terça-feira, 5 de março de 2019

VELHOS CARNAVAIS


Carnavais esquecidos: final dos anos 1940 e início dos anos 1950.


Foto Moderna: Praça José Bonifácio, Santos.

segunda-feira, 4 de março de 2019

CARNAVAL E ARTE

“Eu mesmo... Eu mesmo, Carnaval...
Eu te levava uns olhos novos
Para serem lapidados em mil sensações bonitas.
Meus lábios murmurejando de comoção assustada
Haviam de ser puríssimo destino...
É que sou poeta
E na banalidade larga dos meus cantos
Fundir-se-ão de mãos dadas alegrias e tristuras, bens e males,
Todas as coisas finitas
Em rondas aladas sobrenaturais.”
  (Excerto de “Carnaval Carioca’”, 1923, de Mário de Andrade (1893-1945).

 Jean-Baptiste Debret (1768-1848): registrou o Entrudo no Rio de Janeiro.


Carnaval em Madureira, 1924, de Tarsila do Amaral (1886-1973) e Carnaval, 1960, de Cândido Portinari (1903-1962).

"Carnaval", 1965, de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976).


domingo, 3 de março de 2019

CURIOSIDADES DOS VELHOS CARNAVAIS (4)

“Tempo perdido” (1933), composição de Ataulfo Alves gravada por Carmen Miranda. Décadas depois a música ganhou uma gravação da banda americana Pink Martini formada em 1994. Um clássico de Ataulfo, que também fez sucesso com a banda Legião Urbana, criada em 1982. 






CURIOSIDADES DOS VELHOS CARNAVAIS (3)


Aurora conquistou os foliões no carnaval de 1941, na voz de Joel e Gaúcho. A marchinha é uma composição de Mário Lago (1911-2002) em parceria com Roberto Roberti. Carmen Miranda a incluiu em seu repertório e a música se tornou um sucesso internacional, recebendo 17 gravações só nos Estados Unidos. Aurora ganhou uma versão em inglês, gravada pelas Andrews Sisters (um trio vocal americano que fez imenso sucesso na primeira metade do século XX) e apresentada no filme Segure o Fantasma (1941) da dupla Abbot & Costello.







sábado, 2 de março de 2019

CURIOSIDADES DOS VELHOS CARNAVAIS (2)


“Chiquita Bacana” foi sim para a Martinica na voz da fantástica Josephine Baker (1906-1975) – a artista americana naturalizada francesa que conquistou a Folies Bergères, o grande cabaré parisiense da época. Por lá muito chique virou "Chiquita Madame". O cantor francês Ray Ventura (1908-1979) também gravou a composição de Braguinha  para o carnaval de 1949.
Josephine Baker (1906-1975) nasceu em Saint Louis, Missouri (USA). Foi artista de rua quando criança, mais tarde mudou para Nova York, onde atuou na Broadway. Em 1925 estreou no Théâtre des Champs-Élyséesem Paris. Fez um grande sucesso e decidiu mudar para a França, tornando-se a estrela do Folies Bergères. Naturalizou-se francesa em 1935. Durante a II Guerra Mundial participou da Resistência e foi condecorada posteriormente pelo trabalho realizado.

Ray Ventura (1908-1979), pianista e compositor francês de jazz. Esteve no Brasil durante a II Guerra Mundial e se apresentou com o cantor e compositor francês Henri Salvador, que viveu no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e fez sucesso no Cassino da Urca.






CURIOSIDADES DOS VELHOS CARNAVAIS

 Quem não sabe cantar “Mamãe eu quero” (Vicente Paiva e Jararaca), “Chiquita Bacana” (João de Barro e Alberto Ribeiro), “Amélia” (Mário Lago e Ataulfo Alves) ou “Aurora” (Mário Lago e Roberto Roberti)? Não conhecem? Então perguntem a seus pais e avós porque eles devem ter ótimas recordações dos bailes em que cantavam esses clássicos do carnaval. E essas músicas fizeram sucesso pelo mundo afora. 
Carlos Alberto Ferreira Braga pode ser que pouca gente conheça, mas Braguinha ou João de Barro é sinônimo de carnaval. Em 1937 ele compôs com Max Bulhões e Milton de Oliveira o samba “Não tenho lágrimas”, que se tornou um grande sucesso. Gravação: Patrício Teixeira (1893-1972). Gravada anos depois por Nat King Cole.

