Conheci
a Neuza em uma das unidades da Universidade de São Paulo em eventos destinados
à terceira idade, navegando pelos oitenta anos com galhardia. Baixinha, cabelos
brancos e com uma disposição invejável – podia fazer um curso pela manhã,
assistir a uma conferência ou a um bom filme à tarde e à noite ouvir música na
Sala São Paulo ou no Teatro Municipal assistir a uma ópera ou ainda em algum
teatro. Eu a via principalmente na USP, nos Encontros Culturais do prof.
Terron, no Instituto Estudos Brasileiros, na Faculdade de Educação fazendo oficinas
com a Elly Rozo, e até na Faculdade de Direito. Em todos esses lugares e muitos
outros deixou amigos e admiradores. E ainda era uma leitora voraz, atenta aos
escritores clássicos e aos contemporâneos.
Professora
formada pela Faculdade de Filosofia da USP, na época em que a unidade
funcionava na Alameda Glete. Lecionou Biologia no Colégio Campos Sales, na
Lapa. Quando o prédio da instituição foi derrubado, iniciou uma batalha para
salvar uma velha figueira da sanha imobiliária, afinal ela foi a testemunha de
várias gerações que passaram pela Faculdade que originou a Universidade de São
Paulo. A figueira da Glete continua firme e forte na paisagem triste de um
terreno que hoje serve de estacionamento.
Há
alguns anos, quando teve problemas de locomoção, embora um tanto abatida, ela
continuou suas atividades com auxílio de uma bengala. Foi por essa ocasião que,
numa tarde, ao embarcar na Estação Vergueiro do metrô, a vi sentadinha no banco
preferencial. “Que faz você tão longe de casa?” – perguntei, brincando. Ia
visitar uma prima que morava perto estação Ana Rosa, meu destino. Fomos
conversando até lá. Não conhecia a região e me mostrou um papelzinho com o
endereço. Ora, a rua onde moro! Mas do lado oposto. Numa subida de tirar o
folego dos mais ousados e com calçadas deformadas pelas raízes das árvores. Eu
a acompanhei e nos despedimos na porta da prima.
Neuza
se recuperou do problema de locomoção e rejuvenesceu com a volta à intensa
programação. Em 2018, me convenceu a participar da oficina “Resgate de Memória
Autobiográfica”, organizado, coordenado e aplicado por ela na USP. Convenceu
porque era às 8 horas da manhã no Hospital Universitário, na Cidade Universitária.
Para quem mora na Aclimação, trata-se de uma viagem e tanto. Foi uma ótima
experiência conviver e aprender com ela, além de conhecer pessoas com belas histórias
de vida.
Muito
obrigada por tudo, Neuza Guerreiro de Carvalho (1930-2026), mas pensando bem,
antes de encontrá-la pessoalmente, conheci o “Blog da Vovó Neuza”, onde ela
publicava crônicas deliciosas.

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