um dos Grandes do Império. Paulista, nasceu em 1806, foi proprietário rural conquistou prestígio político, que lhe garantiu uma carreira de sucesso iniciada como vereador e que concluiu como senador por São Paulo em 1848. Ele também ocupou, interinamente, a presidência da Província de São Paulo (governador do Estado). Fundou a Associação Barão de Sousa Queirós de Proteção à Infância e Juventude – Instituto Ana Rosa que funciona até os dias atuais – já completou 152 anos. Em decorrência da sua atuação recebeu o título honorífico de Barão de Souza Queirós com Grandeza, que não era hereditário.

Enfim, o que me fez mudar de ideia sobre a caminhada foi a Praça Alfredo Issa, um encrave de cerca de quinze mil metros quadrados, entre as avenidas Ipiranga e Senador Queirós e a rua Casper Líbero. Ali destacam-se dois prédios.

O Edifício Garagem Alfredo Issa da Polícia Civil tem história mais antiga. No início do século passado a área era um grande charco e foco de muitos problemas. Em princípio aquele terreno pertencia ao Estado, que começou a construir ali em 1944 o Palácio da Polícia, mas a obra foi abandonada três anos mais tarde. Muita água rolou até a década de 1970 – rolou água mesmo porque o problema da paralisação foi o lençol freático que fica a apenas seis metros de profundidade.

Enfim, Município e Estado acabaram fazendo um acordo e a área passou para o município que decidiu construir ali um edifício-garagem e para tanto lançou um concurso, vencido pelos arquitetos Benno Perelmutter (1935-2017) e Jorge Nasser. O prédio redondo em concreto e estruturas aparentes (neobrutalismo) foi construído na gestão do prefeito Paulo Maluf (1931) e inaugurado em 1971; entretanto, ao assumir a prefeitura, José Carlos Figueiredo Ferraz (1918-1994) devolveu o prédio para a Secretaria de Segurança Pública do Estado que decidiu usá-lo para estacionamento da própria frota. O que se vê atualmente não é mais o edifício original, pois sofreu ao longo dos anos várias alterações.

Enquanto não se resolvia a questão do edifício garagem, foi construído o Edifício Montreal, primeiro projeto do escritório paulistano do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), sob encomenda do Banco Nacional Imobiliário. Inaugurado em 1954, o prédio tem 24 pavimentos, distribuídos em 21 andares com 230 apartamentos tipo quitinete. Como na época havia restrições à construção de prédios na confluência de duas ruas, as fachadas da Avenida Ipiranga e Casper Líbero são diferentes. Enfim, é bem Niemeyer – as entradas pelo subsolo e uma obra de arte para adornar o ambiente – dois delicados murais de Di Cavalcanti (1897-1972) muito bem conservados. Agradeço a gentileza do atendimento e a permissão de fotografar.

Em tempo: o Edifício Montreal duas entradas – Avenida Ipiranga, 1284 e Rua Cásper Libero, mas integra-se à praça por causa do térreo.

Há sempre surpresas no caminho.

À direita o Edifício Montreal e à direita o Edifício Garagem da Polícia Civil.

Edifício Montreal, pronto em 1954.



O mural de Di Cavalcanti.

A praça Alfredo Issa num domingo de sol e muito tranquilo.

Av. Senador Queirós.


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