         Assim como “Touradas em Madri”, 1938. Composição de Braguinha e Alberto Ribeiro. Gravação: Almirante. Carmen Miranda gravou em 1939. Em 1940 ela a cantou no filme “Serenata Tropical” e gravou uma versão em inglês em 1947: “The Matador”. Vídeo com as Andrews Sisters.

"Carmen Miranda e The Andrews Sisters - The Matador (1947)
 / Touradas de Madrid".




sexta-feira, 1 de março de 2019

ALINHAVOS CARNAVALESCOS


Março este ano chega fantasiado, mais alegre, sem aquele jeito sério de ser, deixando as preocupações com o famigerado leão para mais tarde. Nem se precisa pedir que chova três dias sem parar, pois em março as águas sempre vão rolar. Foliões e celebridades de plantão não se importam. Com que roupa? Isso não é mais problema. Qualquer uma do guarda-roupa moderno. Pelas vitrines da vida percebo que é carnaval o ano todo. Ou se o corpinho estiver nos conformes, basta seguir o exemplo de Chiquita Bacana, lá da Martinica, que se vestia com uma casca de banana. Não sei bem se foi na fantasia da moça que o tal “nego” bebo escorregou e quase caiu. (Por que bebes tanto assim, rapaz?) Yes, nós temos bananas
Nem sei se está na moda comprar um pierrô de cetim, um pandeiro e um violão para alegrar o coração. Só se for um pierrô sentimental, um sonhador desmilinguido por Colombina e que acabou entrando num botequim bebeu, bebeu, saiu assim, assim e ainda foi tomar vermute com amendoim. Ah! Essa Colombina que acha o Pierrô cacete e o despacha para tomar sorvete com Arlequim... Mas no salão, repleto de palhaços, Arlequim chora pelo amor da Colombina.
É tempo de carnaval. Há sensualidade no ar. Languidez, voluptuosidade ou libertinagem. Talvez seja o verão, a lua cheia, a música... O erotismo parece envolver a natureza, pois até “o mar passa saborosamente a língua na areia (...)” e “por trás de uma folha de palmeira/ A lua poderosa, mulher muito fogosa/ Vem nua, vem nua/ Sacudindo e brilhando inteira”.
As musas são Maria, Mimi, Chiquita, Madalena, Filisbina, Pimpinella, Bráulia, Zazá, Aurora, Juraci, Florisbela, Júlia, Dedé, Amélia, Luzia e até Dona Balbina – que sem ser libertina, aprecia a orgia. Anda, Luzia, pega o pandeiro e cai no carnaval.
Os homens correm atrás de sereias nas praias e nos salões, avenidas e morros; choram seus desencantos em bondes e barcos e até acreditam que “mais difícil, muito mais é conjugar o verbo amar”. Loiras, morenas, ruivas não importa, a pergunta é a mesma: “viram meu amor por aí?” Vão atrás da paixão até de lambreta, se for preciso. Por aí desfila seu Cornélio, sempre o último a saber; já o João Pouca Roupa tem dinheiro no banco, meu bem. Hora de gritar me dá um dinheiro aí! Há ainda Edgard, Lourival, Zé Marmita e Gildo. O Rui, que teve a mulher roubada, preferiu calar suas mágoas já que sua desgraça era pública e notória. O problema dele era mesmo dinheiro!
         A tristeza da amada, entretanto, não impede o saçarico do amante: “tu andas tão triste/ somente a chorar/mas por isso eu não vou/me privar de dançar/ tu sabes que eu faço/ o passo na rua/ mas é pensando na imagem tua!”. Uma graça. Enquanto isso o velho saçarica na porta da "Colombo"...
         “E como ‘vaes’ você?" – perguntava Ary Barroso. E com ele respondo que “No mar desta vida/ Vou navegando/ Vou temperando”. Nessa folia, carecas, pernas-de-pau, tagarelas estão unidos mais do que nunca. Politicamente incorreto? “Desculpe-me, não me leve a mal. É carnaval”. Quase.
.
A crônica foi baseada nas seguintes músicas de carnaval:

