quarta-feira, 3 de agosto de 2016

DONA YAYÁ
(Casas paulistanas)
O século XIX estava terminando e São Paulo ainda era um vilarejo que mal ultrapassava o rio Anhangabaú. A Rua Major Diogo (Bela Vista) era área rural. Nesse lugar, duas histórias se entrelaçam na memória paulistana e elas dariam um ótimo enredo nas mãos de um novelista. A primeira história está relacionada com a fuga das pessoas ricas para regiões mais afastadas da cidade em busca de tranquilidade. Caso de Afonso Augusto Roberto Milliet que em 1888 comprou de José Maria Talon  um terreno com mais de 30 mil metros quadrados, com fundos para o córrego do Bixiga, formador do rio Anhangabaú. Nessa área, Talon havia construído um chalé de quatro cômodos, que Milliet incorporou à bela residência de treze cômodos que mandou construir. Historiadores acreditam que foi Milliet quem deu a configuração atual à casa, que era quase toda rodeada por um alpendre.
Mas em 1902 a urbanização já atingira a chácara, que então foi vendida para João Guerra, um abastado comerciante de secos e molhados. O terreno, entretanto, já estava reduzido 22 mil m². Novas reformas deram ao prédio um estilo mais sofisticado ou como dizem neoclássico tropical, com mais afrescos recobrindo as paredes dos diversos aposentos, como os restauradores descobriram.  
Na terceira década do século XX, surge no bairro a principal personagem da história. Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá. Ela nasceu em 21 de janeiro de 1887. Era filha de Josefina Augusta de Almeida Mello e Manoel de Almeida Mello Freire, senador estadual e deputado constituinte, que tinha 53 anos quando ela nasceu. O casal teve outros três filhos.
       As desditas na família de Sebastiana começaram cedo. Uma das irmãs morreu aos três anos, asfixiada pela ingestão de um objeto, quando estava no berço. A outra faleceu aos 13 anos, vítima do tétano depois de espetar-se no espinho de uma árvore. Quando Sebastiana estava com 12 anos, os pais adoeceram e morreram no intervalo de dois dias em locais diferentes e sem que soubessem da doença um do outro.
Albuquerque Lins, que mais tarde viria ser presidente do Estado de São Paulo, tornou-se tutor de Sebastiana e de Manuel de Almeida Mello Freire Junior, o irmão de 17 anos, herdeiros de uma grande fortuna. No início dos anos vinte, a jovem foi morar na casa da Rua Major Diogo agora em um terreno de 2.500 m². Há indícios de que primeiro morou como inquilina, pois a compra do imóvel só foi efetivada em 1925.  
A vida parecia transcorrer normalmente para Dona Yayá, quando a doença mental se manifestou. Ela estava com 32 anos. A riqueza lhe garantiu a assistência médica de que necessitava. Na residência moravam, além de Dona Yayá, numerosa criadagem, o enfermeiro, a amiga Eliza Grant e a prima Eliza de Mello Freire.
A casa foi reformada algumas vezes para que ela tivesse conforto adequado as suas condições. O salão central transformou-se no dormitório dela: os papéis de parede foram removidos e os afrescos recobertos com tinta esmaltada de cor neutra e de fácil limpeza, talvez em decorrência de certa característica do comportamento da paciente. Para evitar que ela se machucasse durante os acessos de fúria, muitas adaptações foram feitas: o banheiro não tinha torneiras e as janelas dos cômodos que ela ocupava foram especialmente projetadas pelo médico Juliano Moreira – eram inquebráveis e só se abriam do lado de fora. Em 1952 foi construído o solário.
Sebastiana de Mello Freire aos 23 anos. 
            Dona Yayá morreu em 1961, no Hospital São Camilo sem deixar herdeiros. Estava com 74 anos – 40 dos quais viveu mergulhada na loucura e reclusa no casarão da Bela Vista. Sem herdeiros (herança vacante), o imóvel passou para o Estado e em 1969 foi incorporado à USP. Foi na década de sessenta que o jardim da casa perdeu mais 300 m² para as obras da Radial Leste.
Após alguns anos sem uso definido, finalmente, o prédio foi escolhido para sediar o Centro de Preservação Cultural da USP – CPC. Casa de Dona Yayá.  Deve ser meio dia e o jardim cheio de árvores é bem convidativo para uma pausa.  O imóvel pertence à Universidade de São Paulo e ali funciona, desde 2004, o Centro de Preservação Cultural, que substituiu a antiga Comissão de Patrimônio Cultural.

 Casa de Dona Yayá: Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, São Paulo. 
 Horário de visitação: das 10 h às 16 h. A entrada é gratuita.



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