sábado, 15 de agosto de 2026

COISAS DA INFÂNCIA

 

Quando era criança domingo era dia de ir à matinê de cinema no Cine Carlos Gomes ou Bandeirantes – dois filmes, com intervalo para algumas guloseimas que minhas tias compravam. E numa dessas sessões assisti a “O dia em que a Terra parou” (1951) e, apesar das explicações das tias, acabei ficando com um medo enorme de habitantes de outros planetas. Foi então que um dia folheando a revista O CRUZEIRO, que se comprava todas as semanas, me deparei com a reportagem sobre venusianos que tinham descido de um disco voador em Los Angeles e feito contato com um tal George Adamski (não lembrava o nome, tive que procurar).

Para mim, pior do que a notícia, foram os desenhos que Adamski fez dos viajantes do espaço. Apavorada, identifiquei um dos venusianos: havia um quadro com a fotografia dele numa das paredes do meu quarto. Minha avó Maria era uma mulher muito religiosa e nossa casa tinha uma fartura de imagens da corte celestial e de outros agregados como Antoninho da Rocha Marmo e Izildinha. O postal colorido de Izildinha ficava no quarto de minha avó e o meu fora brindado com uma gravura de Antoninho.

Fui correndo pedir à minha avó para retirar aquela foto do quarto porque tinha medo do menino que era de outro planeta. Ela continuou impassível no seu crochê e me informou que o quadro continuaria onde estava: era apenas uma foto e o menino era santo. Nem se preocupou com a questão dos extraterrestres (a expressão não era usada na época). Passei algumas semanas difíceis, imaginando que o viajante do espaço poderia aparecer a qualquer momento. Interessante (como diria Spock) porque esse o foi o único medo que me lembro de ter sentido na infância.

                Havia esquecido do fato até alguns anos atrás quando visitei o Cemitério da Consolação e vi entre as campas mais visitadas o nome de Antoninho da Rocha Marmo (1918-1930), embora os restos mortais tenham sido transladados em 2021 para a capela Nossa Senhora da Saúde, no hospital que tem o nome dele, em Campos de Jordão. A campa do cemitério paulistano foi conservada com seu nome. Coisas da infância.

                Os venusianos de Los Angeles sustentaram Adamski até a sua morte em 1965.


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