“Dona Balbina”, 1929. Composição de Josué de Barros. Gravação: Carmen Miranda.
Tempo perdido, 1933. Composição de Ataulfo Alves. Gravação: Carmen Miranda.
“Viram meu amor por aí?”, 1934. Composição de João de Freitas Ferreira (Jonjoca). Gravação: Jonjoca.
“Pierrô apaixonado”, 1935. Composição de Heitor dos Prazeres e Noel Rosa. Gravação: Joel e Gaúcho.
“Passado, presente e futuro”, 1935. Composição de Herivelto Martins e Francisco Senna. Gravação: Dupla Preto e Branco.
“Comprei uma fantasia de pierrô”, 1936. Composição de Lamartine Babo e Alberto Ribeiro. Gravação: Francisco Alves.
“Como 'vaes você'?”, 1936, composição de Ary Barroso. Gravação: Carmen Miranda.
“Manda embora essa tristeza”, 1936. Composição de Capiba. Gravação: Aracy de Almeida.
“Minha Companhia É a Colombina”, 1941. Composição: Lamartine Babo / Moacyr Araújo. Gravação: Orlando Silva.
“João Pouca Roupa”, 1942. Composição de Cinco Azes do Samba. Gravação: Os Bacharéis do Ritmo.
“Eu não posso viver sem mulher”, 1945. Composição de Roberto Martins e Mário Rossi. Gravação: Nelson Gonçalves.
Seu Cornélio, 1946. Composição de Marino Pinto e Eratóstenes Frazão. Gravação de Linda Batista.
“Chiquita Bacana”, 1949, composição de Braguinha e Alberto Ribeiro. Gravação: Emilinha Borba.
“Tomara que chova”, 1951. Composição de Paquito e Romeu Gentil. Gravação: Emilinha Borba.
“Tem nego bebo aí”, 1959. Composição de Mirabeau e Ayrton Amorim. Gravação: Carmen Costa. Ferreira – Homero, Glauco e Ivan. Gravação: Moacir Franco.
 “Máscara Negra”, 1967. Composição de Zé Kéti e Pereira Matos. Gravação: Zé Kéti.
“Yes, nós temos bananas”, 1967. Composição de João de barro e Alberto Ribeiro. Gravação: Caetano Veloso.
“Minha companhia é a colombina”, Composição: Lamartine Babo. Gravação: Orlando Silva.
 “Folia no matagal”, 1981. Composição de Eduardo Dusek. Gravação: Maria Alcina. 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

EM RITMO DE CARNAVAL

Os sobrinhos de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) foram privilegiados: o maestro dedicou a eles sua composição “Carnaval das Crianças Brasileiras”, que estreou em setembro de 1925 no salão do Instituto Nacional de Música, com a pianista Antonieta Rudge Miller (1885-1974). A peça tem oito movimentos:

·         O ginete de Pierrozinho
·         Chicote do diabinho
·         A Manhã de Pierrette
·         Os Guizos de Moninozinho
·         As Peripécias do trapeirozinho
·         As Traquinces do mascarado mignon
·         A Gaita de um precoce fantasiado
·         A Folia de um bloco infantil. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"O CARNAVAL DOS ANIMAIS"

O leão, como rei dos animais, encabeça o cortejo improvável de galinhas e galos, mulas, tartarugas, elefante, cangurus, animais de orelhas compridas, cuco, pássaros e cisne. Se ainda não adivinhou, trata-se do "Carnaval dos Animais", uma peça para dois pianos e orquestra de Camille Saint-Säens (1835-1921), pianista compositor e maestro francês. Ele a compôs para o Carnaval de 1856. Como o carnaval se presta à critica, Saint-Säens aproveitou para incluir um movimento dedicado àqueles que não evoluem – os fósseis, e outro para os os estudantes de piano principiantes, capazes de tirar qualquer um do sério com suas escalas mal feitas. Reúna a criançada para se divertir com música de boa qualidade enquanto não chega o dia da folia. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

EVOÉ, BACO!


Fevereiro vai chegando ao fim. Este ano sem carnaval. O Ano Novo perde seu encanto e caímos na rotina. Antes, bem atrasado, o velho Momo chegará com as águas de março, acompanhado de Como e Baco, para mais um carnaval – nome com que o cristianismo tentou vencer as saturnálias Greco-romanas. Ofereceu aos adeptos três dias de festa para um adeus à carne antes da quaresma. Assim, o profano entrou para o sagrado, embora a maioria das pessoas nem se dê conta.
No Brasil, o carnaval é parte importante da cultura nacional. Divide opiniões. Uns amam, outros odeiam. Eu não gosto do Carnaval, mas aprecio muito a riqueza da música que se produziu na primeira metade do século passado a partir do verdadeiro espírito da festa. Música maliciosa, cheia de crítica (política e social) e de sarcasmo. Basta uma rápida olhada pelos títulos das marchinhas, frevos e sambas para saber o que acontecia no país e preocupava o povo.
É verdade também que a mulher era o tema da maioria das composições – a amada, gostosa, traidora, indigesta e a ideal. Os rapazes estavam sempre sofrendo por elas, mas não desistiam embora algumas vezes assumissem o papel de detratores. Quando se trata de composição musical, os homens são a maioria embora a grande composição de Carnaval seja de autoria de uma mulher, a maravilhosa Chiquinha Gonzaga (1847-1935), muito à frente do seu tempo: "Ô ABRE ALAS". Contudo, as músicas contavam com grandes intérpretes e cantoras como Cynara Rios (?), Aracy de Almeida (1914-1988), Carmen Miranda (1909-1955), Odete Amaral (1917-1984) e Dircinha (1922-1999) e Linda Batista (1919-1988). Ah! Claro! Emilinha Borba (1923-2005) e Marlene (1922-2014) entre muitas outras.
O carnaval mudou e o que se fazia antes nesses três dias agora é rotineiro. A malícia, a sutileza e o insinuante das músicas foram trocados pelo explícito e grosseiro, mas os adeptos da hipocrisia do politicamente correto estão atentos para criticar a realidade de um tempo que não viveram.
Enquanto não se ouve soar a Fanfarra do Carnaval Brasileiro (domínio público), podemos nos deleitar com a arte de grandes pintores. 


O Triunfo de Baco, 1628/29, óleo sobre tela do pintor espanhol 
Diego Velázquez (1599-1660). Museu do Prado.

Baco, de Peter Paul Rubens (1577-1640).

 
A Juventude de Baco, 1884, do pintor francês William-Adolphe Bouguereau, (1825-1905). 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

SONETO JÁ ANTIGO

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos ai de Londres,
que embora não o sintas, tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito)
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa).
O JORNAL DA MANHÃ, 1890. Pastel sobre papel do escocês James Guthrie (1859-1930).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CAPELA DO MENINO JESUS DE PRAGA


A pequena igreja, de linhas elegantes e cor simpática, no início da Rua Tabatinguera, sempre atraiu minha atenção. Enfim, fui conhecer a capela do Menino Jesus de Praga e Santa Luzia em estilo neogótico que se destaca na rua que desce em direção ao rio Tamanduateí. Ela foi construída no início do século XX a expensas de Anna Maria de Almeida Lorena Machado, bisneta do Conde Sarzedas, capitão general Bernardo José de Lorena, governador da Capitania de São Paulo, no período de 1788-1797. A dama paulista foi vítima de um naufrágio ao retornar da França e perdeu uma valiosa imagem do Menino Jesus de Praga. Desesperada, fez uma promessa para reavê-la. No dia seguinte, a maré trouxe a imagem para a praia onde a viajante aguardava resgate. Ao chegar a São Paulo cumpriu a promessa e a igreja foi construída na área da chácara da família e inaugurada em 13 de dezembro de 1901. Anna Maria morreu em 1904. A Capela foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (CONDEPHAAT) em 1994.
Quem for à capela pode aproveitar e visitar a casa do Conde Sarzedas, que fica na rua do mesmo nome, logo atrás da igrejinha. Lá funciona o Museu do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, dono de um ótimo acervo. A casa foi construída pelo sobrinho de Anna Maria, deputado Luiz de Lorena Rodrigues Ferreira entre 1891-1895. O Museu funciona apenas em dias úteis, das 10 às 17h. Rua Conde de Sarzedas, 100. Tel. 11-3295-5816.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

MOMENTOS

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.

Hai-Kaiss, Millôr Fernandes.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

BELEZA ABSOLUTA

A beleza é o que agrada ver, segundo Santo Agostinho (354-430). Que olhos não se comprazem diante destas quatro esculturas de épocas diferentes? A perfeição do trabalho dos artistas coloca o espectador em estado de bem-estar e de satisfação.

  


Do alto a partir da esquerda para a direita:

David de Michelangelo (1475-1564). Galleria degli Uffizi, Florença.

“Mercúrio colocando as sandálias aladas”, 1834. Obra em bronze de François Rude (1784-1855). Museu do Louvre, Paris.
  
“Jasão com o velocino* de ouro”. Escultor: Bertel Thorvaldsen (1770-1844). Acervo do Thorvaldsens  Museum, Copenhague.

“Hermes Logios”. Cópia romana (século I) de escultura atribuída a Fídias (500-430 AC), artista grego. Acervo: Museu Nacional Romano, Roma.


*Velocino: pele do carneiro com a lã.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA

“O carro dos ovos chegou!” Um aviso que não me deixa especialmente animada porque o veículo ficará na esquina por uns 15 minutos anunciando o produto – uma bandeja com 30 ovos por um preço tentador. Lembro-me das receitas de Gilberto Freyre (1900-1987) e penso que deveria repassá-las ao vendedor para que ele distribua como incentivo à compra de ovos. Há um bolo que exigiria duas cartelas. Bom negócio. O problema é que poderia funcionar ao contrário, pois em tempos em que tudo faz mal os compradores começariam por criticar o criador da iguaria que, desconhecendo esse tal colesterol, certamente se fartou com o Bolo Fino. Fui buscar a receita e transcrevo em seguida, ressaltando que foi copiada, segundo Freyre, de “um livro manuscrito muito antigo, que foi talvez do capitão-mor Manuel Tomé de Jesus, de Santo Antão (Pernambuco)”.  

      “38 ovos, sendo oito com as claras, bate-se como pão-de-ló; 3 palanganas grandes com massa que se reúne a 2 libras (1 quilo) de manteiga. Amassa-se bem, depois põem-se 2 libras de açúcar e amassa-se ainda e reúne-se a massa aos ovos e por ultimo põe-se leite de 8 cocos, extraído sem água. A massa é de mandioca e deve ser bem lavada, fina e passada em peneira.”

      Palanganas com certeza todos têm em casa. É apenas uma tigela de barro ou metal. O problema é a tal massa. Trata-se de massa de mandioca que à época era encontrada à venda pronta; para fazer em casa é preciso deixar a mandioca de molho vários dias, trocando a água, depois passar na peneira e deixá-la secar ao sol.   

    As claras dos trinta ovos podem ser usadas para fazer suspiros. “Claras bem batidas, para cada clara 1 xícara (170 g) de açúcar; bate-se bem e leva-se ao forno pingando em folhas-de-flandres. Forno bem brando.” E salve-se quem puder! 

Josefa de Óbidos (1630-1684 ), artista espanhola radicada em Portugal.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

AH! ESSAS MULHERES

Três belas figuras femininas amenizam o cotidiano da cidade, embora a maioria das pessoas nem se dê conta da presença delas. Elas são criação do ítalo-brasileiro Victor Brecheret ( 1894 — 1955), do paulista João Batista Ferri (1896 –1978) e do carioca Alfredo Ceschiatti (1918 1989). A última escultura ficou sem identificação porque esqueço de identificá-la sempre que volto à Pinacoteca do Estado de São Paulo. Todas já estiveram por aqui, mas beleza não cansa...


"DEPOIS DO BANHO", 1941. Bronze e granito. Obra de Victor Brecheret. Largo do Arouche.



A dama observa a multidão que circula pela estação Sé do Metrô. Obra de 1978 de Alfredo Ceschiatti.  

"GUANABARA", 1941. Granito. Obra de João Batista Ferri. Anhangabaú.
Pinacoteca de São Paulo. Sempre me pergunto para onde ela vai tão distraída.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

GENTILEZA GERA GENTILEZA

O paulista José Datrino (1917-1996) ficaria feliz se visse o mural feito pelos alunos da Escola Estadual MAJOR ARCY* (Aclimação). Datrino ficou conhecido como profeta, pregava nas ruas em meados do século passado e seu lema era: Gentileza gera gentileza. Sua história remonta ao incêndio do Gran Circo. Nessa época, ele era um pequeno comerciante no Rio de Janeiro; casado, tinha cinco filhos e levava vida modesta, que se transformou completamente naquele dia por causa de uma tragédia em Niterói. Verão, férias e a estreia de um circo que anunciava muitas atrações sob a nova lona. Os ingressos esgotaram. Artistas e animais estavam empenhados no espetáculo, quando um trapezista viu o fogo e deu o alarme. O incêndio provocado por um ex-funcionário inconformado com a dispensa causou cerca de quinhentos mortos.


O fato abalou Datrino profundamente. Dias depois ele começou a “ouvir vozes” e foi para Niterói; instalou-se entre as ruínas do circo, consolou os que perderam familiares e transformou o lugar em um jardim, que denominou “Paraíso Gentileza”. Viveu por lá cerca de quatro anos e depois morou em casas de conhecidos, sempre em condições precárias. Tornou-se uma figura popular (usava longas barbas e túnica branca) e ficou conhecido como Profeta Gentileza.
Para o professor Leonardo Guelman, da Universidade Federal Fluminense, ele “era uma espécie de cavaleiro andante contemporâneo. Suas aparições inusitadas se davam em momentos de grande movimentação. Ficar indiferente à sua chegada, de estandarte na mão, cheio de apliques e penduricalhos, era impossível. O fato é que Gentileza era um profeta, e assim se dirigia às pessoas”. Guelman é o autor do livro “Univvverrsso Gentileza”, editora Mundo das Ideias, 2008.

O fato é que sua máxima – gentileza gera gentileza – o consagrou. Entre os anos 1970 e 1980 viajou de carona por todo o Brasil divulgando suas ideias. Ao retornar ao Rio de Janeiro escreveu seu ideário nas pilastras do Viaduto do Gasômetro (RJ), cobrindo uma extensão de 1km5. Em 2000 os murais foram tombados, mas não escaparam ao vandalismo em 2016.
Gentileza morreu em Mirandópolis (SP), cidade próxima de Cafelândia, onde ele nasceu, mas continua bastante lembrado: por Gonzaguinha em 1980; pela família e admiradores que organizaram em 2000 uma ONG para divulgar sua obra e pela Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio em 200 entre outras ações.
 “Diz que o mundo ia se acabar, pois o mundo se acabou. A derrota de um circo queimado em Niterói é um mundo representado, porque o mundo é redondo e o circo é arredondado... Por esse motivo, então, Gentileza não tenha sossegado. O Profeta do lado de lá, passou pro lado de cá pra consolar os irmãos que eram desconsolados. É isso que aconteceu, e o mundo é redondo e o circo é arredondado, por este motivo então, o mundo foi acabado ”. Gentileza
       
          Eu não o chamaria de profeta, mas sem dúvida foi um personagem que a despeito das dificuldades conseguiu chamar atenção para questões básicas.

*R. Dr. José de Queirós Aranha, 451.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

DOMINGO COM ARTE

"O Nascimento de Vênus", de Sandro Botticelli (1445-1510). Gallerie degli Uffizi, Florença.
“Vento e sol”, c. 1913, óleo sobre tela de Dame Laura Knight (1877-1970). 
Acervo Pyms Gallery, Londres.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

REMINGTON, OLIVETTI E UNDERWOO...


Um título só para conhecedores.  
Faz muito tempo que deixei de frequentar redações. Sem saudade, aliás. Mas dos tempos do jornalismo diário, ficaram ótimas lembranças – como as salas enfumaçadas, o cheiro forte das muitas marcas de cigarro consumidas avidamente entre um telefonema, um cafezinho e a redação da reportagem. Havia, claro, quem preferisse charutos e uns raros que degustavam elegantes cachimbos. A trilha sonora, contudo, ficava por conta das máquinas de escrever. Cada uma no ritmo de seu instrumentista que, indiferente aos ruídos ao redor, preocupava-se com os fatos narrados por meio das teclas metálicas cujos martelos conduziam as letras até a folha que deixava de ser branca para cobrir-se de palavras – sérias, indiferentes, indignadas, musicais, amorosas e, em certos setores, até ensanguentadas. O barulho das máquinas de escrever podia ser dissonante, mas quem se importava? O importante era a notícia, fresca, devidamente checada, o lead criativo, a narrativa fluente – e quantas vezes as laudas voavam das máquinas para o lixo porque o texto não o agradava?

Foto: catálogo. 


Essas imagens me ocorreram ontem ao visitar a exposição “Ecos Mecânicos: A máquina de escrever e a prática artística”, no Museu de Arte Contemporânea da USP. Eu só entendo da pratica jornalística, embora já conhecesse alguns dos trabalhos artísticos exibidos, entretanto, as poucas máquinas da mostra trouxeram as lembranças.  Foi muito bom reencontrar Manuela, que vi pela primeira vez no Instituto de Estudos Avançados – IEB/USP. Trata-se da máquina de escrever de Mário de Andrade (1898-1945). O nome, uma homenagem ao amigo Manuel Bandeira a quem ele datilografou a primeira carta. Gostei muito da exposição e, especialmente, da seleção de textos sobre esse instrumento simpático que cedeu lugar aos computadores pessoais no final do século XX.







“B D G Z, Reminton.
Pra todas as cartas da gente.
Eco mecânico
De sentimentos rápidos batidos.
Pressa, muita pressa.
…….Duma feita surrupiaram a máquina-de-escrever de meu mano.
…….Isso também entra na poesia
…….Porque ele não tinha dinheiro pra comprar outra.”Mário de Andrade (1893-1945).

Clarice Lispector (1920-1977):
“Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece captar sutilezas.” Clarice Lispector (1920-1977).
E como citei a música de fundo das redações, foi reconfortante ouvir "A Máquina de Escrever" do compositor americano Leroy Anderson (1908-1975), que percebeu nesse instrumento de trabalho algo mais do que um fazedor de barulho. Para quem duvidar há na mostra um vídeo de uma apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com solo de Rafael Alberto. Está disponível no YOUTUBE também. 
Com uma das companheiras de trabalho: Proal, 1980.
MAC: Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301. Ibirapuera. Fecha às segundas-feiras.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O LUGAR PERFEITO

Estátuas também têm seus percalços. O Pescador é um bom exemplo. Nos anos 1970, o bairro da Ponta da Praia ainda era coberto por vegetação rústica, onde se encontravam casebres de pescadores e até pequenos estaleiros. No final da tarde, era possível assistir à chegada de barcos na praia, donas de casa esperando para comprar o pescado fresquinho, o transporte dos peixes e os urubus que faziam a festa com o que restava na areia. Por que me lembro disso? Bem, a questão é que a cidade homenageou a Colônia de Pescadores do Estado de São Paulo com uma pequena e simpática estátua, inaugurada em 1941 em frente ao Instituto Dona Escolástica Rosa, no bairro de Aparecida. O criador foi Ricardo Cipicchia (1885-1969), artista italiano radicado em São Paulo.
Entretanto, a cidade lembrou, tardiamente, de homenagear João Otávio dos Santos (1830-1900), o idealizador do Instituto Dona Escolástica Rosa, destinado à "educação intelectual e profissional de meninos pobres, em princípios prevocacionais". Foi encomendado um monumento e a obra assinada por Caetano Fracarolli foi inaugurada em 1960 em frente ao Escolástica Rosa. Nem precisa dizer que o Pescador foi despejado, ou melhor, exilado para a outra extremidade da praia, no José Menino, na divisa com São Vicente.
Se o bom senso nem sempre é o forte de administradores em geral, a prudência não caracteriza muitos motoristas como pôde provar a pobre estátua, vítima por duas vezes de abalroamento de veículos. Para salvá-la dos maus motoristas, no dia de São Pedro de 1976, foi transferida para a Ponta da Praia. Ficou por muitos anos em frente à estação das balsas; contudo, o destino errante da obra de arte ainda não havia terminado. Em 2009 a Prefeitura levou o Pescador para os jardins da praia, perto do Aquário Municipal, e o colocou em meio a um espelho d’água. Uma ideia simples e muito boa. Com um cardume de metal cromado adicionado ao lago, o Pescador parece estar sempre em ação, lançando a tarrafa em direção aos peixes. Enfim, está próximo da população. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

À SOMBRA DOS VIDENTES

“Já está escrito
Já está previsto
Por todas videntes
Pelas cartomantes

Está tudo nas cartas
Em todas as estrelas
No jogo dos búzios
E nas profecias...
(“Cartomante”, Ivan Lins e Vítor Martins.)




























Viaduto do Chá, 11 de janeiro de 2019. Estão sempre por lá. Chova ou faça sol. Não importa o calor causticante. É a buena-dicha a que muitos recorrem em momentos de incerteza. São dois ou três não tenho certeza. Sentados em banquinhos, com um cestinho cheio bugigangas, mesinha improvisada e outro banquinho para o consulente - tudo preparado para o atendimento. Sob a proteção dos guarda-sóis do Bradesco, eles murmuram suas previsões e a clientela ouve atentamente, enquanto os pedestres passam – a maioria indiferente, alguns curiosos. Então a pessoa deixa um “agrado”, levanta e segue em meio à multidão. Quem sabe dali a alguns dias, concordará com o que já escreveu o rei de Cachoeiro do Itapemirim: 

“Disse tanta coisa quando leu a minha mão
Você só não previu a minha solidão”.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

DOMINGO. SANTOS, SOL E MAR.


Verão, 2019.

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.”
(...)
Palavras ao mar, do poeta santista Vicente de Carvalho (1866-1924).



Ilha Urubuqueçaba, Praia do José Menino. 


No calor sufocante, até o velho tigre no jardim prefere a sombra...





sábado, 2 de fevereiro de 2019

FEVEREIRO RIMA COM PANDEIRO



Como já disse Jorge Ben Jor, moramos num país tropical, bonito por natureza, mas este ano em fevereiro não tem carnaval. Nada de pandeiro... Santos, Gonzaga, 2019. Foto: Hilda Prado Araújo.

A VELHA SENHORA







Marco padrão de São Vicente, na ilha do Mato: monumento comemorativo aos 400 anos de fundação da primeira cidade do Brasil em 22 de janeiro de 1553 por Martim Afonso de Sousa. 


Para homenagear o fundador de São Vicente o município criou a Casa de Martim Afonso, instalada no que sobrou da residência de verão do 2º Barão de Piracicaba, Rafael Tobias de Aguiar Barros (1830-1898). O prédio é de 1895. O imóvel foi adquirido pela Prefeitura e transformado em espaço cultural em 2000, como parte das comemorações dos 500 anos da chegada de Pedro Álvares Cabral (1467-1520) ao Brasil.

A estátua de Martim Afonso no jardim da Casa. 
FOTOS: Hilda Prado Araújo, 31/01/2019.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A FITA VERMELHA

Nos anos de 1970, depois de pronto o emissário submarino de esgotos construído pelo governo do Estado, restou na praia do José Menino (Santos, SP) um terreno de péssima aparência. A Prefeitura precisou de muitos anos para ajustar aquela área aos jardins que enfeitam a orla santista. Enfim, fizeram um parque e a artista plástica Tomie Ohtake (1913-2015) fez a escultura para adornar o local. Foi extremamente feliz. O vermelho se destaca na paisagem tanto nos dias cinzentos quanto nos ensolarados. Não tem nome. Cada um interpreta a obra como a sente, como a vê, como a imagina... Eu, particularmente, lembro-me das fitas coloridas (e que parecem obedientes) manipuladas por ginastas olímpicas. Santos, 31 de janeiro de 2019. Foto: Hilda P. Araújo.